Cinéfilos Eternos: Drama
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quinta-feira, 28 de março de 2019

ASSUNTO DE FAMÍLIA





"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira" . Liev Tolstoi, Anna Karenina.
Mas a família retratada no mais novo filme do cineasta japonês Hirokazu Koreeda foge à regra. Porque, ao seu modo, era uma família feliz. E era diferente de qualquer outra. Na verdade, foge a muitas regras...
A princípio, não entendemos muito a ligação deles: uma senhora idosa, a quem todos chamavam de "vovó", um casal, uma jovem e um menino. Eram bem pobres, moravam todos em um cômodo só, onde cozinhavam, comiam, dormiam. Além daquele cômodo, só um banheiro. A privacidade só se exercia no banheiro, mas não parecia que ninguém sentia falta disso. Riam, contavam histórias, dividiam as refeições, ... Vovó podia estar costurando enquanto a jovem se encostava nela para se aquecer com o calor do seu corpo. Um dia encontraram uma menininha que estava sozinha, passando frio, e levaram pra lá. Ela parecia um passarinho assustado, tinha medo de levantar os olhos, de falar. Já era tarde e ela acabou ficando naquele dia. No outro também. Aos poucos foi adquirindo confiança e deixando escapar que era maltratada pelos pais. Pensaram em levá-la de volta. Mas ficaram com pena. E também já tinham se afeiçoado a ela. O menino ficou um pouco enciumado, mas aquele que queria ser chamado de pai por ele, mas que ele ainda não conseguia, lhe disse: "- é sua irmã.".
Sim, porque naquela família, os laços não eram impostos pelo nascimento, mas pelo acolhimento.
Um dia, uma foto da menininha, Yuri, apareceu no telejornal, estavam dando ela como sequestrada. Não os pais, eles nem procuraram por ela. Nobuyo, que cuida dela como uma mãe, lhe pergunta se ela quer voltar pra casa. Mas percebe que ela tem medo.
Os códigos morais da Família Shibata eram bem diferentes. Osamu ensinava às crianças a roubar. É claro que ficamos chocados com isso. Eles roubavam em lojas. Segundo Osamu, não roubavam nada que pertencia a ninguém, pois ainda estavam à venda. Nobuyo tambem não achava que tinham sequestrado a menina, que agora tinha o cabelo curto e roupa nova e até um nome novo: Rin. Como, se não pediram dinheiro? Já o código familiar deles era muito simples: eles se tratavam bem, se protegiam, se importavam uns com os outros. Em nenhum momento, apesar das dificuldades financeiras, pensaram em Yuri como mais uma boca para alimentar. Para eles era mais uma pessoa para amar.
Um dos momentos mais lindos que achei foi quando perguntaram pra Osamu por que ele ensinava às crianças a roubar. E ele responde: " - porque eu não sei fazer mais nada, era só isso que eu tinha para ensinar... " Como qualquer pai, ele queria ser admirado por alguma coisa que soubesse fazer bem.
Mas ele não era qualquer pai e nem ela era qualquer mãe. E o filme nos leva a diversos questionamentos sobre o que é certo e o que é errado. Mais uma obra sensível de Koreeda sobre assuntos de família.
O filme concorreu ao Oscar 2019 como Melhor Filme Estrangeiro, mas quem venceu foi Roma, que também é o retrato de uma família e, curiosamente, os dois têm cenas emblemáticas em praias.




IMDB: 8,1/ 10
Filmow: 4,3/ 5
Minha nota: 4,2 / 5


Ficha Técnica:
Nome original: Manbiki Kazoku.
Outros nomes: Shoplifters, 万引き家族
País: Japão.
Ano: 2018
Direção: Hirokazu Koreeda.
Roteiro: Hirokazu Koreeda.
Elenco: Lily Franky, Jyo Kairi, Miyu Sasaki, Sakura Andou, Kirin Kiki. Mayu Matsuoka.

