Cinéfilos Eternos: Italianos
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sexta-feira, 8 de março de 2019

MADE IN ITALY





Uma vez vi um filme em que a história se resumia em: "o importante não é para onde se vai, mas para onde se volta". 
"Made in Italy" é um filme que nos remete a recordações: amigos que perdemos, família, amores, desgastados porque estamos desgastados, períodos que parecem ser uma vida inteira, onde não vemos saída para nossas mazelas, apenas sobrevivemos, ...
... a busca de um sentido, ...será que é só isso?

"Cosa ci faccio qui?!" (O que estou fazendo aqui?)
Você já se perguntou isso? Teve a resposta?
Costumo me perguntar se somos nós que fazemos nossas escolhas ou se somos escolhidos.
Uma amiga me disse essa semana que tem preferência pelos filmes italianos, por serem românticos e passionais.
Riko vive em uma pequena cidade na Itália em uma casa construída pelo seu avô, ampliada pelo seu pai e que ele, com o seu insignificante emprego há 30 anos em uma fábrica de embutidos (mortadelas "made in Italy") mal tem condições de manter. A situação da Itália não vai nada bem e o fantasma do desemprego assoma a todos. Ricco aconselha seu filho a sair da cidade, procurar outros ares, oportunidades diferentes da dele. A vida com sua mulher também não vai nada bem, ele desconfia que ela o esteja traindo. E Ricco vai seguindo assim, bebendo e jogando com seus amigos, uma aventura aqui, outra ali, para ele é só sexo. "Empurrando a vida com a barriga", como se diz no popular. 
Às vezes ele se pergunta: "Cosa ci faccio qui?!"

Uma vez ele se mete em uma confusão e leva uma cacetada na cabeça e desmaia. Perguntam-lhe o que ele pensou antes de desmaiar, ele diz que pensou que queria não pensar em nada.
Made in Italy recebeu o Nastro d’Argento de melhor história, mas não é filme que vá agradar às feministas. Porque Riko é o verdadeiro macho italiano. Ele tem amante, mas seu brio é afetado só de pensar que a sua mulher possa ter. A mulher com quem ele mal fala, mal dá atenção. Claro, como um bebezão, ele se queixa que a culpa é dela. A mulher é cabeleireira e o salão vai bem, mesmo que ele perca o emprego, o problema não chega a ser o dinheiro, mas sua autoestima de macho. E o filme todo é contado sob o ponto de vista de Riko. Não que a história em algum ponto o defenda, mas o carisma do ator (Stefano Accorsi) faz com que o vejamos com mais indulgência. Afinal, ele é o produto do meio cultural. E aqui fico me perguntando se os filmes italianos estão mais propensos a propagarem esse tipo de cultura. Se esse modelo de homem não é "made in Italy".
Sobre o diretor: Luciano Ligabue é um cantor e compositor italiano, além de escritor e diretor filmográfico. Ligabue nasceu na província de Reggio Emilia. Antes de tornar-se um cantor bem-sucedido, Luciano sustentou vários empregos, trabalhando com agricultura e em empresas.
Bem, mas é um filme que nos envolve: com suas belas músicas, mostra também vários lugares lindos da Itália. A queixa é sobre o que estão fazendo com a terra tão amada. É também uma bela história também sobre amizades e uma reflexão sobre afinal o que importa. Meio piegas? Sim, talvez. Como a paixão italiana.
"Cosa ci faccio qui?!"

"É necessário se ter uma aldeia,
nem que seja apenas
pelo prazer de abandoná-la.
Uma aldeia significa
não estar sozinho,
saber que nas pessoas,
nas plantas,
na terra,
há alguma coisa de nós,
que, mesmo quando
não se está presente,
continua a nossa espera." 
(Cesare Pavese).

O filme foi exibido durante o Festival de Cinema Italiano 2018. O festival começou em Lisboa, em 2008, e já tem 10 anos de sucesso passando por dezenas de cidades lusófonas e em três continentes diferentes. No Brasil, em 2017, os filmes foram exibidos em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Recife e em 2018 Vitória, Goiânia, Belém e Florianópolis passaram a integrar o circuito.
IMDB: 5,9/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Made in Italy.
País: Itália.
Direção: Luciano Ligabue.
Roteiro: Luciano Ligabue.
Elenco: Stefano Accorsi, Kasia Smutniak, Fausto Maria Sciarappa, Walter Leonardi.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

UMA FAMÍLIA




Sebastiano Riso, roteirista e nascido na Catania, Itália, estreou na direção com o filme Mais Sombrio Que a Meia-Noite (2014), cinebiografia da famosa Drag Queen Fuxia, que viveu períodos complicados nas ruas de Catânia, Sicília, nos anos 80. David tinha 13 anos e estranhava seu corpo, só tinha uma certeza: queria ser cantor. Delicado e triste, mostra do como a família pode destruir ao invés de amparar pelo fato de não saber lidar com o diferente.
O filme Una Famiglia foi indicado ao Leão de Ouro e Sebastiano Riso a melhor diretor (Leão de Prata), entre outras indicações.

