Cinéfilos Eternos: Europeus
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terça-feira, 26 de março de 2019

QUATRO MINUTOS




QUATRO MINUTOS
Chris Kraus é um escritor e cineasta alemão, nascido em 1963. Explico aqui porque existe uma escritora e cineasta de mesmo nome, só que americana e que, inclusive, um livro seu, I Love Dick, deu origem à série de mesmo nome protagonizada por Kevin Bacon.
Eu nunca tinha visto nada desse diretor, mas esse filme me impressionou bastante. Vamos conhecer Jenny, uma jovem assassina, presa em uma penitenciária feminina. Além de ter cometido um crime bárbaro, ela não parece ter nenhum remorso e é super hostil, podendo ser bem violenta mesmo. Quando chega na penitenciária uma professora de piano de 80 anos, que tem um projeto de dar aulas para as detentas, "Traude", o oficial Mutze, que também é um grande apreciador de música, apresenta Jenny para ela. Mas a princípio Traude não a vê com bons olhos, já que ela é agressiva, mal-educada, indisciplinada, as mãos, o principal elemento para as aulas , são mal-cuidadas e feridas devido às brigas e ela diz pra Jenny que para dar aulas para ela, precisará aceitar suas regras. Que não está preocupada em torná-la uma boa pessoa, mas sim uma boa pianista.
Mas Traude irá se surpreender com o talento de Jenny e a parceria entre elas provocará conflitos e muitas revelações. Além do seu dom, a música é a única forma com a qual Jenny consegue se expressar e isso acontece de forma intensa, da mesma maneira que são intensos todos os seus pensamentos, toda sua dor, sua raiva, suas feridas, o caos que é sua vida, enfim. Traude precisa dela também para sobreviver às suas lembranças, para encontrar um motivo para ter valido a pena ter continuado viva. Pela arte. Para que a arte se imponha às dores e injustiças do mundo. Com um final impactante e inesperado. Quatro minutos de pura libertação. E aqui me lembrei de Mandela, que dizia que seu corpo podia estar preso, mas que era o capitão de sua alma. Mas Jenny não era. Até àquele momento.
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
País: Alemanha.
Nome original: Vier Minuten
Ano: 2006 Direção: Chris Kraus
Roteiro: Chris Kraus.
Elenco: Hannah Herzsprung, Monica Bleibtreu, Sven Pippig, Stefan Kurt, Jasmin Tabatabai.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

GIRL




Sinopse: Girl fala de uma bailarina transexual de15 anos que tem problemas de aceitação de seu corpo.

É baseado na história real de Nora Monsecour, uma menina cuja transição de gênero chegou às manchetes da Bélgica quando tinha 16 anos e que sonhava em seguir carreira como bailarina.

Um filme extremamente sensível e que retrata toda a angústia de Lara, seu sofrimento solitário.
 



O filme não explica desde quando Victor percebeu que não era um menino. Nem quando a família percebeu. Também não mostra o que aconteceu com a mãe dele/ dela. Lara, então com 15 anos, vive com seu pai, Mathias, e seu irmão de 6 anos, Milo. Lara é uma espécie de mãe para Milo. Cuida dele, dá carinho, o leva na escola... Lara tem todo o apoio do seu pai, ele a incentiva e tenta lhe dar o suporte necessário na sua transição, inclusive acompanhando-a em todas as consultas médicas. Seus professores e colegas de escola e do balé, mesmo sabendo, parecem não ter problemas em aceitá-la. É claro que sempre existe um bullyng, mesmo que velado. Mas o pior inimigo de Lara é o espelho, quando se despe e tenta encarar sua realidade.
O filme é de uma qualidade cinematográfica incrível, mesmo sendo a estreia do belga Lukas Dhont. Também é estreante o ator Victor Polster, que interpreta Lara. Confesso que ele estava tão perfeito que tive dúvidas em algumas cenas: se ele não era mesmo uma menina e que o corpo era montagem. Polster, que aprendeu a dançar na Royal Ballet School of Antwerp, recebeu louvores da imprensa internacional.
A obra, diretor e ator, receberam muitos elogios, prêmios e indicações. Foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro 2019 e ao Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Filme 2018. O filme levou a Queer Palm no Festival de Cannes 2018. O prêmio é oferecido, desde 2010, à melhor produção com temática LGBT. Também ganhou o prestigiado Caméra d'Or, troféu destinado ao melhor longa de um diretor estreante. Victor Polster ganhou o prêmio do juri da Un Certain Regard (mostra paralela do festival) de melhor performance. Entre muitos outros prêmios e indicações.

