Cinéfilos Eternos: Canadá
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domingo, 10 de fevereiro de 2019

FAUVE



Curta-metragem exibido no My French Film Festival 2019, é também um dos indicados ao Oscar 2019. O filme participou de mais de 80 festivais em torno do mundo e já ganhou 40 prêmios.
Quando somos adultos, às vezes costumamos comentar (pelo menos eu) que tivemos que "matar sete leões" para sobreviver ao dia. Mas quando somos crianças, as feras podem até existir nos nossos pesadelos, mas geralmente fazem parte do nosso imaginário, como simples brincadeiras. Tudo é motivo para rir e se alegrar e achamos que a vida é isso. A vida deveria ser isso. Leve. Mas não é. Logo, logo, precisamos enfrentar os nossos medos, que irão se acumulando enquanto crescemos.No sentido inverso. Deveríamos nascer cheios de medo, porque tudo é desconhecido e à medida que fossemos crescendo, iríamos nos livrando deles. Mas não é assim que funcional. Enquanto crianças, somos inocentes e pensamos que na vida tudo é diversão, tudo é um grande sonho dourado. Inventamos jogos e não temos a noção do perigo.
Tyler e Benjamin ainda eram meninos e disputavam quem era o mais esperto, em um jogo em que um enganava o o outro.
"Quem rir primeiro, morre."
Benjamim diz que viu uma raposa, mas será que era verdade? A brincadeira vai levando-os cada vez mais longe, até chegarem a uma zona interditada e isolada, onde apenas a mãe natureza é testemunha. Mais tarde, quando Tyler encontra "a mulher", ela lhe pergunta o que ele estava fazendo sozinho e tão longe de casa.
São 17 min de pura tensão, em que cada espectador constrói no íntimo o final, talvez o mesmo imaginado pelos meninos.
O primeiro choque de realidade, a primeira fera. A inocência dá lugar à estupefação.
O autor diz que se baseou em um sonho recorrente.
*Disponível no My French Film Festival 2019 até o dia 18 de fevereiro.
IMDB: 7,6/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Fauve
País: Canadá.
Ano: 2018
Direção: Jérémy Comte.
Roteiro: Jérémy Comte.
Elenco: Félix Grenier, Alexandre Perreault, Louise Bombardier. (Por: Cecilia Peixoto)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

CAFÉ DE FLORE







O Café de Flore é um café situado na esquina do bulevar Saint-Germain com a rua Saint-Benoît, no bairro de Saint-Germain-des-Prés, na cidade de Paris, na França.É famoso por ter sido frequentado por importantes intelectuais e artistas ao longo de sua história. O café abriu na década de 1880. O seu nome foi retirado de uma estátua da divindade grega Flora situada no lado oposto do bulevar Saint-Germain. Da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) em diante, o café preservou sua decoração art déco com cadeiras vermelhas, mogno e espelhos. Os escritores Joris-Karl Huysmans e Remy de Gourmont foram as primeiras dentre as muitas personalidades célebres que viriam a frequentá-lo: Robert Desnos, Albert Camus, Pablo Picasso, ... Charles Maurras escreveu o livro Au signe de Flore no andar térreo do café. Jean-Paul Sartre era outro frequentador, sua relação amorosa e erótica com a escritora francesa Simone de Beauvois é contada no filme Os Amantes do Café Flore.
Incrível, não é, como um lugar pode reunir tantas histórias? A música também tem esse poder. O de unir lugares, pessoas, sensações, sentimentos, situações, ... passado e presente!
Antoine é um DJ recém divorciado, apaixonado por sua esposa Rose. Sua vida parece perfeita, exceto pelo fato de não conseguir esquecer sua ex-mulher, Carole. Vinte anos juntos, duas filhas. Ela esteve presente ao longo de toda sua carreira, de todos os seus momentos especiais, em quase todas as fotos suas, ela também está. Conheceram-se ainda bem jovens, o primeiro beijo veio natural e inevitavelmente.
"Nesse dia, nesse preciso momento, Antoine e Carole desejaram amar-se para sempre."
Algumas músicas o levam automaticamente à lembrança dela, causando em Antoine uma dor tão forte, uma estranheza tão grande por tê-la deixado.
O filme já valeria a pena ser visto pela excelente trilha sonora, com The Cure, Pink Floyd e outros. Os silêncios, os olhares, falam mais que tudo.
Paralelamente à história de Antoine e Carole e Rose, vamos conhecer a de Jacqueline, que vive em Paris dos Anos 60. Ela dá a luz um filho com Síndrome de Down, o pai da criança acha que eles não são capazes de lidar com isso. Lembrando que naquela época a expectativa de vida de pessoas portadoras com a síndrome era pequena. Jacqueline resolve dedicar sua vida ao amor por seu doce filho e a fazê-lo viver.
Vanessa Chantal Paradis, a Jacqueline do filme, é uma atriz e cantora francesa. Ela se tornou uma das cantoras mais conhecidas de sua geração aos 14 anos com seu primeiro single, "Joe le taxi", e desde então leva uma carreira consistente na música e no cinema.
O filme nos instiga no sentido que ficamos ansiosos para entender a conexão das duas histórias, o roteiro entrega pouco a pouco os detalhes. Para falar a verdade, já quase no final. E aí, quando acaba, dá vontade de ver tudo de novo, saborear cada sensação que o filme nos deixa...
♪♫♪
Respire, inspire o ar
Sem receio de se envolver
Vá, mas não me deixe
Olhe em sua volta e escolha seu próprio chão