Em sua passagem pelo Rio de Janeiro para apresentar seu outro filme, Una Famiglia, no Festival do Rio 2017, Riso diz que usa o seu cinema para denunciar, o que traz ao espectador desconforto e até revolta. Riso foi espancado dentro de seu próprio apartamento em um ataque de características homofóbicas. Mas ele acredita também que teve a ver com o incômodo que os seus filmes causam no setor conservador da sociedade italiana.
Para interpretar o casal de Una Famiglia, ele escolheu, mais uma vez, Micaela Ramazzotti, atriz italiana, casada com Paolo Virzi, e Patrick Bruel (Sexo, Amor & Terapia, Paris-Manhattan), ator francês. O filme foi apresentado no Festival de Veneza e Riso era o diretor mais jovem em competição.
Vincenzo e Maria formam um casal incomum, cuja história choca bastante. Ele é uma espécie de cafetão, mas pior que fazer Maria se prostituir, o que não acontece, ela só tem relações com ele, ele a engravida várias vezes para depois vender o bebê no mercado negro de adoção.

A reação na Itália ao filme foi muito forte e controversa. Alguns grandes críticos italianos até apoiaram, mas muitos outros não. Primeiramente disseram que a história não era verdadeira. Mas quando descobriram que Riso tirei as informações de arquivos policiais eles disseram “Tudo bem. É real, mas a gente não gostou".
Riso, em entrevista, diz que após anos de ditadura berlusconista as pessoas se recusam a assistir a filmes que não sejam comédias. Que elas se tornaram estúpidas de alguma forma e apenas querem rir. O cinema italiano foi deixando de ser mais artístico e se tornando apenas entretenimento. Em Veneza, seu filme Una Famiglia era o único filme italiano com temática social.
Achei o tema bem interessante, apesar de revoltante, mas penso que o roteiro apresentou alguns furos, por exemplo: o que o casal fazia com o dinheiro, já que viviam tão simples? A gente fica com pena e ao mesmo tempo com raiva de Maria, que fome de amor é essa tão grande que a faz se submeter ao inaceitável?
Mais triste de tudo é saber que essas coisas acontecem de verdade.

IMDB: 5,4/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Una Famiglia.
País: Itália/ França.
Ano: 2017
Direção: Sebastiano Riso.
Roteiro: Sebastiano Riso, Stefano Grasso, Andrea Cedrola.
Elenco: Micaela Ramazzotti, Patrick Bruel.


(Por: Cecilia Peixoto)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

AQUI EM CASA TUDO BEM




Quem não amaria comprar uma casa numa linda ilha na Itália? Alba (Stefania Sandrelli) e Pietro (Ivano Marescotti) puderam realizar esse desejo e seus filhos guardam uma boa recordação de Ischia: uma bela casa em um lugar encantador, cheio de ruelas românticas e com o mar maravilhoso como vista. Aposentados e já morando na ilha, o casal quer realizar outro sonho: reunir a família toda para comemorar suas Bodas de Ouro. A princípio, como toda reunião familiar, tudo são flores. O evento é marcado ainda com a volta de Paolo (Stefano Accorsi), um dos filhos, escritor reconhecido, que estava há muito tempo morando fora.

A balsa chega com os convidados, não falta alegria e coisas para lembrar e comemorar. Chegam os filhos, Paolo solteiro, Carlo (Pier Francesco Favino) com sua esposa e sua filha mais nova e Sara (Sabrina Impacciatori) com seu marido e filho também. A ex de Carlo também foi convidada e vem com a filha mais velha dele e um amigo da filha. Tios, tias, primos e primas, uma festa só.
O clima fica meio tenso quando acabam as comemorações e todos se encaminham para o cais para voltar para suas casas mas são surpreendidos com a notícia de que não haverá balsa, devido ao mau tempo.
É certo que sempre em meio aos parentes existem alguns que não são muito desejáveis, dá para se tolerar em um encontro familiar, mas agora, devido ao imprevisto, todos terão que ficar mais tempo na ilha napolitana. Há que se acomodar todos na casa, providenciar lençóis, comida, bebida e se preparar para lidar com os desconfortos e pior: os prováveis conflitos. A mulher atual de Carlo, por exemplo, não entende porque a ex dele foi convidada e não poupa alfinetadas e agressões. Não deixa nem mesmo ele se aproximar da filha adolescente. Um parente apresenta a mulher grávida e tem a visível pretensão de resolver seus problemas financeiros naquela reunião.
O cinema italiano gosta muito de se utilizar de questões familiares. Gabriele Muccino é um diretor italiano que também faz filmes americanos: À Procura da Felicidade, Sete Vidas, Pais e Filhas, entre outros. Stefania Sandrelli é uma atriz italiana que fez vários filmes dirigidos por Bertolucci, Ettore Scola, Mario Monicelli, muitos diretores famosos. Atuou em O Último Beijo, também dirigido por Gabriele Muccino, onde Stefano Accorsi era o protagonista. Gostei muito da atuação de Pierfrancesco Favino (As Crônicas de Nárnia).
Apesar dos "barracos", um filme agradável, tenso em alguns momentos, divertido em outros. E vamos ver que as adversidades e as verdades reveladas talvez tenham servido para consertar algumas coisas. Será? Eu sei que fiquei só imaginando dar uma festa e os convidados não poderem ir embora depois. Cheguei até a me arrepiar, hahaha.

