Cinéfilos Eternos: Asiáticos
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terça-feira, 12 de junho de 2018

CAMINHO PARA CASA



O filme fala sobre o choque cultural de um menino de sete anos (Sang Woo), criado na capital da Coreia do Sul, Seul, quando ele é levado pela mãe para um ambiente rural para passar um tempo com a avó. A mãe está desempregada e precisa ficar só para procurar alguma colocação. O local não é só simples, mas é de extrema pobreza. Além de não haver eletricidade, não há também água corrente, banheiro e nem móveis. E mesmo um precário comércio da região fica bem afastado. Sang Woo não teve nenhuma convivência com a avó, é a primeira vez que a vê, é como se fosse uma estranha, e além de tudo é muda. O menino é mimado e egoísta, está certo, mas vamos combinar que é muita mudança para uma criança.
A avó, pobrezinha, faz de tudo para agradar ao neto e se entristece por não conseguir. Sang Woo a trata mal, mas ela é o retrato do amor incondicional. Sua filha foi embora quando tinha dezessete anos e agora ela tem a oportunidade de ter sua família de volta e mesmo com toda a dificuldade para se comunicar, ela quer muito fazer o neto feliz.
Aos poucos, Sang Woo, privado das distrações da cidade, começa a valorizar as intenções de sua sacrificada avó e aprender um sentimento que não conhecia o verdadeiro significado: o agradecimento.
Com um estilo super realista, Jibeuro foi filmado em torno de Jeetongma, Província de Gyeongsang Norte, Coreia do Sul. Bem, para falar a verdade, não sei bem se foi tão realista, porque uma coisa que me incomodou foi que o longa conta a história de uma avó de setenta anos com seu neto de sete. Já por aí achei muita diferença de idade. A filha fugiu de casa com 17, o menino tem 7, que idade que essa avó teve a mãe de Sang Woo? Fora que ela não parece de jeito nenhum ter só setenta anos, parece que tem uns 120 anos! Será que foi maquiada para parecer mais velha? Mas para quê? No meu entender, ela deveria ser a bisavó do menino. Está certo que a vida carente e no campo envelhecem, mas achei demais. Fiz as contas aqui, a senhora que fez o papel de avó, Kim Eul-Boon tem hoje 92 anos. Se o filme é de 2002, ela tinha por volta de 76 anos na época.
Prêmios: Grand Bell Award (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Ator Jovem). O Gram Bell Award é o equivalente sul-coreano ao Oscar.
A diretora sul coreana Lee Jeong-Hyang tem outros filmes no seu currículo: A Reason to Live (O-Neul), 2011 e Art Museum by The Zoo (Misulgwan yup dongmulwon), 1998.
A linda mensagem do filme é que amor gera amor.
IMDB: 7,8/ 10
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Jibeuro
Outros nomes: Jiburo, The Way Home.
País: Coreia do Sul
Ano: 2002
Direção: Lee Jeong-Hyang
Roteiro: Lee Jeong-Hyang
Elenco: Yoo Seung Ho, Kim Eul-Boon, Dong Hyo- Hee

domingo, 3 de junho de 2018

A GOOD RAIN KNOWS



O filme, mais que a história de Dong Ha e May, é uma viagem ao passado da China, mais especificamente à província de Sichuan, cuja capital é Chengdu. É lá que se encontra um parque de bambus, parte do que ficou das florestas de bambu da China onde vivem também os pandas que restaram. É a floresta que fornece o alimento desses animais, que são o símbolo da luta mundial pela preservação das espécies. Até que a nova floresta de bambus renasça novamente dos restos da antiga, os pandas, cerca de mil somente, vão enfrentar muitas dificuldades para sobreviver. E foi lá em Sichuan que houve também um grande terremoto em 2008, onde morreram mais de 85 mil pessoas.
É nesse parque de bambus que trabalha May como guia turístico e é lá igualmente que podemos conhecer o chalé, reconstruído em 1811 do famoso poeta chinês Du Fu, considerado, ao lado de Li Bai, o maior poeta chinês. Du Fu deixou 1.400 poemas, um dos maiores tesouros da poesia chinesa e continua, há muitos séculos, a ser lido e estudado por centenas de milhões de chineses. O seu legado faz parte da herança cultural dos povos do mundo.
Sua cabana ao lado do Rio das Cem Flores é cercada por pessegueiros, que ele apreciava muito e ele fez inúmeros poemas sobre os bambus. É dele o poema "Chuva boa numa noite de primavera", que dá nome ao filme.

