Cinéfilos Eternos: Romance
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domingo, 18 de novembro de 2018

UN PLUS UNE




Compositor francês viaja para a India para fazer as músicas de um filme. Logo na primeira noite, em que ele pretendia descansar, é realizado um jantar em sua homenagem, porque ele é muito famoso naquele país. Embora com uma dor de cabeça que não passa, a reunião mostrou-se mais interessante do que ele podia esperar, já que conhece a esposa do embaixador da França.
Através da amizade que se constrói entre os dois, ele, Antoine, ela, Anna, vamos passear pela India, seja naquele trânsito louco, seja de trem ou de barco, com destino ao encontro com a grande líder espiritual de lá, Amma. Tudo recheado com muitos diálogos. Anna explicando sua espiritualidade para um Antoine pragmático. Ele, colocando questões práticas que ela nunca se permitiu pensar. É evidente a atração entre os dois. Mas Anna ama seu marido e Antoine acaba de ser pedido em casamento pela namorada Alice, que, aliás, está chegando à India para se encontrar com ele.
Un + Une pode ser visto como só mais um filminho romântico, aliás há um outro filme dentro do filme: uma história de amor acontecida entre dois jovens indianos, um ladrão e uma bailarina, serve de inspiração para o tal diretor indiano que convidou Antoine para fazer a trilha sonora. Como eu ia dizendo, o filme poderia ser só mais uma comédia romântica qualquer, mas Claude Lelouch sempre teve uma maneira especial de contar histórias de amor. Junto ao belo cenário de um país que parece nos convidar a sonhar, com uma belíssima fotografia, embalados pela música de Francis Lai (o mesmo que fez a trilha de Un Homme et Une Femme), temos um casal maduro e que nos conquista a cada minuto. Antoine é bonito, confiante e divertido. Difícil não se envolver pelo seu belo sorriso. Anna é daquelas mulheres que não param de falar, mas longe de ser chata, ela é encantadora e charmosa, daquele tipo que você tem vontade de ouvir por horas e horas.
"-Minha religião é o amor", 
está escrito ao lado de Amma.

Mātā Amritanandamayī Devi, mais conhecida como Amma, é muito admirada dentro e fora da Índia e respeitada como uma humanitarista; muitos a reverenciam como uma Mahatma e uma santa viva: a santa dos abraços.
Lelouch já havia revelado sua intenção de fazer um filme que homenageasse e ao mesmo tempo mostrasse Amma ao mundo.
Assim como os abraços de Amma, Un Plus Une é também um filme generoso. É uma história de sorrisos, de agradecimentos, mesmo com todos os desencontros da vida. Um exemplo disso foi o fato de Antoine só ter conhecido o pai recentemente e longe disso causar estranheza nele, ficou feliz.
Jean Dujardin declarou ter ficado muito comovido com o encontro com Amma. O ator é mais conhecido pelo seu papel em O Artista, pelo qual recebeu o Oscar de Melhor Ator, aliás, ele foi o primeiro ator francês a receber um Oscar de Melhor Ator.
Elsa Zylberstein manifestou sua vontade de voltar à India para rever Amma e disse que foi tocada por ela de uma forma permanente.
IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3,4/ 6

Ficha técnica: 
Nome original: Un + Une
País: França.
Ano: 2015
Direção: Claude Lelouch.
Elenco: Jean Dujardin, Elsa Zylberstein, Christopher Lambert, Alice Pol.





O abraço de Claude Lelouch e Amma

domingo, 26 de agosto de 2018

REAPRENDENDO A AMAR





Não vejo a Carol como uma pessoa que se fechou no seu mundinho. Aliás, que delícia de mundinho: nenhuma preocupação financeira, saúde, uma linda casa, amigas divertidas, bons vinhos, boa comida e bons livros. OMG, como eu gostaria de poder usufruir dessa "vidinha". Junte a isso bons filmes, de vez em quando uma viagem.
Carol tinha e exata consciência que as coisas passam. Viúva, filha crescida. Como muitas pessoas que tiveram a sorte de ter um bom casamento, ela não pensa em ter outro. Quando o seu cachorro morre, ela também entende como mais uma passagem da vida. Mas a faz se confrontar mais uma vez com a solidão, mas de uma maneira serena, nada de desespero. Eu considero que uma pessoa envelhece de verdade quando começa a correr agoniada atrás do tempo que considera perdido.
É verdade que algumas coisas que nos acontecem nos fazem ficar mais abertas para outras. Ou talvez tenha sido coincidência Carol ter prestado atenção no jovem limpador de piscinas (Martin Starr) e ter se iniciado ali uma amizade improvável. Uma amizade que a levou ao seu passado, quando cantava, e a lembrar de quando era jovem e cheia de vida e a ter vontade de ter momentos como aqueles novamente. Tem uma passagem no filme onde ela canta lindamente num bar de karaokê. O acaso a fez também conhecer outra pessoa. Bill (Sam Elliott) também é viúvo e está claramente flertando com ela.
A verdade é que a vida está cheia de oportunidades de amar, acho que o filme quer mostrar isso. Não necessariamente a pessoa precisa encontrar um novo relacionamento, se acontece é muito bom. Mas saber apreciar o que está em volta é também muito bom. As várias possibilidades de amar e de preencher sua vida. Não ficar presa ao passado, ruim ou bom, mas também não deixar pra trás a sua essência, porque você continua sendo a mesma pessoa, só que em outra fase da vida.
Um filme que faz refletir e bem humorado ao mesmo tempo. "Eu o Verei em Meus Sonhos" é o título original. Sim, sonhar é bom, mas fazer do dia a dia uma continuação dos sonhos é ainda melhor.

IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: I'll See You in My Dreams.
Pais: EUA
Ano: 2015
Direção: Brett Haley.
Roteiro: Brett Haley, Marc Basch.
Elenco: Blythe Danner, Martin Starr, Sam Elliott.

UMA NOVA CHANCE PARA AMAR





Depois de The Chumscrubber (Más Companhias, 2005), o cineasta e roteirista americano nascido em Israel, Arie Posin, arrisca-se no gênero romance. O par romântico é interpretado por Annete Bening e Ed Harris. O Harris faz dois papéis. Sim, ele é o marido de Nikki e eles vivem "felizes para sempre" até o dia em que ele morre afogado em uma praia mexicana. Cinco anos depois, Nikki vê um homem idêntico ao seu marido e, contra todas as improbabilidades, ela procura descobrir tudo sobre ele. Aos poucos, ela vai se envolvendo com Tom, que lhe diz que é viúvo e um outro vizinho e amigo, Roger (Robbin Williams), também viúvo, sente-se enciumado e comenta que achava que a relação dela com o marido era mais forte e que jurava que ela ainda era apaixonada por ele. Nikki lhe responde que nunca deixou de amar Garrett.
"Sempre te amei", diz ela para Tom.
Tom, por sua vez, está cada vez mais apaixonado por Nikki, ela o olha de um jeito especial, ela faz com que ele se sinta especial:
"Posso me banhar no jeito como me olha..."
Em meio a tantos romances adolescentes, um filme sobre o amor maduro. Mas a trama foge do estilo "água com açúcar" quando coloca elementos intrigantes no roteiro. Como assim, uma pessoa idêntica à outra? Nikki tem uma nova chance de amar, mas será que ela aproveita ou apenas revive o seu amor por Garrett? Será que Tom é tão parecido assim mesmo com ele ou é parte do delírio de uma mulher que ainda não superou a morte do marido? Nikki ainda terá que lidar com várias artimanhas para impedir que a filha e o vizinho vejam o Tom. A história promete reviravoltas e um desfecho é imprevisível.
O título original é A Face do Amor. O que me faz pensar: você se apaixonaria por uma pessoa se ela tivesse o mesmo rosto de alguém que você ama? Quero dizer, o quanto é importante o rosto? Estava pensando sobre isso quando vi outro dia uma reportagem sobre uma mulher que sofreu um transplante de rosto. Então, mudando a pergunta, se alguém que você ama, um companheiro (a) ou amigo (a) ou mesmo alguém da família mudasse de rosto, seria a mesma coisa? Até mesmo a própria pessoa que mudou o rosto, se reconheceria ou isso faria mudar sua personalidade?
Vale mais pelos atores do que pelo filme, mas é um bom entretenimento.

IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: The Face of Love.
País: EUA
Ano: 2013
Direção: Arie Posin.
Roteiro: Arie Posin, Matthew McDuffie.
Elenco: Annette Bening, Ed Harris, Robin Williams

terça-feira, 14 de agosto de 2018

PERFEITA PRA VOCÊ




Abbie e Sam conheciam-se desde crianças e agora queriam celebrar a união na Igreja e trocar juras de "ficar juntos até que a morte nos separe". O problema é que ela resolveu chegar muito cedo. "Cedo demais?", eles costumavam falar assim um com o outro. Gente, não é spoiler, o filme começa com a Abbie (Gugu Mbatha-Raw) contando o que aconteceu. Então, foge logo daquele tipo de história que a gente fica torcendo pra ela não morrer, porque já sabemos que ela morre.
O Sam (Michiel Huisman) é aquele noivo fofo, meigo, totalmente apaixonado. Abbie acha que ele está totalmente despreparado para seguir com a vida sentimental depois que ela se for, já que ele sempre esteve com ela e se preocupa em achar uma outra mulher que seja perfeita para ele. Mas no grupo de apoio em que ela frequenta ela faz amizade com Myron, interpretado por Christopher Walken, que vai tentar fazê-la entender que não podemos controlar as coisas.
“Eu pensei que se eu planejasse todo o seu futuro, não iria doer tanto que eu não fizesse parte dele”.
A proposta, eu acredito, é ser raso mesmo. Não é aquele filme que pretende te tirar lágrimas. É apenas uma história como tantas outras, mostrando que na vida podemos ter sorte ou azar. Ou as duas coisas. Por causa da sorte de Sam e Abbie terem vivido um amor tão lindo, tão profundo, o azar parece maior. Mas talvez a felicidade ou a falta dela seja aleatória... só isso!
“Você quer que eu fique bem depois que você for embora? Bom, novidades para você. Eu não ficarei bem, não importa o quanto você tente mudar isso. Você não pode me fazer ficar bem sem você.”
Eu tenho uma frase que sempre falo e que acho que se encaixa aqui que é "Ninguém é substituível." É claro que mais dia, menos dia, a vida de Sam vai seguir, mas de uma maneira diferente.
O filme deixa uma reflexão: afinal, o quanto dura o "para sempre"? Mas prefiro deixar para lá essa coisa que todo mundo repete que temos que falar sempre o quanto amamos as pessoas porque não sabemos o dia de amanhã. Você faz o melhor que pode todos os dias, se não vai existir amanhã, fazer o quê? Não sabemos nem se vai existir o minuto seguinte, vamos ficar fazendo juras de amor o tempo todo? A gente só sabe quando acontece, mas eu acho que se eu soubesse quanto tempo de vida eu tenho, continuaria vivendo do mesmo jeito. Porque se fizesse diferente, já não seria eu.
"Bunitinhu".

IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,2/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Irreplaceable You
País: EUA
Ano:m 2018
Direção: Stephanie Laing
Roteiro: Bess Wohl.
Elenco: Gugu Mbatha-Raw, Michiel Huisman, Christopher Walken.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA





Imagine um lugar adorável como a Ilha de Guernsey... imagine personagens também adoráveis... junte tudo com uma história encantadora, acompanhada de literatura e uma pitoresca torta de casca de batata...
Um pouco de história sobre a ilha: em outubro de 1855, Victor Hugo chegou a Guernsey, debaixo de chuva e vento, em busca de refúgio. "O exílio não me afastou só da França, mas sim do mundo", ele escreveu numa carta. 
Nesse retiro isolado e selvagem, uma dependência britânica a pouco mais de 40 quilômetros da Normandia, no litoral da França, Hugo passou o período mais produtivo de sua vida... 
Um lugar de contemplação silenciosa, caminhadas vigorosas à beira dos penhascos e baías sedutoras. "Mesmo com chuva e neblina, a chegada a Guernsey é esplêndida", ele escreveu numa carta à mulher. 
Hoje, os viajantes que chegam de balsa, vindos da Inglaterra, de Jersey ou da França, têm a mesma visão do porto, com os barcos pesqueiros balançando gentilmente e as fileiras de casas subindo as encostas das colinas. Hugo se instalou numa delas, na parte alta da cidade: uma mansão chamada Hauteville.

Mas nem tudo é glamour na história, que é adaptada do livro de mesmo nome e que tem tomadas em Londres também. Guernsey é uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.
Juliet Ashton, interpretada por Lily James, que também faz parte do elenco de Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo, é uma escritora que mora em Londres. Seu editor, Sidney, é tipo sua única família. Juliet, mesmo conquistando aos poucos seu espaço no mundo literário, sente um certo desconforto, como se precisasse buscar algum fio solto que desse realmente significado ao seu trabalho.
Um dia, ela recebe uma carta de um tal de Dawsey Adams (o cativante Michiel Huisman de A Incrível História de Adaline e do mais recente Perfeita para Você, também da Netflix), que mora na tal ilha. Pela carta, ela fica sabendo de um clube do livro que foi fundado lá durante a guerra, o que a faz decidir visitar Guernsey. A princípio, pensando em escrever um artigo sobre os membros de A Sociedade Literária e A Torta de Casca de Batata e voltar. Mas Juliet acaba construindo uma forte ligação com eles...
“Acho que é possível pertencermos a uma pessoa antes de a conhecermos.”
...e querendo escrever um livro sobre as experiências deles na guerra. Em especial, Juliet se vê profundamente inspirada pela história de Elizabeth (Jessica Brown Findlay), a fundadora do clube de leitura, a única que não está na ilha. Mas que é cercada de mistérios. Ninguém quer falar sobre Elizabeth e a sua intenção de escrever sobre o clube não é bem-vista e até mesmo hostilizada por Amelia (Penelope Wilton).
Começamos a ver o filme pensando ser apenas mais uma história romântica. Delicadamente encantadora, isso já nos envolve. Mas no desenrolar se mostra muito além disso. A escritora insegura dá lugar a uma mulher que finalmente sabe o que quer, à medida que vai descobrindo a trajetória de Elizabeth. Não só seu lado literário aflora, mas seus verdadeiros sentimentos. O vazio que ficou de seu passado também conturbado é preenchido naquela ilha. Ela volta a sentir uma sensação de pertencimento.
Realmente, os personagens são lindos, até nós espectadores desejamos ficar com eles. Ainda tem as crianças adoráveis. Lily James transmite muita naturalidade no seu papel. O diretor inglês, Mike Newell, também dirigiu um dos meus filmes favoritos: Quatro Casamentos e Um Funeral, pelo qual recebeu o Prêmio Bafta de Melhor Filme e de Melhor Direção e também o César de Melhor Filme Estrangeiro. Além de O Sorriso de Mona Lisa, Harry Potter e O Cálice de Fogo, O Amor nos Tempos do Cólera e muitos mais.
Se você é como eu e gosta de um belo romance e de conhecer lugares encantadores, mesmo que seja na tela de cinema, recomendo fortemente.
IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA.
Ficha técnica:
Nome original: The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society.
País: EUA. Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.
Ano: 2018
Direção: Mike Newell 
Adaptação do livro de mesmo nome escrito por: Annie Barrows e Mary Ann Shaffer. 
Roteiro: Don Roos,Thomas Bezucha, Kevin Hood.Elenco: Lily James, Matthew Goode, Glen Powell, Michiel Huisman, Jessica Brown Findlay, Katherine Parkinson, Penelope Wilson, Tom Courtenay, Kit Connor.




Lar de Victor Hugo, Guernsey é ilha de baías e penhascos no Canal de Mancha.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A PRINCESA DE MONTPENSIER




