maio 2018 - Cinéfilos Eternos

quinta-feira, 31 de maio de 2018

GRITOS E SUSSURROS



Quem sou eu para fazer uma resenha de um filme como esse? nossa!

Então vou resumir aqui um pouco do que eu entendi.
Fiquem à vontade para me corrigir.

Gritos e sussurros é um filme sobre a morte e sobre o tempo, não somente a morte física, mas sobre a morte de tudo o que fomos e vivemos um dia, porque o tempo inexoravelmente levou.
O filme começa focando em um relógio de parede, o tempo que não perdoa, que só anda para a frente.
Agnes (Harriet Anderson) é a irmã enferma que está morrendo. Ela acorda, levanta-se, escreve no seu diário: "Hoje é segunda-feira e eu acordei com dor." Em seguida, volta a deitar, mas não sem antes ir até um relógio e alterar a hora, como se pudesse adiantar (ou atrasar, não tenho certeza) a sua morte.
Todas as paredes da casa e também as cortinas são vermelhas, como a revelar todos os sentimentos latentes.

Sentimentos que não são falados em voz alta, apenas em sussurros, todos os gritos estão na alma.
O confinamento das quatro mulheres, as três irmãs e mais a criada, faz com que elas se confrontem com um passado que foi feliz, mas que elas preferem não lembrar mais, porque a lembrança do que foram só faz realçar mais o que são no presente, com suas vidas reprimidas e infelizes.
E com os seus segredos, que não conheceremos, porque são só sussurrados.
Agnes morre, mas o filme não acaba aí, ela mesmo morta quer as irmãs, que se horrorizam com aquilo tudo. Eu também!

Somente Anna, a criada, que perdeu uma filha e parece ter transferido toda sua devoção pra Agnes, não tem medo e a pega no colo, com os seios de fora, como se com esse ato pudesse aproximar Agnes dos seios da mãe e de toda a proteção que uma mãe representa. Essa cena foi apelidada de "A Pietá de Bergman".

Enfim, Agnes é enterrada e a família, toda de preto, se despede de Anna, dão um tempo para ela sair da casa e pedem para ela escolher algum objeto da irmã.
Ela diz que não quer nada, mas vemos no final do filme ela abrindo uma gaveta e retirando o diário de Agnes.
Abre na página em que que Agnes lembra de um dia feliz, dela com as irmãs e com Anna, todas de branco, lindas, como se o tempo e a morte não existissem.

Com um elenco de tirar o fôlego, esse filme não pode faltar no curriculo de nenhum cinéfilo.

IMDB: 8,1- 10
Minha nota: 4,7- 5

Ficha técnica:
Nome original: Viskningar Och Rop
Outros nomes: Cries & Whispers
País: Suécia
Ano: 1972
Direção: Ingmar Bergman.
Roteiro: Ingmar Bergman, Marik Vos-Lundh, Sven Nykvist
Elenco: Liv Ullmann, Harriet Andersson, Kari Sylwan, Ingrid Thulin, Erland Josephson.




LA LUNA



"Buscando pela primeira lembrança que tenho de minha mãe, o que me veio à mente foi uma imagem do tempo em que tinha dois ou três anos: eu estava sentado na cesta pregada ao guidom de uma bicicleta, estava de costas para a estrada e de frente para minha mãe, que dirigia. Eu olho para minha mãe e vejo seu rosto. Atrás dela eu vejo a lua. Eu confundo o rosto muito jovem de minha mãe com o rosto muito velho da lua. Esta primeira memória era muito misteriosa. Quando ela veio a mim, não consegui compreender o significado...perguntei a mim mesmo porquê tive precisamente essa lembrança. Então filmei La Luna, em parte para tentar compreender essa associação. Preciso dizer que, após concluir o filme, essa lembrança estava até mais misteriosa."
Bernardo Bertolucci



Sonhar... sonhar parece ser, em todos os níveis do filme, o objeto primordial. Todas as sequências do filme parecem aludir ao irreal. O sonho, como uma representação em um 
teatro privado, permite a permutação de papéis ao mesmo tempo que permite que não se assuma nenhum deles.
A relação edipiana é o centro do filme.

Na primeira cena vemos Caterina com seu bebê e ela lambe o mel derramado na pele dele. Mas esse momento de total intimidade entre mãe e filho é interrompido por Giuseppe, o marido, que chega pra roubar a atenção de Caterina. Os dois se lançam em uma dança bizarra, Giuseppe com uma faca em uma mão e um peixe morto em outra, em um claro jogo de sedução e que horroriza Joe, que sai correndo, chorando, preso a um novelo de lã, que pode ser comparado ao cordão umbilical.

Outra cena que fica marcada na mente de Joe é quando ainda bebê, está com a mãe em uma bicicleta, no cestinho da frente, de costas para a estrada e de frente para a mãe, que o olha amorosamente e na frente dele então só existe a mãe, o amor da mãe, até que por trás dela aparece a imagem da lua e essa imagem, o "rosto" da lua se confunde com o rosto de sua mãe, a lua, que representa a mãe, o feminino, a lua, la luna, ...Joe parece jamais se recuperar da imagem de Caterina ao luar e da promessa desse sonho sem fim.

Mais tarde, já morando em Nova Iorque e sempre carente das atenções da mãe que vive em turnês porque é uma cantora de ópera, Joe tenta convencê-la a que deixe que ele vá à Itália no lugar de Douglas. Ele lhe diz: "posso fazer todas as coisas que o papai faz...posso fazê-las melhor!".

Essa rivalidade é providencialmente resolvida com a morte de Douglas. Literalmente, ele sai de cena!
Caterina decide não cancelar sua turnê e parte para a Itália com Joe.Mas ela fica devastada ao descobrir no aniversário de 15 anos de Joe que ele é um viciado em heroína. 