Dong Ha vai para China a trabalho mas a lembrança de sua amiga da faculdade nos Estados Unidos, por quem ele esteve apaixonado, o atrai também. May o reconhece e parece ficar feliz ao vê-lo mas é bem reticente quanto à sua vida e parece surpresa quando Dong Ha lhe lembra alguns episódios do relacionamento deles.
O filme é bem delicado, assim como o tratamento que Dong Ha dá a May, se declarando aos poucos, tentando a aproximação, mas também lhe dando espaço. A trilha sonora é simplesmente encantadora e só pela cena onde as pessoas dançam na rua já vale à pena ver o filme.
O romance de Dong Ha e May é permeado pela poesia de Du Fu, tem uma cena em que eles pegam uma chuva, a chuva boa que vem abençoá-los, a chuva boa numa noite de primavera.
Tem uma passagem que ela pergunta pra ele:

"As flores florescem porque a primavera chega ou a primavera chega quando as flores florescem?"
Mas May tem um segredo, algo em sua vida que a impede de se entregar. Algo que impede as flores da primavera se abrirem em seu coração.

Deixo aqui o link da trilha sonora, composta por Jae-Jin Lee, muito linda!


IMDB: 6,5- 10
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Ho Woo Shi Jul (Howoosijeol)
Outros nomes: Season of Good Rain, 호우시절 
País: China/ Coréia do Sul
Ano:  2009
Direção: Jin-ho Hur.

Roteiro: Han-yeol Lee, Jin-ho Hur

Elenco: Jung Woo-sung. Yuanyuan Gao, Kim Sang Ho.

A CRIADA



Só vendo o filme para entender tanto alvoroço em torno dele. 
O filme mescla fotografias de tirar o fôlego com atrizes de beleza estontante, figurinos e cenários espetaculares, além de um roteiro que surpreende o tempo todo, tudo isso aliado a um erotismo como há muito tempo eu não via. Cenas de sexo explicitas mas misturadas com uma delicadeza sem igual.

A história de Hideko, uma jovem herdeira nipônica, promete com certeza te emocionar e te surpreender. Orfã, a mãe morreu logo depois que ela nasceu, foi criada pelos tios, mas a tia se suicidou e o tio pretende casar com ela por causa de sua fortuna.
É nesse contexto que entra em cena "a criada", uma jovem contratada para trabalhar direto com ela, mas que (coitada da Hideko) também não tem boas intenções, porque na verdade está ali para convencê-la a se apaixonar pelo Conde Fujiwara e fugir com ele, escapando assim do tio, só que o conde é outro vigarista que só quer seu dinheiro também.

O que o diretor da Trilogia da Vingança (Senhor Vingança, Oldboy, Lady Vingança) pretende na verdade com essa obra onde não sabemos quem manipula quem? Talvez nos manipular também?

Vencedor do Prêmio do Público de melhor filme internacional na 40ª Mostra de SP, The Handmaiden é um filme sobre a arte das simulações. Estreou no Festival de Cannes 2016, onde foi muito bem recebido pela crítica e chegou a receber um prémio de Melhor Direção Artística. 
Baseado no livro “Fingersmith”, um suspense e romance de Sarah Waters.

IMDB: 8,1 - 10
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Ah-ga-ssi
Outros nomes: The Handmaiden
País: Coréia do Sul
Ano: 2016
Direção: Park Chan-wook
Roteiro: Park Chan-wook, Sarah Waters
Com: Kim Min Hee, Kim Tae-ri, Jung-woo Ha.


SILÊNCIO



A história se passa no século XVII. O Padre Ferreira (Liam Neeson) vai para o Japão catequizar e nunca mais dá notícias. Há rumores que ele tornou-se um apóstata, isto é, que renunciou à sua fé.


Os padres jesuítas Rodrigues e Garupe resolvem ir procurá-lo. Eles o têm em grande conceito e custam a crer nessa história e se for verdade, pensam que é mais um motivo para encontrá-lo e salvarem sua alma.

Em um Japão de paisagens deslumbrantes e grandiosas, vamos presenciar quase o filme todo o sofrimento dos cristãos e ficamos na expectativa, assim como os dois jesuítas, de encontrarmos o Padre Ferreira.

Baseado na principal obra do escritor japonês Shusaku Endo, que por sua vez é baseada em fatos reais, o filme com um orçamento de quase 50 milhões de dólares tem quase três horas de duração, onde são questionadas profundamente a fé e a vida. O Padre Rodrigues é o personagem principal e é a expressão da luta interior. Como saber até onde deve ir sua missão ou até mesmo qual é ela de verdade?

