A história dessas mulheres é admirável e triste. Criadas na aldeia de Thorton, localizada no West Riding of Yorkshire, Inglaterra, cresceram no isolamento e em uma época em que os talentos literários femininos eram vistos com maus olhos. Filhas do reverendo de Haworth, também poeta e escritor, de quem talvez tenham herdado a inclinação. O irmão, Branwell, também escrevia, fazia poesias e pintava. É dele o quadro mais famoso das irmãs, de 1834. Ele pintou-se a si próprio entre as irmãs, mas retirou a imagem mais tarde. Fora a genética, as irmãs Charlotte (1816), Emily (1818) e Anne (1820) e seu irmão Branwell (1817) foram muito afetadas pela morte da mãe e, mais tarde, das suas duas irmãs mais velhas. Para sobreviver à tal situação e à solidão em que viviam, elas e o irmão eram muito próximos na infância e desenvolveram mundos imaginários, com heróis e histórias fictícias, a partir do que ouviam das empregadas.Eles ganharam do pai, na infância, uns soldadinhos de madeira e o brinquedo serviu de base para imaginarem um reino fantástico de Angria, situado no centro da África, lugar de acontecimentos extraordinários, violentos e até escabrosos. Mais tarde, inventaram o reino de Gondal. Eles anotavam tudo em cadernos.
O mundo lúdico foi substituído pelo mundo adulto, as irmãs aparentemente se adaptavam àquela vida quase que monástica, dedicavam-se aos afazeres da casa e a longas horas, escrevendo. As histórias inventadas na infância muitas vezes serviram de base. Chegaram a trabalhar também, dando aulas, ou cuidando de crianças. Já o irmão acabou afogando as frustrações na bebida e também no consumo de ópio. Vivia se metendo em confusões e o pouco dinheiro que a família tinha precisava esconder dele.
Foi da Charlotte a ideia de publicarem suas obras, mesmo sob um pseudônimo masculino (era comum na época), em busca de aprovação literária e também para aumentarem a renda, que era pouca. Os seus livros tiveram bastante sucesso assim que foram publicados. Jane Eyre de Charlotte foi o primeiro romance a ser publicado, seguido de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily e A inquilina de Wildfell Hall de Anne. Havia comentários e desconfianças de que Currer, Ellis e Acton Bell pudessem ser mulheres, mas ao mesmo tempo o caráter ousado das publicações sugeriam que só um homem pudesse ter vivido aquela experiências para escrevê-las.
As famosas charnecas, frias e isoladas, as roupas e os costumes da época, são bem retratados em suas obras.
Infelizmente, não puderam aproveitar o sucesso. Branwell morre em setembro de 1848, aos 31 anos e logo em seguida, apenas três meses depois, Emily também adoece e morre, aos 30 anos. Em janeiro de 1820, Anne, com apenas 29 anos, também se vai. Charlotte é a única dos irmãos que fica, mas em março de 1855, antes de completar 39 anos e nove meses após casar-se, ela também se vai.
A casa onde elas moravam se abria para o cemitério do lugar e a teoria sobre a morte prematura da família é que a água era contaminada.
Mas a paisagem soturna onde vivia a família Brontë e testemunha de tantas mortes levantou a desconfiança de um escritor e criminologista, vejam só! O nome dele é James Tully e no seu livro "Os Crimes de Charlotte Brontë", ele levanta a teoria de que a família teria vivido envolta em assassinatos, traições e vinganças, além de questionar a autoria de algumas obras.
O primeiro filme sobre as Brontë , o francês, foi dirigido por André Techiné. O cineasta e argumentista francês,
antes de passar à realização,fez-se notar como jornalista e crítico nos Cahiers du Cinéma durante a década de sessenta. Iniciou-se em 1969 com Pauline s'en va. Alcançou popularidade internacional com Barocco (1976), filme protagonizado por Gérard Depardieu e Isabelle Adjani.
Recebeu pelo seu filme Rosas Selvagens (Les Roseaux Sauvages) de 1994 o Cesar de Melhor Filme, de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro, entre outros.
O filme de 1979 tem um elenco fabuloso: Isabelle Huppert como Anne, Isabelle Adjani como Emily e Marie-France Pisier como Charlotte. No entanto, me pareceu que o Téchiné preferiu focar mais na figura do irmão rebelde, Branwell, interpretado por Pascal Greggory. O filme originalmente tinha 180 minutos, um terço do filme foi cortado e talvez tenham se perdido partes importantes que aprofundariam mais as personagens. Para quem vê o filme, já conhecendo bastante a história das nossas queridas irmãs Brontë, não perceberá talvez nenhuma lacuna.
