Cinéfilos Eternos: EUA
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

SE A RUA BEALE FALASSE




Adaptação do quinto romance do escritor norte-americano James Baldwin, cujo título, que é o mesmo, é uma referência à canção de 1916," Beale Street Blues ", de WC Handy, que, por sua vez, faz uma homenagem a Beale Street, no centro de Memphis, Tennessee .
Barry Jenkins, que dirigiu o filme vencedor do Oscar 2017, Moonligth - Sob a luz do luar, desbancando o favorito La La Land, escreveu e dirigiu a adaptação cinematográfica do romance Se a Rua Beale Falasse, estrelando KiKi Layne como Tish e Stephan James como Fonny, uma história de amor ambientada no Harlem no início dos anos 70.

Tish e Fonny conheciam-se desde quando podiam se lembrar, cresceram juntos, já admiravam-se e amavam-se e o romance já adultos aconteceu de uma forma natural, como se eles já tivessem nascido para isso. Estavam noivos e felizes, procurando um lugar para morarem juntos, quando Fonny é injustamente acusado de um crime. O romance explora as diferentes reações dos pais e irmãos dos dois jovens adultos e o destaque é para a mãe de Tish, interpretada por Regina King, vencedora de vários prêmios pelo papel e também indicada ao Oscar 2019, que sofre junto com a filha e tenta ajudar de toda forma.
Alternando o presente com as lembranças, em câmera lenta, em uma analogia poética ao estado quase de torpor de Tish perante tanta injustiça e impotência e à necessidade de não esmorecer na luta para libertar Fonny. "Levante a cabeça, irmã".
Ótimas atuações e uma belíssima fotografia. A forte presença do Harlem se traduz na trilha sonora assinada por Nicholas Britell. O Harlem é um bairro de Manhattan na cidade de Nova Iorque, conhecido por ser um grande centro cultural e comercial dos afro-americanosNo anos 20, o estilo musical que ganhou força lá foi o Jazz. Longas noites regadas a boa música levaram com que vários moradores do Harlem Nova York virassem ícones do Jazz pelo mundo a fora
Também nós ficamos aturdidos porque aparentemente Fonny só é preso pelo fato de ser negro, em uma alusão ao racismo presente nos EUA dos anos sessenta/ setenta e que, infelizmente, vemos até hoje e aqui mesmo, no Brasil.
Três indicações ao Oscar: Melhor Atriz Coadjuvante (Regina King), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original.

W.C.Handy: Beale Street Blues.
https://www.youtube.com/watch?v=lIBz-HfRui8


(Por: Cecilia Peixoto)
IMDB: 7,5/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: If Beale Street Could Talk
País: EUA
Ano: 2018
Dirigido por: Barry Jenkins.
Roteiro: Barry Jenkins.
Elenco: Kiki Layne, Sthephan James, Regina King.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

NO PORTAL DA ETERNIDADE





Vamos falar de Van Gogh? Vamos falar sobre essa interpretação maravilhosa do Willem Dafoe? Ah, fiquei encantada com esse filme, gente. Conheço a história desse grande pintor que muito admiro. Vi "Vincent e Theo", "Com Amor, Van Gogh", li algumas coisas, livros, cartas, mas o filme me trouxe algo de novo, um olhar de alguém que se admitia louco, mas que se sabia vivo, ele queria passar aquela vida para as pessoas, a vida como ele a via, o presente divino que era a natureza que ele pintava através do dom que ele acreditava ter recebido também de Deus. O seu propósito de vida! Como ele dizia, era só isso que ele sabia fazer, então nasceu para fazer isso: pintar!
"- Mas você acha que isso é uma pintura? Seus quadros são desagradáveis." 
"- Deus não me daria um dom para pintar coisas desagradáveis".

Willem Dafoe passou todo o deslumbramento do personagem quando ele sentia a luz do sol tocar seu rosto, aquecer seu corpo, o vento a afagá-lo, a carícia dos milharais por onde ele passava... e nessas horas ele se sentia bem, uma sensação de completude... muito embora talvez lhe faltasse alguém com quem dividir aquilo. Mas também por isso ele pintava, era a sua maneira de se comunicar, de se conectar com as outras pessoas, ele pretendia que elas vissem o que ele via. E enquanto pintava, ele não pensava em nada. Não pensava na sua solidão.
" Eu só quero ser um deles. Eu gostaria de me sentar
com eles pra tomar uma bebida e conversar sobre qualquer coisa. Eu gostaria que eles me dessem tabaco, uma taça de vinho ou simplesmente me perguntassem: "Como vai você hoje?" E eu responderia, e nós conversaríamos. E de vez em quando, eu faria um esboço de algum deles como presente. Talvez eles o aceitassem,e o guardassem em algum lugar. E uma mulher sorriria para mim e perguntaria: "Estás com fome? Gostaria de algo para comer?" "Um pedaço de presunto, um pouco de queijo ou talvez uma fruta?""
Ai, doeu meu coração...