Mas, como sempre tem os "chatos de carteirinha", Girl vem também recebendo reações negativas, por parte da comunidade LGBT. Tanto pelo fato do ator que encarna a personagem Lara ser um ator cis (cisgênero é o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”) quanto por cenas consideradas violentas demais.
Em sua defesa, Nora Monsecour, que no filme se vê representada na personagem Lara, afirma que “Girl” conta a história da sua adolescência “de uma forma que não mente e também não esconde. Quem está criticando o filme está impedindo que outras histórias trans sejam compartilhadas com o mundo. Todos os dias vejo pessoas trans lutando por seus sonhos. Eles não são fracos ou frágeis. Dizer que a experiência da personagem não é válida por termos um ator cis ou por ter sido realizada por um diretor cis, acaba me ofendendo” escreveu ela, em carta aberta ao Hollywood Reporter.
Lara é então uma pessoa com um relativo padrão financeiro que permite que ela more em um apartamento com conforto, que possa estudar em uma boa escola e aprender a dançar, que tenha apoio médico e psicológico, que tenha em vista uma cirurgia que permitirá que ela realize seu sonho. E uma família bacana. Aliás, fiquei pensando o tempo todo no sofrimento daquele pai. Mas que nem de perto se compara ao sofrimento dela, porque como disse o diretor, Lara tem forças destrutivas dentro dela, ela é a sua maior antagonista. Voltando a falar do espelho, que é muito presente no filme todo, a Lara nua do outro lado é a sua pior inimiga. Mesmo que seu pai e todos a tratem como menina, que a vejam como menina, a Lara do espelho está lá, desmascarando-a. Para compensar, Lara tenta chegar à perfeição na dança, numa tentativa quase cruel com ela mesma de se ver no espelho da academia e aos olhos do mundo como uma bailarina, uma bailarina mulher.
A partir de 15 de março, o filme estará disponível na Netflix. Pelo que eu entendi, já era pra estar, mas houve uma polêmica após o serviço de streaming anunciar que cortaria uma das cenas do filme, que envolve nudez do ator de 15 anos Victor Polster. O diretor Lukas Dhont lançou uma declaração contra essa decisão. A versão de Girl que estreará na Netflix será então a mesma versão que foi exibida em Cannes e nos cinemas da Bélgica e outras partes do mundo.
(Por: Cecilia Peixoto)
IMDB: 7,2/ 10

Filmow: 3,8/ 5

Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:

Nome original: Girl

Outros títulos: Girl: O Sonho de Lara.
País: Bélgica.
Ano: 2018
Direção: Lukas Dhont.
Roteiro: Lukas Dhont, Angelo Tijssens.
Elenco: Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart.









Nora Monsecour, a bailarina retratada em "Girl"

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

BORDER






Baseado na história de mesmo nome de John Ajvide Lindqvist, da antologia Let the Old Dreams Die. No Festival de Cannes 2018 foi coroado com o prêmio Un Certain Regard. O filme foi selecionado como o concorrente sueco no Óscar 2019 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, no entanto foi nomeado apenas na categoria de Melhor Maquiagem e Penteados.
PREPARE-SE PARA FICAR INTRIGADO POR PRATICAMENTE OS CEM MINUTOS DO FILME!

Tina é uma guarda de fronteira com um faro especial, quase animal, para identificar contrabandistas. Ela nasceu com um problema nos cromossomos e talvez até por isso tenha essa habilidade. Mas quando Tina pede para revistarem Vore, nada é encontrado. Tina tem certeza que existe alguma coisa, mas pela primeira vez não consegue provar. Ao se aproximar mais de Vore, ela vai se confrontar com terríveis revelações sobre ela mesma.

Ao mesmo tempo que bizarra, a história é sensível , "o filme explora dicotomias entre o feio e o belo, a inocência e a experiência, o bem e o mal". E sobre o que se aproxima do significado de humano ou não.

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Gräns
Título no Brasil: Fronteira.
País: Dinamarca/ Suécia.
Ano: 2018
Direção: Ali Abbasi
Roteiro: Ali Abbasi.
Elenco: Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson






Os atores Eero Milonoff e Eva Melander.








terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

ADEUS CHRISTOPHER ROBIN




Quem viu o desenho do Ursinho Pooh talvez não saiba que existiu um verdadeiro Christopher Robin (no desenho em português, chamava-se Cristóvão). O filme explica como surgiu a história (não, não é um filme fofo) e como isso afetou toda a família.
Inglaterra, década de 1920, Alan Milne decide mudar-se para um local afastado a fim de encontrar inspiração para escrever. A. A. Milne, como era conhecido, já era famoso, mas estava em um período de estagnação.
Seu filho lembrava que nos seus primeiros anos de vida, a presença de seu pai era quase uma raridade. Ele estava sempre viajando e mesmo quando estava em casa, era sempre trabalhando. Sua mãe cuidava para que ele não atrapalhasse o pai. A mãe também não se ocupava muito com ele, Christopher Robin basicamente foi criado por sua babá, que era muito boa para ele.
Quando eles se mudaram para a casa nova, Robin ganhou um ursinho de pelúcia de sua mãe. Ganhou também outros bichinhos. Christopher batizou seu ursinho de Winnie-the-Pooh: Winnie em homenagem a um urso que sempre via no zoológico e Pooh, por causa de um cisne que haviam conhecido em um feriado. A residência era perto de uma floresta e ele começou a fazer alguns passeios com o pai e pela primeira vez Robin sentia-se em total felicidade, a mãe perto, o pai disponível e sua querida Nou, a babá, todos juntos.
"A minha infância foi maravilhosa, crescer é que foi difícil."
Nos passeios com o pai, Robin, como a maioria das crianças, não parava de tagarelar e de fantasiar, criava aventuras com seu ursinho, com o tigre que podiam encontrar na floresta e, aos poucos, uma história ia se montando na cabeça de seu pai. Até que finalmente foi lançado o livro "Winnie-the-Pooh", que se tornou um grande sucesso mundial. Pooh (Puff) foi nomeado por causa do ursinho de Robin. Outros brinquedos verdadeiros de Robin também emprestaram seus nomes para outros personagens, como Tigrão, Bisonho e Leitão.
Christopher se tornou uma celebridade instantânea pouco tempo depois que os livros de seu pai começaram a chegar nas mãos das crianças no mundo todo. Pessoas de todos os lugares escreviam cartas e vinham até sua casa visitá-lo. E, dessa forma, ele se tornou a estrela de uma campanha publicitária para promover o livro.
E, isso, claramente mexeu muito com a pequena criança. A história de Christopher Robin, que ficou conhecido como Christopher, mas que em casa era apenas Billy, e que queria apenas ser Billy, está, de fato, bem longe da magia e alegrias dos contos de seu pai.
" - Eu não sou Christopher Robin", se queixa, Billy, chorando.
A mãe, sempre formal com ele, a mesma mãe que falava que quase morreu para pari-lo e que dizia para a babá que ela tinha sido contratada para fazê-lo feliz, se isentando assim de sua responsabilidade, lhe diz :
" - Não chore, Billy, não choramos nesta casa."
Ele cresceu e sua relação com seu pai só piorava. Robin teria dito a ele que "quem iria imaginar que aquele ursinho iria nos engolir?" O pai lhe diz, tentando se desculpar: "- Aqueles dias que passamos só nós dois foram os melhores da minha vida." Billy responde: " - Sim, eu sei. Mas você os vendeu."
" - Eu só queria você, Blue." (era como ele chamava o pai)
.A única pessoa que parecia se importar com ele realmente em sua infância era sua babá, Olive, a quem ele se referia carinhosamente como Nou. Ela se preocupava com essa exposição toda do menino. Para Olive, "uma pessoa deve fazer aquilo que ama com a pessoa que ama..."
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Essa parte não está no filme. 
Robin em uma entrevista fez duras críticas a seus pais na frente de milhões de espectadores do mundo todo.