Pois você terá uma vida longa e voará alto
E sorrisos você dará e lágrimas você chorará
E tudo que você tocar e tudo que você vir
É tudo que a sua vida sempre será. ♪♫♪


No céu, no céu, ... assim se sentia o pequeno Laurent enquanto sua mãe o empurrava no balanço. Voando alto, como na música de Pink Floyd, Breathe.
Senti como se o filme tivesse exatamente o mesmo ritmo dessa música:
"Respire, inspire, ..."
"A união das almas gêmeas é quando a alma encontra sua outra metade no caminho para casa, à fonte."
Prepare-se para continuar vendo e ouvindo o filme na sua cabeça por um bom tempo. É como se o filme dissesse que nem na música: "Vá, mas não me deixe".
O diretor canadense Jean-Marc Vallée já recebeu vários Prêmios Genie ( premiações entregues pela Academia de Cinema e Televisão do Canadá) pelo seu filme C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor e pelo curta Les Fleurs Magiques, além do Prêmio Emmy de Melhor Direção pela minissérie Big Little Lies. Foram dirigidos por ele também os ótimos Demolition, Livre, Clube de Compras Dallas, A Jovem Rainha Vitória.

IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Café de Flore.
País: Canadá.
Ano: 2011
Direção: Jean-Marc Vallée.
Roteiro: Jean-Marc Vallée.
Elenco: Vanessa Paradis, Kevin Parent, Hélène Florent. Evelyne Brochu, Marin Gerrier, Alice Dubuis, participação de Jean-Marc Valée.


sábado, 30 de junho de 2018

É APENAS O FIM DO MUNDO



Para quem curte um filme bem denso, esse é uma boa pedida. Que cara talentoso esse Xavier Dolan. Consegue extrair de cada ator a dramaticidade certa.
Louis se afastou da família há doze anos.

"É assim que após uns 12 anos de ausência, e apesar do medo, eu decidi voltar a vê-los".

Existe uma gama de motivações que vêm de nós mesmos, que não se relaciona a ninguém além de nós, que nos impulsiona a sair pela vida afora, a não olhar pra trás.
Da mesma forma, existe uma variedade tão grande de motivações quanto essa que nos fazem voltar.!"
A motivação de Louis era anunciar a sua morte iminente.

"Foi assim que após todos esses anos tomei a decisão de voltar atrás, de fazer a viagem, para anunciar a minha morte."

Seria justo isso? Depois de tantos anos privando a família do seu convívio, há tanta expectativa, tantas esperanças de retomar os laços, de talvez até recuperar o tempo perdido...
Mas não é por certo isso que Louis pretende:
"Anunciá-la eu mesmo e sentir o poder de dar a mim mesmo e aos outros a ilusão de estar até esse extremo senhor de mim mesmo."

