"Um fotógrafo é como um caçador que escolhe o tempo como presa."
Mas o que pode fazer um fotógrafo que está perdendo a visão? Assim como a luz, o tempo também escoará da vida de Nakamori?
Misako conhece Nakamori durante uma exibição de filmes para deficientes visuais. O trabalho de Misako consiste em pegar um roteiro e transformá-lo de forma a fazer com que eles "enxerguem" as imagens. É um trabalho bem difícil e delicado, porque sem querer ela transmite para eles a sua visão pessoal, ao mesmo tempo que a sua percepção dos filmes também vai se modificando quando os deficientes pedem para que ela revele mais detalhes de uma cena ou outra. Mas a interação iria bem se Nakamori não estivesse sempre com algumas críticas ao seu trabalho. Embora incomodada, sua personalidade a atrai e ela acaba se aproximando dele.
Naomi Kawase, japonesa, 48 anos, em uma entrevista, disse que produz filmes para retratar o encanto da ligação e conexão das vidas. Seus filmes, ao mesmo tempo que poéticos, nos causam uma certa melancolia, como uma lembrança de alguma coisa incômoda que queremos esquecer. Porque Naomi diz que vê a beleza do mundo através de pessoas que chegaram ao limite. Ela procura passar, com a experiência do filme, que a tristeza se transforma em alegria. Uma espécie de catarse. Os filmes da diretora e escritora, natural de Yamato, partem sempre das necessidades mais elementares, a busca por um afeto, a ligação com a natureza, a procura da beleza e dos significados. Talvez em uma busca de respostas para ela mesma, ela que foi abandonada bem cedo pelos pais e confiada aos avós paternos.
A delicadeza do filme Esplendor nos faz assisti-lo tentando silenciar até a nossa própria mente, para não atrapalhar as reflexões de Misako, que tenta aprimorar o seu trabalho, não só no sentido de fazer os deficientes entenderem o filme, mas também querendo - ela mesma necessitando - levar para eles um pouco de "luz".
"Gosto de um cinema que me traga esperança",
ela diz para um diretor. E esse é o motivo para as contrariedades com Nakamori, o amargo fotógrafo, que acha que ela está modificando o sentido do filme e a realidade da vida.
O que achei muito interessante também foi colocar o cinema como um instrumento de despertar as imagens nos deficientes visuais. Mais um poder do cinema que eu não pensava possível. "Cinema não é só imagens", disse a diretora. "Cegos também podem senti-lo e até entendê-los melhor do que quem de fato pode enxergar".Um pouco clichê, mas verdadeiro, o filme fala sobre a cegueira emocional. Mas a dica serve para mim e para todos que escrevem sobre cinema. "Sempre me pergunto como elevar a imaginação de quem assiste sem explicar demais ou de menos", disse Naomi, em uma entrevista, durante o último Festival de Cannes. Essa é uma medida que vamos encontrar com a experiência, acredito.
Indicações: Palma de Ouro 2017 Melhor Direção, Globo de Ouro Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, entre outros.
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| A cineasta Naomi Kawase com o elenco do filme no Festival de Cannes 2017. |
IMDB: 6,3/ 10
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Hikari
Ficha técnica:
Nome original: Hikari
Outros nomes: Radiance
País: Japão
Ano: 2017
Direção e roteiro: Naomi Kawase
Elenco: Misaki Ayame, Masatoshi Nagase.
País: Japão
Ano: 2017
Direção e roteiro: Naomi Kawase
Elenco: Misaki Ayame, Masatoshi Nagase.


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