Tem uma cena que é a primeira incestuosa do filme em que Caterina, na angústia de acalmar o filho que está em uma crise de abstinência, o masturba, mas embora choque, mesmo sendo por cima da roupa dele, não vemos ali nenhum prazer que o ato produza nela, só mesmo um amor desesperado que tenta vencer aquele momento a qualquer custo.


A cena do mel aparece de novo simbolizada no papel invertido, que é quando Joe lambe o rosto sujo da mãe em um quarto de hotel.


Joe irá descobrir que o seu verdadeiro pai é Giuseppe e está vivo. Caterina acredita que o encontro dele com o pai possa ajudá-lo, assim como ela mesma procura na figura de um antigo professor o apoio paterno de que está precisando, ela que até então projetava na ópera e em Verdi essa paternidade.

A heroína aplaca em Joe uma tensão que é insuportável, intolerável, uma busca que não tem nome. 
Será necessário que se introduza nesse cenário de mãe e filho um terceiro elemento, uma terceira pessoa, para que se quebre essa corrente de amor e ódio.


Numa versão diferente de Édipo que mata o pai e fica com a mãe, aqui é preciso resgatar a figura do pai para aproximar mãe e filho de novo.

Giuseppe ainda mora na mesma casa com a mãe, um novelo de lã de novo se desenrola entre a mãe e ele, pressupondo novamente o cordão umbilical, a eterna ligação entre mães e filhos.
Bertolucci nega que o filme é autobiográfico embora admita que a cena na bicicleta é baseada na memória dele. 
O filme "La luna" parece representar um claro desejo de Bertolucci de revisitar locais e situações de seus outros filmes e quem sabe de seu passado? Uma viagem em direção ao útero materno talvez?

Em "La luna", o diretor plantou lembranças de todos os seus filmes mais importantes. O novelo de lã pode ser talvez interpretado também como uma teia de aranha, como as teias de mentira que precisam ser desembaraçadas no seu filme "A estratégia da aranha". O maternal representa o lugar do sonho e talvez do próprio cinema.

Polêmico, provocante? Sim, mas também um belíssimo filme.
E com uma ótima interpretação de Jill Clayburgh e trilha sonora de Enio Morricone, o filme nos deixa importantes reflexões.

"O papel do inconsciente tornou-se central em minha reflexão: nossas escolhas estão condicionadas pelo inconsciente. Pensei no título da ópera de Verdi, La forza del destino e tive vontade da dar a La luna um outro título, A força do inconsciente." Bernardo Bertolucci

IMDB: 6,6- 10
Minha nota: 4- 5


Ficha técnica:

Nome original: La Luna
País: Itália
Ano: 1979
Direção: Bernardo Bertolucci.
Roteiro: Bernardo Bertolucci, Franco Arcalli.
Elenco: Jill Clayburgh, Matthew Barry

terça-feira, 29 de maio de 2018

LE CHALET




Estreou na Netflix no mês passado a estreia da série francesa de suspense Le Chalet.
Você vai se encantar e ao mesmo tempo se arrepiar com o lindo vilarejo nos Alpes franceses. Eu ontem passei à noite por uma rua que estava com três lâmpadas queimadas após ter visto o penúltimo episódio e confesso que me passou um frio pela espinha. 

Valmoline seria o típico lugar onde eu gostaria de passar o resto dos meus dias. Aqueles bosques, as ruas sem calçadas, as casas todas de madeira com flores pelas janelas, ... aparentemente um sonho de paz.

Mas o que era para ser uma reunião de verão agradável e romântica, além de um casamento, começa a ficar tenso, porque logo que eles chegam um acidente com a ponte e um problema nas comunicações os deixa isolados. 

Mesmo tendo alguns furos e ficando previsível do meio para o fim, Le Chalet consegue prender bem a atenção e instigar. 
E o melhor de tudo é que dá para ver toda rapidinho, porque só tem 6 episódios.

IMDB: 6,9/ 10
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Le Chalet
Outros nomes: The Chalet
País: França
Ano: 2017

Direção: Camille Bordes-Resnais.

Roteiro: Alexis Lecaye, 
Camille Bordes-Resnais.
Elenco: Chloé Lambert, Eric Savin, Manuel Blanc, Mathieu Simonet.

NINGUÉM DESEJA A NOITE





Com base em uma história real, o filme protagonizado por Juliette Binoche abriu o Festival de Berlim em 2015,
Esposa de Robert Peary, explorador norte-americano a quem se credita o título de primeiro homem a atingir o Polo Norte, Josephine decide seguir o mesmo caminho em busca do marido, a quem não via há dois anos. 
Gabriel Byrne é Bram Trevor, o seu guia.

É uma jornada de vida ou morte, através da neve e de condições climáticas praticamente impossíveis de suportar. Mas Josephine está disposta a tudo, ela pensa que pode ser talvez a última vez que veja Robert.
Dona de fortes convicções sobre a vida e o seu trabalho, Josephine terá que lidar com uma vida selvagem e descobre que, frente ao desafio de sobreviver, os seus conceitos sobre o ser humano não valem muita coisa. Por exemplo, não se imaginava capaz de desenvolver uma relação tão forte de afeto com a esquimó Allaka (Rinko Kikuchi).


A diretora disse ter se inspirado para compor as paisagens árticas e o comportamento dos esquimós no documentário clássico de Robert Flaherty., “Nanook do norte” (1922). O filme, porém, teve poucas sequências rodadas nas paisagens geladas da Noruega. O restante das filmagens aconteceu em estúdios na cidade espanhola de Tenerife e na Bulgária. Aí é que entram realmente a imaginação e o talento dos atores, pois todo aquele gelo e neve foram criados em estúdio e na verdade estava o maior calor em Tenerife, revela Binoche.
Como pode, não é? E eu achando as paisagens deslumbrantes!

