Cinéfilos Eternos: Guerra
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sábado, 28 de julho de 2018

UMA QUESTÃO PESSOAL



Una questione privata é um romance de Beppe Fenoglio, publicado em abril de 1963, dois meses após a morte do autor. Uma das obras mais importantes da literatura italiana. Giuseppe (Beppe) Fenoglio era filho de um partisan e teve uma vida privilegiada. Desde pequeno mostrou-se um garoto inteligente e aluno modelo. Era apaixonado pela língua inglesa e chegou a traduzir algumas obras para o italiano. Acredito que o personagem Milton tenha a ver com ele, que também era partigiano e também serviu na Divisão de Langhe.
O termo "partisan (a)", em francês e "partigiano (a)", em italiano, refere-se aos membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada área. Os partisans operavam atrás das linhas inimigas. Tinham por objetivo atrapalhar a comunicação, roubar cargas e executar tarefas de sabotagem. O termo ficou conhecido durante a Segunda Guerra Mundial para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã.
Paolo e Vittorio Taviani não foram os primeiros a a realizar uma adaptação para o cinema da obra. Antes deles:
Em 1996, direção Giorgio Trentin, 
Em 1982, direção Alessandro Cane.
Em 1993, direção Alberto Negrin.
Em 1998, direção Guido Chiesa.
Foi o último filme dos Irmãos Taviani, como são chamados, consagrados internacionalmente ao receberem o Palma de Ouro em 1977 por Padre Padrone e realizadores de outras obras inesquecíveis como César Deve Morrer e A Noite de São Lourenço. Não faltam obras notáveis no cinema simultaneamente político e poético dos irmãos. Vittorio Taviani morreu em abril passado, aos 88 anos, deixando um grande legado.

A história: 1943, durante a guerra de libertação nas Langhe, colinas do sul do Piemonte, o militar Milton encontra-se dividido entre a luta contra os nazi-fascistas, a amizade com os companheiros da brigada e seu amor secreto por Fulvia.
Minhas considerações (ou o que eu percebi do filme):
Milton não caminha só por aquelas colinas. Junto com ele seguem as lembranças da mulher amada, o romance com ela, ele chega a ouvir a música que intitulou como a deles, de tanto que ouviram juntos: Somewhere over the rainbow. Uma massa de neblina o envolve e de repente ele vê, como se fosse um sonho, a casa de Fulvia. Ele, ela e Giorgio, amigos inseparáveis, quantas recordações daquela casa... 
Ele tenta se aproximar, olhar mais de perto, ele sabe que Fulvia não está lá, quase todos abandonaram suas casas durante a guerra, mas é uma maneira de se sentir mais perto dela. Uma pessoa o interrompe dos seus devaneios, é a caseira. Ela o reconhece, ele pede para entrar na casa por alguns minutos, ele precisa só de alguns minutos para sentir o perfume do passado. Ela deixa, conversam, sem querer ou não ela dá a entender a Milton que Fulvia e Giorgio podem ter se amado.

Milton é uma boa pessoa, é um bom combatente, mas a partir da visita àquela casa, ele não consegue pensar em outra coisa. Apesar de tanta coisa estar acontecendo, afinal é a guerra, inocentes morrendo, até crianças! Mas ele só pensa nas últimas palavras que ouvia sobre Fulvia. Ele pede licença para ir em outra divisão onde está Giorgio, ele precisa saber do amigo se ele o traiu, ele precisa saber se Fulvia não o amava. como ele pensava. Mas Giorgio foi capturado pelos fascistas. A obsessão dele por Fulvia passa entre tentar resgatar a todo custo o amigo, até porque ele deseja o confronto e o pensamento que o incomoda de que talvez seja melhor deixar o Giorgio para lá. A ideia de que Giorgio possa ter tido um relacionamento com Fúlvia o destrói.
Assim como as colinas, a mente de Milton está nebulosa. Ele luta entre seus ideais humanitários e suas questões pessoais. O mesmo amor que lhe dava coragem para continuar naquela guerra, que lhe dava forças para continuar vivo, agora é um amor perdido.
Milton, como eu mencionei no início, me parece ser um personagem inspirado no próprio autor do livro, o Fenoglio. Ele é o narrador e protagonista ao mesmo tempo. Eu li alguns comentários de pessoas que viram o filme e não gostaram, acharam que não tem história. Porque realmente o filme não entrega nada, percebemos que nem o próprio narrador possui as respostas que nos fazemos: a verdade sobre a Fúlvia, ela amava Milton? ela amava Giorgio? ela não amava nenhum dos dois?, Giorgio traiu o amigo?, o que aconteceu com o Giorgio afinal? O próprio final de Milton fica em aberto.
O título é perfeitamente consistente com o filme, já que é a questão privada de Milton que move todo o romance. Os espaços do filme são todos abertos, assim como todas as verdades e os destinos dos personagens. Por isso, nem todos irão gostar.
IMDB: 5,8/ 10
Filmow: 2,7/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Una Questione Privata
Outros nomes: Rainbow: A Private Affair.
País: Itália/ França.
Ano: 2017
Direção: Paolo e Vittorio Taviani.
Roteiro: Paolo Taviani, Vittorio Taviani, adaptação do livto de Boppe Fenoglio.
Elenco: Luca Marinelli, Valentina Bellè, Lorenzo Richelmy.



