Cinéfilos Eternos: Década 1971-1980
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A CICATRIZ INTERIOR






Vou apenas transcrever aqui as minhas pesquisas sobre o filme porque eu mesma não tenho nenhuma opinião formada ainda. Também não darei nota, porque o que pareceu para mim um filme esquisito é considerado uma obra-prima. Pelo que eu pouco entendi, é um "home movie", uma viagem em busca de si mesmo e vagueia entre o lírico e o mítico. As imagens são fantásticas realmente e te levam a uma viagem sensorial. Acredito que é um filme para ser visto a primeira vez desnudo de qualquer conhecimento sobre ele, como uma experiência e depois ser revisto, prestando atenção nas inúmeras simbologias. Um pouco de conhecimento sobre mitologia também é importante.
"Aonde está me levando?",
pergunta a mulher que estava sentada em uma pedra, no meio da vastidão do nada, da imagem desértica que se descortina logo no início do filme, ao homem errante que ali passa para resgatá-la. Quem será esse homem? Um poeta, um romântico, Deus, o Diabo? Cansado de seus lamentos, ele vai embora, mas seus passos o trazem para o mesmo lugar, onde está a mulher.
A mulher é interpretada por Nico.
Nico ficou conhecida nos anos 60 quando se tornou musa da contracultura, integrante da banda de Lou Reed, amiga de Andy Warhol e namorada de Jim Morrison e Alain Delon.
Quando cantava, Nico estava quase sempre fora do tom e às vezes soava horrível. Mas isso não importava. Ela contava uma história com suas canções. Eu olhei para suas músicas como monólogos para capturar o estado emocional de sua personalidade”,
disse a atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, a quem coube a difícil missão de interpretar Nico no filme Nico, 1988, vencedor da mostra Horizontes do Festival de Veneza 2017. A influência de Nico é muito mais importante e duradoura do que se imagina e vai muito além dos anos com o Velvet Underground.
O homem é Philippe Garrel, também diretor e roteirista do filme. Os filmes do cineasta francês já ganharam prêmios em eventos prestigiados como o Festival de Cinema de Cannes e o Festival de Veneza. Ele teve um relacionamento de 10 anos com a cantora e atriz alemã Nico e ela participou de 7 de seus filmes entre 1972 e 1979. Ele é pai do ator e diretor Louis Garrel e da atriz Esther Garrel.
Garrel conheceu Nico em 1969, quando ela cantou a música "The Falconer" para o seu filme Le Lit de la Vierge e logo o casal estava vivendo junto.
Nico foi descoberta pelo fotógrafo Herbert Tobias em Berlim aos 16 anos. Foi ele quem a apelidou de Nico por conta de um namorado que ela teve, o cineasta Nikos Papatakis. Ela se mudou para Paris e começou a fotografar para Vogue e Elle e chegou a ser contratada pela Chanel, mas em vez de ir para o trabalho, ela voou para Nova York onde começou a fazer comerciais para televisão e a estudar atuação com Lee Strasberg.
Em 1959 ela foi convidada por Fellini para visitar o set de La Dolce Vita e acabou ganhando um pequeno papel, interpretando a si mesma. Em 61 ela estreia no filme A Man named Rocca, de Jean Paul Belmondo, e em seguida ganha o papel principal em Strip-Tease (1963), de Jacques Poitrenaud. Ela também canta uma música escrita por Serge Gainsbourg que só foi lançada em 2001 como parte da coletânea Le Cinéma de Serge Gainsbourg. Na década de 70, ela fez sete filmes com Philippe Garrel, com quem morou e por um tempo virou o centro de suas produções. Seu filme de 1991 J’entends Plus la Guitare é dedicado a ela.
Sobre La Cicatrice Intérieure:"Filme errante sobre a errância, travessia sonâmbula da noite branca: só a tautologia, esta figura retórica que designa a redundância do ser e do logos que o exprime, pode dar conta da vertiginosa celebração do invisível e do vazio a que nos convidam os "transeuntes" personagens de A Cicatriz Interior: uma Nico mais gutural e enlutada do que nunca, hierática como uma personagem elisabetana exilada contra a vastidão da Hubrys; Pierre Clémenti, entre Adão e Prometeu, fecundando um novo mundo ao entregar a tocha à criança; e um filho Peter Pan, que ora se desvanece no rastro da Mãe, ora se concentra e cristaliza no regaço dos elementos. " (Cinética, Luiz Soares Junior)