"Me pareceu, quase, que meu pai tinha chegado onde estava, por se apoiar em meus ombros infantis. Que ele roubou de mim meu bom nome e me deixou com nada além da fama vazia de ser seu filho." afirmou ele.
Sua mãe ficou tão chateada que pediu a seus funcionários para que enterrassem a estátua de Christopher para que ela não precisasse olhar mais para a imagem. Após, a morte de A.A. Milne, sua mãe ainda viveu por mais 15 anos e durante esse período apenas se encontrou com Christopher uma única vez. Quando sua mãe já estava bem debilitada, Robin tentou se reaproximar e até mesmo teria implorado para poder ver sua mãe uma última vez antes que ela fizesse sua passagem. No entanto, ela se recusou a recebê-lo.
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Por: Cecilia Peixoto

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Goodbye Christopher Robin.
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Ano: 2017
Direção: Simon Curtis.
Roteiro: Simon Vaughan.
Elenco: Domhnall Gleeson, Will Tilston, Margot Robbie, Alex Lawther, Kelly McDonald, Stephen Campbell Moore.















segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

GUERRA FRIA






O filme que conquistou o Festival de Cannes tem três indicações ao Oscar 2019: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Diretor e Melhor Fotografia. O diretor Pawel Pawlikowski e o diretor de fotografia Lukasz Zal são responsáveis por algumas cenas e sequências que são uma verdadeira pintura e/ou preciosidade.
Pawlikowski, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 com “Ida”, também transcorrido nos tempos do comunismo, nega ser nostálgico com relação à época da Guerra Fria, mas que considerou ser perfeita para situar uma história de amor impossível: "Havia muitos obstáculos na época, e o amor é, em grande parte, uma questão de superar obstáculos”.

O filme também se inspira na experiência pessoal. Pawel, hoje com 61 anos, foi para o exílio aos 14 anos, quando sua mãe bailarina fugiu com ele para o Ocidente. Os protagonistas foram batizados em homenagem aos seus falecidos pais.
“Há muitas coisas em comum entre este casal e meus pais. Eles foram um casal um tanto desastroso que se apaixonou, se separou, se apaixonou novamente, se casou com outras pessoas, se juntou novamente, mudou de país, rompeu, se juntou novamente e assim por diante”.

As belíssimas fotografias em preto e branco acompanham o romance, que vai das fazendas de camponeses da Polônia aos clubes de jazz de Paris entre os anos 1940 e 1960.
O músico Wiktor fica fascinado por Zula (Joanna Kulig) logo que a vê e ouve, no primeiro teste. Ele percebe que ela é especial. Ela lhe pergunta se o interesse dele por ela é só profissional. O romance entre o professor e a aluna não demora muito para acontecer e Zula também não decepciona, mostrando que realmente tem talento. O conflito político não é o tema central, mas o filme mostra a manipulação que o regime comunista fazia até mesmo utilizando a arte e assim o projeto feito com esmero por Wiktor e sua parceira Irena de resgatar o folclore acaba sendo sabotado.
Os protagonistas visivelmente se amam mas vivem uma relação bastante conturbada, chega a dar raiva às vezes. Que dificuldade para duas pessoas ficarem juntas. É o pós-guerra e consequente início da cortina de ferro, na Polónia, passando depois por uma Berlim dividida e uma bucólica Paris e Jugoslávia. Mas os obstáculos não vêm apenas da situação política: ele, bem mais velho que ela, não consegue lidar com o forte temperamento dela. Ele deseja viver em um país livre e acaba ficando sem recursos, ela se torna uma estrela, mas sempre atrelada aos interesses dos governantes de seu país. Ao mesmo tempo, eles fazem coisas que muitos amantes não fariam. O amor, interrompido tantas vezes pelo tempo e distância, esse amor quase platônico, persiste, intenso, não desiste...

...e quem sabe simbolize também o amor eterno dos nossos personagens pela Polônia natal.

