O INSULTO - Cinéfilos Eternos

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O INSULTO



Fiquei pensando que se não houvessem os conflitos, talvez aqueles dois, um cristão libanês e um refugiado palestino, pudessem ter sido amigos. Afinal de contas eram até parecidos: dois homens bons, de família, de princípios, ... mas eles não eram só eles, traziam na alma todas as humilhações sofridas pelo seu povo, todo o sofrimento. O que pareceu começar com um insulto teve sua origem bem lá atrás. Alíás, qual foi o primeiro insulto? As palavras que o mestre de obras proferiu para Tony? Ou a maneira como Tony o tratou? Quem tinha razão? Quem não tinha? Será que havia um culpado nessa história?
E assim, como que do nada, aqueles dois, o insultante e o insultado, se bem que não sei bem qual é um e qual é outro, mobilizaram a cidade, a imprensa a opinião pública, os advogados e os juízes. Um porque exigia um pedido de desculpas, outro porque não achava que devia se desculpar.
Do nada? Ou de um sentimento reprimido, da revolta, da tristeza, da saudade, da impotência, de todos esses sentimentos que uma guerra traz?
Mas de onde vem a guerra também? Da intolerância, da ganância, da falta de empatia, que é se colocar no lugar do outro, da fé cega em suas razões. De se vitimizar, de se julgar mais sofrido que o outro, ou mais merecedor que o outro.
O que nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? A intolerância ou o perdão? Já pararam para pensar que o perdão não existiria se não houvesse o que ser perdoado?


E como uma bola de neve o caso do insulto de Yasser foi crescendo, crescendo, causando mais acontecimentos lamentáveis, provocando desavenças, mostrando que pela simples falta do perdão, uma guerra pode começar. Ou recomeçar.


Nesse sentido, o filme foi muito bem construído, mostrando isso perfeitamente, mostrando com que rapidez uma fagulha pode provocar um incêndio.


Um tema que, infelizmente, é atual. Porque parece que tudo evolui, a tecnologia é cada vez mais moderna, descobre-se cura e vacinas para várias doenças, mas o ser humano ainda está no mesmo lugar. As feridas ainda são as mesmas, talvez até mais abertas com o tempo.
O insulto maior é talvez esse: tantos exemplos, tantas lições, tantas rezas ou orações (até o nome pode causar confusão) e para que?


Os diálogos são impactantes, os argumentos dos advogados dos dois também. O filme, escrito e dirigido por Ziad Doueiri, é também o primeiro do Líbano a ser indicado ao Oscar. Um retrato incômodo da situação do Oriente Médio, o retrato da intolerância com as diferenças étnicas. No entanto, o longa não toma partido de ninguém, é como se ele apontasse o dedo para você e indagasse: "- o que acha disso tudo?" E essa resposta você só pode dar se consegue se enxergar no outro e essa é a lição do filme.

Já vi desse diretor também o ótimo O Atentado, também sobre questões palestinas.

Em tempo, esse foi o último dos filmes que concorriam ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que vi e, como não tinha visto, tinha colocado ele em quinto lugar de preferência. Gostei muito, mas continua na mesma classificação.

IMDB: 7,8/ 10
Minha nota 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: L'Insulte
Outros nomes: The Insult
País: Líbano
Ano: 2017
Direção: Ziad Doueiri.
Roteiro: Ziad Doueiri/ Joelle Touma.
Elenco: Adel Karam, Kamel El Basha, Camille Salameh, Rita Hayek. Diamand Bou Abboud, Christine Choueiri, Carlos Chahine.

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