IMDB: 6,1/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: A Casa Tutti Bene.
Outros títulos: There Is No Place Like Home.
País: Itália. 
Ano: 2018
Direção: Gabriele Muccino.
Roteiro: Paola Mammini, Paolo Costella, Paolo Genovese.
Elenco: Stefano Accorsi, Stefania Sandrelli, Pierfrancesco Favino, Carolina Crescentini, Elena Cucci, Claudia Gerini, Gianpaolo Morelli, Valeria Solarino, Gianmarcco Tognazzi.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

MIELE




Filme cheio de camadas...
Primeiro fiquei surpresa ao ver que a protagonista é interpretada pela mesma atriz de Fortunata, do diretor Sergio Castellitto. Ela está completamente diferente. No outro, exuberante, muito maquiada, vestida de maneira vulgar, uma mulher pobre e sofrida. Nesse, magrinha, cabelo curto, vestida elegantemente com roupas estilo masculino mas que, ao contrário, lhe realçam a feminilidade. Mas linda nos dois.

Bem, vamos lá à história. Irene é Irene e também é Miele. Nome duplo, vida dupla. Quem é ela? A Irene é uma ex-estudante de medicina que mora sozinha, numa pequena casa de praia. Adora mergulhar e ouvir rock pesado.
Aliás, as músicas do filme são ótimas. Ela tem um namorado, nada que lhe exija muito compromisso. De vez em quando precisa se ausentar, porque seu trabalho exige. Mas qual é a sua profissão? Durante sua função, ela muda de nome, já que trabalha para uma organização clandestina. Seu namorado (?) não sabe o que ela faz. Nem seu pai (Massimiliano Iacolucci), que ela sempre visita, tem a menor ideia do que ela faz para viver. Irene acredita que ajuda as pessoas.

Sua convicção é abalada quando ela conhece um novo cliente, o engenheiro Carlo Grimaldi (Carlo Cecchi). É no conflito entre os dois que vai se alicerçar uma amizade e muitas dúvidas. Irene ajuda as pessoas, como diz, pelas pessoas ou pelo dinheiro que recebe? Que pessoas devem se utilizar do seu serviço? Quem decide isso? Ela? A organização? Ou as próprias pessoas? Quais as semelhanças e as diferenças entre os outros casos e o do engenheiro?
A atriz Valeria Golino (Respiro) estreia na direção com esse longa, com um tema bem ousado e polêmico. Assina também como co-roteirista, partindo do livro de Mauro Covacich: A Nome tuo.
A ética que Miele (Irene) achava que possuía é testada, a ordem que impôs à sua vida é jogada por terra. A estranha amizade que se forma entre ela e o engenheiro Grimaldi vai fazer com que ela repense em tudo e, certamente, também o espectador. Até onde vai a liberdade de cada um? É uma das perguntas que faremos. Qual o sentido da vida? Toda dor é visível? Quem tem direito de julgar ou opinar sobre a vida do outro? Esses e muito mais questionamentos farão parte dos noventa e seis minutos desse filme intrigante, que deixa sua marca.
Indicações: Prêmio David di Donatello de Melhor Atriz.
Prêmios: Nastro d'Argento de Melhor Atriz, Nastro d'Argento de Melhor Diretor. Foi vencedor também de uma Menção Especial do Júri Ecumênico do Festival de Cannes 2013
O filme evita de forma inteligente qualquer tomada de partido, conveniência política ou religiosa", escreveu Natalia Aspesi.
A nova diretora (e roteirista) italiana já está no seu segundo longa, o filme Euforia, de 2018, sobre dois irmãos de temperamentos completamente diferentes, mas que uma situação difícil vai fazê-los se aproximarem, unidos, num turbilhão de fragilidade e ternura, medo e euforia. Já quero ver!

IMDB: 6,8/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Miele.
Nome no Brasil: Mel.
País: Itália, França.
Ano: 2013
Direção: Valeria Golino.
Roteiro: Valeria Golino, adaptação da obra de Mauro Covacich.
Elenco: Jasmine Trinca, Carlo Cecchi, Libero de Rienzo, Massimiliano Iacolucci.

sábado, 28 de julho de 2018

UMA QUESTÃO PESSOAL



Una questione privata é um romance de Beppe Fenoglio, publicado em abril de 1963, dois meses após a morte do autor. Uma das obras mais importantes da literatura italiana. Giuseppe (Beppe) Fenoglio era filho de um partisan e teve uma vida privilegiada. Desde pequeno mostrou-se um garoto inteligente e aluno modelo. Era apaixonado pela língua inglesa e chegou a traduzir algumas obras para o italiano. Acredito que o personagem Milton tenha a ver com ele, que também era partigiano e também serviu na Divisão de Langhe.
O termo "partisan (a)", em francês e "partigiano (a)", em italiano, refere-se aos membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada área. Os partisans operavam atrás das linhas inimigas. Tinham por objetivo atrapalhar a comunicação, roubar cargas e executar tarefas de sabotagem. O termo ficou conhecido durante a Segunda Guerra Mundial para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã.
Paolo e Vittorio Taviani não foram os primeiros a a realizar uma adaptação para o cinema da obra. Antes deles:
Em 1996, direção Giorgio Trentin, 
Em 1982, direção Alessandro Cane.
Em 1993, direção Alberto Negrin.
Em 1998, direção Guido Chiesa.
Foi o último filme dos Irmãos Taviani, como são chamados, consagrados internacionalmente ao receberem o Palma de Ouro em 1977 por Padre Padrone e realizadores de outras obras inesquecíveis como César Deve Morrer e A Noite de São Lourenço. Não faltam obras notáveis no cinema simultaneamente político e poético dos irmãos. Vittorio Taviani morreu em abril passado, aos 88 anos, deixando um grande legado.