Com um elenco fabuloso, fotografia e trilha sonora sensacionais, Dolan nunca me decepciona.
Apesar de receber o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio Ecumênico do Júri no Festival de Cannes de 2016, além de ter concorrido à Palma de Ouro, o filme foi vaiado em sua apresentação. Vai entender. Talvez por ser intimista ao extremo, nem todo mundo aprecia. Dependendo do gosto, sim, o filme pode ser exaustivo. Ele é composto o tempo todo de diálogos e nem sempre verbalizados. O personagem Louis quase não fala, balbucia e sorri. Mas é tão intenso, como não gostar?

Nathalie Baye, a mãe, que atriz! A princípio, parecia tão frívola, que fiquei em dúvida se era a mãe ou madrasta. Mas entendo ela, sou assim às vezes, entendo quando continuou terminando de pintar as unhas quando ele chegou. Sei como é, enquanto isso estava se preparando para o momento. E aquela cena em que ela passa perfume e chega perto dele e pede pra ele sentir o perfume, dizer se gosta? E então os dois se desarmam, se entregam naquele abraço que parecia não ter mais fim. E ela lhe diz: "Você pensa que eu não te entendo e não te amo. Eu não te entendo mesmo! Mas te amo muito!"
Léa Seidoux interpreta a irmã que quase não conviveu com o irmão, já que quando ele partiu ela ainda era pequena. Mas é tão carente dele, tão carente das coisas que poderia ter vivido com ele, das coisas que ele teve coragem de enfrentar e ela não tem.
Já Antoine (Vincent Cassel) é aquele babaca invejoso que disfarça sua frustração com ironias malvadas. Terá ele um pouco de razão? Sempre ficou ao lado da família mas parece que todas as atenções voltam-se para Louis. Também, Louis é um escritor, mora na cidade grande, ... Talvez Antoine seja o mais lúcido, aquele que percebe que Louis não voltou por ninguém, só por ele mesmo.
Catherine (Marion Cotillard) é a cunhada, de uma doçura, com aqueles olhos sempre ávidos de perceber a essência das coisas, das pessoas e ela mais que ninguém parece saber que Antoine sofre com isso tudo por trás de toda sua grosseria. Tem também aquele momento lindo em que ela e Louis se olham infinitamente e ela lhe diz com o olhar: "eu te entendo, também não pertenço a nada disso".

Adaptação de uma peça de teatro de mesmo nome, de Jean-Luc Lagarce, é o primeiro filme de Dolan com um elenco totalmente francês.
"Juste la fin du Monde" é daqueles filmes que você pensa: "preciso ver mais uma vez", há uma riqueza de detalhes que você quer rever, refletir, ou talvez haja tanta coisa que você deixou passar, é preciso voltar lá. É como se através do filme você pudesse talvez repassar sua própria vida. Quem sabe? Existem coisas sobre as quais pensamos poder ter controle. Mas não temos. Nem Louis.

IMDB: 
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Juste La Fin du Monde
Outros nomes: It's Only The End of The World
País: Canadá/ França
Ano: 2016
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan

Elenco: 
Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Léa Seydoux, Marion Cotillard e Vincent Cassel
.

MOMMY



Antoine-Olivier Pilon é Steve, um rapaz ao mesmo tempo carinhoso e explosivo, em decorrência do TDAH.
Devido ao seu temperamento peculiar, ele tem vários problemas pelos colégios onde passa até que uma expulsão faz com que sua mãe (Anne Dorval) tenha que levá-lo para casa e cuidar dele integralmente, o que é um problema para ela. Die, como toda mãe, tem que se dividir entre o filho e outras tarefas mas além disso, ela é uma mãe peculiar, porque ela é tão perdida quanto Steve.

No meio de toda essa confusão, de onde menos se podia esperar ajuda, ela chega através de uma vizinha, Kyla ( Suzanne Clement), uma mulher com claros problemas emocionais.
O filme, embora de uma maneira confusa, mas ao mesmo tempo poética, é uma declaração de amor entre mãe e filho e talvez seja a redenção de Dolan por "Eu matei minha mãe" em 2009.
Dolan inclui nele uma fictícia lei, que permitiria aos familiares abandonarem os filhos problemáticos, que ficariam aos cuidados do Governo.Essa lei seria uma tentação e um conflito para diversas mães, com certeza.