Para ajudá-los a entender o seu papel, os atores, principalmente Andrew Garfield, trabalharam durante meses os chamados ‘Exercícios Espirituais’, uma prática de oração criada por Santo Inácio de Loiola, o fundador da Companhia de Jesus.

O filme, do grande diretor Martin Scorsese está concorrendo ao Oscar na categoria Melhor Fotografia e Andrew Garfield como Melhor Ator.

IMDB: 7,2- 10
Minha nota: 4/ 5



Ficha técnica:

Nome original: Silence
País:  EUA, Japão, outros
Ano: 2016
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese, Jay Cocks, Shusaku Endo
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Issei Ogata, Kubozuka Yosuke. E Liam Neeson.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

SOB O OLHAR DO MAR



Último romance escrito pelo diretor Akira Kurosawa.

"É impossível viver sem algo que nos dê animo."

Um bordel numa cidade à beira-mar. O século: XIX. Uma prostituta que ainda conserva a pureza dos sentimentos e apaixona-se pelos clientes. Quando um samurai (Hidetaka Yoshioka, de Rapsódia em Agosto) vai parar lá, fugindo de uma briga na qual se metera e em que tem lembrança de ter ferido alguém, apesar de muito bêbado, O-Shin (a linda Nagiko Tohno) o ajuda. Fusanosuke, esse é o nome dele, fica muito agradecido e passa a procurar O-Shin. Ela, alertada pelas outras, principalmente por Kikuno, tenta evitar de vê-lo. A diferença de classe é muito grande entre eles, o que aquele jovem bem-nascido vai querer com uma moça como ela? Mas isso não impede que O-Shin se apaixone pelo jovem samurai. 
Fusanosuke lhe diz que ela não tem que ter vergonha do que é, que ela apenas teve menos sorte que ele e que acredita que se ela deixar de exercer a profissão, voltará a ser pura. Isso acalenta a esperança não só nela quanto nas amigas do bordel, que se dispõem a atender os clientes dela para livrá-la do pecado, enquanto Fusanosuke faz uma viagem. 

Como não se encantar com essas mulheres? As gueixas, retratadas sem vulgaridade, muito pelo contrário, elas eram de uma beleza, sempre com seus lindos quimonos e penteados, mostrando cuidado e empatia umas com as outras. Uma história simples e sensível, onde os sonhos de cada uma são revelados quando elas ajudam O-Shin. Porque embora elas temessem por O-Shin, por ela se envolver emocionalmente, quando elas resolvem ajudá-la a se casar com um samurai, elas também estão realizando o lado romântico escondido delas.

Um outro jovem rapaz (Masatoshi Nagase de Trem Mistério) aparece e se apaixona por O-Shin,
Um temporal avassalador atinge o vilarejo, provocando a fúria do mar e o transbordamento dos rios. Um velho cliente aparece para resgatar Kikuno, ele quer que ela fuja com ele, mas ela não quer, o que provoca uma outra briga no filme. 
O mar, que testemunhou todos os dramas daquele bordel e das gueixas, vem agora mudar toda a vida delas. A cena de O-Shin e Kikuno no telhado, quase tocando as estrelas, é de uma beleza ímpar.

Akira Kurosawa escreveu esse roteiro que deixou inédito em 1993. Adaptou dois contos: "O Cheiro de uma Flor Desconhecida" e "Antes que o Orvalho Seque", de Syugoro Yamamoto. Sua intenção era desmentir os críticos que diziam que não sabia escrever personagens femininos. O filme procurou seguir todas as anotações (desenhos, sketches e até mesmo o desenho de produção de Kurosawa), inclusive com determinados detalhes, por exemplo, a heroína é a única a usar quimono vermelho. Foi o filho de Kurosawa quem escolheu o diretor Kei Kumai para dirigi-lo. Assim, ele contou esta história delicada, sobre gueixas em busca do amor, que foi muito bem fotografada e encenada.

IMDB: 7,1- 10
Minha nota: 3,9-5

Ficha técnica:
Nome original: Umi Wa Miteita
País: Japão
Ano: 2002
Direção: Kei Kumai.
Roteiro: Akira Kurosawa, Kei Kumai, Shugoro Yamamoto.
Elenco: Nagiko Tôno, Hidetaka Yoshioka, Masatoshi Nagase, Misa Shimizu.

