Cinéfilos Eternos: Alemanha
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terça-feira, 26 de março de 2019

QUATRO MINUTOS




QUATRO MINUTOS
Chris Kraus é um escritor e cineasta alemão, nascido em 1963. Explico aqui porque existe uma escritora e cineasta de mesmo nome, só que americana e que, inclusive, um livro seu, I Love Dick, deu origem à série de mesmo nome protagonizada por Kevin Bacon.
Eu nunca tinha visto nada desse diretor, mas esse filme me impressionou bastante. Vamos conhecer Jenny, uma jovem assassina, presa em uma penitenciária feminina. Além de ter cometido um crime bárbaro, ela não parece ter nenhum remorso e é super hostil, podendo ser bem violenta mesmo. Quando chega na penitenciária uma professora de piano de 80 anos, que tem um projeto de dar aulas para as detentas, "Traude", o oficial Mutze, que também é um grande apreciador de música, apresenta Jenny para ela. Mas a princípio Traude não a vê com bons olhos, já que ela é agressiva, mal-educada, indisciplinada, as mãos, o principal elemento para as aulas , são mal-cuidadas e feridas devido às brigas e ela diz pra Jenny que para dar aulas para ela, precisará aceitar suas regras. Que não está preocupada em torná-la uma boa pessoa, mas sim uma boa pianista.
Mas Traude irá se surpreender com o talento de Jenny e a parceria entre elas provocará conflitos e muitas revelações. Além do seu dom, a música é a única forma com a qual Jenny consegue se expressar e isso acontece de forma intensa, da mesma maneira que são intensos todos os seus pensamentos, toda sua dor, sua raiva, suas feridas, o caos que é sua vida, enfim. Traude precisa dela também para sobreviver às suas lembranças, para encontrar um motivo para ter valido a pena ter continuado viva. Pela arte. Para que a arte se imponha às dores e injustiças do mundo. Com um final impactante e inesperado. Quatro minutos de pura libertação. E aqui me lembrei de Mandela, que dizia que seu corpo podia estar preso, mas que era o capitão de sua alma. Mas Jenny não era. Até àquele momento.
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
País: Alemanha.
Nome original: Vier Minuten
Ano: 2006 Direção: Chris Kraus
Roteiro: Chris Kraus.
Elenco: Hannah Herzsprung, Monica Bleibtreu, Sven Pippig, Stefan Kurt, Jasmin Tabatabai.


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O CONFEITEIRO







Aconselho a, antes de ver o filme, se cercar de  algumas guloseimas, ou você vai ficar, como eu, com água na boca. Também não sei se adiantará comer uma coisa pensando em outra. Um alemão, dono de uma confeitaria em Berlim, "o confeiteiro", viaja à Jerusalém e acaba se empregando em uma confeitaria lá, de uma viúva com um filho. Quando ele começa a mostrar suas habilidades, a princípio Anat se queixa que ele deve se limitar a realizar as tarefas que ela determina, mas quando ela começa a provar, ela muda de ideia totalmente. Cada vez que Anat coloca aquelas poções de gostosuras na boca, a expressão dela é de quem está nos céus. E nós ficamos hipnotizados, acompanhando cada movimento de deglutição.
“The Cakemaker”, primeiro longa do israelita Ofir Raul Graizer, foi premiado no Festival de Karlovy Vary e mostrado no Festival de Londres. Me perguntaram "ah, é aquele filme LGBT?" , mas eu considero que seja um filme sobre o luto.
Aos poucos, a viúva vai se rendendo não só aos cookies e cakes, mas ao próprio confeiteiro. Não quero me estender muito aqui, pra não contar o filme. Mas o que importa não é o que acontece, mas como acontece. O filme é de uma sutileza, de uma delicadeza só, cada olhar, cada gesto, isso sim, tem importância.
Ah, mas eu queria tanto falar sobre, rsrsrsrsrs. Quem já viu ou não se importa, continue a ler. Ou pare agora! Na verdade, o spoiler está em todas as sinopses e até nos posters do filme.
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Bem, como eu ia dizendo, Anat fica super envolvida com Thomas. O problema é que ele é gay. Se fosse só isso, mas a verdade é que Thomas teve um motivo muito forte para deixar Berlim e não foi por acaso que ele procurou o café de Anat: ele era o amante do marido dela em Berlim. E tudo o que restou dele, de Oren, estava lá em Jerusalém. Ficar perto das pessoas que ele amava era uma forma de se sentir perto dele. Ainda mais porque Thomas era um solitário, só tinha a cafeteria, seu apartamento e Oren.