A história: 1943, durante a guerra de libertação nas Langhe, colinas do sul do Piemonte, o militar Milton encontra-se dividido entre a luta contra os nazi-fascistas, a amizade com os companheiros da brigada e seu amor secreto por Fulvia.
Minhas considerações (ou o que eu percebi do filme):
Milton não caminha só por aquelas colinas. Junto com ele seguem as lembranças da mulher amada, o romance com ela, ele chega a ouvir a música que intitulou como a deles, de tanto que ouviram juntos: Somewhere over the rainbow. Uma massa de neblina o envolve e de repente ele vê, como se fosse um sonho, a casa de Fulvia. Ele, ela e Giorgio, amigos inseparáveis, quantas recordações daquela casa... 
Ele tenta se aproximar, olhar mais de perto, ele sabe que Fulvia não está lá, quase todos abandonaram suas casas durante a guerra, mas é uma maneira de se sentir mais perto dela. Uma pessoa o interrompe dos seus devaneios, é a caseira. Ela o reconhece, ele pede para entrar na casa por alguns minutos, ele precisa só de alguns minutos para sentir o perfume do passado. Ela deixa, conversam, sem querer ou não ela dá a entender a Milton que Fulvia e Giorgio podem ter se amado.

Milton é uma boa pessoa, é um bom combatente, mas a partir da visita àquela casa, ele não consegue pensar em outra coisa. Apesar de tanta coisa estar acontecendo, afinal é a guerra, inocentes morrendo, até crianças! Mas ele só pensa nas últimas palavras que ouvia sobre Fulvia. Ele pede licença para ir em outra divisão onde está Giorgio, ele precisa saber do amigo se ele o traiu, ele precisa saber se Fulvia não o amava. como ele pensava. Mas Giorgio foi capturado pelos fascistas. A obsessão dele por Fulvia passa entre tentar resgatar a todo custo o amigo, até porque ele deseja o confronto e o pensamento que o incomoda de que talvez seja melhor deixar o Giorgio para lá. A ideia de que Giorgio possa ter tido um relacionamento com Fúlvia o destrói.
Assim como as colinas, a mente de Milton está nebulosa. Ele luta entre seus ideais humanitários e suas questões pessoais. O mesmo amor que lhe dava coragem para continuar naquela guerra, que lhe dava forças para continuar vivo, agora é um amor perdido.
Milton, como eu mencionei no início, me parece ser um personagem inspirado no próprio autor do livro, o Fenoglio. Ele é o narrador e protagonista ao mesmo tempo. Eu li alguns comentários de pessoas que viram o filme e não gostaram, acharam que não tem história. Porque realmente o filme não entrega nada, percebemos que nem o próprio narrador possui as respostas que nos fazemos: a verdade sobre a Fúlvia, ela amava Milton? ela amava Giorgio? ela não amava nenhum dos dois?, Giorgio traiu o amigo?, o que aconteceu com o Giorgio afinal? O próprio final de Milton fica em aberto.
O título é perfeitamente consistente com o filme, já que é a questão privada de Milton que move todo o romance. Os espaços do filme são todos abertos, assim como todas as verdades e os destinos dos personagens. Por isso, nem todos irão gostar.
IMDB: 5,8/ 10
Filmow: 2,7/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Una Questione Privata
Outros nomes: Rainbow: A Private Affair.
País: Itália/ França.
Ano: 2017
Direção: Paolo e Vittorio Taviani.
Roteiro: Paolo Taviani, Vittorio Taviani, adaptação do livto de Boppe Fenoglio.
Elenco: Luca Marinelli, Valentina Bellè, Lorenzo Richelmy.



Homenagem ao grande Vittorio, um dos irmãos Taviani, que nos deixou
no dia 15 de abril de 2018. RIP




quarta-feira, 11 de julho de 2018

THE PLACE



Gentem, eu adorei esse filme. Ele se passa inteiro em um café - The Place - mais propriamente em uma mesa do café, mas você vai ficar hipnotizado. Nessa mesa, um homem misterioso (Valerio Mastandrea) passa seus dias, toma vários cafés, almoça, bebe, enquanto atende várias pessoas. Seus visitantes chegam e saem, contam-lhe o inconfessável, seus segredos mais ocultos ou seus desejos mais latentes. O objetivo é conseguir sua ajuda. O homem, de aparência sempre cansada, não julga e nem aconselha, anota tudo em uma grossa agenda e lhes propõe um acordo. Ninguém é obrigado a aceitar, ele deixa isso bem claro, mas as tarefas que essas pessoas terão que realizar em troca dos seus pedidos são além dos seus limites. "Quem é você?", eles se perguntam, muito embora prefiram não saber a resposta. "Como eu sei se você não é o Diabo?", arrisca alguém. "Não sabe", ele responde.
O filme é uma adaptação cinematográfica da série Booth at the End, que consiste em 5 episódios curtos dirigidos por Jessica Landaw, escrito por Christopher Kubasik e estrelado por Xander Berkeley e Kate Maberly. A série faz ao espectador uma pergunta: "quão longe você iria para conseguir o que quer?"
As espinhosas tarefas irão mexer com o valor moral de cada um. De fora todos nós praticamente iremos condenar quem as pratica ou que pelo menos cogita em praticar. Mas será que se estivéssemos na mesma situação, o que sentiríamos? O filme busca exatamente isso, nos questionar. Paolo Genovese quer testar não só os seus personagens, mas também o espectador. O filme propõe uma reflexão emocional e tão envolvente quanto possível sobre a natureza humana.
Os personagens revezam-se pelo café, cada um com seus dramas, com suas histórias, com seus desesperados anseios. Cada desejo revela alguma coisa de quem deseja. Alguns com propósitos mais simples, mas talvez não menos importantes para eles, quem somos nós para avaliar? O preço a pagar é proporcional e pode ser absurdamente alto. Algumas tarefas parecem não ter sentido algum.
Não se tratam de pactos para toda a vida ou para toda a existência. Cumpriu o acordo, o desejo é realizado. Podendo também desistir a qualquer momento. Exatamente nessa não obrigatoriedade está a questão, o tal homem funciona como um espelho de cada um, confrontando-os com seus valores e com suas reais necessidades.
Na verdade, a tarefa maior parece ser exatamente a dele, obrigado a testemunhar diariamente todas as mazelas humanas. Todos querem alguma coisa dele. A única pessoa que não pede nada e na verdade parece ter interesse em ouvi-lo, em conhecê-lo melhor, é Angela, a atendente do café.
The Place participou da 11ª Festa do Cinema Italiano. The Place é o primeiro longa do diretor Paolo Genovese depois do grande sucesso com Perfetti Sconosciuti, vencedor do prêmio David Di Donatello (considerado como sendo o Oscar italiano) e que tem uma versão espanhola na Netflix, dirigida por Álex de Iglesia.