DESEJO E PERIGO



São mais de duas horas e meia de duração. Mas que nem de longe são cansativas.Tecnicamente impecável, com fotografia e direção de arte magníficas, brincando com o tema noir, músicas de Alexandre Desplat, a trama é tensa e angustiante e prende a atenção do início ao desfecho final. A história é ambientada na China ocupada pelo Japão nos anos 40 e deu a Ang Lee o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2007.

Adaptação da obra literária de Eileen Chang, uma escritora muito popular na comunidade sino-americana. A autora do livro levou mais de 30 anos para finalizar a obra, ela começou a escrever nos anos 50. Eileen tem muito em comum com a obra, já que viveu na China ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, foi casada com um colaborador do governo japonês, sofreu com a infidelidade do marido e interrompeu seus estudos na Universidade de Hong Kong para voltar a Xangai, temas vistos em seu livro.

Um grupo de artistas, estudantes universitários, em meio às efervescências políticas, resolvem usar a arte como forma de protesto e conscientização. É nesse contexto que entra a jovem Wong Chia Chi (Wei Tang). Wong nunca tinha participado de teatro e sua estreia é um sucesso, provocando uma onda de nacionalismo na plateia. O grupo é tomado pela euforia de poder transformar na realidade a situação em que vivem e resolvem usar os seus dons artísticos para revolucionar de verdade. A jovem Wong infiltra-se com outro nome na família do perigoso Sr Yee (Tony Leung Chiu Wai), chefe da polícia de Xangai, tornando-se amiga da esposa dele, com o objetivo de atraí-lo para que seja eliminado. Retraída e simples, ela tem que interpretar uma mulher casada com um empresário, sedutora e confiante. Os riscos são enormes, qualquer desconfiança e ela pode morrer.

Por que terá Wong aceito participar desse perigoso jogo? Órfã de mãe, com a guerra seu pai vai para a Inglaterra e leva com ele o seu irmão. Relegada a segundo plano por sua condição feminina, Wong vê finalmente uma chance de participar da história de seu país e não vai poupar esforços para isso. Ela sabe que pode ter que ser amante do Sr. Yee mas o seu ideal vai além da preocupação com o próprio corpo.
Tem início um jogo de política e paixão pontuado com cenas de sexo e violência. 

As polêmicas cenas de sexo custaram à atriz Tang Way o banimento da China por protagonizá-las. Filmadas em 11 dias em um set fechado, somente com a presença do cinegrafista e da equipe de som, as cenas são descritas por Ang Lee como “apenas gráficas, e não pornográficas”. Já Tang Wei comenta que as tomadas foram delicadamente ensaiadas antes das gravações. Quando lhe perguntaram pelo erotismo do filme, Lee respondeu de modo significativo: “Quis falar não tanto de sexo, mas da ambivalência fundamental do ser humano.”

As cenas não são gratuitas. O caráter do desejo é fundamental para o encadeamento da história. Desejos incontroláveis e transformadores. A jovem Wong representa não só a China submetida como todas as mulheres. Mas ela também usa seu poder. Dominação e submissão se alternam, entre Yee e Wong, entre Japão e China.

Criticado muitas vezes por "americanizar" seus filmes, o que posso dizer é que achei "Desejo e Perigo" fantástico. Perturbador e ao mesmo tempo encantador. Daqueles inesquecíveis. Lembra a fábula de "O Escorpião e o Sapo", mas de maneira contrária. Quem conhece, vai entender.

IMDB: 7,6- 10
Minha nota: 4,2- 5

Filcha técnica:
Nome original: Se, Jie
Outros nomes: Lust, Caution
País: China, EUA, Taiwan
Ano: 2007
Direção: Ang Lee
Roteiro: Eileen Chang, Hui-Ling Wang, James Schamus.
Elenco: Wei Tang, Tony Leung.

