Cinéfilos Eternos: Suspense
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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TODOS JÁ SABEM



O filme abriu o Festival de Cannes de 2018. Escrito e dirigido pelo cineasta iraniano Asghar Farhadi, a produção irá trazer uma estranheza, já que não só é rodada em Madrid, como não tem nada a ver com a temática iraniana. No elenco, atores e atrizes espanhóis, como Penélope Cruz e Javier Bardem, o argentino Ricardo Darin e a fotografia é de de José Luis Alcaine, parceiro de Pedro Almodóvar em vários filmes. Em língua espanhola e castelhana, algumas vezes também surge a francesa.
Estimado pelos seus excelentes filmes, onde insere diversos tipos de conflitos, abordando a moral, a ética, a religiosidade, entre outros, o diretor de A Separação, À Procura de Elly, O Passado e O Apartamento, esse último vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017 nos entrega em "Todos los Saben" um drama familiar com tons de thriller.
Laura (Penélope) mora na Argentina com Alejandro (Darin) e chega à sua cidade natal com seus dois filhos, para o casamento da irmã. Seu marido ficou por motivos inadiáveis. Na primeira parte do filme, vamos participar do seu encontro com os pais, as irmãs e também com um ex-namorado, que considera-se quase parte da família. A cerimônia transcorre alegre, a festa animada, todos bebendo exagerado e dançando, e cantando, aquelas coisas de festas de casamentos. Lá pelas tantas, Laura coloca seu filho pequeno para dormir e mesmo sua filha Irene, de 16 anos que, até então estava aprontando todas e agora parecia exausta.
A luz acaba, começa a chover, mas nada tira a alegria da família e dos convidados. Paco (Javier Bardem), sempre participativo, se apressa a pegar um gerador, e a festa e os risos continuam. Até que em determinada hora, Laura sobe e vê que Irene, sua filha, não encontra-se na cama. Tem início uma busca desesperada e, a partir daí, o clima é de tensão e desconfiança. Alejandro é chamado, desconfia-se de tudo e de todos, antigos rancores vêm à tona. O que prova que na maioria das vezes, socialmente ou mesmo em família, vivemos de aparências: aparentamos que está tudo bem, que não temos nada uns contra os outros. Julgamos ser melhor assim, é mais educado ser assim. Tem coisas que se dizemos em um momento errado, pode parecer inveja. Qual será o melhor momento? É preciso mesmo dizer tudo? O fato é que os pensamentos, os sentimentos, os segredos!, estão lá. Eles não passam com o tempo. Basta acontecer alguma coisa em comum, que deixe todos tensos e ninguém consegue mais segurar. A família perfeita, de sorrisos perfeitos, mostra sua cara.
Acredito que Farhadi quis mostrar aqui que as tensões e conflitos acontecem em todos os lugares e com quaisquer pessoas, independente do lugar onde vivam, o Irã tem suas peculiaridades, é claro, mas o seu olhar se abre também para o mundo. Em O Passado, a história transcorre na França, mas os personagens são iranianos.
Essa não é nenhuma história original, "Todos lo Saben", todos já sabiam e fingiam que não sabiam, todos sabiam que todos sabiam mas fingiam que não. Por que logo a Irene? Perguntava-se Laura, despedaçada.
No casamento, o padre lembra aos presentes que o sino e a igreja precisam de reformas, contém rachaduras. Talvez a família aqui do filme também.
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.” Tolstói.
Ficamos todos tentando descobrir pistas que levem à Irene e ao culpado, mas temos aqui mais que tudo a história da família e dos personagens.
É uma pena que a participação do Darin seja tão secundária, o filme é da Penélope e do Bardem, mais ainda do Bardem, com certeza. Alejandro, ex-alcoólatra, agarra-se com Deus e sua atitude mostra-se mais passiva que o desejado, o que torna até ele mesmo questionável. Asghar insere assim, mais uma vez, a religiosidade. Um outro que se destaca também, mais que o Darin, é o ator Eduard Fernández, no papel de Fernando, tio de Laura. Incansável, tenta ajudar de todas as maneiras. Mas lembrando que todos são suspeitos...
"Todos lo saben y nadie dice".

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha Nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Todos los Saben.
Outros nomes: Everybody Known.
País: Espanha/ França.
Ano: 2018
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darin, Bárbara Lennie, Eduard Fernández, Carla Campra.