IMDB: 6,3/ 10
Minha nota: 3,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Nadie Quiere la Noche
Outros nomes: Nobory Wants the Night, Endless Night
País: Espanha, França, Bulgária
Ano: 2015
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Miguel Barros.
Elenco: Juliette Binoche, Gabriel Byrne, Rinko Kikuchi.

O explorador Robert Peary, que conquistou pela primeira vez
o Polo Norte.

Josephine Peary

segunda-feira, 28 de maio de 2018

NÃO ME ABANDONE JAMAIS




Se em um futuro próximo criassem clones dos seres humanos? Eles seriam menos humanos? Não somos de certa maneira "clones" de nossos pais? Por mais que a rebeldia nos faça lutar contra isso, somos sempre geneticamente ou moldados pelo ambiente e pela sociedade clones uns dos outros. Isso nos faz menos humanos? Não temos todos os mesmos direitos de viver e amar?
Kathy (Carey Mulligan), Ruth (Keira Knightley) e Tommy (Garfield) são amigos íntimos que cresceram juntos num internato inglês. Em um lindo e melancólico cenário, vamos acompanhar suas vidas, seus anseios, seus medos e ansiedades. Eles têm conforto, boa alimentação e boa educação, no internato dirigido com mãos de ferro por Miss Emily (Charlotte Rampling). 
Rivalidades ameaçam acabar com a amizade entre os três amigos mas a vida mostrará que eles têm muito mais motivos para se apoiarem, para não se abandonarem jamais.
Kathy, Ruth e Tommy foram criados sem nenhum contato com o mundo exterior na adorável, porém misteriosa escola. Será que já vimos de tudo?

Baseado em um livro escrito por Kazuo Ishiguro, o drama nos faz pensar até que ponto a humanidade pode assumir escolhas que possam ser consideradas questionáveis em prol da sua própria salvação.
O diretor, Mark Romanek, é conhecido por dirigir videoclipes de Madonna, Fiona Apple, Beck e Sonic Youth, entre outros, além do longa Retratos de uma obsessão.
O filme, a princípio, parece ser uma história sobre amor, amizade, mas vai muito além disso. É uma história sobre destinos, sobre aceitar o destino. Em vários momentos, a câmera focaliza um pássaro. O pássaro, que é o símbolo da liberdade. Temos escolhas? Que liberdade será essa? A liberdade do corpo de seguir para onde quiser? Ou a liberdade da alma que sabe que cumpriu seu propósito?
IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,8/ 5


Ficha técnica: 

Nome original: Never Let Me Go
País: EUA, Reino Unida da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2010
Direção: Mark Romanek.
Roteiro: Alex Garland, Kazuo Ishiguro.
Elenco: Carey Mulligan, Keira Knightley, Andrew Garfield, Charlotte Rampling.

LONGE DESTE INSENSATO MUNDO




Carey Mulligan interpreta Bathsheba Everdene, uma jovem independente e determinada, órfã de pai e mãe e que herda a fazenda do tio. 

Três homens querem casar com ela:

Gabriel Oak (Matthias Schoenaerts) foi o primeiro a se apaixonar por ela e a fazer o pedido. Na época ela ainda não tinha herdado nada e ele tinha uma pequena propriedade hipotecada e 200 ovelhas.
Bonito e divertido, ele promete cuidar dela e lhe dar um piano,flores, pássaros, ...

William Boldwood (Michael Sheen), fazendeiro e seu vizinho, rico, almejado pela maioria das moças casadoiras.

O sargento Troy (Tom Sturridge), desinibido e sedutor.

A nossa protagonista precisa resolver esse dilema e também outras questões de sobrevivência.
Gabriel perde suas ovelhas e por consequência as suas terras e acaba trabalhando na fazenda de Bathsheba. Se torna o braço direito dela, sempre atento e eficiente no trabalho.
Enquanto isso, o até então reservado Boldwood, que no passado teve alguma desilusão amorosa e até então não se interessava por mulher nenhuma, vê em Everdene a esperança de ser feliz.
O Sargento Troy tinha uma noiva, mas no dia do casamento ela não apareceu. Ele também vai parar na fazenda e esbarra com Bathsheba.
Atrevido, ele a elogia, ela o manda embora, mas percebe-se que ficou perturbada.
Num outro encontro,ele se exibe pra ela num jogo com sua espada e lhe pede que não se mova. A espada passa rente a ela várias vezes, 50 tons de farda vermelha, é evidente a excitação dela. Ele a beija e depois se vai. Que mulher resistiria a isso?

Romance em dose tripla, ambientado na Dorset de 1870, em um tempo em que as pessoas se apaixonavam com apenas um olhar e que era diferente uma moça que não queria se casar e que administrava uma fazenda. O filme precisa ser visto como uma produção de época que é, com uma encantadora fotografia e uma ótima interpretação da Carey Mulligan,

Adaptação do romance de Thomas Hardy, ao estilo Orgulho e Preconceito, é para os fãs de filmes de época e de bons romances clássicos. Corajoso o Vinterberg por se aventurar por esse gênero também.

Curiosidades:

1 - A obra já foi adaptada no longa Longe Deste Insensato Mundo (1967), com Julie Christie, e no telefilme Far from the Madding Crowd (1998);
2 - A atriz Carey Mulligan canta uma das canções da trilha sonora, "Let No Man Steal Your Thyme".