terça-feira, 26 de março de 2019

QUATRO MINUTOS




QUATRO MINUTOS
Chris Kraus é um escritor e cineasta alemão, nascido em 1963. Explico aqui porque existe uma escritora e cineasta de mesmo nome, só que americana e que, inclusive, um livro seu, I Love Dick, deu origem à série de mesmo nome protagonizada por Kevin Bacon.
Eu nunca tinha visto nada desse diretor, mas esse filme me impressionou bastante. Vamos conhecer Jenny, uma jovem assassina, presa em uma penitenciária feminina. Além de ter cometido um crime bárbaro, ela não parece ter nenhum remorso e é super hostil, podendo ser bem violenta mesmo. Quando chega na penitenciária uma professora de piano de 80 anos, que tem um projeto de dar aulas para as detentas, "Traude", o oficial Mutze, que também é um grande apreciador de música, apresenta Jenny para ela. Mas a princípio Traude não a vê com bons olhos, já que ela é agressiva, mal-educada, indisciplinada, as mãos, o principal elemento para as aulas , são mal-cuidadas e feridas devido às brigas e ela diz pra Jenny que para dar aulas para ela, precisará aceitar suas regras. Que não está preocupada em torná-la uma boa pessoa, mas sim uma boa pianista.
Mas Traude irá se surpreender com o talento de Jenny e a parceria entre elas provocará conflitos e muitas revelações. Além do seu dom, a música é a única forma com a qual Jenny consegue se expressar e isso acontece de forma intensa, da mesma maneira que são intensos todos os seus pensamentos, toda sua dor, sua raiva, suas feridas, o caos que é sua vida, enfim. Traude precisa dela também para sobreviver às suas lembranças, para encontrar um motivo para ter valido a pena ter continuado viva. Pela arte. Para que a arte se imponha às dores e injustiças do mundo. Com um final impactante e inesperado. Quatro minutos de pura libertação. E aqui me lembrei de Mandela, que dizia que seu corpo podia estar preso, mas que era o capitão de sua alma. Mas Jenny não era. Até àquele momento.
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
País: Alemanha.
Nome original: Vier Minuten
Ano: 2006 Direção: Chris Kraus
Roteiro: Chris Kraus.
Elenco: Hannah Herzsprung, Monica Bleibtreu, Sven Pippig, Stefan Kurt, Jasmin Tabatabai.


quarta-feira, 13 de março de 2019

JOVEM MULHER







A princípio é apenas uma história de uma jovem mulher que se encontra desorientada e perdida após haver terminado o relacionamento de dez anos. Mas vai ganhando contornos, força, a câmera sempre colada na personagem, mostrando sua inquietação, seu desamparo, a imprevisibilidade que a faz explodir a qualquer coisa... e de repente não é apenas a história de uma jovem mulher, é a história de Paula, de todas as Paulas, de todas as mulheres, que precisam se descobrir como pessoas, como mulheres que são, repensar as suas certezas, encontrar o seu lugar no mundo.

Eu disse "explodir a qualquer coisa"? Bem, simplifiquei demais a situação de Paula. Foram dez anos de relacionamento e ela não consegue se ver sem ele. O psiquiatra fala em liberdade e Paula mais uma vez explode, como um furacão. Quem disse que ela quer a porcaria dessa liberdade? À sua confusão sentimental, junta-se a falta de dinheiro e de um lugar para morar. E a incompreensão de como uma pessoa como Joachim Deloche, um fotógrafo famoso com um apartamento enorme, pode deixá-la assim na rua, como um saco de lixo. Ela pensa que não faria isso nem com um estranho que batesse em sua porta. Paula não tem família, apenas um relacionamento complicado com uma mãe de quem diz que se perdeu, não tem para onde ir, não tem emprego. ainda por cima nessa cidade que ela odeia: Paris. Quando ela conhece Ousmane, que tenta lhe dizer algumas coisas positivas sobre a cidade, ela replica que tudo que ele diz não faz nenhuma diferença para eles, não os ajuda em nada.

"Paris não gosta de nós", diz Paula.
O primeiro longa com Léonor Serraille na direção recebeu o Caméra d’Or na edição 2017 do Festival de Cannes e é um filme de uma mulher para as mulheres. Léonor soube fazer o retrato de uma jovem carente, que precisa amadurecer, controlar suas oscilações de humor, se adaptar à sua nova realidade, enfrentar sua solidão e encontrar seus espaços, não só fisicamente, mas emocionalmente, em uma Paris completamente alheia às suas necessidades. A atriz praticamente novata, Laetítia Dosch ( prêmio Lumiere e uma indicação ao César). exala talento, entregando perfeitamente uma personagem que sofre, que precisa se desconstruir e se reconstruir, mas sem abrir mão do bom humor. Ah, como eu entendo a Paula. geniosa e muitas vezes com razão, ela precisa procurar uma necessária placidez e fazer um exercício diário para não perder sua sanidade.
Mas no fim ela entende, mesmo que a duras penas, que nem sempre o caminho mais fácil e mais confortável é o mais seguro. Palmas para essa atriz!

IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,5/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Jeune Femme ou Montparnasse Bienvenue.
País: França.
Ano: 2017
Direção: Léonor Serraille.
Roteiro: Léonor Serraille, Bastien Daret, Clémence Carré.
Elenco: Laetítia Dosch, Souleymane Seye Ndiaye. Grégoire Monsaingeon.


(Por: Cecilia Peixoto)