Filme produzido numa era "pós Nouvelle Vague", “La cicatrice intérieure” de Philippe Garrel nos mostra um lugar indefinido onde a memória parece persistir.
Garrel parece estar em constante procura por algo em seu filme enquanto é atormentado por seu passado. Nunca é dito ao espectador exatamente o que o perturba. O fato de ser pouco narrativo só aumenta a subjetividade e o leque de interpretações para compreender a obra.
São longas sequências que pouco, ou quase nada, se conectam entre si: um casal caminha pelo deserto. Ela parece culpá-lo pela situação e grita que não consegue respirar. Ele a ignora. Um menino observa um cavaleiro imóvel num círculo de fogo. Um arqueiro nu chega de barco numa praia e explora o território. Lá ele encontra uma mulher e um menino numa paisagem congelada. A música de Nico impregna os diferentes segmentos do filme.
Há uma sensação desoladora durante toda obra, não sabemos a origem dos personagens, não temos ideia do local onde estão. O filme é bastante aberto para o espectador. O próprio Garrel chegou a sugerir que deveria ser visto sem legendas, pois não afetaria em nada a experiência.

Ficha técnica:
Nome original: La Cicatrice Intérieure.
País: França.
Ano: 1972
Direção Philippe Garrel.
Roteiro: Philippe Garrel, Nico.

Elenco: Philippe Garrel, Nico, Pierre Cleménti, Christian Aaron Boulogne.




Nico.









sexta-feira, 23 de novembro de 2018

AS IRMÃS BRONTË





A história dessas mulheres é admirável e triste. Criadas na aldeia de Thorton, localizada no West Riding of Yorkshire, Inglaterra, cresceram no isolamento e em uma época em que os talentos literários femininos eram vistos com maus olhos. Filhas do reverendo de Haworth, também poeta e escritor, de quem talvez tenham herdado a inclinação. O irmão, Branwell, também escrevia, fazia poesias e pintava. É dele o quadro mais famoso das irmãs, de 1834. Ele pintou-se a si próprio entre as irmãs, mas retirou a imagem mais tarde. Fora a genética, as irmãs Charlotte (1816), Emily (1818) e Anne (1820) e seu irmão Branwell (1817) foram muito afetadas pela morte da mãe e, mais tarde, das suas duas irmãs mais velhas. Para sobreviver à tal situação e à solidão em que viviam, elas e o irmão eram muito próximos na infância e desenvolveram mundos imaginários, com heróis e histórias fictícias, a partir do que ouviam das empregadas.Eles ganharam do pai, na infância, uns soldadinhos de madeira e o brinquedo serviu de base para imaginarem um reino fantástico de Angria, situado no centro da África, lugar de acontecimentos extraordinários, violentos e até escabrosos. Mais tarde, inventaram o reino de Gondal. Eles anotavam tudo em cadernos.

O mundo lúdico foi substituído pelo mundo adulto, as irmãs aparentemente se adaptavam àquela vida quase que monástica, dedicavam-se aos afazeres da casa e a longas horas, escrevendo. As histórias inventadas na infância muitas vezes serviram de base. Chegaram a trabalhar também, dando aulas, ou cuidando de crianças. Já o irmão acabou afogando as frustrações na bebida e também no consumo de ópio. Vivia se metendo em confusões e o pouco dinheiro que a família tinha precisava esconder dele.
Foi da Charlotte a ideia de publicarem suas obras, mesmo sob um pseudônimo masculino (era comum na época), em busca de aprovação literária e também para aumentarem a renda, que era pouca. Os seus livros tiveram bastante sucesso assim que foram publicados. Jane Eyre de Charlotte foi o primeiro romance a ser publicado, seguido de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily e A inquilina de Wildfell Hall de Anne. Havia comentários e desconfianças de que Currer, Ellis e Acton Bell pudessem ser mulheres, mas ao mesmo tempo o caráter ousado das publicações sugeriam que só um homem pudesse ter vivido aquela experiências para escrevê-las.
As famosas charnecas, frias e isoladas, as roupas e os costumes da época, são bem retratados em suas obras.
Infelizmente, não puderam aproveitar o sucesso. Branwell morre em setembro de 1848, aos 31 anos e logo em seguida, apenas três meses depois, Emily também adoece e morre, aos 30 anos. Em janeiro de 1820, Anne, com apenas 29 anos, também se vai. Charlotte é a única dos irmãos que fica, mas em março de 1855, antes de completar 39 anos e nove meses após casar-se, ela também se vai.
A casa onde elas moravam se abria para o cemitério do lugar e a teoria sobre a morte prematura da família é que a água era contaminada.
Mas a paisagem soturna onde vivia a família Brontë e testemunha de tantas mortes levantou a desconfiança de um escritor e criminologista, vejam só! O nome dele é James Tully e no seu livro "Os Crimes de Charlotte Brontë", ele levanta a teoria de que a família teria vivido envolta em assassinatos, traições e vinganças, além de questionar a autoria de algumas obras.
O primeiro filme sobre as Brontë , o francês, foi dirigido por André Techiné. O cineasta e argumentista francês, 
antes de passar à realização,fez-se notar como jornalista e crítico nos Cahiers du Cinéma durante a década de sessenta. Iniciou-se em 1969 com Pauline s'en va. Alcançou popularidade internacional com Barocco (1976), filme protagonizado por Gérard Depardieu e Isabelle Adjani.
Recebeu pelo seu filme Rosas Selvagens (Les Roseaux Sauvages) de 1994 o Cesar de Melhor Filme, de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro, entre outros.