Técnicamente, o filme usa de um recurso muito interessante e original, o formato quadrado, como a mostrar todos os sentimentos aprisionados e de repente, como numa explosão de emoções, vem a liberdade, e a tela se expande. E esse momento é tão bonito, ainda mais ao som de Wonderwall, de Oasis, que faz com que a nossa percepção se abra também, de uma maneira intensa e calorosa. 

Mommy é daqueles filmes que ao mesmo tempo que incomoda te encanta.
Recomendadíssimo!

*Prêmio do Júri, César de Melhor Filme Estrangeiro, entre outros.

IMDB: 8,1/ 10
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Mommy
País: Canadá
País: 2014
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Antoine-Olivier Pilon, Anne Dorval, Suzanne Clement.

TOM NA FAZENDA



Depois da morte de seu parceiro em um acidente, Tom (Xavier Dolan) viaja até a fazenda da mãe do rapaz para o funeral, e mais que isso, em busca de conforto, talvez até de uma amenização para o seu sofrimento. O que ele não sabe é que a mãe de seu noivo falecido não tinha ciência de que o filho era homossexual. E o problema é ainda maior quanto ao outro filho da senhora que também mora com ela, o problemático Francis (Pierre-Yves Cardinal), machista e com um histórico de violência. Francis é o único que sabia da sexualidade do irmão e obriga Tom a mentir para a mãe, evitando que ela sofresse mais. Dai em diante, Tom se vê sufocado dentro dele mesmo e perseguido por um cunhado desequilibrado, representando uma verdadeira incógnita, o que faz a história prender o espectador à poltrona por não ter qualquer chance de prever o que vem a seguir.
O longa é baseado em uma peça de Michel Marc Bouchard (que também divide os créditos do roteiro com o Xavier Dolan) e representa um avanço na carreira do excelente Dolan. Acostumado, até o então, com certos exageros estéticos e visuais em suas obras, Dolan foca nos personagens em Tom Na Fazenda, contudo ainda deixa a desejar no roteiro que parece não seguir um rumo só, deixando a sensação de que faltou algo. Ainda sim, o longa tem seus méritos, em especial pelas atuações. Cardinal entrega um rapaz completamente doentio e desequilibrado. Sua atuação é tão visceral que chega a causar medo. Já Dolan acerta o que muitos diretores que também atuam em seus filmes erram. Ele sabe aparecer na medida certa na frente da câmera, não se expõe demais em detrimento dos outros personagens e sua atuação é angustiante.
A história gira em torno da dificuldade de algumas pessoas em se livrar se certos sentimentos, deixar ir certos amores, desilusões, paixões, traumas... O próprio Tom vai até a fazenda e permanece nela, se autoflagelando, porque possuía essa dificuldade. Já para Francis a situação é mais complicada, pois o personagem nem sequer se entende e passa, em determinadas cenas, a impressão de que lutava internamente por um desejo reprimido de ser aberto como o falecido irmão, como o próprio Tom. Há muito erotismo nas cenas, em especial na luta final entre os dois rapazes. Mas essas suposições são do campo especulativo e cabe ao espectador analisar e discutir com outros.
Extremamente angustiante e claustrofóbico, Tom Na Fazenda pode ser considerado um dos melhores filmes de Dolan.

(Comentários e sinopse de Tom Carneiro)

IMDB: 7/ 10
Nota do Tom (Carneiro, rsrsrs): 8/ 10

Ficha técnica:
Nome original: Tom à La Ferme
Outros nomes: Tom at The Farm.
País: Canadá
Ano: 2013
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: 
Michel Marc Bouchard, Xavier Dolan.
Elenco: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

LAURENCE ANYWAYS



Novamente a temática do AMOR nos filmes do Dolan.
Em "Eu Matei Minha Mãe" e "Mommy" é o amor entre mãe e filho.
Mesmo o primeiro falando sobre o homossexualidade e o segundo sobre transtorno de personalidade, o foco é o amor. Sempre o amor, em todas as suas formas.