Tem um diálogo muito interessante dele com o Gauguin. Esse último o critica por ele se basear na natureza para pintar, achava que ele tinha que tirar sua pintura de dentro da cabeça, que o que ele pinta pertence a ele. Que não precisava imitar nada, até porque cada pessoa tem uma maneira diferente de ver a mesma coisa. Vincent se defende, dizendo que sabe disso, que ele mesmo cada vez que olhava, via algo diferente, que ele não copiava a natureza, que apenas a libertava. (Que lindo!)
Às vezes ele tinha muita raiva, ele admitia. Eu, no lugar dele, sentiria também, as pessoas perguntavam para ele por que ele pintava, por que ele se considerava um pintor, zombavam dele. Van Gogh não sabia muita coisa, mas a única certeza que tinha era que sim, ele tinha talento, sim, ele nasceu para pintar. "- E o que você faz quando sente raiva?" "- Eu olho para o sol". Vincent adorava os quadros brilhantes, pintados à luz do sol, os girassóis, o amarelo!
Alguém achou o filme angustiante, deprimente, mas eu achei que o personagem transmitiu uma paz, uma paz que vinha da sua fé, da sua certeza. Perguntado se vivia dos seus quadros, ele responde que não, que é pobre, mas que talvez Deus o tenha feito pintar para pessoas que ainda não nasceram.
"A vida é para ser semeada, a colheita não é aqui".
Outra coisa que me surpreendeu no filme foi o elenco. Vi pelo Dafoe e torço para ele ganhar o Oscar, embora não acredite. Oscar Isaac é Gauguin. Mas de repente quem surge? Emannuele Seigner. Mais tarde, Van Gogh aparece conversando com um personagem interpretado por Niels Arestrup. E depois há um outro ótimo diálogo com um padre, que é Mads Mikkelsen! Quando ainda estou me recuperando da surpresa, quem é o ator que interpreta o Dr Paul Gachet? Mathieu Amalric. Fora que ainda tive que voltar ao filme porque nos créditos finais (não deixe de ver os créditos finais), vejo que Vincent Pérez também faz parte do elenco e me escapou. E ainda tem a voz do Louis Garrel lendo uma carta.
A trilha sonora e os belos cenários casam bem com o estilo contemplativo do filme, mas é claro que se você não conhece um pouco da história de Van Gogh e do seu irmão Theo, e de sua conflituosa amizade com Paul Gauguin e de todos aqueles personagens que aparecem ou são mencionados no filme, pode ficar um pouco confuso.
O diretor Julian Schnabel ( O Escafandro e a Borboleta, Basquiat) é também pintor. Considerado um dos mais originais da sua geração, integra-se no movimento do neo-expressionismo, e está representado em alguns dos principais museus do mundo.
"Sim, ele amava o amarelo, esse bom Vincent" 
(Paul Gauguin).

(Por: Cecilia Peixoto)

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: At Eternity"s Gate
País: EUA/ França.
Ano: 2018
Dirigido por: Julian Schnabel
Roteiro: Julian Schnabel, Jean-Claude Carrière.
Elenco: Willem Dafoe, Rupert Friend, Emmanuelle Seigner, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Oscar Isaac, entre outros.




Vincent e Theo van Gogh


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

JULIET, NUA E CRUA






Sim, não deixa de ser uma comédia romântica. Vi justamente por isso, tem hora que preciso descomplicar. Também pelo Ethan Hawke, ando na cola dele. Tenho visto tantas interpretações ótimas dele, que quero ver tudo o que ele faz. Aqui ele é um roqueiro que fez algum sucesso alguns bons anos atrás. O filme tem outras camadas. Trata também da idealização dos ídolos. De como a paternidade pode ser difícil para alguns homens. Trata da vida escorrendo pelos nossos dedos sem que a gente perceba.
Tucker Crowe tem um fã-clube, não chega a 200 membros, mas tem. Para um cantor desaparecido há 25 anos já é alguma coisa. Ou talvez seja até por isso. O grupo, liderado por Duncan (Chris O'Dowd), cria teorias sobre onde ele possa estar, cada um, principalmente Duncan, querendo mostrar que é mais conhecedor da vida dele. Ausente a realidade, surge o mito.
Annie (Rose Byrne) tinha outros planos para sua vida, queria morar em Londres, mas com a morte do pai, volta para o interior e assume o lugar dele, cuidando da irmã mais nova e na gerência do museu local. Ela conhece Duncan e acabam morando juntos. A princípio, ela achava até charmosa essa paixão dele por Tucker, embora não compartilhe a mesma opinião, mas a dedicação excessiva ao ídolo já começa a entediá-la. A mesma coisa que aproxima duas pessoas pode ser mais tarde exatamente o que as afasta.
A história é a adaptação de um livro homônimo de Nick Hornby. Não é o primeiro livro desse escritor a ser adaptado para o cinema. como exemplo, temos Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002). A direção é por conta de Jesse Peretz, irmão da roteirista Evgenia.
Como não podia deixar de ser, o cantor esquecido (Ethan Hawke) aparece para nos mostrar que a realidade dele, nua e crua, não tem nada de charmosa. Sem emprego, mora na garagem da casa de uma das ex-esposas, com quem tem um filho. O pequeno Jackson vai descobrir, ao longo do filme, que tem outros irmãos, todos negligenciados por Tucker. Sem saber conciliar sua carreira com sua vida pessoal, o astro acabou por abandonar as duas coisas.
É nesse contexto em que Tucker passa por um processo de auto-avaliação que, por um acaso, Annie, justamente ela que não tinha nenhuma opinião favorável sobre ele, o conhece. Sempre desconfortável, primeiro naquela vidinha que acabou adotando, depois ao conhecer uma pessoa como Tucker, com uma vida tão diferente, logo ela, sempre tão sensata, sempre tão prática, ...
Quem terá sido Juliet, a musa inspiradora da música que Duncan considera uma obra-prima? Tucker não soube assumir responsabilidades. Mas, e Annie? É responsável também colocar sua vida em segundo plano? Enfim, acho que o filme é mais sobre Annie do que sobre Juliet.

IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,2/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Juliet, Naked.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Jesse Peretz.
Roteiro: Evgenia Peretz, Jum Taylor, Tamara Jenkins, Nick Homby.
Elenco: Rose Byrne, Ethan Hawke, Chris O'Dowd.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

BUSCANDO






A história: desesperado com o desaparecimento da sua filha de 16 anos, um pai decide invadir o computador da jovem para procurar pistas que possam levar ao seu paradeiro.
Quando comecei a ver Searching, mesmo que já avisada, estranhei, achei que o filme não tinha aberto, porque o que eu via eram buscas em redes sociais. Pois é, o formato é bem criativo mesmo, começa mostrando as conversas entre pai e filha pelo celular e webcan e vamos aos poucos conhecendo a história daquela família através dos vídeos caseiros. Depois, acontece que Margot liga para o pai de madrugada, mas ele está dormindo e não ouve e de manhã, quando vê as ligações perdidas, não consegue o retorno. As horas vão passando e David, cada vez mais preocupado, ao mesmo tempo que contata a polícia local, invade as redes sociais da filha em busca de pistas. Daí para a frente, vamos ver mais vídeos, mais conversas entre David e a inspetora Rosemary Vick, que assumiu o caso e entre as diversas pessoas que ele tenta contatar, pelos diversos aplicativos sociais. Nenhuma conversa olho no olho, mostrando como as coisas funcionam hoje em dia.
Um pai aflito vai descobrir que nenhum dos contatos da filha é amigo de verdade dela. Todos a conhecem superficialmente e, aos poucos, ele mesmo vai percebendo que também não conhecia tão bem a filha, como imaginava. É uma corrida contra o tempo, antes que Margot desapareça definitivamente.
Está certo, esse formato cansa um pouco, mas ao mesmo tempo dá um realismo ao filme e o roteiro é tão bem amarrado, que nos sentimos buscando informações junto com David.
Quando o desaparecimento de Margot cai na mídia, as mesmas pessoas que mal a conheciam curtem, comentam, viram "melhores amigos", mostrando a hipocrisia social e a necessidade de reconhecimento.
O ator Aneesh Chaganty fez sua estréia na direção de longa-metragem com Searching, pelo qual ganhou o prêmio Alfred P. Sloan de longa-metragem no Festival de Cinema de Sundance de 2018.
A trama é simples, mas ao ser contada de uma maneira nada convencional, ao ser transformada em um suspense tecnológico, criou um clima real. Ao invadir a internet da filha, David está entrando na sua intimidade. A intenção aqui não é mostrar que a internet seja ruim ou boa, diz Aneesh, mas que ela é tudo, que pode ser tudo, depende de como você a usa. E, claro, mostra a total dependência atual da vida digital.
Para se manter fiel à história, as câmeras utilizadas foram condizentes com o que estava acontecendo na tela. Por exemplo, um iPhone 7S capturou boa parte das cenas que deveriam ser de celulares, como as chamadas de Facetime, enquanto uma GoPro gravou as cenas que seriam da webcam do computador. Nada de filmar em câmeras de alta resolução e colocar efeitos falsos ou baixar a qualidade digitalmente. A preocupação com a autenticidade era uma das prioridades para os cineastas. Por isso, tem também, claro, a evolução da tecnologia: a história da família era ainda nos tempos do Windows 95, até chegar aos dias de hoje, ao sistema operacional do MacBook.
Outra característica interessante, que fui saber só depois de ver, é que o filme inteiro tem respostas escondidas. Assim como David, você precisa aprender a procurar: se você pausar o filme e olhar para os cantos, lá estão as pistas. Legal, não é? O filme pode ser um jogo interativo.
A parte dramática é a reflexão. A detetive diz para David: nós não conhecemos nossos filhos de verdade e não temos culpa! Tem uma parte do filme que ela pede que David fique afastado das investigações, porque ele está ultrapassando os limites. Mas até onde devem ir os pais pelos filhos? Até onde você iria?


IMDB: 7,7/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Searching.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Aneesh Chaganty
Roteiro: Aneesh Chaganty, Sev Ohanian
Elenco: John Cho, Debra Messing, Michelle La, Joseph Lee, Sara Sohn.


JONATHAN





Não, aqui a culpa não é das estrelas. Lembram do Augusto Waters? Ansel Elgorts, o ator que interpretou esse personagem nasceu em Nova York. Tem descendência russa, por parte de pai, e inglesa, germânica e norueguesa por parte de mãe.
O filme Jonathan fez sua estreia no Festival de Tribeca em abril de 2018, onde arrancou elogios da crítica.
Todos os dias Jonathan acorda às 7h01 e cumpre sua rotina: mantém a casa limpa, corre, vai para o trabalho, em um escritório de arquitetura... ele é muito elogiado por sua competência e criatividade, seu supervisor só se queixa do seu pouco tempo de trabalho, precisa dele em tempo integral. Mas Jonathan diz que não pode, que precisa cuidar de uma pessoa da família. Às 19h, chega seu irmão John, ele é mais relaxado, até no modo de vestir, curte sair à noite. Mas os dois, embora de personalidades diferentes, se dão bem e procuram seguir as regras. Como eles nunca se encontram, se comunicam através de vídeos gravados. Dizem o que fizeram e o que compraram na ausência do outro. Jonathan cozinha e deixa o prato do irmão na geladeira, às vezes leva sua roupa pra lavanderia. Tudo ia mais ou menos bem, até que John arruma uma namorada, a Elena. Ela é o início da instabilidade na rotina dos gêmeos.
Em Baby Driver, o ator representa um personagem que não vive sem a música. A música silencia um zumbido que o perturba desde um acidente na infância. Jonathan e John não vivem um sem o outro também. Abandonados pela mãe, um cuida do outro. Suprimir um é deixar o outro em uma situação de profunda solidão. Baby, de Baby Driver, após conhecer a mulher dos seus sonhos, reconhece uma oportunidade de se livrar do estilo de vida questionável e recomeçar do zero. Em Jonathan, também uma mulher faz com que os irmãos queiram ter um novo recomeço, só que aqui só há espaço para um deles.
O filme nos faz refletir o quanto precisamos reprimir em nós mesmos para criar um padrão. O quanto desejamos amar e ser amados ao ponto de na solidão, criarmos um personagem de nós mesmos. O quanto é difícil desapegar, o quanto é difícil matar certos comportamentos para deixar aflorar outros. Jonathan é o certinho, o comportado, o organizado, aparentemente o bem-sucedido.
O longa dirigido pelo estreante Bill Oliver, que também assina o roteiro, está classificado como ficção científica, mas para mim trata-se de um drama de distúrbio de personalidade. Exceto por um dispositivo tipo chip que Jonathan usa no pescoço, que foi colocado por Patrícia Clarkson (Sharp Objects) , uma espécie de cientista, médica, terapeuta, que cuida dos irmãos.