Filho do escritor e resistente nascido em Lyon, René Tavernier ( autor de escritos clandestinos sobre grandes escritores, como Aragon), Bertrand Tavernier começou sua carreira cinematográfica como assistente de Jean-Pierre Melville, realizando em seguida pequenos documentários, antes de ser encarregado das relações com a imprensa e começar seu trabalho de historiador do cinema. Essas atividades influenciaram profundamente o seu estilo. O diretor francês conta uma história de amor tendo como pano de fundo as guerras entre católicos e protestantes durante o período da Reforma do século XVI.
O filme baseia-se no romance de Madame de La Fayette. A primeira edição de La Princesse de Montpensier foi publicada anonimamente em 1662. Essa obra precede o grande best seller do século XVII escrito por Madame de La Fayette, La Princesse de Clèves, publicado em 1678. Desde que foi publicado, A princesa de Clèves jamais deixou o foco da polêmica.
Ocorrendo durante as guerras religiosas do século anterior, A Princesa de Montpensier é a história dos amores entrelaçados. Antes Marie de Mézières, bela jovem filha de um aristocrata local , a princesa se vê às voltas com um marido arranjado, o Príncipe Philippe de Montpensier, que não lhe dá muita atenção e com o Duque de Guise, um amante não muito confiável. Lutando contra seus próprios desejos para resignar-se e submeter-se ao marido, como devia uma mulher de sua época, Marie acaba despertando a paixão de outros dois homens igualmente próximos ao herdeiro de Charles IX: seu tutor e conselheiro, o Conde de Chabannes, e o também nobre Duque de Anjou, futuro Rei Henri III.
Marie vai assim tornar-se o objeto dessas paixões rivais e arrebatadas. Chabannes talvez seja o único que a conhece de verdade, já que passava muitas horas com ela, na ausência do seu marido, que o instruiu a lhe ensinar poesia e arte. Marie era viva, interessada, queria sempre ir além. Tinha capacidade argumentativa, contestava.
Conde de Chabannes: "A fé dá substância à nossa esperança e nos faz conhecer certas realidades que não podemos ver." (São Paulo, em Hebreus)
Marie de Montpensier: O mesmo poderia ser dito sobre o amor.

Porque para a princesa, o amor era muito importante. Tanto que em uma certa parte do filme ela, infeliz, diz para si própria que se o Conde de Chabannes desistiu da guerra, ela também ia desistir do amor. Quero dizer, ela colocou a satisfação dos seus sentimentos no mesmo patamar que o da guerra. Porque para ela não importava morrer se era para viver sem amor.
Acredito que o conde era o que mais a amava. Apaixonado pela princesa que não se importa com ele, ele perde-se em nome de um ideal ultrapassado. O amor, exaltado em qualquer outro lugar, aqui é descrito como um veneno que revela a hipocrisia social e conduz à tragédia: “aquele que está apaixonado é muito fraco”. E devemos ressaltar o caráter não apenas ingênuo e desprovido de culpa da princesa, porque ela de uma certa maneira é cruel com o conde, colocando-o em situações constrangedoras.
Tavernier optou por uma fotografia que faz o filme parecer pinturas da época, os costumes também foram retratados, inclusive a primeira noite de núpcias do casal sob o olhar atento da família à espera da mancha de sangue no lençol para provar que a moça era, de fato, uma virgem.O figurino de Caroline de Vivaise é impecável!.
Mas o destaque do filme fica mesmo com a atriz Mélanie Thierry, vencedora do Prêmio César de Melhor Atriz Revelação por seu papel em Um Novo Caminho (Le Dernier pour la Route). Com seus lindos olhos azuis e transparentes e os fartos seios, a ex-modelo hipnotiza não só os quatro nobres cavalheiros do filme.
Marie de Montpensier não existiu, é apenas a personagem de um romance. Talvez inspirada na Duquesa de Roquelaure, a Marie de Bourbon. Os outros personagens sim, fazem parte da história francesa, não precisamente nessa ordem. A repressão aos huguenotes, nome dado aos protestantes franceses pelos católicos e os reis eram católicos, culminou na famosa e trágica Noite de São Bartolomeu, um verdadeiro massacre dos protestantes, que aconteceu entre 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu.
Portanto, a linha entre a realidade e a ficção é secundária aqui. Devemos nos prender no conceito de que a personagem principal não é uma pessoa que existiu, mas que poderia ter existido. Uma síntese de possíveis tipos de pessoas que existiram e possíveis tipos de destinos - uma biografia do possível!
"A felicidade é uma perspectiva pouco provável na aventura da dura vida, para uma alma tão orgulhosa como a sua."
Marie é ao mesmo tempo vítima, amante, amada, carrasco, ... ela é a fêmea que sofre, sua grande beleza, realçada pelas suas maneiras, conquistaram muitos homens. Ela é aquela que provocou muito amor, mas sem jamais tê-lo vivido plenamente.

IMDB: 6,5/ 10
Filmow: 2,9/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Princesse de Montpensier.
País: França.
Ano: 2011
Direção: Bertrand Tavernier.
Roteiro: Bertrand Tavernier, François-Olivier Rousseau, Jean Cosmos.
Elenco: Mélanie Thierry, Gaspard Ulliel, Lambert Wilson, Grégoire Leprince-Ringuet, Raphael Personnaz







A primeira edição do romance foi publicada
anonimamente em 1662.

sábado, 28 de julho de 2018

UMA QUESTÃO PESSOAL



Una questione privata é um romance de Beppe Fenoglio, publicado em abril de 1963, dois meses após a morte do autor. Uma das obras mais importantes da literatura italiana. Giuseppe (Beppe) Fenoglio era filho de um partisan e teve uma vida privilegiada. Desde pequeno mostrou-se um garoto inteligente e aluno modelo. Era apaixonado pela língua inglesa e chegou a traduzir algumas obras para o italiano. Acredito que o personagem Milton tenha a ver com ele, que também era partigiano e também serviu na Divisão de Langhe.
O termo "partisan (a)", em francês e "partigiano (a)", em italiano, refere-se aos membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada área. Os partisans operavam atrás das linhas inimigas. Tinham por objetivo atrapalhar a comunicação, roubar cargas e executar tarefas de sabotagem. O termo ficou conhecido durante a Segunda Guerra Mundial para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã.
Paolo e Vittorio Taviani não foram os primeiros a a realizar uma adaptação para o cinema da obra. Antes deles:
Em 1996, direção Giorgio Trentin, 
Em 1982, direção Alessandro Cane.
Em 1993, direção Alberto Negrin.
Em 1998, direção Guido Chiesa.
Foi o último filme dos Irmãos Taviani, como são chamados, consagrados internacionalmente ao receberem o Palma de Ouro em 1977 por Padre Padrone e realizadores de outras obras inesquecíveis como César Deve Morrer e A Noite de São Lourenço. Não faltam obras notáveis no cinema simultaneamente político e poético dos irmãos. Vittorio Taviani morreu em abril passado, aos 88 anos, deixando um grande legado.