Comentaram que ele se envolver com Anat era como admitir que existe a "cura gay". Eu entendo, até pensei nisso. Mas é que no filme existem muito mais coisas envolvidas. Thomas procura Oren em Anat. Oren sempre falava dela, como faziam amor, levava o seu bolo de canela pra ela, Anat já fazia parte de sua vida, mesmo sem conhecê-la. Existia uma grande afinidade entre eles, porque se Oren amava Anat e Oren amava Thomas, Anat e Thomas deveriam ter coisas em comum. E já tinham os dois as cafeterias.
Não pude deixar de lembrar de um filme franco italiano, com uma história parecida: Le Fate Ignoranti. Quando seu marido morre, Antonia acaba descobrindo que ele não lhe era fiel. Impelida a descobrir quem era a pessoa e os detalhes da vida do marido que lhe escaparam por tantos anos, sete na verdade, Antonia acaba sabendo que não era uma amante que ele tinha e sim um relacionamento homossexual com Michele. Michele divide o lugar onde mora com outros gays e uma transsexual e são uma espécie de uma família onde Massimo tinha um lugar de destaque. Antonia não sabia nem que o marido cozinhava, a estupefação dela cresce a cada dia. Aos poucos, ela mesma vai se envolvendo com aquela família diferente e também começa a surgir um interesse entre ela e o ex-amante do marido.
Né?
O que se segue é o retrato de duas pessoas profundamente machucadas por uma perda e como suas dores propõem uma aproximação.
E deixo aqui algumas palavras do filme Le Fate Ignoranti:
"Che stupidi che siamo, quanti inviti respinti, quante parole non dette, quanti sguardi non ricambiati... Tante volte la vita ci passa accanto e noi non ce ne accorgiamo nemmeno..."


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The Cakemaker.
País: Alemanha/ Israel.
Ano: 2017
Direção: Ofir Raul Graizer
Roteiro: Ofir Raul Graizer

Elenco: Tim Kalkhof, Sarah Adler, Roy Miller, Zohar Strauss.

sábado, 3 de novembro de 2018

TRANSIT



Enquanto escrevo sobre um filme, procuro entender suas complexidades. Muitas vezes começo sem ter gostado tanto e acabo adorando. Algumas pessoas comentam que ficaram muito interessadas em ver depois do que eu expus, não sabem elas que eu também convenci a mim mesma da importância, ou da beleza, ou das duas coisas, do filme.
Petzold, Christian Petzold, faz parte dos diretores de cinema vivos por quem tenho admiração. O cineasta e roteirista alemão de 58 anos é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo conhecido como Escola de Berlim. Recebeu, entre outros prêmios, o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim, em 2012, pelo filme Barbara.
Transit estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim em 17 de fevereiro deste ano.
A primeira coisa que quero entender é porquê ele usou a França da época atual para mostrar a ocupação da Alemanha nazista. Sim, a situação é a mesma, principalmente em Paris, as pessoas precisam fugir, negócios como hotéis são abandonados, famílias são separadas, na rua diversos homens com metralhadoras caçam suas vítimas, o desespero está instaurado! Como sei que é a época atual? Pelos carros modernos e todo o contexto. Talvez o diretor não tenha achado importante esses detalhes? Não creio. Ou talvez ele queira mostrar que a guerra continua, mesmo que invisível. O que vocês acham?
Georg (Franz Rogowski), o nosso personagem principal recebe uma missão de entregar uma carta para um escritor em um hotel próximo. Em troca de dinheiro e de um lugar em um carro para fugir de Paris. Chegando lá, ele toma conhecimento que o tal escritor se suicidou. De posso dos manuscritos e de seus documentos de identidade, ele consegue chegar em Marseille, mas deseja ir para o México.
Em Marseille, uma misteriosa mulher volta e meia passa por ele, chega a abordá-lo, talvez confundindo-o com alguém. Marie, na verdade, é a esposa do escritor e procura por ele. Georg começa a se apaixonar por ela. Quem interpreta Marie é a bela Paula Beer, com seus olhos expressivos, a mesma que fez a Anna, no filme de François Ozon, Frantz, lembram?
Bem, no meio a tantos problemas ocasionados por uma guerra, Petzold desenha esse drama. Marie não sabe que busca um fantasma. Georg está apaixonado por ela e quer tirá-la de lá e é o único que pode fazer isso, como o suposto marido dela. Mas como revelar isso para Marie?
Nem preciso dizer que me encantei com o filme, não é? Quem me conhece sabe que é exatamente esse tipo de história que me atrai, ainda mais feita com esse grau de experimentação. Só um diretor genial para ter essa ideia. Transit é baseada em uma novela de 1942. A história é a mesma da novela, os fascistas ocupando a França, mas não há carros blindados e sim policiais comuns pelas ruas do século XXI.
Uma história de fantasmas, amores, fugas e desencontros.
IMDB: 6,9/ 10
Filmow: ainda sem nota
Minha nota: 4/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Transit.
Pais: Alemanha
Ano: 2018
Direção: Christian Petzold.
Roteiro: Christian Petzold.
Elenco: Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese, Alex Brendemuhl (Um Instante de Amor, O Médico Alemão)