IMDB: 7,1/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Far From the Madding Crowd
País, EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido da Grã-Bretanha.
Ano: 2015
Direção: Thomas Vinterberg.
Roteiro: Thomas Hardy, David Nicholls.
Elenco: Carey Mulligan, Matthias Schoenaerts, Michael Sheen, Tom Sturridge.

Outra adaptação, de 1967, com a
atriz Julie Christie.





DE TANTO BATER, MEU CORAÇÃO PAROU



A história:
As pressões da vida às vezes nos levam por caminhos que não são os nossos. Foi o que aconteceu com Thomas Seyr (Romain Duris), que fazia parte dos negócios escusos de seu pai (Niels Arestrup).
A mãe de Thomas foi uma grande pianista e ele herdou os seu talento. Ele sente uma forte motivação para retomar seus estudos de piano e procura uma professora chinesa para prepará-lo para uma audição. A professora, além de não falar nada em francês, vai fazer com que Thomas perceba que precisará aprimorar o seu caráter também se quiser ser um grande músico, porque a arte não combina com aquelas baixas qualidades.
Conciliar as cobranças do seu trabalho com suas aspirações se mostrará uma tarefa bem árdua, que talvez seu coração não suporte.

O filme:
Vencedor do César de melhor filme em 2006, Melhor Diretor, entre outros prêmios. Este filme é um remake do filme norte-americano Fingers de James Toback, com Harvey Keitel e Jim Brown nos principais papéis.
A música é composta pelo grande Alexandre Desplat, que também recebeu o Cesar de Melhor Música Original.
É um filme bem cru e seco, mas não deixa de ser tocante.

O diretor: 
Nascido em Paris em 30/04/1952, Jacques Audiard é um realizador, argumentista e antigo montador francês. 
Prêmios: Palma de Ouro ( Dheepan), César de Melhor Filme e de Melhor Diretor(O Profeta, De Tanto Bater, Meu Coração Parou), César de Melhor Roteiro Original (O Profeta), César de Melhor Primeiro Filme (Quando os Homens Caem), César de Melhor Adaptação ( Ferrugem e Osso, De Tanto Bater, Meu Coração Parou), Prêmio de Roteiro ( A Self Made Hero).

Os atores:
Romais Duris nasceu em Paris em 28/05/1974.
Foi por acaso e relutante que ele se tornou ator. Descoberto no final do curso de artes aplicadas pelo diretor Cédric Klapisch, com quem acabou trabalhando em vários filmes. Mas também trabalhou com outros diretores e recebeu vários prêmios e indicações.

Niels Arestrup: por seu trabalho no filme recebeu o Cesar de Melhor Ator Coadjuvante. É um ator francês de cinema e teatro, nascido em Montreuil, em 08/02/1949
IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: De Battre mon Coeur s'est Arrêté.
Outros nomes: The Beat that My Heart Skipped.
País: França;
Ano: 2005
Direção: Jacques Audiard.
Roteiro: Jacques Audiard, James Toback, outros.
Elenco: Romain Duris, Niels Arestrup

A LOUVA-A-DEUS



Os louva-a-deus ou cavalinho-de-deus são insetos da ordem Mantodea. São predadores agressivos, caçam em geral de emboscada, facilitada por suas capacidades de camuflagem.
Jeanne Deber é uma serial killer, apelidada de A Louva-a-Deus. Depois de 25 anos, crimes idênticos aos cometidos por ela começam a acontecer, só que ela está presa. Ela se oferece a ajudar a polícia a descobrir quem é o "imitador", mas impõe uma condição: que a investigação seja comandada pelo seu filho policial, Damien.

A série policial francesa promete bons momentos e alguns sustos, tem algumas cenas bem fortes. O melhor de tudo é que são só seis episódios, então dá para ver a série toda em uma tarde, ou uma noite.
Uma complicada relação vem à tona. Damien é forçado ao confronto com uma mãe que não vê desde os dez anos de idade, ele não a aceita, não só pelos bárbaros crimes mas também por ela não ter hesitado por uma vida que o excluía. Além de tudo, Damien está em uma situação desconfortável, já que ninguém da sua equipe, além dos seus superiores, sabem que ele é filho da Louva-a-Deus. Nem mesmo a sua bela esposa, Lucie. para quem ele disse que a mãe era morta. Lucie quer muito ter um filho, mas Damien teme transmitir seus genes.
Damien se vê a cada vez mais envolvido em uma história que gostaria de esquecer, mas ao mesmo tempo não consegue evitar um interesse em descobrir os motivos de Jeanne, A mãe, ajudando, tem a oportunidade de rever o filho e uma leve esperança de obter o seu perdão. Ou não. Quem sabe talvez se tudo não é habilmente arquitetado por ela e por motivos não tão nobres? Afinal, ela nunca demonstrou arrependimento.
Quer saber? Vai ter que ver, prepare-se para não querer desgrudar os olhos da série.
IMDB: 7,5- 10
Minha nota: 3,7- 5

Ficha técnica:
Nome original: La Mante.
País: França.
Ano: 2017
Direção: Laurent Alexandre.
Elenco: Carole Bouquet, Fred Testot, Pascal Demolon, Manon Azem,