(Por: Cecilia Peixoto)

IMDB: 7,7/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Zimna Wojna
País: Polônia.
Ano: 2018
Direção: Pawel Pawlikowski
Roteiro: Pawel Pawlikowski, Janusz Glowacki.
Elenco: Joanna Kulig, Tomasz Kot.








Diretor Pawel Pawlikowski e atores Joanna Kulig e Tomasz Kot no Festival de Cannes.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O CONFEITEIRO







Aconselho a, antes de ver o filme, se cercar de  algumas guloseimas, ou você vai ficar, como eu, com água na boca. Também não sei se adiantará comer uma coisa pensando em outra. Um alemão, dono de uma confeitaria em Berlim, "o confeiteiro", viaja à Jerusalém e acaba se empregando em uma confeitaria lá, de uma viúva com um filho. Quando ele começa a mostrar suas habilidades, a princípio Anat se queixa que ele deve se limitar a realizar as tarefas que ela determina, mas quando ela começa a provar, ela muda de ideia totalmente. Cada vez que Anat coloca aquelas poções de gostosuras na boca, a expressão dela é de quem está nos céus. E nós ficamos hipnotizados, acompanhando cada movimento de deglutição.
“The Cakemaker”, primeiro longa do israelita Ofir Raul Graizer, foi premiado no Festival de Karlovy Vary e mostrado no Festival de Londres. Me perguntaram "ah, é aquele filme LGBT?" , mas eu considero que seja um filme sobre o luto.
Aos poucos, a viúva vai se rendendo não só aos cookies e cakes, mas ao próprio confeiteiro. Não quero me estender muito aqui, pra não contar o filme. Mas o que importa não é o que acontece, mas como acontece. O filme é de uma sutileza, de uma delicadeza só, cada olhar, cada gesto, isso sim, tem importância.
Ah, mas eu queria tanto falar sobre, rsrsrsrsrs. Quem já viu ou não se importa, continue a ler. Ou pare agora! Na verdade, o spoiler está em todas as sinopses e até nos posters do filme.
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Bem, como eu ia dizendo, Anat fica super envolvida com Thomas. O problema é que ele é gay. Se fosse só isso, mas a verdade é que Thomas teve um motivo muito forte para deixar Berlim e não foi por acaso que ele procurou o café de Anat: ele era o amante do marido dela em Berlim. E tudo o que restou dele, de Oren, estava lá em Jerusalém. Ficar perto das pessoas que ele amava era uma forma de se sentir perto dele. Ainda mais porque Thomas era um solitário, só tinha a cafeteria, seu apartamento e Oren.

Comentaram que ele se envolver com Anat era como admitir que existe a "cura gay". Eu entendo, até pensei nisso. Mas é que no filme existem muito mais coisas envolvidas. Thomas procura Oren em Anat. Oren sempre falava dela, como faziam amor, levava o seu bolo de canela pra ela, Anat já fazia parte de sua vida, mesmo sem conhecê-la. Existia uma grande afinidade entre eles, porque se Oren amava Anat e Oren amava Thomas, Anat e Thomas deveriam ter coisas em comum. E já tinham os dois as cafeterias.
Não pude deixar de lembrar de um filme franco italiano, com uma história parecida: Le Fate Ignoranti. Quando seu marido morre, Antonia acaba descobrindo que ele não lhe era fiel. Impelida a descobrir quem era a pessoa e os detalhes da vida do marido que lhe escaparam por tantos anos, sete na verdade, Antonia acaba sabendo que não era uma amante que ele tinha e sim um relacionamento homossexual com Michele. Michele divide o lugar onde mora com outros gays e uma transsexual e são uma espécie de uma família onde Massimo tinha um lugar de destaque. Antonia não sabia nem que o marido cozinhava, a estupefação dela cresce a cada dia. Aos poucos, ela mesma vai se envolvendo com aquela família diferente e também começa a surgir um interesse entre ela e o ex-amante do marido.
Né?
O que se segue é o retrato de duas pessoas profundamente machucadas por uma perda e como suas dores propõem uma aproximação.
E deixo aqui algumas palavras do filme Le Fate Ignoranti:
"Che stupidi che siamo, quanti inviti respinti, quante parole non dette, quanti sguardi non ricambiati... Tante volte la vita ci passa accanto e noi non ce ne accorgiamo nemmeno..."


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The Cakemaker.
País: Alemanha/ Israel.
Ano: 2017
Direção: Ofir Raul Graizer
Roteiro: Ofir Raul Graizer

Elenco: Tim Kalkhof, Sarah Adler, Roy Miller, Zohar Strauss.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