sábado, 9 de março de 2019

O BANQUETE


Sinopse:
Na época do Impeachment de Fernando Collor de Mello, um grupo de intelectuais se encontra em um jantar: uma grande atriz, um jornalista famoso, um advogado e sua esposa, uma crítica de teatro, um colunista e uma jovem atriz e modelo. O jornalista Mauro escreveu um artigo contra Collor e corre o risco de ser preso naquela noite. No jantar regado a muito vinho, conforme a tensão aumenta com a iminência da prisão, vários segredos públicos e privados vêm a tona.
Com direção de Daniela Thomas, premiada cineasta, diretora teatral, dramaturga, iluminadora, cenógrafa e figurinista brasileira , filha de Ziraldo e irmã do compositor Antonio Pinto, o filme, apesar do delicioso vinho servido fartamente e das iguarias, não é de fácil digestão.
Em 2017, em seu primeiro trabalho solo (foi parceira de Walter Salles em filmes como “Terra Estrangeira” e “Linha de Passe” ), o filme Vazante provocou muitas polêmicas. O longa foi um dos concorrentes no 50º Festival de Brasília, no início do último mês de setembro, e, na noite seguinte à sua exibição, foi alvo de duras críticas, inclusive à diretora e a toda sua equipe de produção, durante um debate com outros nomes do cinema brasileiro, por levantar a questão da "fragilidade branca".
Em sua defesa, Daniela diz ter colocado nas telas a sua visão de mundo e que, em nenhum momento, quis defender qualquer tipo de militância, mas sim, contar histórias que ouvira de seus antepassados, enfatizando a questão da miscigenação violenta que formou a nossa sociedade. "Eu realmente não fiz o filme que seria um retrato do que o movimento negro quer ver representado na grande tela, hoje", pontua.
Em O Banquete, na minha opinião, a Daniela deveria ter se aprofundado mais no plano político. São os anos 90 presididos então por Fernando Collor. Mas ela não ousou. O jantar, que a princípio pareceu ser um agrado da anfitriã (Drica Moraes) ao casal de amigos que estava completando dez anos de casados, tem mais o objetivo de mostrar a futilidade e a decadência da elite brasileira. Mauro (Rodrigo Bolzan), o homenageado, está prestes a ser preso por ter escrito e assinado uma carta pública contra o presidente. Em uma clara referência a Otavio Frias Filho, diretor na época do Jornal Folha de São Paulo. Também inspirada em "O Banquete", de Platão, a conversa gira sobre a natureza e as qualidades do amor. Nora, a anfitriã, propõe mesmo aos convidados que naquela noite reflitam sobre o amor tendo “Baco como juiz”, embriagando-se de vinho. Será o amor um bom sentimento?
O filme é desenvolvido de forma teatral, com interpretações e diálogos exagerados, em um ambiente único e fechado, tendo como cenário uma linda sala e uma mesa arrumada de forma luxuosa. Maria, que foi acompanhada de Lucky, percebe logo ao chegar que aquele jantar é uma espécie de armadilha e quer ir embora, aflita. Mas Lucky se vê seduzido pelo caríssimo vinho e por Ted (Chay Suede), o chef de cozinha contratado, que é o único que destoa daquele ambiente que parece ter apodrecido. O casal aniversariante não percebe de início onde foi se meter. Quanto mais bêbados e alterados, mais "lavação de roupa suja", acentuadas com a chegada da stripper cat (Bruna Linzmeyer) e de Claudinha. Só o marido de Nora (Caco Ciocler) parecia não se surpreender com nada daquele jantar. É o absurdo e a decadência das relações humanas imperando.
IMDB: 6,3/ 10 Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,4/ 5
Ficha técnica: Nome original: O Banquete. País: Brasil. Ano: 2018 Direção: Daniela Thomas. Roteiro: Daniela Thomas.
Elenco: Drica Moraes, Caco Ciocler, Mariana Lima, Rodrigo Bolzan, Chay Suede, Bruna Linzmeyer, Gustavo Machado, Fabiana Gugli, Georgette Faddel.



sexta-feira, 8 de março de 2019

MADE IN ITALY





Uma vez vi um filme em que a história se resumia em: "o importante não é para onde se vai, mas para onde se volta". 
"Made in Italy" é um filme que nos remete a recordações: amigos que perdemos, família, amores, desgastados porque estamos desgastados, períodos que parecem ser uma vida inteira, onde não vemos saída para nossas mazelas, apenas sobrevivemos, ...
... a busca de um sentido, ...será que é só isso?

"Cosa ci faccio qui?!" (O que estou fazendo aqui?)
Você já se perguntou isso? Teve a resposta?
Costumo me perguntar se somos nós que fazemos nossas escolhas ou se somos escolhidos.
Uma amiga me disse essa semana que tem preferência pelos filmes italianos, por serem românticos e passionais.
Riko vive em uma pequena cidade na Itália em uma casa construída pelo seu avô, ampliada pelo seu pai e que ele, com o seu insignificante emprego há 30 anos em uma fábrica de embutidos (mortadelas "made in Italy") mal tem condições de manter. A situação da Itália não vai nada bem e o fantasma do desemprego assoma a todos. Ricco aconselha seu filho a sair da cidade, procurar outros ares, oportunidades diferentes da dele. A vida com sua mulher também não vai nada bem, ele desconfia que ela o esteja traindo. E Ricco vai seguindo assim, bebendo e jogando com seus amigos, uma aventura aqui, outra ali, para ele é só sexo. "Empurrando a vida com a barriga", como se diz no popular. 
Às vezes ele se pergunta: "Cosa ci faccio qui?!"