segunda-feira, 16 de julho de 2018

SUBMERGENCE




Em 1942, o comando aliado sabia que para derrotar Hitler deveria invadir o continente europeu e, para atingir esse objetivo, seria necessário um ataque à costa francesa. A questão era: seria possível capturar um porto francês durante os primeiros dias da invasão? A tentativa de capturar Dieppe serviu como um balão de ensaio, a fim de provar as mais recentes técnicas anfíbias para a Operação Overlord (O Dia D, na Normandia)e foi feita por seis batalhões e um regimento blindado da 2ª Divisão Canadense,desembarcando nas vilas de Puys e Pourville e também nas praias de Dieppe, que se situava entre os dois povoados. Nenhum dos principais objetivos do ataque foi alcançado.
"Cada um que morreu no caminho, morreu pela liberdade e justiça....Cada um que não conseguiu retornar morreu por repúdio à tirania e à opressão!"
Por que estou mencionando isso tudo? É um filme de guerra? Não, não desse tipo de guerra...
É no cenário dessa mesma praia que anos depois Danielle Finders e James Moore passeiam e descobrem, apesar das aparentes diferenças, que possuem muitas coisas em comum. O bunker na praia é como um monumento em memória de tantos que morreram na batalha travada ali. Danielle diz para ele:
"Eis o que eu queria lhe mostrar". Ele responde:
"E foi por isso que eu vim para cá. 5 mil soldados canadenses e mil soldados britânicos tentaram tomar essa praia. As armas naquele bunker mataram cada um deles. Foi um sacrifício incrível."
Dan e James também acreditam que precisam fazer seus sacrifícios pessoais. De maneiras diferentes, bem diferentes, aliás. Daniella é uma exploradora do oceano que descobre um novo desafio no abismo Ártico. Em breve, ela descerá em um submersível em uma missão muito arriscada, ela acredita que existam espécies microscópicas que podem mudar o mundo. James também trabalha com água, é um consultor, um especialista em transformar a água ruim em boa, evitando tantas doenças por contaminação. Mas isto serve apenas de fachada, na verdade ele é um espião infiltrado no combate aos jihadistas africanos.
Talvez por isto eles quiseram visitar aquela praia antes de descerem ao inferno. Ela, ao que chama de Hades, a região escura do fundo do mar. Ele, às mentes obscuras dos terroristas no Afeganistão.
Não sei por que criticaram tanto o filme e o Wenders. O diretor alemão, que hoje está com 72 anos, é uma das mais importantes figuras do Novo Cinema Alemão. Além de cineasta, dramaturgo, fotógrafo e produtor de cinema, é presidente da Academia de Cinema Europeu em Berlim. Diretor do premiado documentário Buena Vista Social, do poético Asas do Desejo e do inesquecível Paris, Texas, entre muitos outros. Quem faz uns filmes como esses, cria uma expectativa muito grande e quando o filme não é tão bom quanto, gera algumas decepções. Mas isso não faz um filme ser ruim.
Submergence tem locações deslumbrantes e "Mon Dieu", que hotel é aquele, hein? Tem uma história consistente, boas interpretações...
"Ousado, mas raso", foi um dos comentários que li. Raso por quê? De raso não tem nada, desde literalmente tratar-se de um filme de profundidades até abordar temas que envolvem a humanidade e suas mazelas, a transitoriedade da vida e a importância de se deixar uma contribuição e não apenas passar por ela. O termo "jihad" também pode se referir tanto a uma luta contra os inimigos do Islã quanto à luta interior na qual todo muçulmano deve realizar para atingir a plenitude como indivíduo. Bem profundo isso, não acham?
E no meio disso tudo um romance lindo, onde os protagonistas irão ao fundo de suas percepções e criam, apesar do pouco tempo juntos, uma conexão um com o outro que vai além da forma física.
Exibido no Festival de Toronto de 2017, o longa foi baseado no livro de J. M. Ledgard, ex-correspondente de guerra. Ao contrário de muitas críticas, para mim influenciadas umas pelas outras, eu achei o filme lindo e interessante. Uma pena esse descaso realmente. Acho que alguns críticos sentem-se bem por desmerecer diretores conceituados, é uma forma de terem seus dois minutos de glória. Enquanto isso, os mesmos dão várias estrelas para filmes bem inferiores.