O filme de 1979 tem um elenco fabuloso: Isabelle Huppert como Anne, Isabelle Adjani como Emily e Marie-France Pisier como Charlotte. No entanto, me pareceu que o Téchiné preferiu focar mais na figura do irmão rebelde, Branwell, interpretado por Pascal Greggory. O filme originalmente tinha 180 minutos, um terço do filme foi cortado e talvez tenham se perdido partes importantes que aprofundariam mais as personagens. Para quem vê o filme, já conhecendo bastante a história das nossas queridas irmãs Brontë, não perceberá talvez nenhuma lacuna.
Existe um documentário sobre o filme. assinado por Dominique Maillet. Les fantômes de Haworth faz uma retrospectiva sobre a gravação de Les soeurs Brontë e conta, inclusive com a participação de Téchiné. O documentário de 58 minutos pode ser visto para quem adquiriu o dvd da Versato.
As duas Isabelles, Huppert e Adjani, eram muito jovens ainda. Adjani estava deslumbrante. A Huppert, embora já com vinte e poucos anos na época, está parecendo não ter mais que dezesseis.
Li alguns comentários sobre o filme não mostrar a vida amorosa das três, mas elas tiveram? Acho que não. Charlotte apaixonou-se por um homem mais velho e casado, que inspirou seu romance O Professor, mas apenas platonicamente e já perto de morrer, casou-se, mas nem foi assim um casamento romântico. Realmente, não sei de onde elas tiraram tanta paixão para colocar nos seus romances.
" Você esta vendo pela aparência.
Um amor que só floresce uma vez...
Eu o desprezo e tenho pena.
Cuspo no o amor e sua vaidade.
O azevinho é como a amizade
e vai durar mais um inverno."

Já o filme de 2016 foca bastante na publicação das obras, explica a dificuldade que era ser uma escritora mulher na época. Emily, mais introspectiva, não queria publicar, não queria nem que ninguém lesse o que escreveu, mas Charlotte quis que elas enviassem juntas suas obras, acreditava que teria mais impacto dessa forma.
“Que autor não gostaria de tirar vantagem de ser invisível? Um que não consiga manter a mente em silêncio”.
A diretora Sally Wainwright também assina o roteiro e através do processo de pesquisa, interpretação de todas as obras e cartas deixadas por cada uma, optou por mostrar uma visão mais pessoal das irmãs. O irmão, aqui interpretado por Adam Nagaitis é um homem desiludido de tentar ganhar a vida através de sua arte, imaturo emocionalmente e que se entrega a uma vida desregrada, principalmente após uma decepção amorosa. Essa versão da vida da família não dá tanto destaque ao Branwell, mas de qualquer maneira mostra como seu comportamento e sua morte prematura afetaram a cada uma das irmãs, interpretadas aqui por Finn Atkins (Charlotte), Chloe Pirrie (Emily) e Charlie Murphy (Anne).
O sucesso dos livros, com pseudônimo, deixou Londres querendo conhecer esses autores, mas elas temiam que ao descobrirem suas identidades, os livros parassem de vender e como mulher, elas sofressem retaliações. Gostei da abordagem feminista, as mulheres da época tinham medo, mas não eram tão passivas assim: Charlotte já tinha em si a revolta de ser considerada inferior por ser mulher.
Admiradora que sou das obras das irmãs e apaixonada por cinebiografias, não poderia deixar de amar os dois filmes. Minha vontade agora é reler seus livros e rever as adaptações para o cinema. Tem uma parte do filme que mostra o museu dedicado às irmãs na Inglaterra, que tem suas roupas e a famosa mesa que elas sentavam para escrever. Quando eu vi fiquei me imaginando visitando esse lugar e não pude deixar de me emocionar. A história sempre me fascinou, saber o que sentiram, como viveram, pessoas de outras épocas me encanta. Ainda mais se são pessoas que ousaram fazer diferente, principalmente quando são mulheres. Como as austeras filhas de um reverendo inglês do começo do século 19 se converteram nas irmãs mais cultuadas da história dos livros?
Preparem-se para entrar em um ambiente melancólico e sonhar, como elas.
AS IRMÃS BRONTË - ANO 1979
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota:3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Les soeurs Brontë
País: França.
Direção: André Téchiné
Roteiro: André Téchiné, Pascal Bonitzer.
Elenco: Isabelle Huppert, Isabelle Adjani, Marie-France Pisier, Pascal Greggory, Patrick Magee.