Uma vez ele se mete em uma confusão e leva uma cacetada na cabeça e desmaia. Perguntam-lhe o que ele pensou antes de desmaiar, ele diz que pensou que queria não pensar em nada.
Made in Italy recebeu o Nastro d’Argento de melhor história, mas não é filme que vá agradar às feministas. Porque Riko é o verdadeiro macho italiano. Ele tem amante, mas seu brio é afetado só de pensar que a sua mulher possa ter. A mulher com quem ele mal fala, mal dá atenção. Claro, como um bebezão, ele se queixa que a culpa é dela. A mulher é cabeleireira e o salão vai bem, mesmo que ele perca o emprego, o problema não chega a ser o dinheiro, mas sua autoestima de macho. E o filme todo é contado sob o ponto de vista de Riko. Não que a história em algum ponto o defenda, mas o carisma do ator (Stefano Accorsi) faz com que o vejamos com mais indulgência. Afinal, ele é o produto do meio cultural. E aqui fico me perguntando se os filmes italianos estão mais propensos a propagarem esse tipo de cultura. Se esse modelo de homem não é "made in Italy".
Sobre o diretor: Luciano Ligabue é um cantor e compositor italiano, além de escritor e diretor filmográfico. Ligabue nasceu na província de Reggio Emilia. Antes de tornar-se um cantor bem-sucedido, Luciano sustentou vários empregos, trabalhando com agricultura e em empresas.
Bem, mas é um filme que nos envolve: com suas belas músicas, mostra também vários lugares lindos da Itália. A queixa é sobre o que estão fazendo com a terra tão amada. É também uma bela história também sobre amizades e uma reflexão sobre afinal o que importa. Meio piegas? Sim, talvez. Como a paixão italiana.
"Cosa ci faccio qui?!"

"É necessário se ter uma aldeia,
nem que seja apenas
pelo prazer de abandoná-la.
Uma aldeia significa
não estar sozinho,
saber que nas pessoas,
nas plantas,
na terra,
há alguma coisa de nós,
que, mesmo quando
não se está presente,
continua a nossa espera." 
(Cesare Pavese).

O filme foi exibido durante o Festival de Cinema Italiano 2018. O festival começou em Lisboa, em 2008, e já tem 10 anos de sucesso passando por dezenas de cidades lusófonas e em três continentes diferentes. No Brasil, em 2017, os filmes foram exibidos em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Recife e em 2018 Vitória, Goiânia, Belém e Florianópolis passaram a integrar o circuito.
IMDB: 5,9/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Made in Italy.
País: Itália.
Direção: Luciano Ligabue.
Roteiro: Luciano Ligabue.
Elenco: Stefano Accorsi, Kasia Smutniak, Fausto Maria Sciarappa, Walter Leonardi.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

GIRL




Sinopse: Girl fala de uma bailarina transexual de15 anos que tem problemas de aceitação de seu corpo.

É baseado na história real de Nora Monsecour, uma menina cuja transição de gênero chegou às manchetes da Bélgica quando tinha 16 anos e que sonhava em seguir carreira como bailarina.

Um filme extremamente sensível e que retrata toda a angústia de Lara, seu sofrimento solitário.
 



O filme não explica desde quando Victor percebeu que não era um menino. Nem quando a família percebeu. Também não mostra o que aconteceu com a mãe dele/ dela. Lara, então com 15 anos, vive com seu pai, Mathias, e seu irmão de 6 anos, Milo. Lara é uma espécie de mãe para Milo. Cuida dele, dá carinho, o leva na escola... Lara tem todo o apoio do seu pai, ele a incentiva e tenta lhe dar o suporte necessário na sua transição, inclusive acompanhando-a em todas as consultas médicas. Seus professores e colegas de escola e do balé, mesmo sabendo, parecem não ter problemas em aceitá-la. É claro que sempre existe um bullyng, mesmo que velado. Mas o pior inimigo de Lara é o espelho, quando se despe e tenta encarar sua realidade.
O filme é de uma qualidade cinematográfica incrível, mesmo sendo a estreia do belga Lukas Dhont. Também é estreante o ator Victor Polster, que interpreta Lara. Confesso que ele estava tão perfeito que tive dúvidas em algumas cenas: se ele não era mesmo uma menina e que o corpo era montagem. Polster, que aprendeu a dançar na Royal Ballet School of Antwerp, recebeu louvores da imprensa internacional.
A obra, diretor e ator, receberam muitos elogios, prêmios e indicações. Foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro 2019 e ao Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Filme 2018. O filme levou a Queer Palm no Festival de Cannes 2018. O prêmio é oferecido, desde 2010, à melhor produção com temática LGBT. Também ganhou o prestigiado Caméra d'Or, troféu destinado ao melhor longa de um diretor estreante. Victor Polster ganhou o prêmio do juri da Un Certain Regard (mostra paralela do festival) de melhor performance. Entre muitos outros prêmios e indicações.