THI MAI



Carmen (Carmen Machi) acaba de receber a notícia de que sua filha morreu em um acidente. Depois de algum tempo, ela fica sabendo que o maior desejo de Maria, que era adotar uma menina vietnamita, acaba de ser aprovado. Carmen decide esconder da agência a morte da filha e partir para o Vietnã em busca de Thi Mai. Para isso ela não conta com o apoio do marido, mas em compensação suas duas amigas, Elvira e Rosa, embarcam nessa aventura inusitada para Hanói, elas que nunca haviam saído da Espanha. Chegando lá, elas conhecem Andrés (Dani Rovira) e os destinos dos quatro dará, com certeza, uma reviravolta!
Carmen Machi e Dani Rovira já atuaram juntos nas comédias espanholas Ocho Apellidos Vascos e Ocho Apellidos Catalanes. Carmen também atuou em Os Amantes Passageiros e Abraços Partidos, do diretor Almodóvar e também vi um drama ótimo com ela, A Porta Aberta, pelo qual ela foi indicada ao Prêmio Goya. Já o engraçado Dani Rovira, o primeiro filme que vi com ele e que fiquei fã, foi a comédia também espanhola Agora ou Nunca, de Maria Ripoli. Muito engraçada!
Thi Mai pode-se dizer que é um drama, já que trata sobre perda, sobre a tentativa de encontrar uma motivação para sobreviver após a perda. Mas a história é contada de uma maneira muito leve e gostosa, com boas tiradas, que nos levam a dar boas risadas, das três amigas e suas dificuldades em uma cidade com uma cultura totalmente diferente. Também é muito bom passearmos pela bela Hanói e suas paisagens deslumbrantes. A canção original do filme El Camino dá mais um toque agradável. A menina, Thi Mai, é um encanto e nos faz ter vontade de adotar uma criança vietnamita.
Um filme sensível e adorável. Uma história simples, mas um passatempo divertido, mesclando perfeitamente o drama com a comédia.
IMDB: 6,1/ 10
Minha nota: 3,4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Thi Mai, Rumbo a Vietnam
País: Espanha
Ano: 2017
Direção: Patricia Ferreira.
Roteiro: Martha Sánchez.
Elenco: Carmen Machi, Dani Rovira, Adriana Ozores, Aitana Sánchez-Gijón.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

SOB O OLHAR DO MAR



Último romance escrito pelo diretor Akira Kurosawa.

"É impossível viver sem algo que nos dê animo."

Um bordel numa cidade à beira-mar. O século: XIX. Uma prostituta que ainda conserva a pureza dos sentimentos e apaixona-se pelos clientes. Quando um samurai (Hidetaka Yoshioka, de Rapsódia em Agosto) vai parar lá, fugindo de uma briga na qual se metera e em que tem lembrança de ter ferido alguém, apesar de muito bêbado, O-Shin (a linda Nagiko Tohno) o ajuda. Fusanosuke, esse é o nome dele, fica muito agradecido e passa a procurar O-Shin. Ela, alertada pelas outras, principalmente por Kikuno, tenta evitar de vê-lo. A diferença de classe é muito grande entre eles, o que aquele jovem bem-nascido vai querer com uma moça como ela? Mas isso não impede que O-Shin se apaixone pelo jovem samurai. 
Fusanosuke lhe diz que ela não tem que ter vergonha do que é, que ela apenas teve menos sorte que ele e que acredita que se ela deixar de exercer a profissão, voltará a ser pura. Isso acalenta a esperança não só nela quanto nas amigas do bordel, que se dispõem a atender os clientes dela para livrá-la do pecado, enquanto Fusanosuke faz uma viagem. 

Como não se encantar com essas mulheres? As gueixas, retratadas sem vulgaridade, muito pelo contrário, elas eram de uma beleza, sempre com seus lindos quimonos e penteados, mostrando cuidado e empatia umas com as outras. Uma história simples e sensível, onde os sonhos de cada uma são revelados quando elas ajudam O-Shin. Porque embora elas temessem por O-Shin, por ela se envolver emocionalmente, quando elas resolvem ajudá-la a se casar com um samurai, elas também estão realizando o lado romântico escondido delas.

Um outro jovem rapaz (Masatoshi Nagase de Trem Mistério) aparece e se apaixona por O-Shin,
Um temporal avassalador atinge o vilarejo, provocando a fúria do mar e o transbordamento dos rios. Um velho cliente aparece para resgatar Kikuno, ele quer que ela fuja com ele, mas ela não quer, o que provoca uma outra briga no filme. 
O mar, que testemunhou todos os dramas daquele bordel e das gueixas, vem agora mudar toda a vida delas. A cena de O-Shin e Kikuno no telhado, quase tocando as estrelas, é de uma beleza ímpar.

Akira Kurosawa escreveu esse roteiro que deixou inédito em 1993. Adaptou dois contos: "O Cheiro de uma Flor Desconhecida" e "Antes que o Orvalho Seque", de Syugoro Yamamoto. Sua intenção era desmentir os críticos que diziam que não sabia escrever personagens femininos. O filme procurou seguir todas as anotações (desenhos, sketches e até mesmo o desenho de produção de Kurosawa), inclusive com determinados detalhes, por exemplo, a heroína é a única a usar quimono vermelho. Foi o filho de Kurosawa quem escolheu o diretor Kei Kumai para dirigi-lo. Assim, ele contou esta história delicada, sobre gueixas em busca do amor, que foi muito bem fotografada e encenada.

IMDB: 7,1- 10
Minha nota: 3,9-5

Ficha técnica:
Nome original: Umi Wa Miteita
País: Japão
Ano: 2002
Direção: Kei Kumai.
Roteiro: Akira Kurosawa, Kei Kumai, Shugoro Yamamoto.
Elenco: Nagiko Tôno, Hidetaka Yoshioka, Masatoshi Nagase, Misa Shimizu.

DESEJO E PERIGO



São mais de duas horas e meia de duração. Mas que nem de longe são cansativas.Tecnicamente impecável, com fotografia e direção de arte magníficas, brincando com o tema noir, músicas de Alexandre Desplat, a trama é tensa e angustiante e prende a atenção do início ao desfecho final. A história é ambientada na China ocupada pelo Japão nos anos 40 e deu a Ang Lee o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2007.