AS IRMÃS BRONTË - ANO 2016
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: To Walk Invisible: The Brontë Sisters
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Direção: Sally Wainwright.
Roteiro: Sally Wainwright.Elenco: Charlie Murphy, Chloe Pirrie, Finn Atkins, Adam Nagaitis, Jonathan Pryce.


A casa que virou museu.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS




Baseados em livro homônimo (The Beguiled), de Thomas Cullinan, de 1966. Uma escola para meninas no sul dos Estados Unidos, em plena guerra civil americana. Um soldado inimigo, temporariamente incapacitado, é acolhido pelo grupo, formado por meninas adolescentes e algumas mulheres maduras.
Em mais uma parceria de Don Siegel com Clint Eastwood, a adaptação de 1971 é uma história perversa, encharcada de humor negro e de truculência psicológica, sobre os jogos de poder que um soldado nortista institui na escola de mulheres em que vai se abrigar, no Sul da Guerra Civil de 1861-1865. Esse filme com certeza é bem mais forte que a nova versão.
Já o filme da Coppola explora um lado ausente na narrativa do autor e também do filme de Don Siegel, de 1971. Isso porque a diretora, conhecida por seu ativismo em suas narrativas, optou por contar a história do ponto de vista das mulheres da casa e não do soldado ferido, interpretado por Colin Farrell.
A casa na qual se passa o filme de 2017 é a mesma usada por Beyoncé em vários de seus clipes. Quem sugeriu o espaço como cenário foi a produtora de set Anne Ross, que instigou Sofia a tocar o projeto de O Estranho que Nós Amamos.
Sofia Coppola é conhecida por sua paleta de cor doce e pela fotografia mais lavada. A figurinista Stacey Battat, também amiga de Sofia, criou as peças em tons pastel, com estampas florais e muita cintura marcada. Mas encontrou uma forma de marcar a personalidade de cada uma das sete mulheres do filme. Embora sejam todas afetadas pelo contexto, elas são muito diferentes e individuais. Para a trilha sonora, Sofia optou pela banda francesa Phoenix, cujo vocalista é seu marido. A produção toda é muito bem cuidada, os planos, tanto os abertos quanto os fechados, são belíssimos, tudo de muito bom gosto.
O soldado John McBurney interpretado pelo Clint é bem mais sedutor que o interpretado pelo Colin Farrel, embora esse ator seja muito interessante, "in my opinion".
O tempo todo na história, Martha, a administradora do internato, afirma que vai entregar o nortista como prisioneiro às forças sulistas. Mas ao estilo "Ata-me", do Almodóvar, nem ela nem suas protegidas querem se privar dessa inesperada presença masculina.
Ao mesmo tempo, essa disputa pela atenção vai despertar o que há de pior na personalidade do Cabo John. O círculo feminino parece vacilar, atemorizar-se e enfraquecer-se – mas, afinal, fecha-se, procurando alguma maneira de expelir de seu meio o corpo estranho.

IMDB - filme de 1971: 7,2/ 10
IMDB - filme de 2017: 6,4/ 10

Minhas notas: 3,8/ 5 para os dois

Ficha técnica:
Nome original: The Beguiled
País: EUA
Ano: 1971
Direção: Don Siegel
Elenco: Clint Eastwood, Geraldine Page


Ficha técnica:
Nome original: The Beguiled
País: EUA
Ano: 2017 
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Colin Farrel, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

GRITOS E SUSSURROS



Quem sou eu para fazer uma resenha de um filme como esse? nossa!