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Place.
País: Itália.
Ano: 2017
Direção: Paolo Genovese.
Roteiro: Isabella Aguilar, Paolo Genovese.
Elenco: Valerio Mastandrea, Sabrina Ferilli, Alessandro Borghi, Alba Rohrwacher, Marco Giallini, Giulia Lazzarini, Rocco Papaleo, Silvio Muccino, Silvia D'Amico. Vitoria Puccini, Vinicio Marchioni,

segunda-feira, 2 de julho de 2018

CALLAS FOREVER



A maravilhosa Fanny Ardant interpreta aqui Maria Callas aos 53 anos, uma mulher deprimida e que vive do passado já que perdeu sua voz e também o grande amor de sua vida: Onassis.
Larry Kelly (Jeremy Irons), seu grande amigo e antigo produtor, vai tentar convencê-la que ela é para sempre uma grande artista e ele quer que ela interprete uma de suas grandes peças de novo. Com os novos recursos, Callas pode dublar ela mesma, dando oportunidade ao público jovem de conhecer o seu trabalho. Após muita insistência de Larry, Callas aceita interpretar Carmen e surpreende ao trocar todo o seu abatimento por uma grande energia.
É realmente encantador ver Fanny Ardant interpretando Maria Callas que interpreta Carmen.

Maria Kalogeropoulou, americana de origem grega, tornou-se Maria Callas e é considerada a maior celebridade da ópera do séc XX e a maior cantora de todos os tempos. Era saudada como La Divina. Morreu em Paris aos 53 anos.

Franco Zeffirelli herdou o amor por Shakespeare e pela ópera de uma tia que o criou. Mais tarde teve a oportunidade de trabalhar como assistente de Luchino Visconti, um dos maiores diretores de filmes, óperas e teatro do século, o que o impulsionou em suas escolhas artísticas, sempre salientadas com uma constante devoção aos clássicos e que ele constantemente transpôs ao cinema.

IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Callas Forever
País: Itália
Ano: 2002
Direção: Franco Zeffirelli
Roteiro: Franco Zeffirelli e outros.


Elenco: Fanny Ardant, Jeremy Irons.


Maria Callas.





quinta-feira, 31 de maio de 2018

LA LUNA



"Buscando pela primeira lembrança que tenho de minha mãe, o que me veio à mente foi uma imagem do tempo em que tinha dois ou três anos: eu estava sentado na cesta pregada ao guidom de uma bicicleta, estava de costas para a estrada e de frente para minha mãe, que dirigia. Eu olho para minha mãe e vejo seu rosto. Atrás dela eu vejo a lua. Eu confundo o rosto muito jovem de minha mãe com o rosto muito velho da lua. Esta primeira memória era muito misteriosa. Quando ela veio a mim, não consegui compreender o significado...perguntei a mim mesmo porquê tive precisamente essa lembrança. Então filmei La Luna, em parte para tentar compreender essa associação. Preciso dizer que, após concluir o filme, essa lembrança estava até mais misteriosa."
Bernardo Bertolucci



Sonhar... sonhar parece ser, em todos os níveis do filme, o objeto primordial. Todas as sequências do filme parecem aludir ao irreal. O sonho, como uma representação em um 
teatro privado, permite a permutação de papéis ao mesmo tempo que permite que não se assuma nenhum deles.
A relação edipiana é o centro do filme.

Na primeira cena vemos Caterina com seu bebê e ela lambe o mel derramado na pele dele. Mas esse momento de total intimidade entre mãe e filho é interrompido por Giuseppe, o marido, que chega pra roubar a atenção de Caterina. Os dois se lançam em uma dança bizarra, Giuseppe com uma faca em uma mão e um peixe morto em outra, em um claro jogo de sedução e que horroriza Joe, que sai correndo, chorando, preso a um novelo de lã, que pode ser comparado ao cordão umbilical.