Ah, esqueci de dizer que o filme presta uma homenagem a Jean Vigo, porque o nome do navio em que Dan viaja chama-se O Atalante.

IMDB: 5,4/ 10
Filmow: 2,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Submergence
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Win Wenders.
Roteiro: Erim Dignam, adaptação da obra de J.M.Ledgard.
Elenco: Alicia Vikander, James McAvoy.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

SIMPLESMENTE MARTHA



Bella Martha, nome original do filme da diretora Sandra Nettelbeck, é uma produção alemã, lançada em 2001, que conta a história de Martha Klein, a obstinada e perfeccionista chef de cozinha de um refinado restaurante de Hamburgo.
Prepare seus sentidos. A fotografia inspirada de Michael Berthl nos coloca no clima de uma cozinha de primeira linha, com os ingredientes sendo cortados e preparados com enorme capricho. Dá quase para sentir o cheirinho das deliciosas iguarias preparadas por Martha e por seus auxiliares.
"Não se pode pensar direito, amar direito, dormir direito, se não se jantar direito", observou uma vez a escritora Virginia Woolf.
Ao longo do filme, a relação entre saborear a vida e os alimentos vai se tornando cada vez mais clara. Martha se agarra no concreto das receitas, no sensorial dos gostos e cheiros, da limpeza e ordem externa. Quem sabe se para não olhar para sua vida pessoal, que é sem graça e solitária. Séria e compenetrada, ela cobra de sua equipe a mesma dedicação e, consciente do seu trabalho, não admite nenhuma crítica por parte dos clientes. O que causa alguns problemas para a dona do restaurante, que faz um acordo com ela: se ela quiser manter o emprego, tem que concordar em fazer terapia.
Mas Martha não se desliga de suas receitas e combinações nem durante suas sessões com o terapeuta:
"As trufas são perfeitas com qualquer prato com pombo, pois o delicado sabor da ave…"
Ele lhe pergunta o que a levou lá, ela responde que foi sua patroa que mandou. "E por quê ela te mandou fazer terapia?", pergunta ele. "Não faço a menor ideia", responde ela. A nossa Chef acaba ensinando receitas para ele. Ao provar um doce que ele fez, ela diz que está diferente e lhe explica que ela fica atenta ao ingrediente que ele não usou. O que seria uma boa dica para esse terapeuta, não é? Que tal ele prestar mais atenção ao que ela não fala?
Quando um acidente leva sua irmã, Martha se vê com a difícil tarefa de cuidar de sua sobrinha de oito anos. Não vai ser nada fácil, porque além dela ser totalmente envolvida com o trabalho, ela não sabe lidar com Lina. A única coisa que ela sabe fazer é cozinhar e a sobrinha se recusa a comer.
A entrada de Mario (Sergio Castellito) na história e na cozinha de Martha, já que a dona do restaurante está preocupada com o andamento das coisas vai trazer desconfiança por parte de Martha e descontração para a equipe. O Sou Chef é um extrovertido cozinheiro italiano, que coloca músicas e faz todo mundo dançar.
O filme consegue dosar drama e comédia na medida certa e é obrigatório para os amantes de "food movies". Está bem que é meio clichê, mas isso não tira o seu "sabor". Conquistou 14 prêmios e outras cinco nomeações e teve um remake americano, o filme Sem Reservas, com Catherina Zeta-Jones e Aaron Eckart.
IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 3,5/ 5.

Ficha técnica:
Nome original: Bella Martha.
Outros nomes: Mostly Martha.
País: Alemanha/ Itália.
Ano: 2001
Direção: Sandra Nettelbeck
Roteiro: Sandra Nettelbeck, Bettina Helmi, Michael Berti,
Elenco: Martina Gedeck, Sergio Castellito, Maxine Foerste, Ulrich Thomsen, August Zirner, Diego Ribon. Participação de Sandra Nettelbeck.

Cena do filme Sem Reservas,
com Catherina Zeta-Jones e Aaron Eckart.