sábado, 22 de dezembro de 2018

CAIXA DE PÁSSAROS




Em Um Lugar Silencioso, uma família se comunica somente por sinais. O silêncio precisa ser absoluto porque, a qualquer ruído, alguém (ou alguma coisa) os ataca. Em "Bird Box", ou Caixa de Pássaros, a ameaça é visual. O mundo é acometido por uma espécie de loucura , onde as pessoas começam a se suicidar. Os suicídios são precedidos de visões. As autoridades pedem que as pessoas se tranquem em casa e cubram todas as janelas. Mas ao contrário de em "A Quiet Place", em que o espectador acaba ficando igualmente em silêncio, tamanha a tensão, em "Bird Box" ficamos é com os olhos bem arregalados e querendo ver, procurando em cada detalhe uma pista. A inquietude, o nervosismo, tomam conta do espectador, na tentativa de desvendar o mistério.
Eu, particularmente, gostei muito mais desse, foram duas horas e cinco minutos em que não despreguei os olhos da tela. Com uma atuação maravilhosa de Sandra Bullock como Malorie, a protagonista da história inspirada no best-seller homônimo de Josh Malerman e dirigido por Susanne Bier, premiada diretora dinamarquesa, o filme é a nova aposta da Netflix e estreou ontem, 21 de dezembro.
Malorie, ainda por cima grávida, é levada para uma casa onde está um grupo de pessoas, uma delas o desagradável Douglas, interpretado por John Malkovich. Mas quando a casa deixa de ser segura, ela é obrigada a procurar outros caminhos e um deles a leva a uma difícil travessia de um rio com duas crianças, mais difícil ainda por precisarem estar com os olhos vendados. Sandra Bullock diz que se inspirou na força de sua própria experiência como mãe para fazer Malorie enfrentar essa travessia com as crianças, na tentativa de encontrar um lugar onde pudessem reconstruir a vida.
Como em outros filmes que não pude deixar de lembrar, Caixa de Pássaros é mais que uma obra de suspense ou terror. Em O Último Suspiro, Paris é tomada por uma bruma que mata as pessoas. É preciso fugir da névoa, procurar os andares mais altos dos prédios, mas o casal protagonista tem um grave problema: uma filha que sofre de uma doença rara e vive em uma espécie de bolha. Em A Noite Devorou o Mundo, também em Paris, a cidade da noite para o dia está tomada por zumbis famintos. Também o protagonista desse filme precisa se trancar no prédio para se proteger. Os roteiros-catástrofe criam uma intimidade, uma forte ligação entre os sobreviventes. Mas em A Noite Devorou o mundo, o protagonista se vê lutando por uma vida sem sentido, já que solitária. E se ele for o único sobrevivente do mundo, valerá a pena lutar? Na sua ilusória vida, em vigília o tempo todo, ele não estará se tornando uma espécie de zumbi? Não sou chegada a filmes de terror, por isso gostei desses, porque são também sobre solidão e escolhas. Como em O Último Suspiro, o que prende umas pessoas pode ser a libertação para outros. Caixa de Pássaros é mais que tudo um filme de descoberta do amor, de um amor reprimido e adormecido que vai ser forçado pelas circunstâncias a se manifestar com todas as forças.
Assim como não é da natureza do homem viver solitário, também não é da natureza dos pássaros viverem trancados em uma caixa. Malorie é dura com as crianças, as mantém em uma espécie de caixa de pássaros, onde só cabem o silêncio e a escuridão. Porque ela acredita que é a única maneira de sobreviverem. Mas adianta viverem sem sonhos, sem esperança? O casaco azul, a imensidão do rio, do azul do rio, nos remetem ao espaço, à liberdade, aonde os pássaros devem estar e também as nossas mentes. A própria Malorie sempre viveu em uma espécie de "caixa de pássaros", mesmo antes da tragédia.
Da mesma forma que as pessoas com deficiência visual apuram a audição, Malorie ensina as crianças a reconhecerem todos os tipos de barulhos, a perceberem quando alguma coisa está perto ou longe. E Susanne Bier também trabalha bem a trilha sonora para nos dar a mesma percepção. Existe uma lenda, eu gostava muito de ler sobre isso na adolescência, sobre um continente perdido, a Lemúria, cujo povo era cego e evoluído, eles desenvolveram a terceira visão.
Mas como em qualquer adaptação de livros, haverá sempre queixas de que o filme não se aprofundou nisso ou naquilo, chato isso, sabe? Caixa de Pássaros pode até não trazer nada de novo, mas é muito bem trabalhado e tem ótimas atuações, até das fofas crianças. Sim, existem algumas inverossimilhanças, mas é ficção e o que importa aqui é o que o filme nos faz sentir e, posso garantir que é, no mínimo, é um excelente entretenimento.
A atriz Sandra Bullock conta como foi difícil atuar com olhos vendados e diz que trombou com a câmera várias vezes.
Outro ponto a refletir é que a ameaça do filme é invisível e por isso provoca os piores medos e sensações. Uma personagem acredita que viu ou ouviu sua mãe, morta há vários anos. As pessoas, após as visões, se matam por desespero ou atraídas por algo muito maior? É mencionada uma certa beleza. Será o fim do mundo uma passagem para um outro bem melhor? O filme talvez sugira que em determinadas situações seja conveniente ficar de olhos vendados para preservar a lucidez. A mente limpa como um canal aberto para compreender o verdadeiro significado da vida. Em um mundo apocalíptico então, só os lúcidos sobreviverão. Ou talvez os loucos...
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Bird Box
Outros nomes: Às Cegas.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Susanne Bier.
Roteiro: Eric Heisserer, JoshMalerman.
Elenco: Sandra Bullock, John Malkovich, Trevante Rhodes, Sarah Paulson.
As crianças: Julian Edwards, Vivien Lyra Blair.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

TEMPO COMPARTILHADO



Pedro chega feliz para uma temporada de férias em um resort. Gostou?, pergunta ele para Eva, sua esposa. Ela diz que sim, encantada e lhe pergunta como conseguiu pagar aquilo. O que aumenta um pouco o orgulho de Pedro por poder proporcionar à família aquele conforto todo. Ele mostra a piscina, onde sabe que o filho vai se deleitar. Pedro é uma daquelas pessoas "classe média" abençoado pelo sistema de poder usufruir de um clube de férias por módicas prestações mensais. 
Abençoado, eu disse? Bem, isso, até tocarem a campainha e eles descobrirem que houve uma confusão e uma outra família também reservou a unidade em que eles se instalaram. A princípio, eles tentam resolver, mas sem êxito, já que o resort está lotado. Eles decidem, não tem outro jeito, compartilhar a mesma casa com a família de Abel. Apesar do incômodo, a mulher de Pedro é bem compreensiva com a situação, o filho está até se divertindo com a tal família e suas bizarrices e, afinal, eles estavam dispostos a aproveitar a estada lá e o lema era que nada ia estragar isso.
O fato é que coisas estranhas acontecem no tal Everfields Resort e a musiquinha ajuda a criar um clima bem sinistro. Pedro começa a perceber. Paralelamente tem a história de um outro casal. Andres era animador do resort e de repente teve um ataque, me pareceu um derrame. Com limitações, ele foi direcionado para funções subalternas e fica cada vez mais deprimido, mais ainda porque sua mulher, Gloria, o trata com uma repentina indiferença. 
Aos poucos, vamos percebendo que o roteiro bem inteligente nos leva a uma crítica social das boas. O sistema do hotel, sob a nova direção, está contaminado por resoluções simplistas para resolver problemas familiares e sociais. O objetivo é deixar todo mundo feliz, claro que a custa do sacrifício de alguns, que, como laranjas podres, precisam ser descartados. Ou “separar o joio do trigo”, como alguns preferem se referir a isso. Quem entra no esquema, é aproveitado. A máquina precisa de peças perfeitas para funcionar. E para isso, as peças, ou os soldadinhos, precisam obedecer ao regime, sem pestanejar. Pensar, pra quê?
O conceito de tempo compartilhado refere-se também à necessidade do ser humano em viver em grupos e para que tudo funcione é preciso fazer uma lavagem cerebral, fazer de todos uma família só, que vai crescendo e se tornando uma grande família, a Família Everfield. É o desprezo pela individualidade, pelas diferenças. 
Pedro representa a lucidez naquilo tudo, mas que vai sendo esmagado pelo efeito manada. Como fazer ouvir sua voz? O filme tem um tom claustrofóbico, que eu adoro ver no cinema.
Eu, particularmente, desconfio quando vejo muita "felicidade". Aliás, acho que esse conceito de que a felicidade existe e de que devemos dedicar a nossa vida a buscá-la é, para mim, exatamente a nossa prisão.