AS COISAS SIMPLES DA VIDA



No dia do casamento do cunhado com a noiva já em avançado estado de gestação, porque o noivo ficou esperando o "dia da sorte" para casar, a sogra de NJ tem um derrame e entra em estado de coma. NJ está passando por dificuldades na firma em que é sócio e, tudo na mesma época, ele reencontra com uma ex-namorada, que foi o seu primeiro amor. 
Todos se revezam na casa para dar atenção à matriarca, mas isso desperta alguns sentimentos. A esposa de NJ entra em depressão quando ao resolver relatar os seus dias para a mãe, constata que eles são todos iguais e desinteressantes. A filha adolescente de NJ está tomada de culpa, porque a avó foi encontrada embaixo do prédio ao lado do lixo que ela deveria ter levado, mas não se lembra se levou, e suplica para a avó acordar se a perdoa. O filho de 8 anos de NJ diz que não tem nada pra falar com a avó, mas porque falar não é a forma dele se expressar.
NJ tem que ir a Tóquio e marca um encontro com a ex-namorada, Sherry. É uma viagem de volta ao passado que lhe traz muitas reflexões. O que ele perdeu? O que ele ganhou?
Quando eu era criança, não tinha muitas opções de lojas e nem tantas facilidades. Já me diverti muito com bem pouco dinheiro. Hoje somos engolidos pelo consumismo desenfreado. Mal compramos um celular novo e já vem outro modelo que oferece muito mais recursos. Isso gera uma insatisfação muito grande. A sociedade de consumo nos vende a imagem de que ter muitas coisas é essencial e para isso trabalhamos que nem uns loucos para podermos nos cercar de tudo aquilo que passamos a julgar importante. Aos poucos, perdemos o prazer de tomar um café sem pressa com um amigo, de apreciar o pôr do sol e sentir o toque de uma borboleta.
E o pior é que por mais que tenhamos, temos sempre a sensação recorrente de que estamos perdendo algo. Nunca houve antes tantos casos de depressão e ansiedade. 
O grande desafio atual é nos conectarmos com o que é fundamental, nos desapegarmos de tudo o que no final está nos gerando angústia.
Yang-Yang, o menino, parece ser o único no meio daquela família que presta atenção nas coisas, nas coisas simples da vida, que estão à nossa frente e não conseguimos ver. Quieto, retraído, ele não consegue muitas vezes explicar o que é óbvio para ele e é constantemente repreendido no colégio e também motivo de riso dos colegas. Ele gosta de captar as coisas fotografando e ninguém entende aquele monte de fotos de nada, mas que na verdade são de mosquitos, isto é, detalhes. Ou outras de diversas pessoas de costas. Para Yang-Yang, a verdade nunca é inteira, porque só vemos a frente delas, 50% delas. Um lindinho, um filósofo mirim. Ele representa o pensamento ainda inocente, livre dos condicionamentos, que nos farão mais tarde deixar de olhar de forma simples as coisas da vida.

Acredito que Edward Yang, que morreu em 2007 aos sessenta anos de idade e que recebeu por "Yi Yi" o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes quis antes de tudo, usando uma típica família de classe média, refletir a sociedade onde vive, de mostrar o outro lado, as costas, a outra parte da verdade.

Mas não penso que "Yi Yi" pretenda ensinar a adquirir sabedoria. É mais sobre mostrar que errar é humano, que é inevitável errar, não existe nenhum tratado que se adapte a todas as pessoas, isso é bom, isso é ruim. Somos diferentes, únicos e o que precisamos fazer apenas é aprender com os erros que se repetem, é prestar atenção.

IMDB: 8,1- 10
Minha nota: 4,2- 5


Ficha técnica:
Nome original: Yi Yi


País: Taiwan.
Ano: 2000
Direção: Edward Yang.
Roteiro: Edward Yang, Wei-han Yang.
Elenco: Wu Nien-Jen, Kelly Lee van, Jonathan Chang, Gilst, Adriene Lin, Elaine Jin, Hsi-Sheng Chen, Issei Ogata, Su-Yun Ko, Ru-Yun Tang e participação de Edward Yang.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

THAT DAY, ON THE BEACH



Primeiro, devo avisar que o filme tem duração de quase três horas. Então, veja com disponibilidade de tempo ou por partes, como eu.


Três horas pode ser muito tempo para quem senta pra ver um filme, mas não para o encontro de duas amigas que já não se viam há treze anos.



Para Tan Weiqing, pianista de sucesso, esse período representou muitas viagens, muito treino, muitas apresentações, muitas entrevistas. E também a distância do seu único amor de verdade, aquele com quem ela sonhou levar uma vida simples, construir uma família, ...
E agora o passado volta a bater à sua porta: a irmã dele, por quem ela tinha também tanto carinho, a procura. Tan tem uma conferência, mas o que pode ser mais importante que esse encontro?
Entre chás e mais chás, Lin Jiali conta-lhe sua vida. Entre lembranças e emoções, a vida de Jiali passa-se ali, entre as duas amigas. Entre Jiali e a amiga que preferiu correr pelo mundo do que ficar na mesma cidade, mas longe do amado. Ela não pergunta por ele, não agora. Mas ele está ali, presente entre as duas amigas, cujos destinos se cruzam mais uma vez...