Mas, como sempre tem os "chatos de carteirinha", Girl vem também recebendo reações negativas, por parte da comunidade LGBT. Tanto pelo fato do ator que encarna a personagem Lara ser um ator cis (cisgênero é o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”) quanto por cenas consideradas violentas demais.
Em sua defesa, Nora Monsecour, que no filme se vê representada na personagem Lara, afirma que “Girl” conta a história da sua adolescência “de uma forma que não mente e também não esconde. Quem está criticando o filme está impedindo que outras histórias trans sejam compartilhadas com o mundo. Todos os dias vejo pessoas trans lutando por seus sonhos. Eles não são fracos ou frágeis. Dizer que a experiência da personagem não é válida por termos um ator cis ou por ter sido realizada por um diretor cis, acaba me ofendendo” escreveu ela, em carta aberta ao Hollywood Reporter.
Lara é então uma pessoa com um relativo padrão financeiro que permite que ela more em um apartamento com conforto, que possa estudar em uma boa escola e aprender a dançar, que tenha apoio médico e psicológico, que tenha em vista uma cirurgia que permitirá que ela realize seu sonho. E uma família bacana. Aliás, fiquei pensando o tempo todo no sofrimento daquele pai. Mas que nem de perto se compara ao sofrimento dela, porque como disse o diretor, Lara tem forças destrutivas dentro dela, ela é a sua maior antagonista. Voltando a falar do espelho, que é muito presente no filme todo, a Lara nua do outro lado é a sua pior inimiga. Mesmo que seu pai e todos a tratem como menina, que a vejam como menina, a Lara do espelho está lá, desmascarando-a. Para compensar, Lara tenta chegar à perfeição na dança, numa tentativa quase cruel com ela mesma de se ver no espelho da academia e aos olhos do mundo como uma bailarina, uma bailarina mulher.
A partir de 15 de março, o filme estará disponível na Netflix. Pelo que eu entendi, já era pra estar, mas houve uma polêmica após o serviço de streaming anunciar que cortaria uma das cenas do filme, que envolve nudez do ator de 15 anos Victor Polster. O diretor Lukas Dhont lançou uma declaração contra essa decisão. A versão de Girl que estreará na Netflix será então a mesma versão que foi exibida em Cannes e nos cinemas da Bélgica e outras partes do mundo.
(Por: Cecilia Peixoto)
IMDB: 7,2/ 10

Filmow: 3,8/ 5

Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:

Nome original: Girl

Outros títulos: Girl: O Sonho de Lara.
País: Bélgica.
Ano: 2018
Direção: Lukas Dhont.
Roteiro: Lukas Dhont, Angelo Tijssens.
Elenco: Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart.









Nora Monsecour, a bailarina retratada em "Girl"

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

BORDER






Baseado na história de mesmo nome de John Ajvide Lindqvist, da antologia Let the Old Dreams Die. No Festival de Cannes 2018 foi coroado com o prêmio Un Certain Regard. O filme foi selecionado como o concorrente sueco no Óscar 2019 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, no entanto foi nomeado apenas na categoria de Melhor Maquiagem e Penteados.
PREPARE-SE PARA FICAR INTRIGADO POR PRATICAMENTE OS CEM MINUTOS DO FILME!

Tina é uma guarda de fronteira com um faro especial, quase animal, para identificar contrabandistas. Ela nasceu com um problema nos cromossomos e talvez até por isso tenha essa habilidade. Mas quando Tina pede para revistarem Vore, nada é encontrado. Tina tem certeza que existe alguma coisa, mas pela primeira vez não consegue provar. Ao se aproximar mais de Vore, ela vai se confrontar com terríveis revelações sobre ela mesma.

Ao mesmo tempo que bizarra, a história é sensível , "o filme explora dicotomias entre o feio e o belo, a inocência e a experiência, o bem e o mal". E sobre o que se aproxima do significado de humano ou não.

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Gräns
Título no Brasil: Fronteira.
País: Dinamarca/ Suécia.
Ano: 2018
Direção: Ali Abbasi
Roteiro: Ali Abbasi.
Elenco: Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson






Os atores Eero Milonoff e Eva Melander.








terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

ADEUS CHRISTOPHER ROBIN




Quem viu o desenho do Ursinho Pooh talvez não saiba que existiu um verdadeiro Christopher Robin (no desenho em português, chamava-se Cristóvão). O filme explica como surgiu a história (não, não é um filme fofo) e como isso afetou toda a família.
Inglaterra, década de 1920, Alan Milne decide mudar-se para um local afastado a fim de encontrar inspiração para escrever. A. A. Milne, como era conhecido, já era famoso, mas estava em um período de estagnação.
Seu filho lembrava que nos seus primeiros anos de vida, a presença de seu pai era quase uma raridade. Ele estava sempre viajando e mesmo quando estava em casa, era sempre trabalhando. Sua mãe cuidava para que ele não atrapalhasse o pai. A mãe também não se ocupava muito com ele, Christopher Robin basicamente foi criado por sua babá, que era muito boa para ele.
Quando eles se mudaram para a casa nova, Robin ganhou um ursinho de pelúcia de sua mãe. Ganhou também outros bichinhos. Christopher batizou seu ursinho de Winnie-the-Pooh: Winnie em homenagem a um urso que sempre via no zoológico e Pooh, por causa de um cisne que haviam conhecido em um feriado. A residência era perto de uma floresta e ele começou a fazer alguns passeios com o pai e pela primeira vez Robin sentia-se em total felicidade, a mãe perto, o pai disponível e sua querida Nou, a babá, todos juntos.
"A minha infância foi maravilhosa, crescer é que foi difícil."
Nos passeios com o pai, Robin, como a maioria das crianças, não parava de tagarelar e de fantasiar, criava aventuras com seu ursinho, com o tigre que podiam encontrar na floresta e, aos poucos, uma história ia se montando na cabeça de seu pai. Até que finalmente foi lançado o livro "Winnie-the-Pooh", que se tornou um grande sucesso mundial. Pooh (Puff) foi nomeado por causa do ursinho de Robin. Outros brinquedos verdadeiros de Robin também emprestaram seus nomes para outros personagens, como Tigrão, Bisonho e Leitão.
Christopher se tornou uma celebridade instantânea pouco tempo depois que os livros de seu pai começaram a chegar nas mãos das crianças no mundo todo. Pessoas de todos os lugares escreviam cartas e vinham até sua casa visitá-lo. E, dessa forma, ele se tornou a estrela de uma campanha publicitária para promover o livro.
E, isso, claramente mexeu muito com a pequena criança. A história de Christopher Robin, que ficou conhecido como Christopher, mas que em casa era apenas Billy, e que queria apenas ser Billy, está, de fato, bem longe da magia e alegrias dos contos de seu pai.
" - Eu não sou Christopher Robin", se queixa, Billy, chorando.
A mãe, sempre formal com ele, a mesma mãe que falava que quase morreu para pari-lo e que dizia para a babá que ela tinha sido contratada para fazê-lo feliz, se isentando assim de sua responsabilidade, lhe diz :
" - Não chore, Billy, não choramos nesta casa."
Ele cresceu e sua relação com seu pai só piorava. Robin teria dito a ele que "quem iria imaginar que aquele ursinho iria nos engolir?" O pai lhe diz, tentando se desculpar: "- Aqueles dias que passamos só nós dois foram os melhores da minha vida." Billy responde: " - Sim, eu sei. Mas você os vendeu."
" - Eu só queria você, Blue." (era como ele chamava o pai)
.A única pessoa que parecia se importar com ele realmente em sua infância era sua babá, Olive, a quem ele se referia carinhosamente como Nou. Ela se preocupava com essa exposição toda do menino. Para Olive, "uma pessoa deve fazer aquilo que ama com a pessoa que ama..."
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Essa parte não está no filme. 
Robin em uma entrevista fez duras críticas a seus pais na frente de milhões de espectadores do mundo todo.

"Me pareceu, quase, que meu pai tinha chegado onde estava, por se apoiar em meus ombros infantis. Que ele roubou de mim meu bom nome e me deixou com nada além da fama vazia de ser seu filho." afirmou ele.
Sua mãe ficou tão chateada que pediu a seus funcionários para que enterrassem a estátua de Christopher para que ela não precisasse olhar mais para a imagem. Após, a morte de A.A. Milne, sua mãe ainda viveu por mais 15 anos e durante esse período apenas se encontrou com Christopher uma única vez. Quando sua mãe já estava bem debilitada, Robin tentou se reaproximar e até mesmo teria implorado para poder ver sua mãe uma última vez antes que ela fizesse sua passagem. No entanto, ela se recusou a recebê-lo.
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Por: Cecilia Peixoto

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Goodbye Christopher Robin.
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Ano: 2017
Direção: Simon Curtis.
Roteiro: Simon Vaughan.
Elenco: Domhnall Gleeson, Will Tilston, Margot Robbie, Alex Lawther, Kelly McDonald, Stephen Campbell Moore.















segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

SE A RUA BEALE FALASSE




Adaptação do quinto romance do escritor norte-americano James Baldwin, cujo título, que é o mesmo, é uma referência à canção de 1916," Beale Street Blues ", de WC Handy, que, por sua vez, faz uma homenagem a Beale Street, no centro de Memphis, Tennessee .
Barry Jenkins, que dirigiu o filme vencedor do Oscar 2017, Moonligth - Sob a luz do luar, desbancando o favorito La La Land, escreveu e dirigiu a adaptação cinematográfica do romance Se a Rua Beale Falasse, estrelando KiKi Layne como Tish e Stephan James como Fonny, uma história de amor ambientada no Harlem no início dos anos 70.