Adaptação da obra literária de Eileen Chang, uma escritora muito popular na comunidade sino-americana. A autora do livro levou mais de 30 anos para finalizar a obra, ela começou a escrever nos anos 50. Eileen tem muito em comum com a obra, já que viveu na China ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, foi casada com um colaborador do governo japonês, sofreu com a infidelidade do marido e interrompeu seus estudos na Universidade de Hong Kong para voltar a Xangai, temas vistos em seu livro.

Um grupo de artistas, estudantes universitários, em meio às efervescências políticas, resolvem usar a arte como forma de protesto e conscientização. É nesse contexto que entra a jovem Wong Chia Chi (Wei Tang). Wong nunca tinha participado de teatro e sua estreia é um sucesso, provocando uma onda de nacionalismo na plateia. O grupo é tomado pela euforia de poder transformar na realidade a situação em que vivem e resolvem usar os seus dons artísticos para revolucionar de verdade. A jovem Wong infiltra-se com outro nome na família do perigoso Sr Yee (Tony Leung Chiu Wai), chefe da polícia de Xangai, tornando-se amiga da esposa dele, com o objetivo de atraí-lo para que seja eliminado. Retraída e simples, ela tem que interpretar uma mulher casada com um empresário, sedutora e confiante. Os riscos são enormes, qualquer desconfiança e ela pode morrer.

Por que terá Wong aceito participar desse perigoso jogo? Órfã de mãe, com a guerra seu pai vai para a Inglaterra e leva com ele o seu irmão. Relegada a segundo plano por sua condição feminina, Wong vê finalmente uma chance de participar da história de seu país e não vai poupar esforços para isso. Ela sabe que pode ter que ser amante do Sr. Yee mas o seu ideal vai além da preocupação com o próprio corpo.
Tem início um jogo de política e paixão pontuado com cenas de sexo e violência. 

As polêmicas cenas de sexo custaram à atriz Tang Way o banimento da China por protagonizá-las. Filmadas em 11 dias em um set fechado, somente com a presença do cinegrafista e da equipe de som, as cenas são descritas por Ang Lee como “apenas gráficas, e não pornográficas”. Já Tang Wei comenta que as tomadas foram delicadamente ensaiadas antes das gravações. Quando lhe perguntaram pelo erotismo do filme, Lee respondeu de modo significativo: “Quis falar não tanto de sexo, mas da ambivalência fundamental do ser humano.”

As cenas não são gratuitas. O caráter do desejo é fundamental para o encadeamento da história. Desejos incontroláveis e transformadores. A jovem Wong representa não só a China submetida como todas as mulheres. Mas ela também usa seu poder. Dominação e submissão se alternam, entre Yee e Wong, entre Japão e China.

Criticado muitas vezes por "americanizar" seus filmes, o que posso dizer é que achei "Desejo e Perigo" fantástico. Perturbador e ao mesmo tempo encantador. Daqueles inesquecíveis. Lembra a fábula de "O Escorpião e o Sapo", mas de maneira contrária. Quem conhece, vai entender.

IMDB: 7,6- 10
Minha nota: 4,2- 5

Filcha técnica:
Nome original: Se, Jie
Outros nomes: Lust, Caution
País: China, EUA, Taiwan
Ano: 2007
Direção: Ang Lee
Roteiro: Eileen Chang, Hui-Ling Wang, James Schamus.
Elenco: Wei Tang, Tony Leung.

AS COISAS SIMPLES DA VIDA



No dia do casamento do cunhado com a noiva já em avançado estado de gestação, porque o noivo ficou esperando o "dia da sorte" para casar, a sogra de NJ tem um derrame e entra em estado de coma. NJ está passando por dificuldades na firma em que é sócio e, tudo na mesma época, ele reencontra com uma ex-namorada, que foi o seu primeiro amor. 
Todos se revezam na casa para dar atenção à matriarca, mas isso desperta alguns sentimentos. A esposa de NJ entra em depressão quando ao resolver relatar os seus dias para a mãe, constata que eles são todos iguais e desinteressantes. A filha adolescente de NJ está tomada de culpa, porque a avó foi encontrada embaixo do prédio ao lado do lixo que ela deveria ter levado, mas não se lembra se levou, e suplica para a avó acordar se a perdoa. O filho de 8 anos de NJ diz que não tem nada pra falar com a avó, mas porque falar não é a forma dele se expressar.
NJ tem que ir a Tóquio e marca um encontro com a ex-namorada, Sherry. É uma viagem de volta ao passado que lhe traz muitas reflexões. O que ele perdeu? O que ele ganhou?
Quando eu era criança, não tinha muitas opções de lojas e nem tantas facilidades. Já me diverti muito com bem pouco dinheiro. Hoje somos engolidos pelo consumismo desenfreado. Mal compramos um celular novo e já vem outro modelo que oferece muito mais recursos. Isso gera uma insatisfação muito grande. A sociedade de consumo nos vende a imagem de que ter muitas coisas é essencial e para isso trabalhamos que nem uns loucos para podermos nos cercar de tudo aquilo que passamos a julgar importante. Aos poucos, perdemos o prazer de tomar um café sem pressa com um amigo, de apreciar o pôr do sol e sentir o toque de uma borboleta.
E o pior é que por mais que tenhamos, temos sempre a sensação recorrente de que estamos perdendo algo. Nunca houve antes tantos casos de depressão e ansiedade. 
O grande desafio atual é nos conectarmos com o que é fundamental, nos desapegarmos de tudo o que no final está nos gerando angústia.
Yang-Yang, o menino, parece ser o único no meio daquela família que presta atenção nas coisas, nas coisas simples da vida, que estão à nossa frente e não conseguimos ver. Quieto, retraído, ele não consegue muitas vezes explicar o que é óbvio para ele e é constantemente repreendido no colégio e também motivo de riso dos colegas. Ele gosta de captar as coisas fotografando e ninguém entende aquele monte de fotos de nada, mas que na verdade são de mosquitos, isto é, detalhes. Ou outras de diversas pessoas de costas. Para Yang-Yang, a verdade nunca é inteira, porque só vemos a frente delas, 50% delas. Um lindinho, um filósofo mirim. Ele representa o pensamento ainda inocente, livre dos condicionamentos, que nos farão mais tarde deixar de olhar de forma simples as coisas da vida.