AMOR E REVOLUÇÃO




O filme prende bastante a atenção e devo destacar aqui a interpretação de Michael Nyqvist, ator de Millennium, que infelizmente faleceu em 2017. Pelo papel de Paul Schäfer, um ex-militar nazista, ele foi indicado ao Prêmio do Cinema Alemão de Melhor Ator Coadjuvante.
"Chile, 1973. Em meio ao golpe de estado que derrubou o presidente eleito Salvador Allende e possibilitou a ascensão do ditador Augusto Pinochet, as massas estão nas ruas protestando, entre eles um casal alemão, Lena (Emma Watson) e Daniel (Daniel Brühl)".
Dirigido pelo alemão Florian Gallenberger, que teve seu filme "Quiero Ser" premiado com o Oscar de Melhor Curta de Live Action em 2001, Colonia (nome original) é, infelizmente para a humanidade, baseado em fatos reais.
"A ditadura chilena não é um tema desconhecido para o ator alemão que nasceu em Barcelona e cuja mãe é espanhola. Daniel Brühl conta que, “quando era criança (…) houve mesmo uma família de chilenos exilados que viveu lá em casa. Os meus pais estavam muito envolvidos nas questões chilenas e portanto tive uma relação com o Chile, com a sua cultura e a sua história desde tenra idade”."
Já a atriz britânica, nascida em Paris, explicou aos jornalistas os motivos que a levaram a aceitar o papel de Lena, a noiva de Daniel: “Muita gente me pergunta se escolhi esse filme por causa do meu interesse recente pela política. Mas, a verdade é que adorei o papel. Claro que é também uma época em que estou interessada, mas foi a personagem que me atraiu para este filme”.
Uma outra personagem que vai aparecer ao longo do filme e que eu sabia que conhecia mas custei a lembrar é a Ursel. A atriz é Vicky Krieps, a Alma de Trama Fantasma.
Bem, voltemos ao filme. "Quando Daniel é levado pela polícia secreta de Pinochet, Lena procura por ele e descobre que seu amado está em um lugar chamado Colonia Dignidad, uma suposta missão de caridade dirigida por um pregador (Michael Nyqvist), só que na verdade é uma prisão de onde ninguém nunca escapou. A fim de encontrar Daniel, a moça decide se juntar ao culto religioso da Colonia".
Amor e Revolução se centra mais na ação do que no contexto histórico. Gallenberger disse que o objetivo dele foi focado mais no entretenimento, em contar uma história fascinante, mas não deixando de despertar no espectador o interesse pela história da ditadura chilena.
O roteiro tem suas falhas e um certo exibicionismo no final. Acredito que o casal de protagonistas é ficcional, não encontrei nenhuma referência a eles. Mas a Colônia Dignidad é verdadeira e seu líder idem. Outra coisa que não gostei é que o filme se passa no Chile, Daniel e Lena são alemães, mas o idioma é inglês.
A Colônia Dignidade é um assentamento fundado no Chile em 1961 por Paul Schäfer, um ex-militar nazista, acusado de abuso infantil na antiga Alemanha Ocidental. Está localizada na comuna de Parral, província de Linares, na região do Maule. Se tornou famosa como centro de detenção e tortura nos tempos da ditadura de Augusto Pinochet, embora de fachada fosse apenas uma seita de "excêntricos inofensivos". Vídeos de residentes felizes em meio a celebrações e comemorações eram divulgados mas, lá dentro atrocidades e abusos eram cometidos.
O local era cercado por arame farpado, cercas e apresentava uma torre de vigia e luzes de busca, segurança máxima. Mais tarde foi relatado conter também armas secretas, que eram comercializadas. Poucas pessoas conseguiram escapar da fortaleza e denunciaram os abusos e o trabalho escravo.
Após décadas de abusos e torturas, Paul Schaefer foi preso em 2005, somente em 2005, vejam só! Depois de chegar no Chile, Schaefer transformou os 230 ‘colegas alemães’, que deixaram o país com ele, em escravos. Famílias foram separadas e crianças conduzidas a uma casa onde Schaefer mantinha um apartamento privativo. No local, meninas e meninos eram criados nos moldes da cultura germânica e abusados pelo soldado nazista. O isolamento da colônia permitiu que as torturas e os abusos permanecessem absolutamente em sigilo. Alguns torturadores escaparam ilesos, como o administrador do hospital de torturas Harmutt Hopp, que fugiu para a Alemanha.
Mais da metade dos antigos colonos voltaram para a Alemanha e o local se tornou um lugar de lazer e diversão. Muitos pedófilos e torturadores, no entanto, continuam vivendo normalmente na aldeia. Apesar dos esforços dos advogados das vítimas, ninguém foi indenizado até hoje.
Schafer morreu em 2010, em Santiago, Chile, aos 89 anos.Foi tarde, muito tarde!

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Colonia.
País: Alemanha/ França/ Luxemburgo.
Ano: 2015
Direção: Florian Gallenberger
Roteiro: Florian Gallenberger, Torsten Wenzel.
Elenco: Emma Watson, Daniel Brühl, Michael Nyqvist, Vicky Krieps.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A CASA QUE JACK CONSTRUIU





(OBS.: SE VOCÊ NÃO VIU AINDA OU NÃO GOSTA DE SPOILER, NÃO LEIA)