A história: 1943, durante a guerra de libertação nas Langhe, colinas do sul do Piemonte, o militar Milton encontra-se dividido entre a luta contra os nazi-fascistas, a amizade com os companheiros da brigada e seu amor secreto por Fulvia.
Minhas considerações (ou o que eu percebi do filme):
Milton não caminha só por aquelas colinas. Junto com ele seguem as lembranças da mulher amada, o romance com ela, ele chega a ouvir a música que intitulou como a deles, de tanto que ouviram juntos: Somewhere over the rainbow. Uma massa de neblina o envolve e de repente ele vê, como se fosse um sonho, a casa de Fulvia. Ele, ela e Giorgio, amigos inseparáveis, quantas recordações daquela casa... 
Ele tenta se aproximar, olhar mais de perto, ele sabe que Fulvia não está lá, quase todos abandonaram suas casas durante a guerra, mas é uma maneira de se sentir mais perto dela. Uma pessoa o interrompe dos seus devaneios, é a caseira. Ela o reconhece, ele pede para entrar na casa por alguns minutos, ele precisa só de alguns minutos para sentir o perfume do passado. Ela deixa, conversam, sem querer ou não ela dá a entender a Milton que Fulvia e Giorgio podem ter se amado.

Milton é uma boa pessoa, é um bom combatente, mas a partir da visita àquela casa, ele não consegue pensar em outra coisa. Apesar de tanta coisa estar acontecendo, afinal é a guerra, inocentes morrendo, até crianças! Mas ele só pensa nas últimas palavras que ouvia sobre Fulvia. Ele pede licença para ir em outra divisão onde está Giorgio, ele precisa saber do amigo se ele o traiu, ele precisa saber se Fulvia não o amava. como ele pensava. Mas Giorgio foi capturado pelos fascistas. A obsessão dele por Fulvia passa entre tentar resgatar a todo custo o amigo, até porque ele deseja o confronto e o pensamento que o incomoda de que talvez seja melhor deixar o Giorgio para lá. A ideia de que Giorgio possa ter tido um relacionamento com Fúlvia o destrói.
Assim como as colinas, a mente de Milton está nebulosa. Ele luta entre seus ideais humanitários e suas questões pessoais. O mesmo amor que lhe dava coragem para continuar naquela guerra, que lhe dava forças para continuar vivo, agora é um amor perdido.
Milton, como eu mencionei no início, me parece ser um personagem inspirado no próprio autor do livro, o Fenoglio. Ele é o narrador e protagonista ao mesmo tempo. Eu li alguns comentários de pessoas que viram o filme e não gostaram, acharam que não tem história. Porque realmente o filme não entrega nada, percebemos que nem o próprio narrador possui as respostas que nos fazemos: a verdade sobre a Fúlvia, ela amava Milton? ela amava Giorgio? ela não amava nenhum dos dois?, Giorgio traiu o amigo?, o que aconteceu com o Giorgio afinal? O próprio final de Milton fica em aberto.
O título é perfeitamente consistente com o filme, já que é a questão privada de Milton que move todo o romance. Os espaços do filme são todos abertos, assim como todas as verdades e os destinos dos personagens. Por isso, nem todos irão gostar.
IMDB: 5,8/ 10
Filmow: 2,7/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Una Questione Privata
Outros nomes: Rainbow: A Private Affair.
País: Itália/ França.
Ano: 2017
Direção: Paolo e Vittorio Taviani.
Roteiro: Paolo Taviani, Vittorio Taviani, adaptação do livto de Boppe Fenoglio.
Elenco: Luca Marinelli, Valentina Bellè, Lorenzo Richelmy.



Homenagem ao grande Vittorio, um dos irmãos Taviani, que nos deixou
no dia 15 de abril de 2018. RIP