Então vou resumir aqui um pouco do que eu entendi.
Fiquem à vontade para me corrigir.

Gritos e sussurros é um filme sobre a morte e sobre o tempo, não somente a morte física, mas sobre a morte de tudo o que fomos e vivemos um dia, porque o tempo inexoravelmente levou.
O filme começa focando em um relógio de parede, o tempo que não perdoa, que só anda para a frente.
Agnes (Harriet Anderson) é a irmã enferma que está morrendo. Ela acorda, levanta-se, escreve no seu diário: "Hoje é segunda-feira e eu acordei com dor." Em seguida, volta a deitar, mas não sem antes ir até um relógio e alterar a hora, como se pudesse adiantar (ou atrasar, não tenho certeza) a sua morte.
Todas as paredes da casa e também as cortinas são vermelhas, como a revelar todos os sentimentos latentes.

Sentimentos que não são falados em voz alta, apenas em sussurros, todos os gritos estão na alma.
O confinamento das quatro mulheres, as três irmãs e mais a criada, faz com que elas se confrontem com um passado que foi feliz, mas que elas preferem não lembrar mais, porque a lembrança do que foram só faz realçar mais o que são no presente, com suas vidas reprimidas e infelizes.
E com os seus segredos, que não conheceremos, porque são só sussurrados.
Agnes morre, mas o filme não acaba aí, ela mesmo morta quer as irmãs, que se horrorizam com aquilo tudo. Eu também!

Somente Anna, a criada, que perdeu uma filha e parece ter transferido toda sua devoção pra Agnes, não tem medo e a pega no colo, com os seios de fora, como se com esse ato pudesse aproximar Agnes dos seios da mãe e de toda a proteção que uma mãe representa. Essa cena foi apelidada de "A Pietá de Bergman".

Enfim, Agnes é enterrada e a família, toda de preto, se despede de Anna, dão um tempo para ela sair da casa e pedem para ela escolher algum objeto da irmã.
Ela diz que não quer nada, mas vemos no final do filme ela abrindo uma gaveta e retirando o diário de Agnes.
Abre na página em que que Agnes lembra de um dia feliz, dela com as irmãs e com Anna, todas de branco, lindas, como se o tempo e a morte não existissem.

Com um elenco de tirar o fôlego, esse filme não pode faltar no curriculo de nenhum cinéfilo.

IMDB: 8,1- 10
Minha nota: 4,7- 5

Ficha técnica:
Nome original: Viskningar Och Rop
Outros nomes: Cries & Whispers
País: Suécia
Ano: 1972
Direção: Ingmar Bergman.
Roteiro: Ingmar Bergman, Marik Vos-Lundh, Sven Nykvist
Elenco: Liv Ullmann, Harriet Andersson, Kari Sylwan, Ingrid Thulin, Erland Josephson.




LA LUNA



"Buscando pela primeira lembrança que tenho de minha mãe, o que me veio à mente foi uma imagem do tempo em que tinha dois ou três anos: eu estava sentado na cesta pregada ao guidom de uma bicicleta, estava de costas para a estrada e de frente para minha mãe, que dirigia. Eu olho para minha mãe e vejo seu rosto. Atrás dela eu vejo a lua. Eu confundo o rosto muito jovem de minha mãe com o rosto muito velho da lua. Esta primeira memória era muito misteriosa. Quando ela veio a mim, não consegui compreender o significado...perguntei a mim mesmo porquê tive precisamente essa lembrança. Então filmei La Luna, em parte para tentar compreender essa associação. Preciso dizer que, após concluir o filme, essa lembrança estava até mais misteriosa."
Bernardo Bertolucci



Sonhar... sonhar parece ser, em todos os níveis do filme, o objeto primordial. Todas as sequências do filme parecem aludir ao irreal. O sonho, como uma representação em um 
teatro privado, permite a permutação de papéis ao mesmo tempo que permite que não se assuma nenhum deles.
A relação edipiana é o centro do filme.

Na primeira cena vemos Caterina com seu bebê e ela lambe o mel derramado na pele dele. Mas esse momento de total intimidade entre mãe e filho é interrompido por Giuseppe, o marido, que chega pra roubar a atenção de Caterina. Os dois se lançam em uma dança bizarra, Giuseppe com uma faca em uma mão e um peixe morto em outra, em um claro jogo de sedução e que horroriza Joe, que sai correndo, chorando, preso a um novelo de lã, que pode ser comparado ao cordão umbilical.