"Você está autorizado a falar, ao longo do caminho?", pergunta ele a Verge. Virgílio responde: "As pessoas se sentem dominadas por esse desejo estranho e repentino de se confessarem durante essa viagem... pode continuar... só não acredite que você irá me dizer algo que eu nunca tenha ouvido antes."
Ele se chama Jack.
Por que Jack? Seria uma simples coincidência ou uma referência, quem sabe até uma homenagem, já que esse nosso diretor é louco, ao emblemático Jack, o estripador? Sim, emblemático, porque ele é lembrado e muitas vezes mencionado toda vez que se fala de assassinos em série. Na verdade, o responsável por vários crimes que aconteceram na periferia de Londres, em 1988, nunca foi identificado. O nome "Jack, o estripador" se originou de uma carta escrita pelo suposto assassino e que foi amplamente divulgada pela imprensa na época e acredita-se que foi inventada por jornalistas para aumentar o interesse e vender mais jornais.
O caminho, qual seria? Não dá para ver no princípio do filme, só se ouvem as vozes e um barulho de água, que sugere que Jack e Virgílio estão em um barco. Será que é o rio Aqueronte, em que outrora Caronte, o barqueiro que faz a travessia das almas, levou Dante e Virgílio?
A viagem de Dante é uma alegoria através do que é essencialmente o conceito medieval de Inferno, guiada pelo poeta romano Virgílio. No poema, o inferno é descrito com nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. Foi escrito no início do século XIV. Os mais variados pintores de todos os tempos criaram ilustrações sobre esta obra, se destacando Botticelli, Gustave Doré e Dalí. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves. Portanto os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final.
A viagem com Jack será bem longa, pelo visto. Literalmente: A Casa que Jack Construiu tem 2h35 de duração. A vontade, quando se origina como manifestação da natureza animal é ainda menos grave que aquele pecado que é cometido de forma premeditada, usando a inteligência do ser humano para o mal, mesmo assim, é menos grave um indivíduo planejar e executar um crime contra um desconhecido, que pode se defender do estranho que o ameaça, que ele fazer o mesmo com alguém que confia nele, e por isto está indefeso, por isso a traição é considerada o maior pecado, que recebe a punição máxima no local mais profundo do inferno.
Portanto, Jack, que recebe a permissão, tem muito para contar. O filme, como Lars gosta de fazer, se divide em 5 partes, que, aqui, ele denominou de 5 incidentes.
Significado de incidente na língua portuguesa: episódio inesperado que altera a ordem normal das coisas.
1º incidente: Jack encontra-se com uma mulher na estrada (Uma Thurman), que tem o pneu do carro furado e o macaco, que ela por coincidência (ou não) chama de Jack, quebrado. Jack não tem um "Jack" para emprestar e a orienta a ir a um ferreiro próximo. Ela lhe diz que talvez precise seduzi-lo para que ele a leve lá, cometendo seu primeiro erro. Depois de uma série de outros erros, onde ela o provoca o tempo todo, confesso que até eu fiquei com raiva dela, ele comete seu primeiro assassinato. Então, podemos chamar o primeiro incidente de "A MULHER IRRITANTE". Foi o episódio inesperado que fez Jack alterar sua condição de não assassino para assassino, até então ele não sabia que queria matar;
2º incidente: "A TOLA QUE QUER SER ESPERTA". Sempre falo isso, que a maioria das pessoas que são ludibriadas o são porque querem tirar vantagem de alguma coisa. Na ânsia de serem espertas, são enganadas. Como uma droga, o primeiro assassinato causa em Jack uma espécie de prazer, a abstinência causa dor, é preciso acabar com aquela dor. Jack aproveita para testar aqui o seu método de persuasão. Se no primeiro crime, a vontade de matar surgiu de repente, foi quase que provocada pela mulher irritante, agora é premeditada. Sucesso! Ele retira o corpo da casa e volta para limpar. Só tem um problema: ele sofre de transtorno obsessivo-compulsivo por limpeza e a cada vez que sai da casa, volta para verificar. É quase uma piada, de humor negro, mas é: um serial killer com toc?
3º incidente: "A INGÊNUA". O conceito de família inspirando o que Jack denominou sua maior obra até então. 
"Não veja os atos, veja o trabalho, toda a ideia de troféus", diz ele para Verge (Virgílio);

4º incidente: "A DOCE E BURRA".
Já mais experiente, ele sente que esta se livrando do seu transtorno por limpeza e perfeição e experimenta essa liberdade: ele percebe que as preocupações dele não são as das outras pessoas;

"Por que só mulheres?", pergunta Virgílio. "Não, matei muitos homens também, escolhi esses incidentes aleatoriamente." "Mas você só falou sobre mulheres estúpidas. Por que elas são tão estúpidas? A menos que você ache que todas as mulheres são estúpidas. Você se sente superior às mulheres e quer se gabar? Isso te excita, Jack?"
"Mulheres são sempre vítimas. E os homens são sempre os criminosos... pense na injustiça disso. Por que a culpa é sempre do homem? "
É o assassino mostrando que a misoginia o move também. Os homens são culpados, segundo ele, mesmo se não fazem nada e então ele faz.
Jack, que agora se intitula Sr Sofisticação, tem umas ideias para aprimorar seu trabalho, sua arte, como ele prefere reconhecer. Ele arruma os cadáveres e tira fotos. Apesar que ele é mais fascinado pelos negativos do que pelas fotos em si.
"Quando eu tinha dez anos, eu descobri que através do negativo, você poderia ver a verdadeira qualidade demoníaca da luz interior. A luz negra."

O 5º incidente: Jack achava que sinais do sol e da lua pediram a presença dele para outra obra de arte. Primeiro, o eclipse. Depois, a erupção vulcânica da montanha St. Helens...
Do mesmo jeito que ele não conseguia terminar de construir sua casa, o ciclo de mortes também não se concluía. O Sr. Sofisticação exigia novos métodos para refinar sua arte. Primeiro as execuções individuais, depois ele experimentou com uma família, agora, inspirado em alguns ícones da história do mundo, ele queria mais...