Em, Laurence Anyways, o personagem (Melvil Poupaud) é um transsexual, mas o tema é apenas o pano de fundo para uma história de amor quase que visceral entre ele e sua mulher Fred (Suzanne Clément).
Os personagens dos filmes que Dolan dirige são complexos, é sofrido amá-los. Mas é justamente aí é que está toda a beleza. Amar o simples é fácil. Ser calmo quando não existem problemas é fácil. Mas os amores dos filmes do Dolan beiram ao ódio. É como se ele buscasse a verdade sobre o amor incondicional. É como se ele próprio precisasse provar que esse tipo de amor existe. Ou que deseje atrair esse tipo de amor para ele. Se amamos os personagens dele, podemos amá-lo também.

A história: é aniversário de Laurence e Fred resolve presenteá-lo com uma viagem a NY, achando que o deixaria feliz com essa surpresa. Mas quem ficará surpreendida é ela. Laurence diz que não quer fazer viagem nenhuma, que ele está sufocado, que precisa falar, que não pode deixar passar mais nenhum dia sem lhe revelar que deseja se tornar mulher.
Fred fica chocadíssima mas o seu amor por ele é tanto que resolve ajudá-lo. Tudo, menos ficar longe dele.
Será possível viver um amor assim, ao mesmo tempo tão intenso quando complicado?

Profissionalmente, Laurence, que era um respeitado e admirado professor, tinha a ilusão que o fato de se vestir de mulher não mudaria a forma como era visto. Mas se enganou.
Também não será fácil com relação aos seus pais e amigos.
Pra piorar, Fred, por mais que deseje, não segura a onda e entra em depressão. A vida do casal toma rumos inesperados, mesmo com a dimensão do amor deles.

Fora o drama, o filme usa uns efeitos estéticos muito interessantes, como a cena em que o casal está jantando e os figurinos deles estão em total harmonia com as paredes que estão atrás de cada um. 
E a cena em que ela recebe o livro de poesias que ele escreveu e, à medida que lê, sentada no sofá de sua sala, é como se estivesse chovendo muito, uma tempestade de lágrimas, uma explosão de sentimentos, inundando todo o ambiente.


Os anjinhos barrocos mais uma vez aparecem aqui e ali, penso que são a assinatura do Xavier Dolan. E também as borboletas. Tem uma cena em que sai uma delas da boca do Laurence. As borboletas, que são símbolos de transformação e da liberdade. Linda a cena em que parecem voar um monte de peças de roupas, lembrando a cumplicidade que ele tinham

O filme deixa uma questão: o preço que pagamos para sermos autênticos, olharmos no espelho e nos reconhecermos, vale a pena? Com quem deve ser o nosso maior compromisso?


Sendo que mudanças pessoais podem influenciar mudanças sociais. Se ninguém tiver coragem, os paradigmas não serão alterados, nunca. Então, quando temos um compromisso de sermos verdadeiros com nós mesmos, assumimos ao mesmo tempo com a humanidade.



"- É uma revolta?
  - Não, é uma revolução."

Aos impacientes, aviso que o filme tem quase 3 horas de duração, 168 min, mas para os que decidirem embarcar nessa aventura com o sentimento, acredito que amarão.



IMDB: 7,6/ 10
Minha nota: 3,8/ 5



Ficha técnica: 
Nome original: Laurence Anyways
País: Canadá/ França
Ano: 2012
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Emmanuel Schwartz