Outra cena que fica marcada na mente de Joe é quando ainda bebê, está com a mãe em uma bicicleta, no cestinho da frente, de costas para a estrada e de frente para a mãe, que o olha amorosamente e na frente dele então só existe a mãe, o amor da mãe, até que por trás dela aparece a imagem da lua e essa imagem, o "rosto" da lua se confunde com o rosto de sua mãe, a lua, que representa a mãe, o feminino, a lua, la luna, ...Joe parece jamais se recuperar da imagem de Caterina ao luar e da promessa desse sonho sem fim.

Mais tarde, já morando em Nova Iorque e sempre carente das atenções da mãe que vive em turnês porque é uma cantora de ópera, Joe tenta convencê-la a que deixe que ele vá à Itália no lugar de Douglas. Ele lhe diz: "posso fazer todas as coisas que o papai faz...posso fazê-las melhor!".

Essa rivalidade é providencialmente resolvida com a morte de Douglas. Literalmente, ele sai de cena!
Caterina decide não cancelar sua turnê e parte para a Itália com Joe.Mas ela fica devastada ao descobrir no aniversário de 15 anos de Joe que ele é um viciado em heroína. 


Tem uma cena que é a primeira incestuosa do filme em que Caterina, na angústia de acalmar o filho que está em uma crise de abstinência, o masturba, mas embora choque, mesmo sendo por cima da roupa dele, não vemos ali nenhum prazer que o ato produza nela, só mesmo um amor desesperado que tenta vencer aquele momento a qualquer custo.


A cena do mel aparece de novo simbolizada no papel invertido, que é quando Joe lambe o rosto sujo da mãe em um quarto de hotel.


Joe irá descobrir que o seu verdadeiro pai é Giuseppe e está vivo. Caterina acredita que o encontro dele com o pai possa ajudá-lo, assim como ela mesma procura na figura de um antigo professor o apoio paterno de que está precisando, ela que até então projetava na ópera e em Verdi essa paternidade.

A heroína aplaca em Joe uma tensão que é insuportável, intolerável, uma busca que não tem nome. 
Será necessário que se introduza nesse cenário de mãe e filho um terceiro elemento, uma terceira pessoa, para que se quebre essa corrente de amor e ódio.


Numa versão diferente de Édipo que mata o pai e fica com a mãe, aqui é preciso resgatar a figura do pai para aproximar mãe e filho de novo.

Giuseppe ainda mora na mesma casa com a mãe, um novelo de lã de novo se desenrola entre a mãe e ele, pressupondo novamente o cordão umbilical, a eterna ligação entre mães e filhos.
Bertolucci nega que o filme é autobiográfico embora admita que a cena na bicicleta é baseada na memória dele. 
O filme "La luna" parece representar um claro desejo de Bertolucci de revisitar locais e situações de seus outros filmes e quem sabe de seu passado? Uma viagem em direção ao útero materno talvez?

Em "La luna", o diretor plantou lembranças de todos os seus filmes mais importantes. O novelo de lã pode ser talvez interpretado também como uma teia de aranha, como as teias de mentira que precisam ser desembaraçadas no seu filme "A estratégia da aranha". O maternal representa o lugar do sonho e talvez do próprio cinema.

Polêmico, provocante? Sim, mas também um belíssimo filme.
E com uma ótima interpretação de Jill Clayburgh e trilha sonora de Enio Morricone, o filme nos deixa importantes reflexões.

"O papel do inconsciente tornou-se central em minha reflexão: nossas escolhas estão condicionadas pelo inconsciente. Pensei no título da ópera de Verdi, La forza del destino e tive vontade da dar a La luna um outro título, A força do inconsciente." Bernardo Bertolucci

IMDB: 6,6- 10
Minha nota: 4- 5


Ficha técnica:

Nome original: La Luna
País: Itália
Ano: 1979
Direção: Bernardo Bertolucci.
Roteiro: Bernardo Bertolucci, Franco Arcalli.
Elenco: Jill Clayburgh, Matthew Barry