Ah, que beleza de filme, do cineasta chinês Edward Yang. Já tinha visto dele "As Coisas Simples da Vida", outra maravilha. Sua carreira infelizmente foi curta, porque faleceu aos 59 anos de idade. Foi ator e roteirista também. Apesar de ter nascido em Xangai, na China, cresceu em Taiwan e todos os seus longas foram filmados na capital de Hong Kong. Por As Coisas Simples da Vida, ficou marcado como o segundo cineasta chinês a ser premiado como Melhor Diretor no Festival de Cannes, antecedido somente por Wong Kar Wai (Amor à Flor da Pele).

That Day, On the Beach é um filme delicado, que nos faz como que olhar de perto, como se também estivéssemos sentados àquela mesa, quase que a pegar a mão de Jiali, tomados também pela emoção do que ela narra. Do nosso jeito ocidental já estaríamos ansiosos, fazendo perguntas, interrompendo com palpites... Mas Tan escuta com atenção, com o coração, com respeito, ...deixando a amiga falar, se lembrar, envolvida na sua dor.
Aquele dia, na praia, ...
Lin Jiali já teve uma vez que fazer uma importante escolha e foi corajosa o suficiente para isso. Aquele dia, na praia, naquela mesma praia onde passou tantos momentos felizes, ela precisou mais uma vez escolher o que iria fazer com tudo aquilo por quê passou, escolher no que acreditar.

IMDB: 7,7/ 10
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Hai Tan De Yi Tian
País: Taiwan.
Ano: 1983
Direção e roteiro: Edward Yang.
Elenco: Sylvia Chang, Terry Hu.

A REDE



O paralelo 38 é uma linha imaginária que marca a divisão entre os territórios comunistas e capitalistas da Coreia: Coreia do Norte e Coreia do Sul. Apesar de os dois países terem uma história e cultura comuns e da assinatura do Tratado de Pan-munjom, eles são, hoje, inimigos em constante ameaça de conflito.
Chul-Woo é norte-coreano. Casado e com uma filha pequena, ele é pescador e leva uma vida simples, mas feliz. Levava, na verdade, até a manhã que sua rede se enroscou no motor do seu barco e ele não conseguiu voltar. Acaba passando a tal linha proibida e pego por guardas da fronteira da Coreia do Sul. Tudo que Chul-Woo, interpretado magistralmente por Seung-beom Ryu, deseja é consertar seu motor e poder voltar para sua família. Mas o serviço secreto o toma por um espião e tem início a visão do inferno na sua vida, com ameaças e torturas. Se ele não é um espião, o sistema pode salvá-lo do regime de onde ele vive, promessas de um emprego, de uma casa e de todas as regalias que o capitalismo pode lhe oferecer. Jin-Woo, um agente secreto encarregado de proteger a integridade física do suposto espião acredita nele, mas não tem o poder de mandá-lo de volta.
Após a separação, enquanto a Coreia do Sul modernizou sua indústria e virou um dos principais países exportadores da Ásia, a Coreia do Norte manteve o sistema comunista de governo, com rígido controle sobre os meios da produção.
A rede de desconfiança é jogada sobre Chul-Woo, querem que ele confesse ser o que não é. E agora como voltar para a sua terra, mesmo que deixem? Porque também o outro lado talvez não acredite na sua lealdade.
O filme mostra os dois lados da Coreia, sem tomar partido. Quando o pescador conhece uma prostituta sendo maltratada na rua , ele pergunta a Jin-Woo: "se aqui tem oportunidade para todos, porque ela está passando por isso? Eu a ouvi falando com a família dela, ela é uma pessoa boa". O protetor dele responde: "Quando a luz é boa, a sombra cresce mais. A liberdade não é garantia de felicidade." Chul-Woo não tinha muita coisa, mas não sentia falta de nada. A busca incessante por maiores remunerações, incentivando o competitivismo e o consumo desenfreado seria realmente a garantia de uma vida melhor?
Por outro lado, o direito de migrar deveria ser respeitado, cada um deveria poder sair e morar onde quisesse.
A paz não é alcançada por causa da ignorância e ganância de alguns. E um povo inteiro sofre.
"Quando o peixe é pego na rede, a vida acaba para ele". Chul-Woo sabia disso, como pescador. E agora ele tinha caído na rede, será que ele conseguirá sair com vida?
Reflexivo, tocante, doloroso, como a maioria dos filmes de Kim Ki-duk. O diretor coloca sempre em seus filmes assuntos da atualidade.
IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 4,2/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Geumul
Outros nomes: Ag, The Net.
País: Coreia do Sul
Ano: 2016
Direção: Kim Ki-duk
Elenco: Lee Won Geum, Seung-beom Ryu,