terça-feira, 17 de julho de 2018

ESTOU AQUI




Spike Jonze é bom em criar mundos paralelos, seja na direção de filmes como “Quero Ser John Malkovich”, “Onde Vivem os Monstros” e “Ela” ou mesmo na roteirização de filmes como o insano “Jackass”. Em 2010, ele escreveu e dirigiu o curta I’m Here, no qual, tal como nos trabalhos citados, Jonze constrói um mundo ficcional onde robôs dividem o mundo com seres humanos, ilustrando a própria vida real.
Na trama, Sheldon (Andrew Garfield) é um bibliotecário de Los Angeles, que leva a vida de forma simples e tímida. Sheldon é um robô e vive todos os dias de forma repetitiva e vazia. Esse sentido que faltava é preenchido quando ele conhece Francesca (Sienna Guillory), uma robô divertida, que não se importa nem um pouco com a inferiorização dos robôs por parte dos humanos. Ela só quer se divertir e enxerga amizade em cada ser existente. Sheldon e Francesca se apaixonam e começam a namorar. A relação deles é a mais encantadora possível. Eles vão à festas, fazem passeios noturnos, passeios em parques, assistem shows musicais, como qualquer outro casal no mundo (real ou deles). Só Francesca consegue tirar o robô de sua rotina. Mas, como em todo bom romance, uma dose de drama sempre vai bem para acompanhar. Sheldon prova seu amor incondicional e infinito por sua robômorada e isso culmina em um desfecho comovente, indagando o espectador se ele seria capaz de fazer o mesmo por quem ama.
O mundo proposto por Jonze na história é a própria representação do mundo real, onde os robôs, excluídos pelos seres humanos e vistos como seres inferiores, funcionam como os excluídos da sociedade real. São os pobres, negros, homossexuais, mulheres ou quem quer que seja visto como menor e gera olhares nas ruas por serem quem eles são por direito. Francesca, em uma cena, cola cartazes escrito: I’m Here (Eu Estou Aqui) pelas ruas da cidade. O que ela está gritando para o mundo é que ela não quer só ser vista, mas enxergada também. Ela pode ser considerada excluída, no entanto ela está aqui, quer que seus direitos e deveres sejam validados como os dos seres humanos. Portanto, aquele cartaz demarca que Francesca está aqui neste planeta como qualquer outro ser. E não existem pessoas lutando para serem enxergadas todos os dias fora da tela?
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(continuação da análise com SPOILER)
Outro ponto discutido no filme é acerca do amor. Francesca é desajeitada e quebra uma parte do corpo a cada momento, o que faz Sheldon doar o seu corpo para ela por amor. Isso é lindo, mas convenhamos que passou pela sua cabeça que esse problema poderia ter sido facilmente resolvido se eles comprassem novos membros ou os achassem no ferro velho, só que isso arruinaria a discussão do filme! Além do mais, os robôs são aqui a representação dos seres humanos. As partes perdidas por Francesca são como órgãos ou membros do corpo humano, não são facilmente substituíveis, por vezes só com transplantes, como no filme. E é preciso muito amor para doar uma parte sua para alguém. Seja em vida ou não, são admiráveis os que fazem isso.
No caso do filme, o amor de Sheldon pela namorada era tamanho, que ele preferia se ver sem aquele membro a ter de viver sem ela. Isso é amor intenso, profundo e verdadeiro. E aquele desfecho, quando apenas a cabeça de Sheldon é o que restou de seu corpo, ele prova de uma vez por todas que se doou completamente por aquela relação e por sua amada. É claro que na vida real não seria possível alguém fazer o mesmo, mas a ideia ai é justamente mostrar que as pessoas precisam se doar por completo quando entram em um relacionamento. E isso é tão raro de acontecer. A maioria das pessoas têm sempre interesses pessoais, seja sexo, dinheiro, fama, … porém, não doam nem o tempo ao lado do outro, que dirá se doar por inteiro! Sheldon é, portanto, o amor verdadeiro.
Analisando a parte mais técnica do curta, Spike Jonze conquista os olhos dos espectadores com uma fotografia bela e viva. Somada a uma trilha sonora sensível e de bastante conteúdo, como as músicas There Are Many Of Us (Aska) e Hellhole Ratrace (Girls). As atuações também são ótimas, mesmo os atores escondendo os rostos debaixo das fantasias de robôs.

Texto e análise: Tom Carneiro.
Filmow: 4,2/ 5
Nota (Tom): 9/ 10

Ficha técnica:
Nome original: I'm Here
Outros nomes: Estou aqui
País: EUA
Ano: 2010
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Andrew Garfield, Sienna Guillory.

GEMMA BOVERY - A VIDA IMITA A ARTE



Um delicioso filme francês, com cheiro de pão, com um erotismo na medida certa, sem cair na vulgaridade.
Mesmo com a beleza da linda Gemma, que se chama Gemma também na vida real, quem rouba todas as cenas do filme é o personagem Martin Joubert.
Martin (Fabrice Luchini) é uma dessas pessoas encantadoras que é capaz de encontrar um significado até em uma pedra, porque consegue ver além das coisas.
A história de Gemma não seria nada se não fosse por toda a associação que Martin percebe entre ela e a Emma Bovary. 
Martin consegue roubar da vida de outras pessoas o que falta na sua rotina.

E ao mesmo tempo, ele as presenteia com uma vida que elas não sonhariam em ter.
Não sabemos se ele fica envolvido e atraído sexualmente por ela ou simplesmente é um espectador da história que se desenrola embaixo dos seus olhos.
Ao ponto de temer pelo desenlace, pois para ele, tudo está caminhando para o mesmo fim do romance Madame Bovary. pelo qual ele é apaixonado.
Junte-se a isso tudo uma bela paisagem da Normandia e uma trilha sonora agradável.

IMDB: 6,4/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Gemma Bovery
País: França.
Ano: 2015
Direção: Anne Fontaine.
Roteiro: Anne Fontaine, Pascal Bonitzer, Posy Simmonds.
Elenco: Gemma Arterton, Fabrice Luchini

OS NOMES DO AMOR



Le Nom des Gens é um filme leve e ao mesmo tempo profundo.
Porque é sobre as coisas não ditas e também sobre as coisas que se faz para tentar mudar a vida.

Não poderia haver um casal que combinasse menos!

Ele, Arthur Martin (Jacques Gamblin), filho de mãe judia, conservador, contido, desde cedo aprendeu a evitar as palavras, o confronto. 
Ela, Bahia Benmahmoud (Sara Forestier), é uma extrovertida filha de pai argelino, com uns incríveis olhos azuis, comprometida com os seus ideais políticos e, ao contrário de Arthur, não tem limites para conseguir o que quer, até mesmo usar os seus encantos físicos e sexuais para converter os homens às suas idéias.

À primeira vista é uma comédia romântica típica, onde os opostos se atraem.
Tem umas cenas improváveis, digamos, até bobas, mas o filme vai crescendo.
As pitadas de humor servem para conduzir com suavidade temas importantes como o holocausto, como o abuso infantil e as marcas que deixam.
E sobre a escolha de se aceitar a vida como ela é ou tentar transformá-la.