sexta-feira, 25 de maio de 2018

NÃO SE MOVA



O que eu vou falar desse filme? Bem, a verdade, não é? E a verdade é que achei o filme bem cafona, aquele dramalhão tipo novela mexicana... sim, com a trilha sonora forçando pra nos emocionar (e consegue!) ... mas que trilha sonora! Daquelas que se a gente está acompanhada, quer dar um beijo na boca, ou se não está, já olha para os lados, procurando o seu "grande amor à primeira vista". As atuações são belíssimas. A Penélope consegue ficar feia e nos passa um desalento que nos toca até o fundo da alma. Sua personagem, a Italia, é uma pobre e coitada camareira, que não tem ninguém, mora em uma casa horrível, que assim mesmo vai ter que entregar. Porque era do avô que, antes de morrer, fez o favor de vender a casa. Não se preocupou com ela, ninguém se preocupa com ela. Acostumada a sofrer, sofreu abusos e aprendeu que para sobreviver precisava ficar quieta, parada. "Não se mova", ela aprendeu a dizer para ela mesma...
Com Timóteo, interpretado pelo próprio diretor do filme, não foi muito diferente. Ela aprendeu a ficar parada, a evitar qualquer movimento. Primeiro, por medo que ele não fosse embora, depois por medo que ele fosse. Ele, cirurgião bem-sucedido, foi parar naquele lugar porque teve um problema com o carro. Conheceu Italia. O lugar e ela o repugnavam, acostumado que estava com a linda esposa e sua casa ensolarada. Ao mesmo tempo, o lugar, e ela, o atraíam... era como se estivesse resgatando suas raízes, o mundo a que realmente pertencia. Aquela vida de luxos e as festas que era obrigado a frequentar com Elsa não lhe eram familiares. Era como se Timóteo estivesse no corpo de outra pessoa.
Ele conta para Italia que é casado. Mas ela, além de estar acostumada a não se mover, também estava acostumada com migalhas. O pouco que ele lhe dava era muito. O pouco era muito para quem nada tinha. E ela lhe pediu: "venha me ver uma vez por mês, uma vez por ano, mas não me deixes...". É como se ela lhe implorasse: "não se mova", "não mude o que existe entre nós", ...
O filme começa com um acidente sério com uma adolescente de moto. Timóteo vai descobrir que é sua filha, Angela. Enquanto luta pela vida dela, ao mesmo tempo que teme pela sua morte, ele vai se recordar do seu caso com a sofrida Italia, desde que a conheceu.
Baseado no romance de Margaret Mazzantini, que é a esposa na vida real de Sergio Castellitto e com quem tem quatro filhos. Em 2012, Castellitto dirigiu o premiado Venuto al Mondo (Prova de Redenção), que também foi adaptado de uma obra de Margaret. O estilo de Venuto al Mondo é também de rasgar o coração. E igualmente protagonizado por Penélope Cruz e com Sergio Castellitto no elenco.
Então, enquanto Angela está lá, entre a vida e a morte, enquanto a aflita Elsa não chega, Timóteo está lá, sozinho com suas recordações. Com suas reflexões. E percebe que também ele ficou preso no emaranhado de sua história. Ficou imóvel. Não se moveu!
E nós lá, os espectadores, chorando e roendo as unhas. desesperados com essa história avassaladora. Tristes com esse mundo injusto.
Agora, só um aparte, imaginem que eu estava vendo o filme e no meio da reprodução, deu problema. Aliás, pra contar tudo, primeiro o filme não estava reproduzindo a legenda. Depois, consegui a legenda, mas não estava sincronizada. Consegui outra legenda e o filme para no meio! Consegui a outra parte do filme, só que a legenda começava do princípio e o filme, do meio para o fim. E tive que ver o restante só com o áudio em italiano! É muita agonia, não é? Mas eu sei que eu queria porque queria saber o que acontecia com a Italia, Timóteo, Elsa e Angela.
Um filme poderoso e doloroso, mostrando a vida, inflexível, a manipular as pessoas, como marionetes. Essa vida que muitas vezes nos paralisa, que não permite que corramos atrás do que queremos de verdade, essa vida que parece às vezes sussurrar como o vento em nossos ouvidos, implacável: "NÃO SE MOVA"...
Enfim, imperdível!
IMDB: 7,1/ 10
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Non ti Muovera
Outros nomes: Don't Move, No te Muevas
País: Itália, outros
Ano: 2004
Direção: Sergio Castellito
Roteiro: Sergio Castellito, Margaret Mazzantini
Elenco: Penélope Cruz, Sergio Castellitto, Claudia Gerini.

Sergio Castellitto, Penélope Cruz e Margaret Mazzantini



quarta-feira, 23 de maio de 2018

ELLA & JOHN



Que filme delicioso. Baseado na novela de Michael Zadoorian, à primeira vista, pode parecer deprimente, visto ser sobre um casal no fim da vida que decide fugir dos filhos para fazerem sozinhos o que pode ser sua última viagem juntos, a bordo de seu velho e viajado trailer: The Leisure Seeker.
Ella possui um jeito simples e aprecia conhecer as peculiaridades e as pessoas dos lugares por onde passa. Ao estilo Forrest Gump, ela gosta de reviver e contar histórias do seu passado. Já John, ex-professor, já acredita que a viagem deve ter fins culturais. Fã inveterado de Hemingway, ela gosta de recitar partes dos romances do admirável escritor. Isso quando se lembra, porque ele tem Alzheimer. De vez em quando se esquece que está viajando e em que tempo está. Aí que funciona perfeitamente o relacionamento entre eles. Porque Ella está sempre ali ao seu lado, para lhe contar passagens maravilhosas de suas vidas. Ele precisa ser lembrado e ela gosta de lembrar.
Nesse sentido, o filme é saboroso, poucos casais podem se orgulhar de uma vida juntos e é tanta lembrança boa, tanto prazer compartilhado, que esse lindo casal vai nos provocar é muita inveja, em vez de pena. Quem não quer olhar para trás e poder dizer que a vida valeu a pena? Aliás, acho que esse é um dos grandes motivos do medo da morte: o saber que ficou tanta coisa por fazer, tanta coisa por viver, muito por dizer.
Mas não é o caso do nosso casal de protagonistas interpretados pela grande Helen Mirren e o maravilhoso Donald Sutherland. O destino deles é visitar a casa de Hemingway. E lá vão eles pela estrada, dormindo em campings, tomando vinho e curtindo mais uma vez a companhia prazerosa um do outro, até o silêncio é motivo de deleite.
"Sabe o que eu amo em você, John? O seu silêncio nunca foi constrangedor. Nenhuma vez eu pensei: Agora eu preciso falar algo."
Do diretor italiano Paolo Virzì, também ator e roteirista e que ganhou com o seu primeiro filme, La Bella Vita, de 1994, o Grava d'Oro, Nastro d'Argento e David di Donatello de Melhor Novo Diretor. Posteriormente foi muito premiado com os filmes Il Capital Umano, 2013 e Loca Alegría, 2016. Paolo é casado com a atriz italiana Micaela Ramazzotti.
Ella & John é um filme sensível, que traz algumas questões delicadas, mas de uma forma cativante. Os dois atores veteranos dão força e leveza aos belos diálogos e o tema pesado vira poesia:
"Não vamos nos separar, ok? Porque não nos resta muito tempo."
Eles não querem se separar porque o tempo que resta é curto, mas também porque há muito amor envolvido e eles querem aproveitar cada segundo que resta. É triste e lindo ao mesmo tempo. Eu sei que o tema já foi abordado em outros filmes, mas foi muito bem conduzido e mistura emoções com diversões na dose certa. Vale a pena embarcar nessa viagem com eles.