O TERCEIRO ASSASSINATO



Koreeda, ou Kore-eda, é um dos mais representativos realizadores do cinema japonês atual. Seus filmes possuem um estilo contemplativo e exploram a sensibilidade do espectador. Diretor do premiado Pais e Filhos, do aclamado Depois da Tempestade, do excelente Nossa Irmã Mais Nova, do Seguindo em Frente, que foi baseado em sua própria família, Koreeda é comparado a Ozu, mas deixa indiscutivelmente sua própria marca. Ele gosta de analisar e a sociedade japonesa e, em suas próprias palavras, acredita ser mais comparável a Mikio Naruse e Ken Loach.
Sua inclinação para filmes com um argumento muito delicado e emocional, nos faz pensar por quê agora um filme sobre assassinato. É um filme policial? Não deixa de ser. Um advogado de elite, Shigemori, é encarregado de defender um caso de assassinato. Mikuma já cumpriu pena de trinta anos por um homicídio duplo. Na época, o juiz, pai de Shigemori, o livrou da pena de morte. Mas, com pouco tempo de liberdade, Mikuma confessa ser o responsável por esse que vem a ser o seu terceiro assassinato. O crime, aparentemente por um motivo fútil, porque ele rouba a carteira do morto, tem ainda detalhes sórdidos, porque o corpo é também incendiado. Um caso difícil para o filho do juiz que hoje arrepende-se de não ter aplicado a pena máxima.
Mas Mikuma não tem o perfil de assassino: não é violento aparentemente, é educado, parece respeitar as regras, gosta de pássaros e suas explicações sobre sua motivação para cometer o crime deixa falhas algumas vezes. Shigemori começa a ter dúvidas sobre a autoria do assassinato e quer, pelo menos, encontrar um motivo menos abjeto que o dinheiro.
É nesse contexto que entra o estilo de Koreeda. Não é apenas um filme que visa a confirmação ou não da culpa do réu e desvendar todos os detalhes. O diretor, mais uma vez, pretende nos sensibilizar e nos fazer questionar a culpa. Quem decide quem é o culpado? Quem decide quem morre? Um ser superior, Deus, diante de qual passamos como em uma fila e somos selecionados "esse morre, esse não morre"? O juiz? O julgamento das pessoas que estão ao nosso redor? Quem decide qual é a nossa culpa? Porque muitas vezes somos condenados por uma quando na verdade já nos condenamos por outra, ou por outras.
Shigemori precisa mais como pessoa do que como advogado provar que aquele homem não é culpado, ele precisa acreditar que um ser humano não pode ser tão vazio ao ponto de cometer um crime grave por um motivo banal.
Afinal, quem fala a verdade? E o que é a verdade? "Aqui ninguém diz a verdade."

IMDB: 6,7/10
Minha nota: 4,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Sandome no Satsujin
Outros nomes: The Third Murder
País: Japão
Ano: 2017
Direção e roteiro: Hirokazu Koreeda.
Elenco: Masaharu Fukuyama, Koji Yakusho, Suzu Hirose.

