"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira" . Liev Tolstoi, Anna Karenina.
Mas a família retratada no mais novo filme do cineasta japonês Hirokazu Koreeda foge à regra. Porque, ao seu modo, era uma família feliz. E era diferente de qualquer outra. Na verdade, foge a muitas regras...
A princípio, não entendemos muito a ligação deles: uma senhora idosa, a quem todos chamavam de "vovó", um casal, uma jovem e um menino. Eram bem pobres, moravam todos em um cômodo só, onde cozinhavam, comiam, dormiam. Além daquele cômodo, só um banheiro. A privacidade só se exercia no banheiro, mas não parecia que ninguém sentia falta disso. Riam, contavam histórias, dividiam as refeições, ... Vovó podia estar costurando enquanto a jovem se encostava nela para se aquecer com o calor do seu corpo. Um dia encontraram uma menininha que estava sozinha, passando frio, e levaram pra lá. Ela parecia um passarinho assustado, tinha medo de levantar os olhos, de falar. Já era tarde e ela acabou ficando naquele dia. No outro também. Aos poucos foi adquirindo confiança e deixando escapar que era maltratada pelos pais. Pensaram em levá-la de volta. Mas ficaram com pena. E também já tinham se afeiçoado a ela. O menino ficou um pouco enciumado, mas aquele que queria ser chamado de pai por ele, mas que ele ainda não conseguia, lhe disse: "- é sua irmã.".
Sim, porque naquela família, os laços não eram impostos pelo nascimento, mas pelo acolhimento.
Um dia, uma foto da menininha, Yuri, apareceu no telejornal, estavam dando ela como sequestrada. Não os pais, eles nem procuraram por ela. Nobuyo, que cuida dela como uma mãe, lhe pergunta se ela quer voltar pra casa. Mas percebe que ela tem medo.
Os códigos morais da Família Shibata eram bem diferentes. Osamu ensinava às crianças a roubar. É claro que ficamos chocados com isso. Eles roubavam em lojas. Segundo Osamu, não roubavam nada que pertencia a ninguém, pois ainda estavam à venda. Nobuyo tambem não achava que tinham sequestrado a menina, que agora tinha o cabelo curto e roupa nova e até um nome novo: Rin. Como, se não pediram dinheiro? Já o código familiar deles era muito simples: eles se tratavam bem, se protegiam, se importavam uns com os outros. Em nenhum momento, apesar das dificuldades financeiras, pensaram em Yuri como mais uma boca para alimentar. Para eles era mais uma pessoa para amar.
Um dos momentos mais lindos que achei foi quando perguntaram pra Osamu por que ele ensinava às crianças a roubar. E ele responde: " - porque eu não sei fazer mais nada, era só isso que eu tinha para ensinar... " Como qualquer pai, ele queria ser admirado por alguma coisa que soubesse fazer bem.
Mas ele não era qualquer pai e nem ela era qualquer mãe. E o filme nos leva a diversos questionamentos sobre o que é certo e o que é errado. Mais uma obra sensível de Koreeda sobre assuntos de família.
O filme concorreu ao Oscar 2019 como Melhor Filme Estrangeiro, mas quem venceu foi Roma, que também é o retrato de uma família e, curiosamente, os dois têm cenas emblemáticas em praias.
IMDB: 8,1/ 10
Filmow: 4,3/ 5
Minha nota: 4,2 / 5
Ficha Técnica:
Nome original: Manbiki Kazoku.
Outros nomes: Shoplifters, 万引き家族
País: Japão.
Ano: 2018
Direção: Hirokazu Koreeda.
Roteiro: Hirokazu Koreeda.
Elenco: Lily Franky, Jyo Kairi, Miyu Sasaki, Sakura Andou, Kirin Kiki. Mayu Matsuoka.

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