Existe um documentário sobre o filme. assinado por Dominique Maillet. Les fantômes de Haworth faz uma retrospectiva sobre a gravação de Les soeurs Brontë e conta, inclusive com a participação de Téchiné. O documentário de 58 minutos pode ser visto para quem adquiriu o dvd da Versato.
As duas Isabelles, Huppert e Adjani, eram muito jovens ainda. Adjani estava deslumbrante. A Huppert, embora já com vinte e poucos anos na época, está parecendo não ter mais que dezesseis.
Li alguns comentários sobre o filme não mostrar a vida amorosa das três, mas elas tiveram? Acho que não. Charlotte apaixonou-se por um homem mais velho e casado, que inspirou seu romance O Professor, mas apenas platonicamente e já perto de morrer, casou-se, mas nem foi assim um casamento romântico. Realmente, não sei de onde elas tiraram tanta paixão para colocar nos seus romances.
" Você esta vendo pela aparência.
Um amor que só floresce uma vez...
Eu o desprezo e tenho pena.
Cuspo no o amor e sua vaidade.
O azevinho é como a amizade
e vai durar mais um inverno."
Já o filme de 2016 foca bastante na publicação das obras, explica a dificuldade que era ser uma escritora mulher na época. Emily, mais introspectiva, não queria publicar, não queria nem que ninguém lesse o que escreveu, mas Charlotte quis que elas enviassem juntas suas obras, acreditava que teria mais impacto dessa forma.
“Que autor não gostaria de tirar vantagem de ser invisível? Um que não consiga manter a mente em silêncio”.
A diretora Sally Wainwright também assina o roteiro e através do processo de pesquisa, interpretação de todas as obras e cartas deixadas por cada uma, optou por mostrar uma visão mais pessoal das irmãs. O irmão, aqui interpretado por Adam Nagaitis é um homem desiludido de tentar ganhar a vida através de sua arte, imaturo emocionalmente e que se entrega a uma vida desregrada, principalmente após uma decepção amorosa. Essa versão da vida da família não dá tanto destaque ao Branwell, mas de qualquer maneira mostra como seu comportamento e sua morte prematura afetaram a cada uma das irmãs, interpretadas aqui por Finn Atkins (Charlotte), Chloe Pirrie (Emily) e Charlie Murphy (Anne).
O sucesso dos livros, com pseudônimo, deixou Londres querendo conhecer esses autores, mas elas temiam que ao descobrirem suas identidades, os livros parassem de vender e como mulher, elas sofressem retaliações. Gostei da abordagem feminista, as mulheres da época tinham medo, mas não eram tão passivas assim: Charlotte já tinha em si a revolta de ser considerada inferior por ser mulher.
Admiradora que sou das obras das irmãs e apaixonada por cinebiografias, não poderia deixar de amar os dois filmes. Minha vontade agora é reler seus livros e rever as adaptações para o cinema. Tem uma parte do filme que mostra o museu dedicado às irmãs na Inglaterra, que tem suas roupas e a famosa mesa que elas sentavam para escrever. Quando eu vi fiquei me imaginando visitando esse lugar e não pude deixar de me emocionar. A história sempre me fascinou, saber o que sentiram, como viveram, pessoas de outras épocas me encanta. Ainda mais se são pessoas que ousaram fazer diferente, principalmente quando são mulheres. Como as austeras filhas de um reverendo inglês do começo do século 19 se converteram nas irmãs mais cultuadas da história dos livros?
Preparem-se para entrar em um ambiente melancólico e sonhar, como elas.
AS IRMÃS BRONTË - ANO 1979
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota:3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Les soeurs Brontë
País: França.
Direção: André Téchiné
Roteiro: André Téchiné, Pascal Bonitzer.
Elenco: Isabelle Huppert, Isabelle Adjani, Marie-France Pisier, Pascal Greggory, Patrick Magee.
AS IRMÃS BRONTË - ANO 2016
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: To Walk Invisible: The Brontë Sisters
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Direção: Sally Wainwright.
Roteiro: Sally Wainwright.Elenco: Charlie Murphy, Chloe Pirrie, Finn Atkins, Adam Nagaitis, Jonathan Pryce.
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| A casa que virou museu. |