Tiempo Compartido é um dos novos títulos no catálogo da Netflix e vai te surpreender.
Eu não conhecia esse diretor. Pesquisando aqui, vi que suas produções foram apresentadas nos festivais de cinema de Roterdão, Locarno, Sundance, Festival Fantástico, La Habana, entre outros. Talentoso ele. Fiquei super interessada em ver seu outro longa, de 2012, o Halley, que, pelo que entendi, é um retrato psicológico da depressão.
O cinema mexicano contemporâneo desfruta de uma liberdade formal e de mecanismos estruturais que permite aos cineastas filmar com certa frequência. Eles podem contar suas histórias, sem ter que fazer concessões a grupos políticos, religiosos ou comerciais. Esta pode ser considerada uma “Nova Época de Ouro” do cinema mexicano.
IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Tiempo Compartido
Outros nomes: Time Share.
País: México.
Ano: 2018
Direção: Sebastian Holfmann.
Roteiro: Julio Chavezmontes, Sebastian Hofmann.
Elenco: Luís Gerardo Méndez, Miguel Rodarte, Andrés Almeida, RJ Mitte, Cassandra Ciangherotti, Montserrat Manrañon.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A APARIÇÃO




"Coincidências não existem"? Por que Jacques Mayano (Vincent Lindon), que está passando por um drama pessoal por ter perdido tragicamente seu amigo e companheiro de reportagens, foi o escolhido para investigar a veracidade de uma aparição santa em uma pequena vila francesa? Apenas por ser um jornalista talentoso e imparcial? Ou terá a vida o escolhido porque ele precisava passar por uma transformação pessoal? Sempre me pergunto isso: somos nós que fazemos nossas escolhas ou somos escolhidos?
É preciso ressaltar que Jacques não é uma pessoa religiosa, mas também não é um ateu. Ele é apenas alguém que tem como profissão procurar e revelar a verdade. Mas o que é a verdade? Será uma ilusão?
"O real não existe" ..."você sempre pode encontrar a verdade em outro lugar".
Quando comecei a ver esse filme, lembrei-me de outro, O Terceiro Milagre, e achei que podia ter alguma semelhança. Um padre (Ed Harris) é enviado para investigar um milagre. Frank, que é conhecido como "The Miracle Killer", se vê de repente em um conflito, já que percebe sua função de desiludir as pessoas e o quanto isso está fazendo mal para ele também. "Se Deus não existisse, era preciso inventá-lo", disse Voltaire. Substituir a fé à ciência, o sonho à experiência, o fantástico à realidade, pode ser uma coisa perigosa. Mas não, os dois filmes são bem diferentes.
Sim, o filme é bem longo, mas não me entediou em momento algum. Acho até que o diretor Xavier Giannoli conseguiu criar um clima de suspense o tempo todo, o que prende a atenção. Não gosto quando as pessoas resolvem comentar que a duração do filme não se justifica, ou "tal capítulo é mais longo do que deveria", gente, quem determina isso é quem dirige o filme. É se colocar muito acima da competência de um diretor reconhecido.
O filme mostra como a comunidade local se beneficia do suposto milagre, a grande repercussão, a atração de peregrinos, o comércio de lembrancinhas, enfim, a exploração turística.
Anna (Galatéa Belugi) realmente viu a Santa? Mas se não viu, o que ela ganha com isso? Estará ela sendo usada pelo Padre Borrodini e por aquele outro que está sempre ao lado dele? Mas é certo que Anna tem um segredo, embora doce e com respostas para tudo, percebemos que ela tem medo. Um medo que ela busca conforto na sua fé.
"Todos se beneficiam com o mistério. Os que acreditam e os que não acreditam também".
Xavier Giannoli (Marguerite) faz um grande filme, com sobriedade, sem grandes provocações, sobre o mistério, a dúvida e a fé. Uma busca conduzida com competência pelo ator Vincent Lindon. O cineasta, que também é roteirista e produtor francês, foi nomeado em 2010 um Chevalier na Ordem das Artes e das Letras.
O filme não se propõe a defender ou provar coisa nenhuma, mas antes a provocar uma compreensão interna, ao nos confrontar com o fato que não existe uma verdade absoluta, mas que sim, ela pode ser verdadeira se você escolheu assim. E isso é o que realmente importa. A mim causou paz, aquela paz que você encontra quando acredita que não precisa provar nada... só ser!
Enfim, talvez a verdade não seja tão importante assim, o que importa é o que fazemos com o que acreditamos ser verdade.
"Ter fé é uma escolha livre e deliberada".

IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: L'Apparition.
País: França.
Ano: 2018
Direção: Xavier Giannoli.
Roteiro: Xavier Giannoli com a colaboração de Jacques Fieschi.
Elenco: Vincent Lindon, Galatéa Bellugi, Patrick d'Assumçao.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A NOITE DEVOROU O MUNDO



Quem diria que eu ia ver um filme com zumbis. Pesquisando, descobri que os zumbis não são completamente míticos, olha que assustador! Há rituais necromânticos, em particular ligados à religião do vodu haitiano, com a intenção de invocar os zumbis. Zumbis também são bem reais entre outras espécies animais, cujos comportamentos dos espécimes infectados podem ser drasticamente modificados e controlados por patógenos hospedeiros. A figura dos zumbis humanos ganhou destaque no gênero de filme de terror principalmente graças ao filme de 1968 "Night of the Living Dead", de George A. Romero.
Sam vai até o apartamento de sua ex para reaver umas fitas- cassetes que está precisando, o que ele não sabia é que tinha uma festa lá, com muita bebida. Ela diz pra ele onde está a caixa com as fitas e pede que ele a aguarde lá, mas Sam acaba dormindo. Quando ele acorda e sai do quarto, ele encontra um apartamento vazio, todo quebrado e com sangue por toda parte. Ainda confuso, ele descobre um terrível acontecimento: a cidade de Paris está tomada por zumbis famintos. Ele vai se trancar no prédio e começar a criar estratégias para se proteger. Toda a ação desse filme se passa nesse prédio, de onde se vê a Torre Eiffel.
A Noite Devorou o Mundo, embora com o clima de terror, é um filme sobre solidão e escolhas. Será Sam o único sobrevivente dos humanos? E terá sido sorte ele ter um lugar para se proteger, mas somente para isso? A sua vida dessa maneira valerá realmente a pena? Sam descobre que no prédio também ficou um zumbi, ele está preso no elevador, não oferece perigo, mas mesmo assim Sam deveria matá-lo. Mas a solidão é tão grande que ele decide mantê-lo "vivo". Alfred, o zumbi também solitário, todos o abandonaram ali, é interpretado pelo genial ator Denis Lavant. Alfred é diferente dos outros zumbis, ele ainda mantém resquícios de civilidade. 
Essa parte me lembrou de um outro filme, macabro por sinal, que vi há muitos anos, tenho quase certeza que é com o ator Sam Neill, mas não encontro mais: uma mulher vai a uma festa e lá pelas tantas, já alcoolizada, sai com um homem que conheceu, que a leva para a sua casa, bem no meio de uma ilha deserta. Ele a mantém refém e ela acaba matando o tal homem e o escondendo em um freezer. Mas ela não sabe sair dali e a solidão começa a consumi-la de tal maneira que faz com que ela veja no desconhecido congelado uma companhia. Lembrei também de Gravidade, já pensou ficar perdida no espaço?

Destaque também para a parte comovente do filme, que tem a participação da iraniana Golshifteh Farahan.
O filme será considerado talvez parado para os que esperam perseguições e cenas sangrentas assustadoras o tempo todo. Mas o foco é o psicológico do protagonista. Até quanto tempo Sam aguentará aquela situação sem enlouquecer? E o quanto ele realmente está seguro ali? 
Sam terá que fazer a escolha de ficar ali, onde se sente protegido, catando as comidas que restam dos outros apartamentos, colocando diversas vasilhas no terraço do prédio à espera da água das chuvas, verificando e reforçando as portas e janelas o tempo todo, na mais profunda solidão, ou procurar uma saída, tentar achar um lugar onde talvez não hajam zumbis, mas correndo o risco de vida. É uma alegoria, acredito, à vida de todos nós. Sempre digo que muitas pessoas para não morrerem, deixam de viver. Porque se Sam optar por ficar ali na sua ilusória segurança, ele também não estará praticamente se tornando um zumbi?

Dominique Rocher, que também assina o roteiro, dirige com muita criatividade e sensibilidade esse seu primeiro longa, que é baseado em um livro de mesmo nome e que fez muito sucesso no Festival Varilux 2018.
IMDB: 6/10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Nuit a Dévoré le Monde.
Outros títulos: The Night Eats the World.
País: França.
Ano: 2018
Direção: Dominique Rocher
Roteiro: Dominique Rocher
Elenco: Anders Danielsen Lie, Golshifteh Farahani, participação especial de Denis Lavant.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS



Vi ontem esse filme e confesso que me incomodou, tenso praticamente o tempo todo. Fui dormir com aquele mal-estar, com aquela sensação ruim, tentando entender o que realmente aconteceu, como se fosse possível, já que a própria polícia não conseguiu provar nada.
Saber que um criminoso desse tipo continua vivo, levando uma vida normal, se é que foi ele, não é?, porque também se não foi, estamos cometendo uma grande injustiça.
O filme começa com um romance maravilhoso entre David (Ryan Gosling) e Katie (Kirsten Dunst), ele, um milionário herdeiro de um império imobiliário, embora de negócios escusos, ela, uma moça simples e sensível. 
Eles se casam e aos poucos, o que parecia ser um conto de fadas se torna um pesadelo para Katie, devido à alma doentia de David.

O filme é baseado em fatos reais e é isso que impressiona mais! Eles se conheceram em 1971 e em 1982 Katie desapareceu e nunca mais foi encontrada. Não é spoiler, gente, é um filme sobre um acontecimento real.
Jarecki fez mais de 100 horas de entrevistas com pessoas próximas ao empresário, que na vida real se chama Robert Durst, para fazer o filme.
A fotografia é cheia de contrastes, porque embora de cores frias a maior parte do tempo, nos presenteia com a beleza do lago onde eles têm uma casa para o fim-de-semana.
Entre Segredos e Mentiras é baseado em fatos reais, mas vai além deles, ao exibir a sua versão sobre essa poderosa família nova-iorquina.
O resultado é um filme intenso, com poderosas atuações e uma bela trilha sonora.
Mas que, como disse no início, incomoda.


IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: All Good Things
País: EUA
Ano: 2011 
Direção: Andrew Jarecki
Roteiro: Marc Smerling, Marcus HincheyElenco: Ryan Gosling, Kirsten Dunst, Frank Langella

Robert Durst e Kathleen Durst





terça-feira, 17 de julho de 2018

O PODER E A LEI



O título nacional dá a entender que veremos um drama de tribunal, ou ao menos um filme bem focado no tema ''jurídico''. Mas, basta o filme começar e já percebemos que se trata de uma trama policial e, conforme o tempo passa, traços de gêneros como thriller / suspense e até um pouco de noir começam a surgir. Baseada no best seller de Michael Conelly e adaptada por John Romano, a história gira em torno de Mickey Haller (Matthew McConaughey), o típico advogado ''porta de cadeia''. Odiado pelos policiais, julgado pela ex-esposa, a promotora de justiça Maggie McPherson (Marisa Tomei), tendo como escritório um Lincoln (carro que dá nome ao título original) e, com métodos nada convencionais e escrúpulos duvidosos, ele lida diariamente com uma vasta gama de criminosos, usando toda sua malícia e versatilidade - e é claro, toda e qualquer falha no sistema - para ganhar muito dinheiro.

Quando o caso de um ''playboy'' corretor de imóveis, Louis Roulet (Ryan Phillipe), que é acusado de agredir e tentar assassinar uma prostituta, cai em suas mãos, ele acredita que tirou a sorte grande. Mas conforme manipula, mente, engana e desenha todos os acontecimentos a seu favor, ele demora a perceber que podem estar fazendo o mesmo com ele. O que segue é um jogo psicológico que nas mãos de um diretor mais experiente poderia ter se tornado um dos principais filmes da década, mas até que Brad Furman não faz feio. Falta pulso, mas sobra força de vontade.

Com uma boa narrativa, o filme não cansa e suas duas horas passam voando. McConaughey está mais contido, mas não menos eficiente, aqui ele emprega seu carisma pra vestir uma personagem ambígua que sustenta a trama tranquilamente. O roteiro tem os seus furos (quase todo thriller os tem), temos alguns movimentos de câmera e close-ups fechados que podem incomodar (me incomodaram), mas no geral, é um filme bem estiloso e uma grata surpresa. Vale a pena conferir mais um bom filme que passou despercebido (ou não teve a repercussão merecida) por crítica e público. 




Texto e avaliação: Marcos Poli


IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Nota (Marcos Poli) : 8/ 10


Ficha técnica:
Nome original: The Lincoln Lawyer
País: EUA
Ano: 2011
Direção: Brad Furman.
Roteiro: John Romano, Michael Connely.
Elenco: Matthew McConaughey, Ryan Phillippe, Marisa Tomei, William H. Macy e Bryan Cranston.

Dirigido por: 


LUGARES ESCUROS




Baseado no livro de mesmo título da autora Gillian Flynn, responsável por trazer ao mundo o sucesso literário e de cinema: Garota Exemplar, Lugares Escuros é inferior ao outro longa, contudo a história intrigante e misteriosa de Flynn consegue prender do início ao fim, ainda mais devido à excelente atuação da atriz sul-africana, Charlize Theron.
A história parte de uma fragilizada mulher, Libby Day (Theron), que teve a infância marcada pelo assassinato de sua mãe e suas duas irmãs pelo próprio irmão. Traumatizada, falida e sem perspectivas de um futuro melhor, Libby Day é abordada por um jovem rapaz, Lyle (Nicholas Hoult), que participa de um grupo macabro conhecido como O Grupo da Morte, no qual fãs de histórias reais de assassinatos e assassinos investigam casos famosos na tentativa de descobrir a verdade. Lyle oferece dinheiro para que Libby participe de uma das sessões do clube, descrevendo sobre a noite do crime, já que ela fora a única sobrevivente, sem escolhas, Libby aceita participar e isso traz à tona uma história cheia de mistérios e contradições.
Infelizmente a adaptação peca na direção. Apesar da história prender a atenção por causa do mistério que é contado através de flashes-back ao longo de todo o filme, alguns momentos poderiam ter sido feitos de forma mais ágil, evitando deixar a história um pouco cansativa. E, em contradição com a edição e fotografia estilosa e moderna de Garota Exemplar, Lugares escuros é mais simples e contém alguns problemas, mas nada que comprometa a trama.
Há de se elogiar a história, que não é mérito tanto do filme, mas de um livro bem intrigante, o que facilitou na adaptação. Outro ponto positivo é a atuação de Charlize Theron, como sempre dando um espetáculo de interpretação. Chloë Grace Moretz também faz uma participação especial e mostra todo seu talento de forma bem madura.
No mais, este é um filme que vai agradar tanto aos amantes do suspense, como a quem gosta de um bom drama. Vale a pena!



Por: Tom Carneiro.
IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Nota (Tom Carneiro): 6/ 10

Ficha técnica:
Nome original: Dark Places.
País: EUA. França, Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2015
Direção: Gilles Paquet-Brenner
Roteiro: Gilles Paquet-Brenner, Gillian Flynn.
Elenco: Charlize Teron, Chloë Grace Moretz, Corey Stoll, Nicholas Hoult.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

UNSANE (DISTÚRBIO)