IMDB: 5,8/ 10
Minha nota: 3,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Jonathan.
Outros nomes: Duplicates.
País:EUA
Ano: 2018
Direção: Bill Oliver.
Roteiro: Gregory Daves, Peter Nickowitz, Bill Oliver.
Elenco: Ansel Elgort, Patricia Clarkson, Suki Waterhouse.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

NASCE UMA ESTRELA




Afinal, qual o melhor?
Bem, devo dizer que assisti a todos entre o final de 2018 e início de 2019. Assistir a um filme de 1937 agora é uma experiência de tentar ver com os olhos daquela época, o que é difícil, porque (juro!) eu não era nem nascida. Mas vi os quatro em ordem cronológica, então foi o primeiro, o roteiro original premiado com o Oscar, que me apresentou a história de uma mulher que realizou o sonho de ser famosa e de encontrar o amor. Esther Blodgett (Janet Gaynor) abandonou a pequena cidade onde morava, Dakota do Norte, para tentar a vida como atriz, na Califórnia. Já desanimada, ela conhece um astro famoso, Norman Maine (Fedric March), que, além de se apaixonar perdidamente por ela, acredita nela como atriz. Foi então esse que me surpreendeu, que me tirou as primeiras lágrimas, que me tirou risos também, que me fez torcer e, mesmo tendo visto só recentemente, já se tornou um dos meus inesquecíveis.

A adaptação de 1954, com Judy Garland e James Mason quase me fez desistir de assistir, porque são mais de duas horas e meia de filme, vi ém três partes. Começo a ver tarde e morro de sono. Não por causa do filme, mas pelo cansaço mesmo. O roteiro aqui é bem fiel ao original, mas a Esther, ou Vicki Lester, é uma cantora, então nessa temos vários números de música. Embora longo, é bem emocionante e quando acaba, dá vontade de ver tudo de novo. E chorar tudo de novo. A gente lembra de cada diálogo, as várias falas repetidas do primeiro. E choramos e rimos em dobro, lembrando também do primeiro filme.
No terceiro filme, de 1976, temos o casal formado por Barbra Streisand e Kris Kristofferson. Ambos os atores levaram os Globos de Ouro de Comédia e Musical, em suas respectivas categorias. É o primeiro remake a fazer algumas alterações consideráveis no roteiro, ainda que a essência da história permaneça lá. Mas mesmo assim, eu já fiel à história dos dois primeiros, fiquei meio que frustrada. Eu acho que por a Barbra ser uma cantora maravilhosa, eles focaram muito nos números musicais e menos na intensidade do romance. Posso estar errada, mas foi isso que senti. O que posso dizer é que foi o que eu menos gostei.
Agora o último, gente, é difícil não se apaixonar, porque é com Bradley Cooper e ele está lindo como o músico Jackson Maine e o olhar dele para a Ally Campana (Lady Gaga), a ternura que ele transmite, é de derreter qualquer coração. Os números musicais também são demais. A quarta versão marca a estreia de Cooper na direção de uma maneira que merece muitos aplausos e reconhecimento, porque atenta, competente, grandiosa, vibrante! Também foi muito feliz e acertada a escolha de Lady Gaga para o papel da protagonista.
Alcoólatra e dependente de drogas, o casal se apaixona e é uma exigência dela que ele pare com os vícios. A princípio, o relacionamento ajuda Maine a se segurar um pouco, afinal ele está tão feliz com o amor e com a parceria nas músicas, nos shows, muito contente por apresentá-la ao público, mostrar que ela tem valor, que ele soube ver isso, é quase como se fosse uma criação dele, ele se orgulha muito e também se alegra por ela. Mas a vida meio que lhe dá uma rasteira e a carreira de Ally cresce o tempo todo, enquanto a sua não vai tão bem, a frustração o leva a se entregar aos vícios de novo, principalmente ao álcool e aí vira um círculo vicioso: quanto mais bebe, mais decai, quanto mais é esquecido e rejeitado pelos produtores que agora só tem olhos para Ally, mais bebe.
Bradley não faz feio de jeito nenhum, nem como diretor e nem como ator e ainda: nem como cantor! Imagine a responsabilidade de ainda cantar ao lado de Lady Gaga! Ela, que já tinha feito um trabalho em American Horror History, pelo qual recebeu inclusive um Globo de Ouro como Melhor Atriz em Minissérie, disputado com atrizes experientes (Kirsten Dunst, Felicity Huffman e Queen Latifah), prova que tem outro talento além de cantar. "Sempre quis ser atriz, mas a música aconteceu primeiro", diz, em discurso.
Uma outra boa escolha para o elenco foi a do veterano Sam Elliott, conhecido por sua voz forte e pelo bigode característico.
O filme é forte candidato em várias categorias, teve várias indicações mas, por enquanto não levou tantos prêmios assim. Recebeu o Globo de Ouro o o prêmio do Critic's Choice Awards de Melhor Música com Shallow. Vamos ver no Oscar.
Caretice minha, mas senti falta de algumas falas marcantes do filme original. A versão de 2019 focou mais do declínio do astro Jackson Maine que na ascensão da estrela. Também não ficou claro para mim que o ato final de Maine foi pensando nela ou nele. 
O fato de eu já conhecer a história tirou um pouco do impacto, mas sim, é um filme maravilhoso, como eu já disse: vibrante. Que merece ser visto e revisto. Parabéns, Bradley, todo o meu respeito e admiração pelo seu trabalho.