Tish e Fonny conheciam-se desde quando podiam se lembrar, cresceram juntos, já admiravam-se e amavam-se e o romance já adultos aconteceu de uma forma natural, como se eles já tivessem nascido para isso. Estavam noivos e felizes, procurando um lugar para morarem juntos, quando Fonny é injustamente acusado de um crime. O romance explora as diferentes reações dos pais e irmãos dos dois jovens adultos e o destaque é para a mãe de Tish, interpretada por Regina King, vencedora de vários prêmios pelo papel e também indicada ao Oscar 2019, que sofre junto com a filha e tenta ajudar de toda forma.
Alternando o presente com as lembranças, em câmera lenta, em uma analogia poética ao estado quase de torpor de Tish perante tanta injustiça e impotência e à necessidade de não esmorecer na luta para libertar Fonny. "Levante a cabeça, irmã".
Ótimas atuações e uma belíssima fotografia. A forte presença do Harlem se traduz na trilha sonora assinada por Nicholas Britell. O Harlem é um bairro de Manhattan na cidade de Nova Iorque, conhecido por ser um grande centro cultural e comercial dos afro-americanosNo anos 20, o estilo musical que ganhou força lá foi o Jazz. Longas noites regadas a boa música levaram com que vários moradores do Harlem Nova York virassem ícones do Jazz pelo mundo a fora
Também nós ficamos aturdidos porque aparentemente Fonny só é preso pelo fato de ser negro, em uma alusão ao racismo presente nos EUA dos anos sessenta/ setenta e que, infelizmente, vemos até hoje e aqui mesmo, no Brasil.
Três indicações ao Oscar: Melhor Atriz Coadjuvante (Regina King), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original.

W.C.Handy: Beale Street Blues.
https://www.youtube.com/watch?v=lIBz-HfRui8


(Por: Cecilia Peixoto)
IMDB: 7,5/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: If Beale Street Could Talk
País: EUA
Ano: 2018
Dirigido por: Barry Jenkins.
Roteiro: Barry Jenkins.
Elenco: Kiki Layne, Sthephan James, Regina King.

GUERRA FRIA






O filme que conquistou o Festival de Cannes tem três indicações ao Oscar 2019: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Diretor e Melhor Fotografia. O diretor Pawel Pawlikowski e o diretor de fotografia Lukasz Zal são responsáveis por algumas cenas e sequências que são uma verdadeira pintura e/ou preciosidade.
Pawlikowski, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 com “Ida”, também transcorrido nos tempos do comunismo, nega ser nostálgico com relação à época da Guerra Fria, mas que considerou ser perfeita para situar uma história de amor impossível: "Havia muitos obstáculos na época, e o amor é, em grande parte, uma questão de superar obstáculos”.

O filme também se inspira na experiência pessoal. Pawel, hoje com 61 anos, foi para o exílio aos 14 anos, quando sua mãe bailarina fugiu com ele para o Ocidente. Os protagonistas foram batizados em homenagem aos seus falecidos pais.
“Há muitas coisas em comum entre este casal e meus pais. Eles foram um casal um tanto desastroso que se apaixonou, se separou, se apaixonou novamente, se casou com outras pessoas, se juntou novamente, mudou de país, rompeu, se juntou novamente e assim por diante”.

As belíssimas fotografias em preto e branco acompanham o romance, que vai das fazendas de camponeses da Polônia aos clubes de jazz de Paris entre os anos 1940 e 1960.
O músico Wiktor fica fascinado por Zula (Joanna Kulig) logo que a vê e ouve, no primeiro teste. Ele percebe que ela é especial. Ela lhe pergunta se o interesse dele por ela é só profissional. O romance entre o professor e a aluna não demora muito para acontecer e Zula também não decepciona, mostrando que realmente tem talento. O conflito político não é o tema central, mas o filme mostra a manipulação que o regime comunista fazia até mesmo utilizando a arte e assim o projeto feito com esmero por Wiktor e sua parceira Irena de resgatar o folclore acaba sendo sabotado.
Os protagonistas visivelmente se amam mas vivem uma relação bastante conturbada, chega a dar raiva às vezes. Que dificuldade para duas pessoas ficarem juntas. É o pós-guerra e consequente início da cortina de ferro, na Polónia, passando depois por uma Berlim dividida e uma bucólica Paris e Jugoslávia. Mas os obstáculos não vêm apenas da situação política: ele, bem mais velho que ela, não consegue lidar com o forte temperamento dela. Ele deseja viver em um país livre e acaba ficando sem recursos, ela se torna uma estrela, mas sempre atrelada aos interesses dos governantes de seu país. Ao mesmo tempo, eles fazem coisas que muitos amantes não fariam. O amor, interrompido tantas vezes pelo tempo e distância, esse amor quase platônico, persiste, intenso, não desiste...

...e quem sabe simbolize também o amor eterno dos nossos personagens pela Polônia natal.

(Por: Cecilia Peixoto)

IMDB: 7,7/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Zimna Wojna
País: Polônia.
Ano: 2018
Direção: Pawel Pawlikowski
Roteiro: Pawel Pawlikowski, Janusz Glowacki.
Elenco: Joanna Kulig, Tomasz Kot.