Outra cena que fica marcada na mente de Joe é quando ainda bebê, está com a mãe em uma bicicleta, no cestinho da frente, de costas para a estrada e de frente para a mãe, que o olha amorosamente e na frente dele então só existe a mãe, o amor da mãe, até que por trás dela aparece a imagem da lua e essa imagem, o "rosto" da lua se confunde com o rosto de sua mãe, a lua, que representa a mãe, o feminino, a lua, la luna, ...Joe parece jamais se recuperar da imagem de Caterina ao luar e da promessa desse sonho sem fim.

Mais tarde, já morando em Nova Iorque e sempre carente das atenções da mãe que vive em turnês porque é uma cantora de ópera, Joe tenta convencê-la a que deixe que ele vá à Itália no lugar de Douglas. Ele lhe diz: "posso fazer todas as coisas que o papai faz...posso fazê-las melhor!".

Essa rivalidade é providencialmente resolvida com a morte de Douglas. Literalmente, ele sai de cena!
Caterina decide não cancelar sua turnê e parte para a Itália com Joe.Mas ela fica devastada ao descobrir no aniversário de 15 anos de Joe que ele é um viciado em heroína. 


Tem uma cena que é a primeira incestuosa do filme em que Caterina, na angústia de acalmar o filho que está em uma crise de abstinência, o masturba, mas embora choque, mesmo sendo por cima da roupa dele, não vemos ali nenhum prazer que o ato produza nela, só mesmo um amor desesperado que tenta vencer aquele momento a qualquer custo.


A cena do mel aparece de novo simbolizada no papel invertido, que é quando Joe lambe o rosto sujo da mãe em um quarto de hotel.


Joe irá descobrir que o seu verdadeiro pai é Giuseppe e está vivo. Caterina acredita que o encontro dele com o pai possa ajudá-lo, assim como ela mesma procura na figura de um antigo professor o apoio paterno de que está precisando, ela que até então projetava na ópera e em Verdi essa paternidade.

A heroína aplaca em Joe uma tensão que é insuportável, intolerável, uma busca que não tem nome. 
Será necessário que se introduza nesse cenário de mãe e filho um terceiro elemento, uma terceira pessoa, para que se quebre essa corrente de amor e ódio.


Numa versão diferente de Édipo que mata o pai e fica com a mãe, aqui é preciso resgatar a figura do pai para aproximar mãe e filho de novo.

Giuseppe ainda mora na mesma casa com a mãe, um novelo de lã de novo se desenrola entre a mãe e ele, pressupondo novamente o cordão umbilical, a eterna ligação entre mães e filhos.
Bertolucci nega que o filme é autobiográfico embora admita que a cena na bicicleta é baseada na memória dele. 
O filme "La luna" parece representar um claro desejo de Bertolucci de revisitar locais e situações de seus outros filmes e quem sabe de seu passado? Uma viagem em direção ao útero materno talvez?

Em "La luna", o diretor plantou lembranças de todos os seus filmes mais importantes. O novelo de lã pode ser talvez interpretado também como uma teia de aranha, como as teias de mentira que precisam ser desembaraçadas no seu filme "A estratégia da aranha". O maternal representa o lugar do sonho e talvez do próprio cinema.

Polêmico, provocante? Sim, mas também um belíssimo filme.
E com uma ótima interpretação de Jill Clayburgh e trilha sonora de Enio Morricone, o filme nos deixa importantes reflexões.

"O papel do inconsciente tornou-se central em minha reflexão: nossas escolhas estão condicionadas pelo inconsciente. Pensei no título da ópera de Verdi, La forza del destino e tive vontade da dar a La luna um outro título, A força do inconsciente." Bernardo Bertolucci

IMDB: 6,6- 10
Minha nota: 4- 5


Ficha técnica:

Nome original: La Luna
País: Itália
Ano: 1979
Direção: Bernardo Bertolucci.
Roteiro: Bernardo Bertolucci, Franco Arcalli.
Elenco: Jill Clayburgh, Matthew Barry

domingo, 20 de maio de 2018

EU SÓ QUERO QUE VOCÊS ME AMEM



***(CONTÉM SPOILER) ***



Há uma linha tênue entre a sanidade e a loucura? Entre a realidade e a imagem que fazemos dela? O que é real? Até que ponto somos algozes ou vítimas da opressora sociedade capitalista?