Ah, afinal, qual eu gostei mais? Pergunta difícil. Já disse que o que eu gostei menos foi a versão de 1976, com a Barbra. Quase empatado com o de 2018, mas acho que gostei mais da versão de 1954, com Judy Garland e James Mason.

E não, não consigo tirar a música da minha cabeça:
https://www.youtube.com/watch?v=bo_efYhYU2A

A tradução:

SUPERFÍCIE.
Me diga uma coisa, garota
Você está feliz neste mundo moderno?
Ou você precisa de mais?
Existe algo mais que você está procurando?

Estou caindo
Em todos os bons momentos
Eu me vejo almejando uma mudança
E nos momentos ruins, eu tenho medo de mim mesmo

Me diga uma coisa, garoto
Você não está cansado de tentar preencher esse vazio?
Ou você precisa de mais?
Não é difícil manter toda essa energia?

Estou caindo
Em todos os bons momentos
Eu me vejo almejando uma mudança
E nos momentos ruins, eu tenho medo de mim mesma

Eu estou à beira do precipício, assista enquanto mergulho
Eu nunca vou tocar o chão
Caio através da água
Onde eles não podem nos machucar
Estamos longe da superfície agora

Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Estamos longe da superfície agora

Eu estou à beira do precipício, assista enquanto mergulho
Eu nunca vou tocar o chão
Caio através da água
Onde eles não podem nos machucar
Estamos longe da superfície agora

Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Estamos longe da superfície agora



Ficha técnica:
Nome original: A Star is Born.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Bradley Cooper.
Roteiro: Bradley Cooper e outros
Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott.

IMDB: 8,1/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Minha nota: 4,3/ 5

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

GREEN BOOK: O GUIA






Donald (Don) Walbridge Shirley nasceu na Florida, filho de mãe professora, que ele perdeu quando tinha apenas 9 anos, e pai sacerdote episcopal, ambos imigrantes jamaicanos. Don começou a aprender piano quando tinha apenas dois anos de idade. Continuou aprendendo com pessoas e em lugares renomados. Obteve o doutorado em Música, Psicologia e Artes Literárias, após desistir temporariamente do piano. Ele falava oito línguas fluentemente e era um talentoso pintor.
Frank Anthony Vallelonga era mais conhecido como Tony Lip e nasceu na Pensilvânia, filho de pais italianos e cresceu no Bronx, perto da casa de infância de John Gotti, um gangster ítalo-americano e chefe da Família Gambino de Nova Iorque. Ganhou seu apelido Lip porque podia ser muito "persuasivo".
No início dos anos 1960, formava-se uma parceria entre Tony e Don Shirley, quando Tony, desempregado, aceitou a oferta do pianista para acompanhá-lo por dois meses em uma turnê como seu motorista e guarda-costas.
O filme Green Book é a inspiradora história dessa viagem pelo sul segregado e da amizade do chofer italiano-americano "casca grossa" e o virtuoso pianista afro-americano Dr. Don Shirley.
Dois anos antes da morte de Vallelonga, Nick, um dos seus filhos, fez um documentário para comemorar seu 80º aniversário e parte desse doc. foi adaptado para o filme.
Podemos dizer que Green Book é uma releitura de Conduzindo Miss Daisy, de Bruce Beresford. Quem viu, não esquece da história de uma senhora judia de 72 anos que reluta em contratar um motorista negro no sul dos EUA mas, com o passar dos anos e a convivência diária, eles se tornam grandes amigos. No longa de Peter Farrely a situação se complica ainda mais, porque o motorista é branco e o patrão é negro, o que gera olhares preconceituosos e críticos. O livro verde a que o título faz referência é um guia que existiu realmente. Nele eram listados estabelecimentos que aceitavam servir negros no sul, onde a segregação racial era institucionalizada pelos estados.
O drama racista, além de ser uma história deliciosa de amizade e de trocas, não sei qual dos dois ali aprendeu mais com o outro, merece ser visto pelas excelentes interpretações de Viggo Mortensen, de quem fiquei mais fã ainda, e Mahersala Ali. Vencedor do prêmio principal do Festival Internacional de Cinema de Toronto, Green Book: O Guia levou três prêmios no Globo de Ouro 2019: Melhor Comédia ou Musical, Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali. Viggo Mortensen também foi indicado. Fortes termômetros para o Oscar 2019, que se aproxima.
A vida de Vallelonga foi extraordinária, o filme resume-se ao trabalho dele com Don, mas dez anos depois ele também fez sua estreia como ator! O menino que cresceu ao lado de um gangster mafioso, que trabalhou como segurança em clubes de mafiosos, tem a oportunidade de interpretar o chefe do crime Carmine Lupertazzi na série The Sopranos, da HBO e fazer vários papéis também no cinema, como The Godfather, Os Bons Companheiros. Tony trabalhou como maitre no Copacabana, onde teve a oportunidade de conhecer muitas celebridades. O Copacabana é uma boate de Nova York . Muitos artistas, como Danny Thomas , Pat Cooper e a equipe de comédia de Martin e Lewis , fizeram sua estréia em Nova York no Copacabana. A canção de Barry Manilow " Copacabana " (1978) leva o nome do clube. A boate foi usada como cenário nos filmes: Goodfellas , Raging Bull , Tootsie , The Purple Rose do Cairo , Carlito's Way , The French Connection , Martin e Lewis , Green Book e Beyond the Sea. De acordo com o site de seu filho Frank, Vallelonga conheceu Francis Ford Coppola e o diretor de elenco de O Poderoso Chefão , Louis DiGiaimo no Copacabana, o que o levou ao seu pequeno papel no filme.
Tony não ficou por aí e também foi co-autor de um livro de culinária! Como visto no filme, uma das maiores paixões de Vallelonga era a comida, em especial as refeições italianas caseiras. "Shut Up and Eat" expressa um sentimento de orgulho por sua herança.
Que me desculpe o Mahersala Ali e seu personagem, mas estou cada vez mais apaixonada pelo Viggo e seu personagem Tony Lip. Sensacionais os dois!
IMDB: 8,3/ 10
Filmow: 4/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Green Book.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Peter Farrelly
Roteiro: Peter Farrelly, Brian Hayes Currie, Nick Vallelonga.
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali.