Acredito que Edward Yang, que morreu em 2007 aos sessenta anos de idade e que recebeu por "Yi Yi" o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes quis antes de tudo, usando uma típica família de classe média, refletir a sociedade onde vive, de mostrar o outro lado, as costas, a outra parte da verdade.

Mas não penso que "Yi Yi" pretenda ensinar a adquirir sabedoria. É mais sobre mostrar que errar é humano, que é inevitável errar, não existe nenhum tratado que se adapte a todas as pessoas, isso é bom, isso é ruim. Somos diferentes, únicos e o que precisamos fazer apenas é aprender com os erros que se repetem, é prestar atenção.

IMDB: 8,1- 10
Minha nota: 4,2- 5


Ficha técnica:
Nome original: Yi Yi


País: Taiwan.
Ano: 2000
Direção: Edward Yang.
Roteiro: Edward Yang, Wei-han Yang.
Elenco: Wu Nien-Jen, Kelly Lee van, Jonathan Chang, Gilst, Adriene Lin, Elaine Jin, Hsi-Sheng Chen, Issei Ogata, Su-Yun Ko, Ru-Yun Tang e participação de Edward Yang.

NÃO SE MOVA



O que eu vou falar desse filme? Bem, a verdade, não é? E a verdade é que achei o filme bem cafona, aquele dramalhão tipo novela mexicana... sim, com a trilha sonora forçando pra nos emocionar (e consegue!) ... mas que trilha sonora! Daquelas que se a gente está acompanhada, quer dar um beijo na boca, ou se não está, já olha para os lados, procurando o seu "grande amor à primeira vista". As atuações são belíssimas. A Penélope consegue ficar feia e nos passa um desalento que nos toca até o fundo da alma. Sua personagem, a Italia, é uma pobre e coitada camareira, que não tem ninguém, mora em uma casa horrível, que assim mesmo vai ter que entregar. Porque era do avô que, antes de morrer, fez o favor de vender a casa. Não se preocupou com ela, ninguém se preocupa com ela. Acostumada a sofrer, sofreu abusos e aprendeu que para sobreviver precisava ficar quieta, parada. "Não se mova", ela aprendeu a dizer para ela mesma...
Com Timóteo, interpretado pelo próprio diretor do filme, não foi muito diferente. Ela aprendeu a ficar parada, a evitar qualquer movimento. Primeiro, por medo que ele não fosse embora, depois por medo que ele fosse. Ele, cirurgião bem-sucedido, foi parar naquele lugar porque teve um problema com o carro. Conheceu Italia. O lugar e ela o repugnavam, acostumado que estava com a linda esposa e sua casa ensolarada. Ao mesmo tempo, o lugar, e ela, o atraíam... era como se estivesse resgatando suas raízes, o mundo a que realmente pertencia. Aquela vida de luxos e as festas que era obrigado a frequentar com Elsa não lhe eram familiares. Era como se Timóteo estivesse no corpo de outra pessoa.
Ele conta para Italia que é casado. Mas ela, além de estar acostumada a não se mover, também estava acostumada com migalhas. O pouco que ele lhe dava era muito. O pouco era muito para quem nada tinha. E ela lhe pediu: "venha me ver uma vez por mês, uma vez por ano, mas não me deixes...". É como se ela lhe implorasse: "não se mova", "não mude o que existe entre nós", ...
O filme começa com um acidente sério com uma adolescente de moto. Timóteo vai descobrir que é sua filha, Angela. Enquanto luta pela vida dela, ao mesmo tempo que teme pela sua morte, ele vai se recordar do seu caso com a sofrida Italia, desde que a conheceu.
Baseado no romance de Margaret Mazzantini, que é a esposa na vida real de Sergio Castellitto e com quem tem quatro filhos. Em 2012, Castellitto dirigiu o premiado Venuto al Mondo (Prova de Redenção), que também foi adaptado de uma obra de Margaret. O estilo de Venuto al Mondo é também de rasgar o coração. E igualmente protagonizado por Penélope Cruz e com Sergio Castellitto no elenco.
Então, enquanto Angela está lá, entre a vida e a morte, enquanto a aflita Elsa não chega, Timóteo está lá, sozinho com suas recordações. Com suas reflexões. E percebe que também ele ficou preso no emaranhado de sua história. Ficou imóvel. Não se moveu!
E nós lá, os espectadores, chorando e roendo as unhas. desesperados com essa história avassaladora. Tristes com esse mundo injusto.
Agora, só um aparte, imaginem que eu estava vendo o filme e no meio da reprodução, deu problema. Aliás, pra contar tudo, primeiro o filme não estava reproduzindo a legenda. Depois, consegui a legenda, mas não estava sincronizada. Consegui outra legenda e o filme para no meio! Consegui a outra parte do filme, só que a legenda começava do princípio e o filme, do meio para o fim. E tive que ver o restante só com o áudio em italiano! É muita agonia, não é? Mas eu sei que eu queria porque queria saber o que acontecia com a Italia, Timóteo, Elsa e Angela.
Um filme poderoso e doloroso, mostrando a vida, inflexível, a manipular as pessoas, como marionetes. Essa vida que muitas vezes nos paralisa, que não permite que corramos atrás do que queremos de verdade, essa vida que parece às vezes sussurrar como o vento em nossos ouvidos, implacável: "NÃO SE MOVA"...
Enfim, imperdível!
IMDB: 7,1/ 10
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Non ti Muovera
Outros nomes: Don't Move, No te Muevas
País: Itália, outros
Ano: 2004
Direção: Sergio Castellito
Roteiro: Sergio Castellito, Margaret Mazzantini
Elenco: Penélope Cruz, Sergio Castellitto, Claudia Gerini.