AMORES IMAGINÁRIOS



Não pude deixar de comparar o Nicolas (Niels Schneider) com o Tadzio, personagem do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti. Achei-os inclusive parecidos fisicamente, aquele jeito de anjo louro sedutor. Em Morte em Veneza, Gustav é um compositor austríaco que vai para Veneza, buscando repouso, porém não encontra a paz desejada porque desenvolve uma paixão doentia pelo jovem Tadzio, que incorpora o ideal de beleza que ele sempre imaginou.
Em Amores imaginários, Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokri) são amigos inseparáveis e conhecem ao mesmo tempo Nicolas, que acaba de se mudar para Montreal. 
Nicolas passa a representar tudo o que eles imaginaram numa pessoa e eles ficam obsessivamente apaixonados por ele, ao ponto da disputa abalar a antiga amizade.
De uma certa forma, Nicolas alimenta a paixão dos dois, se mostrando sempre encantador e atencioso e deixando dúvidas sobre se é hétero ou homossexual.
O duelo entre os amigos é sugerido pela canção Bang bang quando eles se preparam para ir a um café para encontrarem Nicolas.
Francis e Marie estão sempre tentando se encontrar a sós com o objeto de desejo deles, mas Nicolas acaba sempre convidando os dois, formando-se assim um triângulo amoroso, que embora platônico, é coberto de emoções.

O que podemos dizer do tema do filme? Amores imaginários? Mas não serão todos os amores entre um casal imaginários? Na minha opinião, quando nos interessamos por alguém, vemos nessa pessoa as qualidades que procuramos para amá-la. Eu penso que amamos o amor, não a pessoa. Amamos o que imaginamos. A partir daí, também nos esforçaremos em ser ou fingir ser aquilo que vai agradar à pessoa amada. Porque não queremos decepcioná-la. Mais pra frente, os véus vão caindo e começa a desilusão.
O filme é entremeado de depoimentos de pessoas que sofreram ou estão sofrendo decepções amorosas.
Novamente a temática amor nos filmes do Dolan. 


IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Les Amours Imaginaires.
Outros nomes: Hearbeats
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider, participação especial no final de Louis Garrel..

EU MATEI MINHA MÃE



Nossa, dirigir um filme deve ser fácil demais. Não? Então como esse rapaz com apenas 19 anos conseguiu fazer essa beleza de trabalho já no seu primeiro longa?
Além da direção, Xavier é o produtor e ainda assina o roteiro, que escreveu aos 16 anos e é semi autobiográfico.
Ele também é o protagonista, Hubert Minel, um adolescente em conflito, por achar que odeia a mãe.

Chantale (Anne Dorval), como muitas mães que criam o filho sozinhas, precisa se dividir entre o trabalho que dá o sustento à família e os serviços de casa, além de dar atenção a Hubert.
Que além de tudo só sabe criticá-la ou então nem conversa com ela. Onde terá ido parar aquele menino com quem tinha tantas afinidades, com quem dividiu tantas coisas, tantos sonhos?

Hubert também sente falta daquela época, mas atualmente a mãe só o irrita, o constrange. Ele tem vontade de matá-la às vezes.

Uma história normal, mas é contada de uma maneira tão intensa, tão visceral. 
Me identifiquei diversas vezes com Chantale ao mesmo tempo que me coloquei no lugar de Hubert e entendi a raiva dele. O amor, principalmente o familiar, é complexo, porque envolve culpa. 
E no caso dos adolescentes, cada frustração, cada não recebido da mãe, é entendido como uma grande maldade, tudo vira um drama colossal.

A história de Hubert se complica porque ele é homossexual e a mãe do seu namorado Antonin (François Arnaud) é totalmente liberal, o que o faz inevitavelmente comparar a mãe com ela.

Não se preocupe com o título, "Eu matei minha mãe" não é literal, na verdade é uma declaração de amor entre mãe e filho.

Há muita coisa envolvida, Chantale tem medo de errar na disciplina com Hubert, ela também se ressente com ele, nem sempre tem paciência, talvez a vida a tenha endurecido, talvez não esteja sabendo mais demonstrar pra ele o quanto o ama.
Talvez nem soubesse mais o quanto o ama.
Tanto que quando ele revoltado lhe pergunta "Se eu morresse hoje, o que você faria?", ela para pra pensar e o ônibus vem e ele vai embora sem escutar a resposta dela: "Eu morreria amanhã".

A história é simples, mas é contada com grande eloquência, é um filme intimista e envolvente. Eu diria ainda genial!



IMDB: 7,5/ 10
Minha nota: 3,9 / 5

Ficha técnica:
Nome original: J'ai Tué Ma Mère
Outros nomes: I Killed My Mother
País: Canadá
Ano: 2009
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Anne Dorval.