Homenagem ao grande Vittorio, um dos irmãos Taviani, que nos deixou
no dia 15 de abril de 2018. RIP




quinta-feira, 17 de maio de 2018

PARAÍSO




Do premiado diretor russo, Andrei Konchalovsky, "Paraíso" é uma dura história que transcorre na maior parte em um campo de concentração alemão. O filme rendeu ao diretor o segundo Leão de Prata no Festival de Veneza após ter vencido dois anos antes por "As noites brancas do carteiro".
O drama foi escolhido para representar a Rússia na disputa por uma indicação ao Oscar 2017 de filme estrangeiro. O que foi uma surpresa. O caso é que Konchalovsky já se negou a representar a Rússia no Oscar em 2015 com "As noites brancas do carteiro". Por ter criticado duramente a 'hollywoodização' do mercado russo, as más influências do cinema comercial americano na formação dos gostos e das preferências, considerou que "lutar por receber um prêmio de Hollywood me parece simplesmente ridículo".
Produzida em preto e branco, a obra conta a história de três pessoas cujas vidas se cruzaram durante a Segunda Guerra Mundial: a emigrante russa Olga, membro do movimento de Resistência Francesa, o colaborador francês Jules e o oficial de alta patente da SS, Helmut.
Poderia ser mais um filme sobre o holocausto, mas o filme vai muito além disso. E fiquei me perguntando que se não fosse a guerra, como seriam as vidas dessas pessoas? Algumas características nossas só se revelam, até para nós mesmos, quando somos submetidos a uma situação limite. Essas características podem surpreender, para o bem e para o mal. O mesmo oficial alemão poderia ter sido um amante amoroso e sua história digna de um grande romance. O colaborador Jules poderia ter sido um ótimo pai e avô cercado de netos, com um olhar bonachão. Olga poderia nunca ter sentido a necessidade de ajudar outro ser humano, nunca ter percebido as injustiças do mundo, cercada pelos seus privilégios de princesa.
Os três protagonistas falam diante da câmera e contam sua história. Será que para quem? 
O título é uma ironia com a ideia de “paraíso” da propaganda nazista de um novo homem em um novo mundo, mas tem duplo sentido. 
Entre lembranças e confissões dos personagens, veremos belíssimas cenas de um verão na Itália. 
Apesar da temática, o filme carrega uma certa poesia.

A atriz Yullya Vysotskaya impressiona aparecendo de cabeça raspada, mostrando mesmo assim uma beleza que vai além da estética, uma beleza que vem da força da personagem.
Inovador e instigante, mostrando as motivações por trás da guerra e certamente também trazendo uma forte reflexão sobre Deus e sua Criação.
Como seria o mundo dos seus sonhos? Um mundo só de pessoas parecidas com você ou um mundo onde pessoas diferentes se respeitassem e se amassem? Um mundo onde os pecados seriam perdoados ou onde os pecadores seriam extirpados? Afinal, como deveria ser o Paraíso?
IMDB: 7,1/ 10
Minha nota: 4,5/ 5
Ficha técnica:
Nomes originais: Рай, Ray
Outros nomes: Paradise
País: Rússia/ Alemanha.
Ano: 2016
Direção: Andrey Konchalovskiy
Roteiro: Andrey Konchalovskiy, Elena Kiseleva.
Elenco: Yullya Vysotskaya, Philippe Duquesne, Christian Clauss, Jakob Diehl.