´

Adepto das experiências, o cineasta americano Steven Soderbergh filmou Unsune com um iPhone.
"É uma época fascinante para fazer filmes. Gostaria de ter um objeto destes quando tinha 15 anos",
afirmou o realizador de Traffic, pelo qual recebeu o Oscar como Melhor Diretor, Erin Brockovich e Sexo, Mentiras e Vídeotape, esse último vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, quando ele tinha somente 26 anos. Soderbergh, hoje com 55 anos, vem alternando filmes de sucesso comercial com obras mais experimentais. Ainda adolescente, ele conheceu o cinema, dirigindo curtas-metragens com uma Super 8 emprestada.
Ele não é primeiro. Sam Baker já havia filmado Tangerine com a câmera de um IPhone 5S.
Unsane tem como protagonista a excelente Claire Foy, atriz britânica famosa por seu papel de Ana Bolena na minissérie Wolf Hall, pela qual recebeu nomeações para os prêmios BAFTA e para os Critics' Choice Awards e por interpretar a Rainha Elizabeth II na série de televisão The Crown da Netflix. Com este papel, Foy foi premiada com o Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática e Prémio Screen Actors Guild para melhor atriz em série de drama, ambos em 2017.
No filme, Claire é Sawyer Valentini, uma pessoa atormentada por um homem que a persegue. Ela vive mudando de endereço, de emprego, de perfil nas redes sociais, mas mesmo assim o pânico está constantemente tomando conta dela, como se ele estivesse sempre atrás das portas. O que não sabemos é se o que acontece com Sawyer é real ou se é tudo produto de sua mente. Quando ela procura o auxílio de uma psiquiatra para poder desabafar e amenizar sua ansiedade, ela se vê de repente internada em uma instituição psiquiátrica contra sua vontade.
O filme é mediano. É bem construído e a atuação da Claire Foy é um diferencial, mas achei a história previsível. Não entendi o que o Matt Damon foi fazer ali no filme, rsrsrs. Soderbergh também tornou-se famoso por executar várias funções dentro de um mesmo filme, como direção de fotografia, edição, direção e roteiro. Como a WGA proíbe que o cineasta exerça múltiplas funções dentro de um filme, ele assina sob diferentes pseudônimos. Em Distúrbio, ele assina a fotografia e a montagem do filme sob dois pseudônimos distintos.
Adorei a cena de abertura, um bosque inteiro em tons de azul, recurso do IPhone utilizado, e que tem a ver com a forma como o stalker (ou o suposto stalker) via a vida com a Sawyer e que também a presenteou com um vestido azul, tudo azul, no seu mundo idealizado azul.
Acho que a tensão maior que somos acometidos é a de ver como o sistema é frágil e que uma coisa dessas pode acontecer com a gente ou com algum familiar. O filme contém uma crítica ao sistema hospitalar e suas ganâncias.Um suspense psicológico que talvez tenha divertido mais o próprio diretor, ao utilizar os recursos de um smarthphone.

IMDB: 6,5/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Unsane
País: EUA
Ano: 2018
Direção Steven Soderbergh.
Roteiro: James Greer, Jonathan Bernstein.

Elenco: Claire Foy, Amy Irving, Joshua Leonard, Juno Temple, Jay Pharoah, participação de Matt Damon.
Soderbergh filmando com seu IPhone 7



quarta-feira, 4 de julho de 2018

MATE-ME POR FAVOR



Sob uma perspectiva adolescente, a história mergulha em um mundo quase isolado de adultos, e isso acontece de modo proposital, pois uma de suas críticas é justamente a ausência dos pais na vida dos filhos. 
Embebido de alegorias e simbologismos, o filme acompanha a vida de Bia (Valentina Herszage), uma estudante de classe média que mora na Barra da Tijuca, RJ, com sua mãe e o irmão. Assassinatos estão acontecendo pela redondeza e a menina fica obcecada com aquilo enquanto a comunidade parece se apavorar e busca conforto em cultos e vigílias religiosos. 

O ostracismo da juventude atual é traduzido por Bia com perfeição na medida em que ela se distrai e se atrai com facilidade pelo oculto e mórbido. A mortes a seduzem, em contrapartida suas atitudes são de indiferença a cada minuto da projeção. Inclusive essas mortes refletem com perícia a contagem de corpos na cidade maravilhosa, promovida fatalmente por uma violência indiferente às autoridades. 
O interessante do longa, é também a abordagem com que os jovens e seus mundos são retratados. Por momentos isso é feito de maneira bem crua e perversa, além de um humor bem ácido. 

A direção estilosa, com a ajuda da belíssima fotografia garantem um charme ao filme. E a trilha é bem característica do público abordado na história, bem como da cidade do Rio de Janeiro. 

Infelizmente o filme foi vendido como um terror e, apesar da trama flertar com o gênero, em especial pela primeira cena, o pêndulo recai para o lado do drama. Inclusive o frio desfecho é tão triste quanto pesado.
(Comentários: Tom Carneiro)
*Telecine Play
IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Mate-me Por Favor.
País: Brasil e Argentina.
Ano: 2015
Direção: Anita Rocha da Silveira
Roteiro: Anita Rocha da Silveira
Elenco: Valentina Herszage, Dora Freind, Mariana Oliveira 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

CALIBRE



Sinopse: dois amigos de longa data vão para uma isolada vila na Escócia para um final de semana de caça, mas nada poderia prepará-los para o que aconteceria em seguida.
Nem você! Prepare-se para um clima de tensão do princípio ao fim. Você, como o Marcus e o Vaughn, vai ter vontade de sair cor-ren-do. Alías, esse filme também me lembrou aquele outro, o Corra. O lugar já tinha um clima de hostilidade, desde que os amigos chegaram. Eles conhecem duas moças da região, Vaughn não leva adiante, ele é casado e sua mulher está grávida, para decepção de Iona. Mas Martin embarca na aventura com a outra, mesmo sendo avisado que ela sempre traz problemas. A famosa "chave de cadeia".
Dirigido por Matt Palmer, o filme, embora não apresente nada de inovador, cenários em uma vila meio que abandonada pelo tempo, com um único bar onde todos se reúnem e se conhecem, onde os olhos são todos voltados para qualquer estranho que apareça, um valentão que tem ciúmes da mocinha, e tal, a diferença é que o espectador sentirá imediatamente uma empatia com os personagens e a vontade de gritar para eles correrem enquanto é tempo. Principalmente o Vaughn, que vai ser pai e que embarcou nessa aventura meio que para agradar ao amigo. Mas, justiça seja feita, Martin, embora assim meio babaca, meio que movido por impulsos, está sempre tentando proteger o Vaughn. Porque ele podia ter saído fora antes. Eu penso assim.
Com um final chocante, que levanta algumas questões éticas e morais. O que você faria? Eu acho que tudo o que a gente fala fora da situação não representa a realidade, só no momento que acontecem as coisas é que conhecemos as nossas verdadeiras motivações e limitações.

IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,4/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Calibre.
País: Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2018
Direção: Matt Palmer.
Roteiro: Matt Palmer.
Elenco: Jack Louden, Martin McCann, Tony Curran, Ian Pirie.

sábado, 30 de junho de 2018

TOM NA FAZENDA



Depois da morte de seu parceiro em um acidente, Tom (Xavier Dolan) viaja até a fazenda da mãe do rapaz para o funeral, e mais que isso, em busca de conforto, talvez até de uma amenização para o seu sofrimento. O que ele não sabe é que a mãe de seu noivo falecido não tinha ciência de que o filho era homossexual. E o problema é ainda maior quanto ao outro filho da senhora que também mora com ela, o problemático Francis (Pierre-Yves Cardinal), machista e com um histórico de violência. Francis é o único que sabia da sexualidade do irmão e obriga Tom a mentir para a mãe, evitando que ela sofresse mais. Dai em diante, Tom se vê sufocado dentro dele mesmo e perseguido por um cunhado desequilibrado, representando uma verdadeira incógnita, o que faz a história prender o espectador à poltrona por não ter qualquer chance de prever o que vem a seguir.
O longa é baseado em uma peça de Michel Marc Bouchard (que também divide os créditos do roteiro com o Xavier Dolan) e representa um avanço na carreira do excelente Dolan. Acostumado, até o então, com certos exageros estéticos e visuais em suas obras, Dolan foca nos personagens em Tom Na Fazenda, contudo ainda deixa a desejar no roteiro que parece não seguir um rumo só, deixando a sensação de que faltou algo. Ainda sim, o longa tem seus méritos, em especial pelas atuações. Cardinal entrega um rapaz completamente doentio e desequilibrado. Sua atuação é tão visceral que chega a causar medo. Já Dolan acerta o que muitos diretores que também atuam em seus filmes erram. Ele sabe aparecer na medida certa na frente da câmera, não se expõe demais em detrimento dos outros personagens e sua atuação é angustiante.
A história gira em torno da dificuldade de algumas pessoas em se livrar se certos sentimentos, deixar ir certos amores, desilusões, paixões, traumas... O próprio Tom vai até a fazenda e permanece nela, se autoflagelando, porque possuía essa dificuldade. Já para Francis a situação é mais complicada, pois o personagem nem sequer se entende e passa, em determinadas cenas, a impressão de que lutava internamente por um desejo reprimido de ser aberto como o falecido irmão, como o próprio Tom. Há muito erotismo nas cenas, em especial na luta final entre os dois rapazes. Mas essas suposições são do campo especulativo e cabe ao espectador analisar e discutir com outros.
Extremamente angustiante e claustrofóbico, Tom Na Fazenda pode ser considerado um dos melhores filmes de Dolan.

(Comentários e sinopse de Tom Carneiro)

IMDB: 7/ 10
Nota do Tom (Carneiro, rsrsrs): 8/ 10

Ficha técnica:
Nome original: Tom à La Ferme
Outros nomes: Tom at The Farm.
País: Canadá
Ano: 2013
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: 
Michel Marc Bouchard, Xavier Dolan.
Elenco: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

RESOLUTION



Vi Resolution na tentativa de tirar as dúvidas da continuação dele, The Endless. Tipo ver Better Call Saul depois de Breaking Bad. Resolution é uma produção independente de baixo orçamento, dirigido com competência por Justin Benson e Aaron Moorhead. Benson também assina o roteiro. Classificado como terror, mas é um terror sutil, o clima é tenso o tempo todo, daqueles que estão mais para fundir a cuca.
Tudo começa quando Michael (Peter Cilella) recebe uma fita com uma gravação do seu amigo drogado e um mapa de sua localização, o que ele interpreta como um pedido de ajuda. Ele deixa sua esposa grávida e parte para o que ele considera ser uma missão. Talvez Michael deseje ter alguma coisa para se orgulhar e contar para o filho que vai nascer.
Michael resolve prender Chris (Vinny Curran) com uma corrente, de forma que ele não tenha acesso às drogas nem às bebidas, dentro da cabana que depois ele vem a saber que foi ocupada ilegalmente pelo amigo e que está localizada em uma reserva indígena. Outro problema que ele tem que resolver. Ele pede para ficar por cinco dias e paga pelo aluguel. Não bastasse isso tudo e aturar as súplicas e as tentativas de Chris para ser desacorrentado, além do assédio de dois drogados, coisas estranhas começam a acontecer, fitas e fotos estranhas aparecem em todos os lugares, como a mandar um recado. E outra: Chris afirma que não foi ele quem mandou aquela fita para Michael.
Os dois amigos terão enfim muito tempo para se lembrarem e talvez se arrependerem de alguns atos praticados no passado, numa jornada de auto-conhecimento e reaproximação.
Mike só sai da cabana para comprar alguma coisa e caminhar. Numa dessas caminhadas, onde torce o pé, ele conhece um sujeito que mora em um trailer e que o convida para tomar um chá. Ele lhe diz que veio para o local com mais dois franceses, que diziam procurar um monstro, mas que desapareceram e que só ele acabou ficando, não conseguiu sair mais e nisso já estava por lá há trinta anos. Também o tal sujeito era chegado a umas ervas que trouxe da América do Sul. O cara era meio sinistro, começou a fazer uns lances com espelho e Michael, desconfortável, agradece a aspirina e resolve ir embora. Será que era mesmo aspirina? O sorrisinho do morador do trailer diz que não, o que nos leva a pensar se tudo não passa de alucinações provocadas pelas drogas, porque parece que todo mundo se droga naquele lugar.
Somos convidados a embarcar nessa aventura, novamente aqui, como em The Endless, não sabemos o que é real e o que é imaginário. Pior: nos questionamos sobre o que é a realidade afinal. Como em O Show de Truman, será que estamos apenas interpretando papéis em um cinema maior? 
Costumo dizer que o cinema, ou um livro, passa a ter vida própria da feita que começa a ser elaborado. O diretor passa a ser dirigido pelo próprio filme, o roteiro e as cenas começam a surgir, independentes da vontade do seu criador, brincando com seus limites.

