Cinéfilos Eternos: Taiwan
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sexta-feira, 25 de maio de 2018

AS COISAS SIMPLES DA VIDA



No dia do casamento do cunhado com a noiva já em avançado estado de gestação, porque o noivo ficou esperando o "dia da sorte" para casar, a sogra de NJ tem um derrame e entra em estado de coma. NJ está passando por dificuldades na firma em que é sócio e, tudo na mesma época, ele reencontra com uma ex-namorada, que foi o seu primeiro amor. 
Todos se revezam na casa para dar atenção à matriarca, mas isso desperta alguns sentimentos. A esposa de NJ entra em depressão quando ao resolver relatar os seus dias para a mãe, constata que eles são todos iguais e desinteressantes. A filha adolescente de NJ está tomada de culpa, porque a avó foi encontrada embaixo do prédio ao lado do lixo que ela deveria ter levado, mas não se lembra se levou, e suplica para a avó acordar se a perdoa. O filho de 8 anos de NJ diz que não tem nada pra falar com a avó, mas porque falar não é a forma dele se expressar.
NJ tem que ir a Tóquio e marca um encontro com a ex-namorada, Sherry. É uma viagem de volta ao passado que lhe traz muitas reflexões. O que ele perdeu? O que ele ganhou?
Quando eu era criança, não tinha muitas opções de lojas e nem tantas facilidades. Já me diverti muito com bem pouco dinheiro. Hoje somos engolidos pelo consumismo desenfreado. Mal compramos um celular novo e já vem outro modelo que oferece muito mais recursos. Isso gera uma insatisfação muito grande. A sociedade de consumo nos vende a imagem de que ter muitas coisas é essencial e para isso trabalhamos que nem uns loucos para podermos nos cercar de tudo aquilo que passamos a julgar importante. Aos poucos, perdemos o prazer de tomar um café sem pressa com um amigo, de apreciar o pôr do sol e sentir o toque de uma borboleta.
E o pior é que por mais que tenhamos, temos sempre a sensação recorrente de que estamos perdendo algo. Nunca houve antes tantos casos de depressão e ansiedade. 
O grande desafio atual é nos conectarmos com o que é fundamental, nos desapegarmos de tudo o que no final está nos gerando angústia.
Yang-Yang, o menino, parece ser o único no meio daquela família que presta atenção nas coisas, nas coisas simples da vida, que estão à nossa frente e não conseguimos ver. Quieto, retraído, ele não consegue muitas vezes explicar o que é óbvio para ele e é constantemente repreendido no colégio e também motivo de riso dos colegas. Ele gosta de captar as coisas fotografando e ninguém entende aquele monte de fotos de nada, mas que na verdade são de mosquitos, isto é, detalhes. Ou outras de diversas pessoas de costas. Para Yang-Yang, a verdade nunca é inteira, porque só vemos a frente delas, 50% delas. Um lindinho, um filósofo mirim. Ele representa o pensamento ainda inocente, livre dos condicionamentos, que nos farão mais tarde deixar de olhar de forma simples as coisas da vida.

Acredito que Edward Yang, que morreu em 2007 aos sessenta anos de idade e que recebeu por "Yi Yi" o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes quis antes de tudo, usando uma típica família de classe média, refletir a sociedade onde vive, de mostrar o outro lado, as costas, a outra parte da verdade.

Mas não penso que "Yi Yi" pretenda ensinar a adquirir sabedoria. É mais sobre mostrar que errar é humano, que é inevitável errar, não existe nenhum tratado que se adapte a todas as pessoas, isso é bom, isso é ruim. Somos diferentes, únicos e o que precisamos fazer apenas é aprender com os erros que se repetem, é prestar atenção.

IMDB: 8,1- 10
Minha nota: 4,2- 5


Ficha técnica:
Nome original: Yi Yi


País: Taiwan.
Ano: 2000
Direção: Edward Yang.
Roteiro: Edward Yang, Wei-han Yang.
Elenco: Wu Nien-Jen, Kelly Lee van, Jonathan Chang, Gilst, Adriene Lin, Elaine Jin, Hsi-Sheng Chen, Issei Ogata, Su-Yun Ko, Ru-Yun Tang e participação de Edward Yang.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

THAT DAY, ON THE BEACH



Primeiro, devo avisar que o filme tem duração de quase três horas. Então, veja com disponibilidade de tempo ou por partes, como eu.


Três horas pode ser muito tempo para quem senta pra ver um filme, mas não para o encontro de duas amigas que já não se viam há treze anos.



Para Tan Weiqing, pianista de sucesso, esse período representou muitas viagens, muito treino, muitas apresentações, muitas entrevistas. E também a distância do seu único amor de verdade, aquele com quem ela sonhou levar uma vida simples, construir uma família, ...
E agora o passado volta a bater à sua porta: a irmã dele, por quem ela tinha também tanto carinho, a procura. Tan tem uma conferência, mas o que pode ser mais importante que esse encontro?
Entre chás e mais chás, Lin Jiali conta-lhe sua vida. Entre lembranças e emoções, a vida de Jiali passa-se ali, entre as duas amigas. Entre Jiali e a amiga que preferiu correr pelo mundo do que ficar na mesma cidade, mas longe do amado. Ela não pergunta por ele, não agora. Mas ele está ali, presente entre as duas amigas, cujos destinos se cruzam mais uma vez...

Ah, que beleza de filme, do cineasta chinês Edward Yang. Já tinha visto dele "As Coisas Simples da Vida", outra maravilha. Sua carreira infelizmente foi curta, porque faleceu aos 59 anos de idade. Foi ator e roteirista também. Apesar de ter nascido em Xangai, na China, cresceu em Taiwan e todos os seus longas foram filmados na capital de Hong Kong. Por As Coisas Simples da Vida, ficou marcado como o segundo cineasta chinês a ser premiado como Melhor Diretor no Festival de Cannes, antecedido somente por Wong Kar Wai (Amor à Flor da Pele).

That Day, On the Beach é um filme delicado, que nos faz como que olhar de perto, como se também estivéssemos sentados àquela mesa, quase que a pegar a mão de Jiali, tomados também pela emoção do que ela narra. Do nosso jeito ocidental já estaríamos ansiosos, fazendo perguntas, interrompendo com palpites... Mas Tan escuta com atenção, com o coração, com respeito, ...deixando a amiga falar, se lembrar, envolvida na sua dor.
Aquele dia, na praia, ...
Lin Jiali já teve uma vez que fazer uma importante escolha e foi corajosa o suficiente para isso. Aquele dia, na praia, naquela mesma praia onde passou tantos momentos felizes, ela precisou mais uma vez escolher o que iria fazer com tudo aquilo por quê passou, escolher no que acreditar.

IMDB: 7,7/ 10
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Hai Tan De Yi Tian
País: Taiwan.
Ano: 1983
Direção e roteiro: Edward Yang.
Elenco: Sylvia Chang, Terry Hu.