IMDB: 6,6/ 10
Minha nota: 3,7/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The Leisure Seeker 
País: Itália, França.
Ano: 2017
Direção: Paollo Virzi.
Roteiro: Paollo Virzi e outros
Elenco: Helen Mirren, Donald Sutherland.

sábado, 19 de maio de 2018

A GAROTA QUE SABIA DEMAIS



Com Leticia Román como Nora Davis, John Saxon como o Dr. Marcello Bassi e Valentina Cortese como Laura Craven, entre outros.


Hitchcock nos presenteou com O homem que sabia demais, Mario Bava o homenageia com A garota que sabia demais.

Podemos concluir que é perigoso, muito perigoso, saber demais.

Nora Davis, a garota do filme, era americana e foi passear em Roma. O que à primeira vista era encantador, tornou-se um pesadelo para ela. 


Logo que chega em Roma já houve um incidente no aeroporto. Na sua primeira noite na cidade, mal ela chega na casa da Tia Edith, esta morre. Quando ela saí apavorada pra pedir ajuda, é atacada e assaltada. Quando consegue se recuperar, acaba sem querer sendo testemunha de um crime horrível.
O que eu faria? Voltaria correndo pra casa.

Mas Nora Davis resolve ficar e provar que estava falando a verdade, pois ninguém acredita nela, já que o corpo, a prova de que houve um crime, desaparecera.

E A garota que sabia demais também era a garota que adorava livros sobre crimes, ela devorava esse tipo de literatura e já se sentia meio que conhecedora do assunto e não iria partir sem satisfazer sua curiosidade.

No melhor estilo giallo, Mario Bava nos oferece um filme que nos deixa o tempo todo com a respiração suspensa. A história serve apenas de pano de fundo pra um conjunto de imagens e sons que nos remetem a sensações horripilantes, mas também com muito senso de humor.

Conhecida também no Brasil pelo título Olhos diabólicos, é imperdível conhecer essa obra desse grande mestre.


IMDB: 7,1/ 10

Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Ragazza che Sapeva Troppo
Outros nomes: Olhos Diabólicos
País: Itália
Ano: 1963
Direção: Mario Bava
Elenco: John Saxon, Leticia Román, Valentina Cortese


AS CHAVES DE CASA



Paolo tem 15 anos. Ele não é um adolescente qualquer. Ele necessita de cuidados especiais. Paolo sofre de deficiências físicas e psicológicas. Sua mãe morreu de complicações durante o parto. Criado pelos tios na Itália, anualmente ele precisa viajar até Berlim para exames cerebrais e fisioterapia para as pernas frágeis. 

Gianni é seu pai. Ele recebe do cunhado uma fotografia e algumas instruções. Ele está se preparando para o 1º encontro com o filho que nunca viu. Ele vai acompanhá-lo até a Alemanha para a realização dos exames. Em sua face há constrangimento, não o arrependimento de ter abandonado o filho depois da morte da mãe. É sua chance de corrigir sua omissão. 

O filme, baseado no livro Nascer Duas Vezes, de Giuseppe Pontiggia, onde ele relata sua experiência com o filho deficiente, é uma história universal. Fala de amor, culpa e redenção. Mas diferente do que muitos podem imaginar, o livro, assim como o filme, foge totalmente da pieguice e maniqueísmo. O diretor Amelio (do elogiado América – O Sonho de Chegar) examina sem pudor cada close, cada passo e cada gesto dos personagens, principalmente de Paolo (que realmente possui deficiências e foi preparado soberbamente para atuar no filme).  Tudo sem pressa, aprofundando a conexão entre pai e filho, o que torna a experiência angustiante para que o público. No meio do caminho eles conhecem Nicole (Rampling, numa atuação serena e sublime), uma mulher corajosa e forte que dedica mais de 20 anos de sua vida cuidando da filha deficiente. Ela conta sua história a Gianni e lhe presenteia com um livro, não por acaso o mesmo no qual o filme se baseia. Seus diálogos com Gianni são de uma sinceridade tão dolorida que certamente dividirá o público. É ela a catalisadora entre suas realidades e o que suas vidas poderiam ter sido. É de uma sensibilidade tão palpável, profunda e dolorida que é humanamente impossível não se comover com a história e a atuação dos atores.

Ao final da sessão nem Gianni nem você serão os mesmos. Um dos dramas familiares mais comoventes que já vi nas telas. Um filme obrigatório a humanidade.

IMDB: 7,2 -10
Comentários e colaboração de Valdeci Oliveira.
Nota do Valdeci: 4- 5

Ficha técnica:
Nome original: Le Chiavi di Casa
País: Itália
Ano: 2004
Direção: Gianni Amelio.
Elenco: Kim Rossi Stuart, Andrea Rossi.