Peter só queria ser amado. Para isso, sempre tentou fazer tudo certo. Certo, do ponto de vista das pessoas. Primeiro, dos seus pais. Sempre foi um bom menino, um bom filho, mas nunca um elogio, nunca uma nota alta. E ele se esforçava mais e mais, pensava que o problema era seu, que não fazia o suficiente. A mãe, tentava ainda agradar com muitas flores. Que ela nunca pareceu dar importância nenhuma. Tornou-se um pedreiro talentoso, incansável. Começou a construir sozinho uma casa para os pais. Durante esse tempo, pela primeira vez sentiu-se amado por eles. Depois, a casa ficou pronta. E em pouco tempo eles se esqueceram. Esqueceram-se de todo seu esforço, esqueceram-se de amá-lo... sempre preocupados os dois com eles mesmos. E Peter continuava achando que não havia feito o suficiente. Ele se casa com Erika e a casa dos pais é finalmente mobiliada. E ele rapidamente descartado. Eles lhe dizem que eles podem ficar provisoriamente no quarto de hóspedes, até conseguirem seu próprio apartamento. 

Peter não conseguia ser como seu pai, tudo que seu pai fazia dava certo. Ele só podia estar errado, ele não soube se fazer amado. Peter e Erika vão morar em Munique. Para alívio de seus pais. Nesse ponto, para alívio de Peter também, que preferia que seus pais acreditassem que ele era capaz de sustentar sua própria família. 

Ele logo arruma um emprego em uma obra. O capataz reconhece suas habilidades, ele é o melhor de todos. Mas acha melhor não dizer nada, ou terá que pagar-lhe mais. E Peter segue achando que não é bom o suficiente. 

Sua mulher o ama de verdade, mas ele nem percebe e continua repetindo o modelo que foi o que aprendeu, que deve agradá-la para que o ame. Ela merece ter uma casa bem mobiliada, merece um vestido caro, jóias, ... se ele não for capaz de dar-lhe essas coisas, como ela o amará? Não, ele estará errado se não o fizer. E Peter mete-se cada vez mais em dívidas. Que sempre acha que vai resolver, vai trabalhar mais, vai conseguir, "não se preocupe", diz ele para Erika. A chegada de um filho complica mais ainda a situação. Erika o incentiva a pedir ajuda ao seu pai, mas para Peter isso significa admitir seu fracasso como filho, admitir que nunca mereceu ser amado.

Ele é o exemplo de uma personalidade esmagada, para ele ser amado e ter poder de consumir são sinônimos. E aqui fica bem clara a conotação política do filme, a estabilidade financeira como objetivo, o sonho de ser um bom burguês e a máquina do capitalismo fazendo na verdade você produzir e produzir, para alguns poucos enriquecerem. Menos você!

Seus sofrimentos parecem não ter fim e quando ainda ele perde o emprego, à sua sensação de fracasso junta-se a necessidade de mentir para Erika. Até levá-lo a uma situação limite.

Qual é o limite de Peter? Até que ponto a identidade dele foi triturada? Ao ponto dele deixar de ser ele, aquela pessoa resignada, com constante necessidade de aprovação e vir em seu auxílio um outro Peter, que estava escondido dentro dele. Um outro Peter, que não aceitava assim que a culpa era toda dele. Que estava disposto a dar um fim àquela rejeição toda.

E, no trágico final, ficou aquela pergunta sem resposta:

“Você está feliz por estar vivo?”

(e aqui fiquei com a sensação de que é isso que se espera do ser humano, a resignação de estar feliz apenas por estar vivo)


IMDB: 8- 10
Minha nota: 4-5


Ficha técnica:
Nome original: Ich will doch nur, daß ihr mich liebt 
País: Alemanha.
Ano: 1976
Direção: Rainer Werner Fassbinder.
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Christiane Erhardt, Klaus Antes.
Elenco: Vitus Zeplichal, Elke Aberle, Alexander Allerson, Erni Mangold, Johanna Hofer, Wolfgang Rudiger Hess.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

THAT DAY, ON THE BEACH



Primeiro, devo avisar que o filme tem duração de quase três horas. Então, veja com disponibilidade de tempo ou por partes, como eu.


Três horas pode ser muito tempo para quem senta pra ver um filme, mas não para o encontro de duas amigas que já não se viam há treze anos.