sábado, 5 de janeiro de 2019

NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO





Ainda digerindo o filme, devagar, como o capelão Toller. O reverendo tinha uma ferida que não fechava, mesmo entregando sua vida a Deus: seu filho, morto numa guerra depois que ele o incentivou a se alistar. Sua mulher não o perdoou. Será que um dia ele se perdoaria? Será que Deus o perdoaria? Será que Deus sempre perdoa nossos pecados?
Toller resolve fazer um diário, escrever todos os dias, durante um ano. Escolhe fazer isso a mão. As frases ou as palavras riscadas possuem significado. Elas precisam estar ali para que ele tenha certeza de que não está enganando a ele mesmo. Ele escreve para ele mesmo. A intenção é essa: uma conversa inadiável com ele mesmo. Porque muitas coisas deixaram de ser ditas. Também eu gosto de escrever, muitas vezes gosto mais de um filme depois que escrevo sobre ele. É como se ele se explicasse para mim. Que impressões retidas na minha mente se revelassem no papel. Desculpem, não no papel, no computador, não tenho mais essa paciência.
Ethan Hawke, assim como seu personagem, em uma entrega poderosa. É como se nós, espectadores, fôssemos seus confessores. Bem, ninguém fala muito, mas eu também adorei a performance dele em Born To Be Blue, em que ele interpreta Chet Baker. Ethan já foi indicado ao Oscar duas vezes na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Será que vai rolar outra indicação?
A Igreja de Sião (Zion) é uma congregação episcopal inclusiva em Douglaston, Nova York, fundada em 1830, com membros de todo o bairro de Queens e do condado de Nassau . Sião está dentro da Diocese Episcopal de Long Island e é uma das igrejas mais antigas do Queens , no topo da colina com vista para Douglaston e Little Neck. Aqui no filme denominada First Reformed. O auge do filme é a festa de comemoração dos 250 anos da igreja, a festa de congregação. Porque o pastor Toller também está passando por um momento dos mais difíceis. Respostas que ele não encontra. Mais que a dor que o dilacera frente à impotência perante situações que ele entende que precisam mudar, o vazio daquilo tudo. Será que Deus sempre perdoa nossos pecados?
O pastor marca uma conversa com Michael (Philip Ettinger), a pedido da esposa dele, Mary. O diálogo entre os dois é um dos pontos altos do filme porque, longe dele apaziguar Michael, ele mesmo sai daquele embate enfraquecido e confuso. Aliás, o título em português é No Coração da Escuridão, mas deveria ser A Escuridão do Coração. Toller não tem respostas para os questionamentos de Michael, porque não tem nem para ele mesmo. Sua fé e sua moral são mais uma vez testadas. Será que Deus sempre perdoa nossos pecados?
Será que Deus sempre perdoa nossos pecados? Por que repito sempre essa frase? Porque é o "coração da escuridão". Confiando nesse perdão, os homens cometem os maiores pecados. Como crianças bobas que entornam o leite no chão, sabendo que o pai e a mãe vão limpar e desculpar, cometem as maiores atrocidades contra o planeta, contra o chão do lado de fora. Não seria mais convincente para Deus não orar tanto, mais procurar ser uma pessoa melhor?
Toller se vê como uma peça usada na engrenagem de coisas que ele não aprova. Quando ele encorajou o filho a se alistar, achou que estava certo, assim fez seu pai com ele quando era jovem, provavelmente seu avô com seu pai. A repetição de certos comportamentos passados de geração em geração embota a mente dos homens, faz com que aceitem sem pensar ou questionar. E, afinal, certo ou errado, cremos que teremos um Deus para nos perdoar. Não entendemos tudo que fazemos, nem precisamos entender, Deus dará seu jeito, no final. Mas Toller não acredita mais nisso.
No final, bem poético, vem a resposta ou a redenção. É como se Toller finalmente se prostrasse aos pés de Deus e aceitasse sua pequenez, sua falta de respostas, suas fraquezas, sua humanidade. Talvez exista um limite para a fé, mas também devemos aceitar as nossas limitações. Mary representa toda a pureza, a luz no meio da escuridão. Um coração atormentado não ajuda em nada. É o amor (ou Amor) o verdadeiro perdão.
IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: First Reformed.
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Paul Schrader
Roteiro: Paul Schrader
Elenco: Ethan Hawker, Amanda Seyfried.
Zion Episcopal Church






sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

VIDA SELVAGEM




Em um melancólico e real retrato de uma dona de casa, vivendo em uma época em que mulheres nem ao menos tinham voz, o estreante Paul Dano insere a personagem da talentosíssima Carey Mulligan em uma família suburbana e pobre cujo o marido (Jake Gyllenhaal), não diferente de muitos da época, coloca suas frustrações e problemas acima da própria esposa e do filho (Ed Oxenbould). 


O marido é demitido e, por orgulho, recusa todo e qualquer tipo de trabalho na cidade. Então, ele decide se juntar a um grupo de homens e partir para a floresta onde havia um grande incêndio, deixando para trás sua família. 

Desamparada e sozinha, a dona de casa começa a trabalhar para prover a si mesma e ao filho. O peso em seus ombros se torna ainda pior com as estradas nebulosas que ela percorre, destruindo ainda mais o filho, que tenta manter uma ponta de esperança de que a família ficaria bem. 

Eu sinto que eu preciso acordar, mas eu não sei de que ou para que...”, diz a mãe para o filho em um total momento de desespero e desnorteamento. 

Dano consegue fotografar perfeitamente uma família se despedaçando. Ele não só tem as mãos habilidosas para o triste projeto, como tem a sorte de ter três atores incríveis envolvidos e que tornam este longa ainda mais tocante e real. 

Em uma das cenas em que a mãe já está em total aceitação de sua situação, ela faz uma comparação do estado das árvores no grande incêndio com seu próprio estado após a partida do marido: 

“Você sabe como eles chamam as árvores em um incêndio florestal? Combustível. Você sabe como eles chamam as árvores depois que o incêndio passa? Eles as chamam de mortos em pé”. 

Talvez donas de casa sejam uma das parcelas da sociedade que mais sofreram caladas no passado (em países como o Brasil até hoje). Muitas infelizmente viraram cinzas, mas elas, como pilares das famílias, resistiram de pé, mesmo mortas por dentro.

Comentários e sinopse: Tom Carneiro.


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,7/ 5

Nota (Tom Carneiro): 4,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Wildlife 
País: EUA
Ano: 2018, EUA


Direção: Paul Dano
Roteiro: Paul Dano, Richard Ford, Zoe Kazan.
Elenco: Carey Mulligan, Jake Gyllenhaal, Ed Oxenbould.