As figuras do passado se confrontam de uma maneira inteligente e bem humorada com as figuras do presente desse casal , ele, meio-judeu e ela, meio-muçulmana.
Linda a cena na praia, tanto pela fotografia quanto pelo gesto de Bahia, salvando os caranguejos e pela admiração que ela acaba por despertar em Arthur, com o seu desprendimento e espontaneidade.
Os Nomes do Amor é um filme sobre a intolerância que rege o mundo, sobre o preconceito, sobre os falsos rótulos que se colocam nas pessoas, gerando tanto sofrimento desnecessário.
É lindo também quando Bahia diz que os mestiços são o futuro da humanidade.

Prêmios: César de Melhor Atriz (Sara Forestier) e César de Melhor Roteiro.

IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Le Nom des Gens
Outros títulos: The Names of Love
País: Bélgica
Ano: 2010
Direção: Michel Leclerc.
Roteiro: Baya Kasmi, Michel Leclerc.
Elenco: Sara Forestier, Jacques Gambli.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

SUBMERGENCE




Em 1942, o comando aliado sabia que para derrotar Hitler deveria invadir o continente europeu e, para atingir esse objetivo, seria necessário um ataque à costa francesa. A questão era: seria possível capturar um porto francês durante os primeiros dias da invasão? A tentativa de capturar Dieppe serviu como um balão de ensaio, a fim de provar as mais recentes técnicas anfíbias para a Operação Overlord (O Dia D, na Normandia)e foi feita por seis batalhões e um regimento blindado da 2ª Divisão Canadense,desembarcando nas vilas de Puys e Pourville e também nas praias de Dieppe, que se situava entre os dois povoados. Nenhum dos principais objetivos do ataque foi alcançado.
"Cada um que morreu no caminho, morreu pela liberdade e justiça....Cada um que não conseguiu retornar morreu por repúdio à tirania e à opressão!"
Por que estou mencionando isso tudo? É um filme de guerra? Não, não desse tipo de guerra...
É no cenário dessa mesma praia que anos depois Danielle Finders e James Moore passeiam e descobrem, apesar das aparentes diferenças, que possuem muitas coisas em comum. O bunker na praia é como um monumento em memória de tantos que morreram na batalha travada ali. Danielle diz para ele:
"Eis o que eu queria lhe mostrar". Ele responde:
"E foi por isso que eu vim para cá. 5 mil soldados canadenses e mil soldados britânicos tentaram tomar essa praia. As armas naquele bunker mataram cada um deles. Foi um sacrifício incrível."
Dan e James também acreditam que precisam fazer seus sacrifícios pessoais. De maneiras diferentes, bem diferentes, aliás. Daniella é uma exploradora do oceano que descobre um novo desafio no abismo Ártico. Em breve, ela descerá em um submersível em uma missão muito arriscada, ela acredita que existam espécies microscópicas que podem mudar o mundo. James também trabalha com água, é um consultor, um especialista em transformar a água ruim em boa, evitando tantas doenças por contaminação. Mas isto serve apenas de fachada, na verdade ele é um espião infiltrado no combate aos jihadistas africanos.
Talvez por isto eles quiseram visitar aquela praia antes de descerem ao inferno. Ela, ao que chama de Hades, a região escura do fundo do mar. Ele, às mentes obscuras dos terroristas no Afeganistão.
Não sei por que criticaram tanto o filme e o Wenders. O diretor alemão, que hoje está com 72 anos, é uma das mais importantes figuras do Novo Cinema Alemão. Além de cineasta, dramaturgo, fotógrafo e produtor de cinema, é presidente da Academia de Cinema Europeu em Berlim. Diretor do premiado documentário Buena Vista Social, do poético Asas do Desejo e do inesquecível Paris, Texas, entre muitos outros. Quem faz uns filmes como esses, cria uma expectativa muito grande e quando o filme não é tão bom quanto, gera algumas decepções. Mas isso não faz um filme ser ruim.
Submergence tem locações deslumbrantes e "Mon Dieu", que hotel é aquele, hein? Tem uma história consistente, boas interpretações...
"Ousado, mas raso", foi um dos comentários que li. Raso por quê? De raso não tem nada, desde literalmente tratar-se de um filme de profundidades até abordar temas que envolvem a humanidade e suas mazelas, a transitoriedade da vida e a importância de se deixar uma contribuição e não apenas passar por ela. O termo "jihad" também pode se referir tanto a uma luta contra os inimigos do Islã quanto à luta interior na qual todo muçulmano deve realizar para atingir a plenitude como indivíduo. Bem profundo isso, não acham?
E no meio disso tudo um romance lindo, onde os protagonistas irão ao fundo de suas percepções e criam, apesar do pouco tempo juntos, uma conexão um com o outro que vai além da forma física.
Exibido no Festival de Toronto de 2017, o longa foi baseado no livro de J. M. Ledgard, ex-correspondente de guerra. Ao contrário de muitas críticas, para mim influenciadas umas pelas outras, eu achei o filme lindo e interessante. Uma pena esse descaso realmente. Acho que alguns críticos sentem-se bem por desmerecer diretores conceituados, é uma forma de terem seus dois minutos de glória. Enquanto isso, os mesmos dão várias estrelas para filmes bem inferiores.

Ah, esqueci de dizer que o filme presta uma homenagem a Jean Vigo, porque o nome do navio em que Dan viaja chama-se O Atalante.

IMDB: 5,4/ 10
Filmow: 2,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Submergence
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Win Wenders.
Roteiro: Erim Dignam, adaptação da obra de J.M.Ledgard.
Elenco: Alicia Vikander, James McAvoy.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

LAURENCE ANYWAYS



Novamente a temática do AMOR nos filmes do Dolan.
Em "Eu Matei Minha Mãe" e "Mommy" é o amor entre mãe e filho.
Mesmo o primeiro falando sobre o homossexualidade e o segundo sobre transtorno de personalidade, o foco é o amor. Sempre o amor, em todas as suas formas.