Para Tan Weiqing, pianista de sucesso, esse período representou muitas viagens, muito treino, muitas apresentações, muitas entrevistas. E também a distância do seu único amor de verdade, aquele com quem ela sonhou levar uma vida simples, construir uma família, ...
E agora o passado volta a bater à sua porta: a irmã dele, por quem ela tinha também tanto carinho, a procura. Tan tem uma conferência, mas o que pode ser mais importante que esse encontro?
Entre chás e mais chás, Lin Jiali conta-lhe sua vida. Entre lembranças e emoções, a vida de Jiali passa-se ali, entre as duas amigas. Entre Jiali e a amiga que preferiu correr pelo mundo do que ficar na mesma cidade, mas longe do amado. Ela não pergunta por ele, não agora. Mas ele está ali, presente entre as duas amigas, cujos destinos se cruzam mais uma vez...

Ah, que beleza de filme, do cineasta chinês Edward Yang. Já tinha visto dele "As Coisas Simples da Vida", outra maravilha. Sua carreira infelizmente foi curta, porque faleceu aos 59 anos de idade. Foi ator e roteirista também. Apesar de ter nascido em Xangai, na China, cresceu em Taiwan e todos os seus longas foram filmados na capital de Hong Kong. Por As Coisas Simples da Vida, ficou marcado como o segundo cineasta chinês a ser premiado como Melhor Diretor no Festival de Cannes, antecedido somente por Wong Kar Wai (Amor à Flor da Pele).

That Day, On the Beach é um filme delicado, que nos faz como que olhar de perto, como se também estivéssemos sentados àquela mesa, quase que a pegar a mão de Jiali, tomados também pela emoção do que ela narra. Do nosso jeito ocidental já estaríamos ansiosos, fazendo perguntas, interrompendo com palpites... Mas Tan escuta com atenção, com o coração, com respeito, ...deixando a amiga falar, se lembrar, envolvida na sua dor.
Aquele dia, na praia, ...
Lin Jiali já teve uma vez que fazer uma importante escolha e foi corajosa o suficiente para isso. Aquele dia, na praia, naquela mesma praia onde passou tantos momentos felizes, ela precisou mais uma vez escolher o que iria fazer com tudo aquilo por quê passou, escolher no que acreditar.

IMDB: 7,7/ 10
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Hai Tan De Yi Tian
País: Taiwan.
Ano: 1983
Direção e roteiro: Edward Yang.
Elenco: Sylvia Chang, Terry Hu.

terça-feira, 15 de maio de 2018

MORTE EM VENEZA


Morte a Venezia, no original em italiano, é uma adaptação do romance homônimo do alemão Thomas Mann.

Gustav (Dirk Bogarde) é um compositor austríaco de meia-idade que resolve passar um tempo em Veneza, para relaxar.


Porém vários acontecimentos irão boicotar o seu sonhado repouso: primeiro, a sua bagagem foi para outro local, depois pessoas começam a ficar doentes e Gustav ouve aqui e ali comentários sussurrados que sugerem que alguma coisa mais grave está acontecendo, depois ele vem a descobrir que trata-se da cólera asiática.


No meio disso tudo, ele desenvolve uma atração perturbadora por Tadzio (Bjorn Andrésen), um jovem adolescente polonês.

Tudo passa a girar em volta de Tadzio, ao ponto de Gustav organizar todos os seus horários e lugares estratégicos com o intuito de poder admirar o rapaz.

Não cabe aqui divagarmos sobre homossexualidade ou pedofilia, porque no desenrolar do filme percebemos que, além da atração ser completamente platônica, trata-se de um caso de deslumbramento, visto que Tadzio personifica o ideal de beleza que a alma artística de Gustav sempre sonhou.
Talvez a beleza que ele mesmo gostaria de ter.

Apesar de entender que esse encantamento é doentio, o compositor permanece em Veneza, alimentando a esperança da retribuição de um simples olhar ao menos.

Num dia, quandoTadzio acena para um amigo e ele pensa que é pra ele, Gustav, ao tentar se levantar para responder ao gesto, cai sem vida.

"E ainda no mesmo dia, um mundo respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte."
O filme, além das indicações a diversos prêmios, recebeu o Bafta por melhor direção de arte, melhor fotografia, melhor figurino e melhor trilha sonora.

IMDB: 7,5/ 10
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Morte a Venezia
País: Itália.
Ano: 1971
Direção: Luchino Visconti
Roteiro: Thomas Mann, Luchino Visconti, outros.
Elenco: Dirk Bogarde, Björn Andrésen