domingo, 30 de dezembro de 2018

A HISTÓRIA VERDADEIRA





Pensei, pensei, se deveria escrever sobre esse filme. Pelo mesmo motivo que talvez Michael Finkel não deveria ter escrito um livro e Rubert Goold não deveria ter feito um filme: dar publicidade a Christian Longo. Se bem que sou um pouco menos famosa, né, então acho que não tem problema, rsrsrsrs. Talvez, assim como o Finkel, eu tenha ficado obcecada, estou com necessidade de colocar para fora as minhas impressões. Baseado em uma história real, mas se você não lembra do crime, melhor não ler o que escrevo, antes de ver o filme.
Na verdade, o filme de deprimiu. Aquele olhar vazio do Christian (James Franco) me deixou gelada. Aquele olhar, vazio de tudo. Se existe um inferno, esse olhar é a janela para lá, ...
O filme baseia-se no livro escrito pelo jornalista investigativo Michael Finkel. Recém desempregado, ele descobre que um cara preso por assassinato estava se passando por ele no Mexico. A pergunta, claro: por que ele?
É isso que move Michael quando tenta e consegue uma visita ao Christian: "cara, por que eu?". Ele estava longe de saber a armadilha onde estava se metendo. Ele era um cara comum, com seus ideais, como tantos. Na época atual, com a autoestima lá embaixo, já que foi demitido sumariamente. Michael escrevia bem, era elogiado, mas uma demissão assim faz você questionar os seus valores. Talvez ele fosse um nada. Sua vulnerabilidade mais o carisma de Longo faz com que ele, involuntariamente, sinta-se atraído pela personalidade do outro. Além disso, quem sabe, pode ser sua chance de escrever uma boa história e esfregar na cara dos seus antigos superiores do New York Times. Inicialmente seria uma reportagem, mas Finkel reconheceu que tinha material para um livro. Por que ele? Quem sabe a vida estava lhe dando uma chance? Christian Longo enaltece seu trabalho, diz que leu tudo que ele publicou, está certo, é apenas um odioso e frio assassino, mas de uma certa maneira isso o envaidece, ele não sabe explicar, mas sente-se especial.
Forma-se mesmo uma camaradagem entre eles. Finkel começa a alimentar a esperança, como poderia ser de outro modo?, de que Longo vá lhe revelar algo que o inocente, ele terá o maior furo do ano. Felicity Jones interpreta a esposa de Michael, que acompanha e preocupa-se com a obsessão do marido pelo caso.
Christian era o principal suspeito pelo assassinato da esposa e dos três filhos, um crime que chocou os EUA e o mundo em 2001.
Quando Christian Longo conheceu sua esposa, Mary Jane, era uma história de amor ideal. Testemunhas de Jeová, eles se conheceram na igreja e Christian começou a fazer proselitismo de porta em porta com Mary Jane. Eles ficaram noivos, mas antes que pudessem se casar, Christian foi pego roubando de seu empregador, e eles não foram autorizados a se casar dentro do Salão do Reino das Testemunhas de Jeová. Em vez disso, um ministro os casou em um ginásio em Março de 1993. Em 1997, eles tiveram seu primeiro filho, Zachary, seguido por uma menina chamada Sadie e por último Madison. Em 1999, Mary Jane deixou o emprego e começou a vida que ela sempre sonhou - ser mãe em tempo integral e mulher. Christian parecia querer o melhor para sua família, mas ao invés de trabalhar duro para isso, ele começou com falsificação de cheques e roubou uma minivan. Ele também contraiu dívidas sob um nome falso e começou a vender equipamentos de construção roubados. Ele acabou sendo preso e expulso das Testemunhas de Jeová. Já em liberdade condicional, Longo vendeu seus bens e fugiu com sua família. No entanto, por causa de seus gastos extravagantes na fuga, a família ficou sem dinheiro, e Longo conseguiu um emprego em um Starbucks em Newport, Oregon. Mais uma vez, ele começou a viver acima das suas possibilidades, alugou um apartamento de luxo por US $ 1200 por mês, que era exatamente seu salário no Starbucks. Em 19 de dezembro de 2001, o corpo de 5 anos de idade, Zachary apareceu nas margens da Baia de Yaquina. Pouco tempo depois, Sadie 3 anos de idade, foi encontrada morta. Segundo a autópsia, as crianças se afogaram. Os corpos de Mary Jane e de Madison também foram encontrados em malas na mesma baía. Mary Jane havia sido espancada, e a menina tinha sido estrangulada. No dia em que os últimos corpos foram encontrados, Longo embarcou em um avião indo de San Francisco para Cancun, no México. Ele foi colocado na lista dos 10 mais procurados do FBI e foi reconhecido por uma mulher que se hospedara no mesmo albergue que ele.
Quando chegou a Cancun, ele adotou o nome de um jornalista do New York Times Magazine: Michael Finkel, até que o FBI finalmente o encontrou. Uma semana antes do Natal de 2001, Christian Longo saiu do trabalho e foi para casa. Foi a noite dos fatídicos acontecimentos. James Franco encarna com precisão o desafio de fazer o personagem, o que o deixou pela primeira vez desconfortável em sua carreira. O ator traz à cena um personagem obscuro, sem sentimentos, e sem dúvida alguma, manipulador. Já Jonas Hill encarna o jornalista Michael Finkel , num verdadeiro jogo que o deixa entre a cruz e a espada.
Numa noite de inverno em 2001, Penny Baker-Dupuie sentou-se no sofá na sala de estar de sua casa. Seus dois filhos, um recém-nascido e um de três anos, dormiam em suas camas e Penny observava em silêncio enquanto o marido, John, sentado do lado oposto, mostrava como carregar, esvaziar e depois recarregar a espingarda; devagar, meticulosamente. Apenas alguns dias antes, o cunhado de Penny, Christian Longo, havia matado toda a sua família: a irmã de Penny, MaryJane, tinha 34 anos. Seus três filhos pequenos, Zachery, Sadie e Madison, tinham quatro, três e dois anos, respectivamente. Se Longo pode fazer isso com sua própria esposa e filhos, ela tinha medo que pudesse fazer com sua família também. Penny foi a maior opositora ao fato de Michael escrever um livro sobre o cunhado e mais tarde haver um filme sobre o livro. Na opinião dela, estavam fornecendo combustível demais para uma pessoa que nem devia ser mencionada. Segundo Penny e a família, não há uma coisa no filme ou no livro que faça algum bem para o mundo. Nada. É apenas a história de um psicopata narcisista que quer, a qualquer custo, atenção.
Chris foi condenado à morte mas até hoje sua história é debatida, principalmente entre estudantes de direito. Porque ele quer doar seus órgãos, fato inédito entre os condenados. Ele diz que sabe que virar doador não vai corrigir o que fez, mas que precisa fazer a doação. Será? Estaria ganhando tempo ou fazendo o que sabe fazer melhor: chamar a atenção sobre ele mesmo? Ele teve a chance de preservar quatro vidas, qualquer que fosse seu limite em lidar com a situação da falta de dinheiro. Poderia simplesmente tê-los abandonado. E está preocupado em salvar vidas de quem nem conhece? Qual será a história verdadeira? Qual será a real história também de Michael Finkel, que construiu uma forte ligação com Longo? Em algum momento, ele acreditou na inocência dele?
É importante destacar o papel da mentira e da verdade na relação dos dois. Michael foi demitido por uma mentira que queria dizer uma verdade. Agora queria usar uma verdade que seria contada só para ele, por Christian, para se retratar. A verdade que o salvaria de uma mentira que o fez perder o emprego. Christian tem uma versão para Michael e no dia do julgamento tem outra.
É o tipo de história que te deixa com um gosto amargo na boca, fica uma sensação de que "True Story" podia ter se aprofundado mais, algumas coisas que senti e coloquei aqui foram frutos de pesquisa, mas, ao mesmo tempo, a história sustenta o filme e achei boa a interpretação do James Franco. Sabemos que existem pessoas como o Christian Longo por aí, mas conhecer os detalhes é bem assustador.


IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3/ 5

Ficha Técnica:
Nome original: True Story
País: EUA
Ano: 2015
Direção: Rupert Goold.
Roteiro: David Kajganich, Rubert Goold, baseado no livro de Michael Finkel.
Elenco: James Franco, Jonah Hill, Felicity Jones.