EU SÓ QUERO QUE VOCÊS ME AMEM - Cinéfilos Eternos

domingo, 20 de maio de 2018

EU SÓ QUERO QUE VOCÊS ME AMEM



***(CONTÉM SPOILER) ***



Há uma linha tênue entre a sanidade e a loucura? Entre a realidade e a imagem que fazemos dela? O que é real? Até que ponto somos algozes ou vítimas da opressora sociedade capitalista?

Peter só queria ser amado. Para isso, sempre tentou fazer tudo certo. Certo, do ponto de vista das pessoas. Primeiro, dos seus pais. Sempre foi um bom menino, um bom filho, mas nunca um elogio, nunca uma nota alta. E ele se esforçava mais e mais, pensava que o problema era seu, que não fazia o suficiente. A mãe, tentava ainda agradar com muitas flores. Que ela nunca pareceu dar importância nenhuma. Tornou-se um pedreiro talentoso, incansável. Começou a construir sozinho uma casa para os pais. Durante esse tempo, pela primeira vez sentiu-se amado por eles. Depois, a casa ficou pronta. E em pouco tempo eles se esqueceram. Esqueceram-se de todo seu esforço, esqueceram-se de amá-lo... sempre preocupados os dois com eles mesmos. E Peter continuava achando que não havia feito o suficiente. Ele se casa com Erika e a casa dos pais é finalmente mobiliada. E ele rapidamente descartado. Eles lhe dizem que eles podem ficar provisoriamente no quarto de hóspedes, até conseguirem seu próprio apartamento. 

Peter não conseguia ser como seu pai, tudo que seu pai fazia dava certo. Ele só podia estar errado, ele não soube se fazer amado. Peter e Erika vão morar em Munique. Para alívio de seus pais. Nesse ponto, para alívio de Peter também, que preferia que seus pais acreditassem que ele era capaz de sustentar sua própria família. 

Ele logo arruma um emprego em uma obra. O capataz reconhece suas habilidades, ele é o melhor de todos. Mas acha melhor não dizer nada, ou terá que pagar-lhe mais. E Peter segue achando que não é bom o suficiente. 

Sua mulher o ama de verdade, mas ele nem percebe e continua repetindo o modelo que foi o que aprendeu, que deve agradá-la para que o ame. Ela merece ter uma casa bem mobiliada, merece um vestido caro, jóias, ... se ele não for capaz de dar-lhe essas coisas, como ela o amará? Não, ele estará errado se não o fizer. E Peter mete-se cada vez mais em dívidas. Que sempre acha que vai resolver, vai trabalhar mais, vai conseguir, "não se preocupe", diz ele para Erika. A chegada de um filho complica mais ainda a situação. Erika o incentiva a pedir ajuda ao seu pai, mas para Peter isso significa admitir seu fracasso como filho, admitir que nunca mereceu ser amado.

Ele é o exemplo de uma personalidade esmagada, para ele ser amado e ter poder de consumir são sinônimos. E aqui fica bem clara a conotação política do filme, a estabilidade financeira como objetivo, o sonho de ser um bom burguês e a máquina do capitalismo fazendo na verdade você produzir e produzir, para alguns poucos enriquecerem. Menos você!

Seus sofrimentos parecem não ter fim e quando ainda ele perde o emprego, à sua sensação de fracasso junta-se a necessidade de mentir para Erika. Até levá-lo a uma situação limite.

Qual é o limite de Peter? Até que ponto a identidade dele foi triturada? Ao ponto dele deixar de ser ele, aquela pessoa resignada, com constante necessidade de aprovação e vir em seu auxílio um outro Peter, que estava escondido dentro dele. Um outro Peter, que não aceitava assim que a culpa era toda dele. Que estava disposto a dar um fim àquela rejeição toda.

E, no trágico final, ficou aquela pergunta sem resposta:

“Você está feliz por estar vivo?”

(e aqui fiquei com a sensação de que é isso que se espera do ser humano, a resignação de estar feliz apenas por estar vivo)


IMDB: 8- 10
Minha nota: 4-5


Ficha técnica:
Nome original: Ich will doch nur, daß ihr mich liebt 
País: Alemanha.
Ano: 1976
Direção: Rainer Werner Fassbinder.
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Christiane Erhardt, Klaus Antes.
Elenco: Vitus Zeplichal, Elke Aberle, Alexander Allerson, Erni Mangold, Johanna Hofer, Wolfgang Rudiger Hess.

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