Sergio Castellitto, Penélope Cruz e Margaret Mazzantini



quinta-feira, 24 de maio de 2018

THE ALIENIST



Se o mundo investigativo e viceral de Mindhunter colidisse com a sombria e misteriosa névoa de Sherlock Holmes, o resultado seria algo próximo da nova série do canal TNT "The Alienist". Mas não se engane, caro Watson, a nova produção não é uma reportagem de crimes repetida. A adaptação americana do romance de mesmo nome, escrito por Caleb Carr, tem seu charme e seus pontos originais, mesmo considerando que ainda é cedo para fazer qualquer julgamento.


Como o título sugere, alienista nada mais é do que o termo usado no passado para denominar psiquiatras. O médico em questão é o Dr. Laszlo Kreizler (Daniel Brühl), que após o assassinato brutal de um jovem garoto prostituto na Nova York de 1896, passa a investigar o crime junto do jornalista e desenhista John Moore (Luke Evans), o qual fez os desenhos do corpo da vítima. Contrariando a crença da polícia, Laszlo acredita que havia ligação daquele assassinato com um antigo caso de seus pacientes. Só que o xerife o impede de prosseguir com suas investigações. É aí que entra Sara Howard (Dakota Fanning), um dos tiros certeiros da série, pois a personagem é uma secretaria de polícia, título bastante incomum (talvez até impossível) para a época. Sara é uma peça fundamental para ajudar os dois homens a investigarem o caso e não é de se duvidar que ela vai se juntar a eles nessa jornada perigosa e intrigante nos próximos episódios.


O roteiro é bem construído, envolto em um mistério que prende o espectador e em momento algum se torna pedante. As atuações são todas excelentes e convincentes, bem como a recriação de Nova York, dos figurinos, automóveis e utensílios. O ótimo tom de mistério da trilha contribui para mergulhar o espectador nessa trama sombria como um convite a esse imperdível jogo de caça a um assassino macabro que vale cada segundo.


(Comentários: Tom Carneiro)


IMDB: 7,8/ 10
Nota ( Tom Carneiro): 8,0/ 10

(Comentários: Tom Carneiro)

Ficha técnica: 
Nome original: The Alienist
País: EUA
1ª Temporada
Ano: 2018
Direção: Jakob Verbruggen
Elenco: Dakota Fanning, Daniel Bruhl, Luke Evans


MUDBOUND: LÁGRIMAS SOBRE O MISSISSIPI



O filme te deixa com um gosto amargo na boca. Conta a história de duas famílias no Mississipi, uma de negros e uma de brancos, na época que ainda (ainda?) se estabeleciam limites entre as duas raças. Muito estranho falar assim, "entre as duas raças"! Pressupõe mesmo que há diferenças.
A família McAllan é composta pelos irmãos James e Henry, o pai deles, Laura, que é casada com Henry e as duas filhas.
A saga começa com os dois irmãos, cavando uma cova para enterrar o pai (o Mike de Breaking Bad). Quando estão tentando descer o caixão, só os dois, com muita dificuldade, passa a carroça com a família Jackson, a de negros. Henry pede ajuda e Hap hesita. A um aceno de Florence, a indicada ao Oscar 2018 como atriz coadjuvante, ele concorda.
James McAllan e Ronsel Jackson voltaram recentemente da guerra, da Segunda Guerra Mundial. O que era para ser um alívio, já que estão vivos e inteiros passa a ser motivo de frustração. James pensa nas pessoas inocentes que bombardeou de seu avião, nos alemães jovens que morreram, que talvez tivessem família, filhos, enquanto ele se considera um homem inútil, de quem ninguém sente falta. Ronsel, o negro, durante a guerra era como todos os soldados, era reconhecido e elogiado, era alguém! E agora de volta a essa cidade depois de tantos anos ele encontra o mesmo preconceito, as portas dos fundos sendo apontadas para os negros. Trabalhar, trabalhar, sabendo que nunca terão direito a nada.
A vida da família McAllen também não era nada fácil. James não suportava o pai. Henry era um bom marido e bom filho, mas o pai também o humilhava. A esposa também não era feliz no meio daquela lama toda que era a fazenda. Na verdade, a família estava totalmente despreparada para aquela vida no campo.
Os destinos dessas duas famílias se cruzam de uma maneira trágica e, ao mesmo tempo comovente. Um filme bem pesado, de doer a alma e com ótimas atuações. São 134 minutos, é realmente longo, mas não consegui pensar em nenhuma parte que eu tiraria, todas as cenas foram necessárias, todos os diálogos foram tocantes, impecáveis. Um retrato do desalento!
Baseado no livro de Hillary Jordan, o filme produzido pela Netflix também concorre ao Oscar na categoria Melhor Roteiro Adaptado. Recebeu o prêmio de melhor elenco no Gotham Awards.


IMDB: 7,5/ 10
Minha nota: 4/ 5



Ficha técnica:
Nome original: Mudbound
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Dee Rees.
Roteiro: Virgil Williams.
Elenco: Carey Mulligan, Mary J Blige, Garrett Hedlung, Jason Clarke, Jason Mitchell, Jonathan Banks, Rob Morgan.