Em, Laurence Anyways, o personagem (Melvil Poupaud) é um transsexual, mas o tema é apenas o pano de fundo para uma história de amor quase que visceral entre ele e sua mulher Fred (Suzanne Clément).
Os personagens dos filmes que Dolan dirige são complexos, é sofrido amá-los. Mas é justamente aí é que está toda a beleza. Amar o simples é fácil. Ser calmo quando não existem problemas é fácil. Mas os amores dos filmes do Dolan beiram ao ódio. É como se ele buscasse a verdade sobre o amor incondicional. É como se ele próprio precisasse provar que esse tipo de amor existe. Ou que deseje atrair esse tipo de amor para ele. Se amamos os personagens dele, podemos amá-lo também.

A história: é aniversário de Laurence e Fred resolve presenteá-lo com uma viagem a NY, achando que o deixaria feliz com essa surpresa. Mas quem ficará surpreendida é ela. Laurence diz que não quer fazer viagem nenhuma, que ele está sufocado, que precisa falar, que não pode deixar passar mais nenhum dia sem lhe revelar que deseja se tornar mulher.
Fred fica chocadíssima mas o seu amor por ele é tanto que resolve ajudá-lo. Tudo, menos ficar longe dele.
Será possível viver um amor assim, ao mesmo tempo tão intenso quando complicado?

Profissionalmente, Laurence, que era um respeitado e admirado professor, tinha a ilusão que o fato de se vestir de mulher não mudaria a forma como era visto. Mas se enganou.
Também não será fácil com relação aos seus pais e amigos.
Pra piorar, Fred, por mais que deseje, não segura a onda e entra em depressão. A vida do casal toma rumos inesperados, mesmo com a dimensão do amor deles.

Fora o drama, o filme usa uns efeitos estéticos muito interessantes, como a cena em que o casal está jantando e os figurinos deles estão em total harmonia com as paredes que estão atrás de cada um. 
E a cena em que ela recebe o livro de poesias que ele escreveu e, à medida que lê, sentada no sofá de sua sala, é como se estivesse chovendo muito, uma tempestade de lágrimas, uma explosão de sentimentos, inundando todo o ambiente.


Os anjinhos barrocos mais uma vez aparecem aqui e ali, penso que são a assinatura do Xavier Dolan. E também as borboletas. Tem uma cena em que sai uma delas da boca do Laurence. As borboletas, que são símbolos de transformação e da liberdade. Linda a cena em que parecem voar um monte de peças de roupas, lembrando a cumplicidade que ele tinham

O filme deixa uma questão: o preço que pagamos para sermos autênticos, olharmos no espelho e nos reconhecermos, vale a pena? Com quem deve ser o nosso maior compromisso?


Sendo que mudanças pessoais podem influenciar mudanças sociais. Se ninguém tiver coragem, os paradigmas não serão alterados, nunca. Então, quando temos um compromisso de sermos verdadeiros com nós mesmos, assumimos ao mesmo tempo com a humanidade.



"- É uma revolta?
  - Não, é uma revolução."

Aos impacientes, aviso que o filme tem quase 3 horas de duração, 168 min, mas para os que decidirem embarcar nessa aventura com o sentimento, acredito que amarão.



IMDB: 7,6/ 10
Minha nota: 3,8/ 5



Ficha técnica: 
Nome original: Laurence Anyways
País: Canadá/ França
Ano: 2012
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Emmanuel Schwartz

AMORES IMAGINÁRIOS



Não pude deixar de comparar o Nicolas (Niels Schneider) com o Tadzio, personagem do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti. Achei-os inclusive parecidos fisicamente, aquele jeito de anjo louro sedutor. Em Morte em Veneza, Gustav é um compositor austríaco que vai para Veneza, buscando repouso, porém não encontra a paz desejada porque desenvolve uma paixão doentia pelo jovem Tadzio, que incorpora o ideal de beleza que ele sempre imaginou.
Em Amores imaginários, Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokri) são amigos inseparáveis e conhecem ao mesmo tempo Nicolas, que acaba de se mudar para Montreal. 
Nicolas passa a representar tudo o que eles imaginaram numa pessoa e eles ficam obsessivamente apaixonados por ele, ao ponto da disputa abalar a antiga amizade.
De uma certa forma, Nicolas alimenta a paixão dos dois, se mostrando sempre encantador e atencioso e deixando dúvidas sobre se é hétero ou homossexual.
O duelo entre os amigos é sugerido pela canção Bang bang quando eles se preparam para ir a um café para encontrarem Nicolas.
Francis e Marie estão sempre tentando se encontrar a sós com o objeto de desejo deles, mas Nicolas acaba sempre convidando os dois, formando-se assim um triângulo amoroso, que embora platônico, é coberto de emoções.

O que podemos dizer do tema do filme? Amores imaginários? Mas não serão todos os amores entre um casal imaginários? Na minha opinião, quando nos interessamos por alguém, vemos nessa pessoa as qualidades que procuramos para amá-la. Eu penso que amamos o amor, não a pessoa. Amamos o que imaginamos. A partir daí, também nos esforçaremos em ser ou fingir ser aquilo que vai agradar à pessoa amada. Porque não queremos decepcioná-la. Mais pra frente, os véus vão caindo e começa a desilusão.
O filme é entremeado de depoimentos de pessoas que sofreram ou estão sofrendo decepções amorosas.
Novamente a temática amor nos filmes do Dolan. 


IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Les Amours Imaginaires.
Outros nomes: Hearbeats
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider, participação especial no final de Louis Garrel..