Bem, e aí, quem viu? Alguém sabe me dizer o que significam afinal aqueles desenhos tribais, o que se esconde naquelas cavernas? Fala-se de uma seita de adoração ao demônio. Serão alienígenas que estão por ali? Qual a finalidade daqueles estranhos objetos (fotografias antigas, livros velhos, rolos de filmes)? Será que é apenas uma comunidade de traficantes que quer afastar as pessoas do local? Quem é o misterioso francês que mora no trailer? Por que ele nunca foi embora? Ah, e o que serão aquelas luzes alaranjadas que parecem flashes? Se não foi o Chris, quem enviou o vídeo para Mike? E o final, hein, o que foi aquilo??? Você não sabe? Hahaha, nem eu. Podemos supor várias coisas, diferentes pessoas terão diferentes explicações. Se você não gosta de finais abertos, não veja, porque Resolution, assim como sua continuação, The Endless, não entrega respostas. Na verdade, tenho a minha teoria, mas não vou dizer.
Mas assim como The Endless faz uma analogia com a rotina que nos devora, Resolution é também um filme sobre a amizade. O outro filme deles, Spring, também envolve bizarrices, porque é sobre um casal em que um deles é um monstro, mas fala principalmente sobre o amor. Então Benson e Moorhead usam sempre uma mensagem subliminar.
IMDB: 6,2/ 10
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Resolution
País: EUA
Ano: 2012
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Peter Cilella, Vinny Curran, com a participação de Aaron Moorhead e Justin Benson.


O CULTO



Eu acho que o filme fala basicamente sobre o medo.
"O sentimento mais forte e mais antigo do ser humano é o medo, e o medo mais forte e mais antigo é o medo do desconhecido".
O que o ser humano mais deseja? Ser imortal. E o que o ser humano mais teme? A morte. Mas, pelo menos para os que acreditam na continuidade do espírito, é necessário que o corpo morra, é preciso nos despojarmos dessa roupa, muitas vezes já velha e cansada, às vezes doente, para realizarmos esse sonho.
O fato é que não deveríamos ter medo da morte, já que só podem acontecer duas coisas: não existir nada depois e então não sentiremos nada; ou existir vida após dela, a constatação de que nosso espírito, ou nossa alma, é uma energia e vai continuar fluindo.
Então por que temos medo? E não diga que não tem, todo mundo tem. Porque é o desconhecido. Acreditamos, enquanto vivos, ter controle sobre tudo. Precisamos acreditar que temos os pés no chão. No entanto, pisamos em um planeta que está "solto" no universo, às vezes estamos de cabeça pra baixo, se bem que não sei onde é o cima e onde é o baixo. Eu tenho uma mania quando estou sozinha, assim numa praia, aperto os olhos e olho para o horizonte e tento "ver" o que vem depois. Não depois daquela linha, porque é só mais água, mas fora, ... tento me ver, assim como se estivesse em um barco no meio do mar, além disso, em um planeta no meio da imensidão.
No filme Vida Selvagem, Paco diz que na natureza tudo é redondo, que quem inventou o quadrado foi o homem. Porque o quadrado é uma forma que delimita os espaços, dá controle ao homem. Mas na verdade não temos controle sobre nada. Não sabemos onde é o fim e muito menos o que representa o fim. E nem se existe o fim, não é? É a tal teoria do infinito, que eu acho muito estranha. Mas se existe um fim, o que vem depois do fim é o nada. O nada é o que há de mais assustador. Vivemos em círculos, em ciclos, preferimos nos apegar à nossa vidinha quantas vezes sem graça do que ir além.
Alguns ciclos são menores, como o dia, dormimos, acordamos, trabalhamos, comemos, e dormimos de novo. Acredito que o filme promova uma analogia com as rotinas de nossas vidas. Alguns ciclos são maiores, mais estimulantes. Quanto mais medo, menores os ciclos, maior a rotina. Inventamos monstros para não nos expandirmos, mas os monstros estão dentro de nossas cabeças. "Não olhe para eles, siga somente sua bússola e saia correndo", aconselha um personagem do filme.
Em O Culto, Justin convence seu irmão mais novo a fugirem da comunidade onde vivem. Mas de nada adiantou, a comunidade estava dentro deles, impedindo-os de viver, era o monstro deles. Depois de dez anos, eles resolvem voltar em busca de respostas.
Mas há respostas? Pelo menos não no filme, o longa não entrega respostas, só perguntas.
Justin e Aaron são interpretados pelos próprio diretores, Justin Benson e Aaron Moorhead. O filme deles, Resolution, de 2012, uma produção de baixíssimo orçamento, é considerado um desafio conceitual ao espectador. Depois desse, eles fizeram Spring, em 2015, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto.
The Endless é um filme que pode ser perturbador, mas não considero que seu gênero seja terror, mas que transita por ele. Porque o fato de não sabermos o tempo todo o que é real ou não nos deixa bastante desconfortáveis. Por exemplo, na tal comunidade pode-se ver três luas. Que para mim simbolizam o passado, o presente e o futuro. Uma lua só representa que tudo é uma coisa só. Já que o filme também brinca com o tempo. O fato é que está fazendo sucesso em diversos festivais do mundo e ganhando seu espaço.
Afinal, o que acontece naquele lugar? É um portal? São aliens? Talvez algum local amaldiçoado? O que significam todos aqueles símbolos tribais? E aquele monte de fitas e fotos? Ou será que tudo não faz parte da imaginação dos assustados Justin e Aaron? Quando eu era criança, eu tinha muito medo de cachorros. Alguém me ensinou que eu tinha que disfarçar quando passava perto de um, porque o cheiro do medo os atraía. Será que o medo é como um espelho, projeta fora de nós o que tememos?
Em busca de respostas, eu fui ver o Resolution, que é anterior. The Endless é uma continuação de Resolution. O que posso dizer é que não esclareceu nada, apenas eliminou um ou duas possibilidades. Pode ser que tenha um terceiro filme, não é?
E a pergunta que fica é: você voltaria a um local de onde fugiu há dez anos atrás, de um lugar onde acredita que acontecem coisas bizarras? Ou: você enfrentaria os seus monstros?
IMDB: 6,7/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Endless
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson.
Elenco: Aaron Moorhead, Justin Benson, Tate Ellington, Callie Hernandez.