ANTES QUE TUDO DESAPAREÇA



Kiyoshi Kurosawa é um diretor, roteirista, crítico e professor na Universidade de Artes de Tóquio de Cinema. Por mais que ele tenha trabalhado em vários gêneros, Kurosawa é mais conhecido pelas suas contribuições ao gênero terror japonês.
Antes que Tudo Desapareça está mais para mistério e ficção científica, mas o cineasta inicia o filme com uma cena bem sangrenta, com jeito de filme de terror. Foi aí que eu quase desisti de ver o filme.
As histórias de três pessoas se entrelaçam. Uma é a da adolescente Akira Tachibana, cuja família é brutalmente assassinada e ela é recolhida confusa, andando no meio da estrada. Um jornalista, Sakurai, vai ao local para cobrir a matéria e lá conhece Amano, um outro adolescente, que está à procura de Akira e pede a Sakurai que seja o seu guia. Shinji Kase era um marido infiel e estava desaparecido. Ele é encontrado totalmente diferente, agora é gentil e terno, mas muito confuso. Ele pede à esposa, Narumi Kase, que seja a sua guia.
O que essas três pessoas, Akira, Shinji e Amano, têm em comum? Eles dizem que a Terra será invadida e que toda a humanidade desaparecerá. O que eles sabem? Quem serão eles?
Narumi nem consegue mais se concentrar no trabalho, tendo que ficar às voltas com aquele marido com comportamento esquisito, ao mesmo tempo que começa a desejar que ele não mude mais...
O filme envereda por vários gêneros e coloca a questão de que talvez a raça humana esteja realmente perdendo alguns conceitos essenciais, ao mesmo tempo que se apega a outros que a aprisiona. Talvez o nosso planeta precise mesmo ser renovado. No fundo, é um filme leve e até divertido.
IMDB: 6/ 10
Minha nota: 3,5/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Sanpo suru shin'ryakusha
Outros nomes: Before We Vanish
País: Japão
Ano: 2017
Direção: Kiyoshi Kurosawa
Elenco: Masami Nagasawa, Ryuhei Matsuda, Hiroki Hasegawa, Tsunematsu Yuri, Takasugi Mahiro.

ESPLENDOR




"Um fotógrafo é como um caçador que escolhe o tempo como presa."
Mas o que pode fazer um fotógrafo que está perdendo a visão? Assim como a luz, o tempo também escoará da vida de Nakamori?
Misako conhece Nakamori durante uma exibição de filmes para deficientes visuais. O trabalho de Misako consiste em pegar um roteiro e transformá-lo de forma a fazer com que eles "enxerguem" as imagens. É um trabalho bem difícil e delicado, porque sem querer ela transmite para eles a sua visão pessoal, ao mesmo tempo que a sua percepção dos filmes também vai se modificando quando os deficientes pedem para que ela revele mais detalhes de uma cena ou outra. Mas a interação iria bem se Nakamori não estivesse sempre com algumas críticas ao seu trabalho. Embora incomodada, sua personalidade a atrai e ela acaba se aproximando dele.
Naomi Kawase, japonesa, 48 anos, em uma entrevista, disse que produz filmes para retratar o encanto da ligação e conexão das vidas. Seus filmes, ao mesmo tempo que poéticos, nos causam uma certa melancolia, como uma lembrança de alguma coisa incômoda que queremos esquecer. Porque Naomi diz que vê a beleza do mundo através de pessoas que chegaram ao limite. Ela procura passar, com a experiência do filme, que a tristeza se transforma em alegria. Uma espécie de catarse. Os filmes da diretora e escritora, natural de Yamato, partem sempre das necessidades mais elementares, a busca por um afeto, a ligação com a natureza, a procura da beleza e dos significados. Talvez em uma busca de respostas para ela mesma, ela que foi abandonada bem cedo pelos pais e confiada aos avós paternos.
A delicadeza do filme Esplendor nos faz assisti-lo tentando silenciar até a nossa própria mente, para não atrapalhar as reflexões de Misako, que tenta aprimorar o seu trabalho, não só no sentido de fazer os deficientes entenderem o filme, mas também querendo - ela mesma necessitando - levar para eles um pouco de "luz".
"Gosto de um cinema que me traga esperança",
ela diz para um diretor. E esse é o motivo para as contrariedades com Nakamori, o amargo fotógrafo, que acha que ela está modificando o sentido do filme e a realidade da vida.
O que achei muito interessante também foi colocar o cinema como um instrumento de despertar as imagens nos deficientes visuais. Mais um poder do cinema que eu não pensava possível. "Cinema não é só imagens", disse a diretora. "Cegos também podem senti-lo e até entendê-los melhor do que quem de fato pode enxergar".Um pouco clichê, mas verdadeiro, o filme fala sobre a cegueira emocional. Mas a dica serve para mim e para todos que escrevem sobre cinema. "Sempre me pergunto como elevar a imaginação de quem assiste sem explicar demais ou de menos", disse Naomi, em uma entrevista, durante o último Festival de Cannes. Essa é uma medida que vamos encontrar com a experiência, acredito.

Indicações: Palma de Ouro 2017 Melhor Direção, Globo de Ouro Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, entre outros.
A cineasta Naomi Kawase com o elenco do filme no Festival de Cannes 2017.


IMDB: 6,3/ 10
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Hikari
Outros nomes: Radiance
País: Japão
Ano: 2017
Direção e roteiro: Naomi Kawase
Elenco: Misaki Ayame, Masatoshi Nagase.