Diretor Pawel Pawlikowski e atores Joanna Kulig e Tomasz Kot no Festival de Cannes.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

NO PORTAL DA ETERNIDADE





Vamos falar de Van Gogh? Vamos falar sobre essa interpretação maravilhosa do Willem Dafoe? Ah, fiquei encantada com esse filme, gente. Conheço a história desse grande pintor que muito admiro. Vi "Vincent e Theo", "Com Amor, Van Gogh", li algumas coisas, livros, cartas, mas o filme me trouxe algo de novo, um olhar de alguém que se admitia louco, mas que se sabia vivo, ele queria passar aquela vida para as pessoas, a vida como ele a via, o presente divino que era a natureza que ele pintava através do dom que ele acreditava ter recebido também de Deus. O seu propósito de vida! Como ele dizia, era só isso que ele sabia fazer, então nasceu para fazer isso: pintar!
"- Mas você acha que isso é uma pintura? Seus quadros são desagradáveis." 
"- Deus não me daria um dom para pintar coisas desagradáveis".

Willem Dafoe passou todo o deslumbramento do personagem quando ele sentia a luz do sol tocar seu rosto, aquecer seu corpo, o vento a afagá-lo, a carícia dos milharais por onde ele passava... e nessas horas ele se sentia bem, uma sensação de completude... muito embora talvez lhe faltasse alguém com quem dividir aquilo. Mas também por isso ele pintava, era a sua maneira de se comunicar, de se conectar com as outras pessoas, ele pretendia que elas vissem o que ele via. E enquanto pintava, ele não pensava em nada. Não pensava na sua solidão.
" Eu só quero ser um deles. Eu gostaria de me sentar
com eles pra tomar uma bebida e conversar sobre qualquer coisa. Eu gostaria que eles me dessem tabaco, uma taça de vinho ou simplesmente me perguntassem: "Como vai você hoje?" E eu responderia, e nós conversaríamos. E de vez em quando, eu faria um esboço de algum deles como presente. Talvez eles o aceitassem,e o guardassem em algum lugar. E uma mulher sorriria para mim e perguntaria: "Estás com fome? Gostaria de algo para comer?" "Um pedaço de presunto, um pouco de queijo ou talvez uma fruta?""
Ai, doeu meu coração...

Tem um diálogo muito interessante dele com o Gauguin. Esse último o critica por ele se basear na natureza para pintar, achava que ele tinha que tirar sua pintura de dentro da cabeça, que o que ele pinta pertence a ele. Que não precisava imitar nada, até porque cada pessoa tem uma maneira diferente de ver a mesma coisa. Vincent se defende, dizendo que sabe disso, que ele mesmo cada vez que olhava, via algo diferente, que ele não copiava a natureza, que apenas a libertava. (Que lindo!)
Às vezes ele tinha muita raiva, ele admitia. Eu, no lugar dele, sentiria também, as pessoas perguntavam para ele por que ele pintava, por que ele se considerava um pintor, zombavam dele. Van Gogh não sabia muita coisa, mas a única certeza que tinha era que sim, ele tinha talento, sim, ele nasceu para pintar. "- E o que você faz quando sente raiva?" "- Eu olho para o sol". Vincent adorava os quadros brilhantes, pintados à luz do sol, os girassóis, o amarelo!
Alguém achou o filme angustiante, deprimente, mas eu achei que o personagem transmitiu uma paz, uma paz que vinha da sua fé, da sua certeza. Perguntado se vivia dos seus quadros, ele responde que não, que é pobre, mas que talvez Deus o tenha feito pintar para pessoas que ainda não nasceram.
"A vida é para ser semeada, a colheita não é aqui".
Outra coisa que me surpreendeu no filme foi o elenco. Vi pelo Dafoe e torço para ele ganhar o Oscar, embora não acredite. Oscar Isaac é Gauguin. Mas de repente quem surge? Emannuele Seigner. Mais tarde, Van Gogh aparece conversando com um personagem interpretado por Niels Arestrup. E depois há um outro ótimo diálogo com um padre, que é Mads Mikkelsen! Quando ainda estou me recuperando da surpresa, quem é o ator que interpreta o Dr Paul Gachet? Mathieu Amalric. Fora que ainda tive que voltar ao filme porque nos créditos finais (não deixe de ver os créditos finais), vejo que Vincent Pérez também faz parte do elenco e me escapou. E ainda tem a voz do Louis Garrel lendo uma carta.
A trilha sonora e os belos cenários casam bem com o estilo contemplativo do filme, mas é claro que se você não conhece um pouco da história de Van Gogh e do seu irmão Theo, e de sua conflituosa amizade com Paul Gauguin e de todos aqueles personagens que aparecem ou são mencionados no filme, pode ficar um pouco confuso.
O diretor Julian Schnabel ( O Escafandro e a Borboleta, Basquiat) é também pintor. Considerado um dos mais originais da sua geração, integra-se no movimento do neo-expressionismo, e está representado em alguns dos principais museus do mundo.
"Sim, ele amava o amarelo, esse bom Vincent" 
(Paul Gauguin).

(Por: Cecilia Peixoto)

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: At Eternity"s Gate
País: EUA/ França.
Ano: 2018
Dirigido por: Julian Schnabel
Roteiro: Julian Schnabel, Jean-Claude Carrière.
Elenco: Willem Dafoe, Rupert Friend, Emmanuelle Seigner, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Oscar Isaac, entre outros.




Vincent e Theo van Gogh