Sim, Lars ousa repetir através do personagem que Hitler é um ícone. Eu entendo esse termo como uma referência que valha a pena, e vocês?
Os cinco incidentes, os cinco níveis do inferno, ...
De onde vem a pulsão para matar?
Como todo bom psicopata, Jack parece fazer o possível para que o descubram. Primeiro, ele sempre é ajudado pela própria natureza e se existe um Deus, ele acredita que tem o seu aval. Ele deixa pistas, ele não é um profissional tão cuidadoso. Só de exemplo, uma vez ele deixou um rastro de sangue e aí veio a chuva e apagou. Não seria um sinal para ele continuar? E aí ele divide sua responsabilidade com a sociedade, porque as pessoas não se importam mais com as outras, suas vítimas gritam mas ninguém as acode, "não é da conta deles", pensam. Os policiais são de uma incompetência só. Uma vítima chegou a pedir o auxílio de um, mas ele não acreditou nela. As próprias famílias muitas vezes não dão falta de seus familiares.
Como a casa que Jack constrói há anos, o filme levou anos para ser desenvolvido. Jack e Lars visitam as profundezas em busca de respostas. "Fame, whats's your name?", ecoa a música de David Bowie durante o filme. Imagens de guerra, de Hitler, dos próprios filmes do Lars, como se Jack e Lars quisessem ir cada vez mais fundo. Aquela porta que não quer abrir trará a resposta?
Jack usa Virgílio para contra-argumentar. Sua personalidade dominante precisa mostrar que tem razão. E afinal, de que adianta aquilo tudo se ninguém reconhece sua arte? As cinco etapas para o inferno lhe darão pelo menos o devido tempo para ele se vangloriar dos seus feitos. Ele estava nessa estrada da vida e da morte há doze anos, sozinho. Jack talvez esteja cansado... talvez precise desesperadamente que aquela porta abra, aquela porta que pode por fim em tudo...quem sabe Virgílio tenha razão... Que tudo que ele queria era ser amado. E que não é a morte a verdadeira arte e sim o amor!
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O que achei: muito bom! Em alguns momentos, chatinho, porque longo e com várias dissertações sobre arte, mas que depois você vai entender que são importantes para o desenvolvimento da ideia do Lars. Sim, porque fica claro que essa viagem ao inferno não é só do Jack. É do Lars, através do Jack. Polêmico, sempre, Lars quer argumentar que na arte vale tudo. Acho que não concordo. Sim, tem violência, cenas chocantes, mas nada que não tenha em vários filmes de serial killer. Talvez o cinismo do Jack é que incomode mais. Li alguns comentários sobre o filme ser mediano e devo dizer que um filme dele nunca é mediano: ou você odeia ou você ama.

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 4,2/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The House That Jack Built.
País: Dinamarca/ Alemanha/ França/ Suécia.
Direção: Lars Von Trier.
Roteiro: Lars Von Trier, Jenle Hallund.
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

AS IRMÃS BRONTË





A história dessas mulheres é admirável e triste. Criadas na aldeia de Thorton, localizada no West Riding of Yorkshire, Inglaterra, cresceram no isolamento e em uma época em que os talentos literários femininos eram vistos com maus olhos. Filhas do reverendo de Haworth, também poeta e escritor, de quem talvez tenham herdado a inclinação. O irmão, Branwell, também escrevia, fazia poesias e pintava. É dele o quadro mais famoso das irmãs, de 1834. Ele pintou-se a si próprio entre as irmãs, mas retirou a imagem mais tarde. Fora a genética, as irmãs Charlotte (1816), Emily (1818) e Anne (1820) e seu irmão Branwell (1817) foram muito afetadas pela morte da mãe e, mais tarde, das suas duas irmãs mais velhas. Para sobreviver à tal situação e à solidão em que viviam, elas e o irmão eram muito próximos na infância e desenvolveram mundos imaginários, com heróis e histórias fictícias, a partir do que ouviam das empregadas.Eles ganharam do pai, na infância, uns soldadinhos de madeira e o brinquedo serviu de base para imaginarem um reino fantástico de Angria, situado no centro da África, lugar de acontecimentos extraordinários, violentos e até escabrosos. Mais tarde, inventaram o reino de Gondal. Eles anotavam tudo em cadernos.

O mundo lúdico foi substituído pelo mundo adulto, as irmãs aparentemente se adaptavam àquela vida quase que monástica, dedicavam-se aos afazeres da casa e a longas horas, escrevendo. As histórias inventadas na infância muitas vezes serviram de base. Chegaram a trabalhar também, dando aulas, ou cuidando de crianças. Já o irmão acabou afogando as frustrações na bebida e também no consumo de ópio. Vivia se metendo em confusões e o pouco dinheiro que a família tinha precisava esconder dele.
Foi da Charlotte a ideia de publicarem suas obras, mesmo sob um pseudônimo masculino (era comum na época), em busca de aprovação literária e também para aumentarem a renda, que era pouca. Os seus livros tiveram bastante sucesso assim que foram publicados. Jane Eyre de Charlotte foi o primeiro romance a ser publicado, seguido de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily e A inquilina de Wildfell Hall de Anne. Havia comentários e desconfianças de que Currer, Ellis e Acton Bell pudessem ser mulheres, mas ao mesmo tempo o caráter ousado das publicações sugeriam que só um homem pudesse ter vivido aquela experiências para escrevê-las.
As famosas charnecas, frias e isoladas, as roupas e os costumes da época, são bem retratados em suas obras.
Infelizmente, não puderam aproveitar o sucesso. Branwell morre em setembro de 1848, aos 31 anos e logo em seguida, apenas três meses depois, Emily também adoece e morre, aos 30 anos. Em janeiro de 1820, Anne, com apenas 29 anos, também se vai. Charlotte é a única dos irmãos que fica, mas em março de 1855, antes de completar 39 anos e nove meses após casar-se, ela também se vai.
A casa onde elas moravam se abria para o cemitério do lugar e a teoria sobre a morte prematura da família é que a água era contaminada.
Mas a paisagem soturna onde vivia a família Brontë e testemunha de tantas mortes levantou a desconfiança de um escritor e criminologista, vejam só! O nome dele é James Tully e no seu livro "Os Crimes de Charlotte Brontë", ele levanta a teoria de que a família teria vivido envolta em assassinatos, traições e vinganças, além de questionar a autoria de algumas obras.
O primeiro filme sobre as Brontë , o francês, foi dirigido por André Techiné. O cineasta e argumentista francês, 
antes de passar à realização,fez-se notar como jornalista e crítico nos Cahiers du Cinéma durante a década de sessenta. Iniciou-se em 1969 com Pauline s'en va. Alcançou popularidade internacional com Barocco (1976), filme protagonizado por Gérard Depardieu e Isabelle Adjani.
Recebeu pelo seu filme Rosas Selvagens (Les Roseaux Sauvages) de 1994 o Cesar de Melhor Filme, de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro, entre outros.

O filme de 1979 tem um elenco fabuloso: Isabelle Huppert como Anne, Isabelle Adjani como Emily e Marie-France Pisier como Charlotte. No entanto, me pareceu que o Téchiné preferiu focar mais na figura do irmão rebelde, Branwell, interpretado por Pascal Greggory. O filme originalmente tinha 180 minutos, um terço do filme foi cortado e talvez tenham se perdido partes importantes que aprofundariam mais as personagens. Para quem vê o filme, já conhecendo bastante a história das nossas queridas irmãs Brontë, não perceberá talvez nenhuma lacuna.
Existe um documentário sobre o filme. assinado por Dominique Maillet. Les fantômes de Haworth faz uma retrospectiva sobre a gravação de Les soeurs Brontë e conta, inclusive com a participação de Téchiné. O documentário de 58 minutos pode ser visto para quem adquiriu o dvd da Versato.
As duas Isabelles, Huppert e Adjani, eram muito jovens ainda. Adjani estava deslumbrante. A Huppert, embora já com vinte e poucos anos na época, está parecendo não ter mais que dezesseis.
Li alguns comentários sobre o filme não mostrar a vida amorosa das três, mas elas tiveram? Acho que não. Charlotte apaixonou-se por um homem mais velho e casado, que inspirou seu romance O Professor, mas apenas platonicamente e já perto de morrer, casou-se, mas nem foi assim um casamento romântico. Realmente, não sei de onde elas tiraram tanta paixão para colocar nos seus romances.
" Você esta vendo pela aparência.
Um amor que só floresce uma vez...
Eu o desprezo e tenho pena.
Cuspo no o amor e sua vaidade.
O azevinho é como a amizade
e vai durar mais um inverno."

Já o filme de 2016 foca bastante na publicação das obras, explica a dificuldade que era ser uma escritora mulher na época. Emily, mais introspectiva, não queria publicar, não queria nem que ninguém lesse o que escreveu, mas Charlotte quis que elas enviassem juntas suas obras, acreditava que teria mais impacto dessa forma.
“Que autor não gostaria de tirar vantagem de ser invisível? Um que não consiga manter a mente em silêncio”.
A diretora Sally Wainwright também assina o roteiro e através do processo de pesquisa, interpretação de todas as obras e cartas deixadas por cada uma, optou por mostrar uma visão mais pessoal das irmãs. O irmão, aqui interpretado por Adam Nagaitis é um homem desiludido de tentar ganhar a vida através de sua arte, imaturo emocionalmente e que se entrega a uma vida desregrada, principalmente após uma decepção amorosa. Essa versão da vida da família não dá tanto destaque ao Branwell, mas de qualquer maneira mostra como seu comportamento e sua morte prematura afetaram a cada uma das irmãs, interpretadas aqui por Finn Atkins (Charlotte), Chloe Pirrie (Emily) e Charlie Murphy (Anne).
O sucesso dos livros, com pseudônimo, deixou Londres querendo conhecer esses autores, mas elas temiam que ao descobrirem suas identidades, os livros parassem de vender e como mulher, elas sofressem retaliações. Gostei da abordagem feminista, as mulheres da época tinham medo, mas não eram tão passivas assim: Charlotte já tinha em si a revolta de ser considerada inferior por ser mulher.
Admiradora que sou das obras das irmãs e apaixonada por cinebiografias, não poderia deixar de amar os dois filmes. Minha vontade agora é reler seus livros e rever as adaptações para o cinema. Tem uma parte do filme que mostra o museu dedicado às irmãs na Inglaterra, que tem suas roupas e a famosa mesa que elas sentavam para escrever. Quando eu vi fiquei me imaginando visitando esse lugar e não pude deixar de me emocionar. A história sempre me fascinou, saber o que sentiram, como viveram, pessoas de outras épocas me encanta. Ainda mais se são pessoas que ousaram fazer diferente, principalmente quando são mulheres. Como as austeras filhas de um reverendo inglês do começo do século 19 se converteram nas irmãs mais cultuadas da história dos livros?
Preparem-se para entrar em um ambiente melancólico e sonhar, como elas.
AS IRMÃS BRONTË - ANO 1979
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota:3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Les soeurs Brontë
País: França.
Direção: André Téchiné
Roteiro: André Téchiné, Pascal Bonitzer.
Elenco: Isabelle Huppert, Isabelle Adjani, Marie-France Pisier, Pascal Greggory, Patrick Magee.

AS IRMÃS BRONTË - ANO 2016
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: To Walk Invisible: The Brontë Sisters
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Direção: Sally Wainwright.
Roteiro: Sally Wainwright.Elenco: Charlie Murphy, Chloe Pirrie, Finn Atkins, Adam Nagaitis, Jonathan Pryce.


A casa que virou museu.