Cinéfilos Eternos: México
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domingo, 16 de dezembro de 2018

ROMA



Em primeiro lugar (eu ia escrever "primeiramente", mas essa palavra sempre me lembra "fora uma certa pessoa"), ... então, em primeiro lugar, quero agradecer ao Cuarón por fazer um filme abordando tantos problemas femininos. Na minha cabeça, enquanto via o filme, só vinham as músicas de Chico Buarque, que é um dos homens que mais entende a alma feminina.
Tudo começou nos primórdios dos tempos, segundo a Bíblia, quando Eva foi feita de uma costela de Adão. A mulher como uma parte do homem, quando na verdade é a mulher que mantém em seu ventre um filho por tantos meses e que o pare. A partir daí, coube à mulher a culpa de tudo nesse mundo, quem mandou Eva comer a maçã? Aos homens sempre couberam as glórias, às mulheres o castigo de sangrar todo mês, algumas com muita cólica, e as dores do parto. Isso é apenas uma amostra do que elas teriam que passar. Algumas são aparentemente elogiadas: "por trás de um homem de sucesso, há sempre uma mulher de fibra".
Nós, mulheres, já nascemos com culpa. Sentimos uma imensa dor quando precisamos deixar nossos filhos para trabalhar para sustentá-los. Sentimos culpa se chegamos cansadas e sem energia para sentar no chão com eles e brincar. Se um pai abandona o lar, nos sentimos responsáveis pelo sofrimento dos filhos. 
Cleo sentiu-se culpada por engravidar. Envergonhada. Por não ser casada, por se deixar iludir, por ter que contar para sua patroa. Fermin simplesmente abortou o filho. Sim, esse é um caso de aborto masculino. Mas a culpa foi dela, quem mandou se envolver com ele? Cleo sentiu-se culpada por não desejar aquele filho, por não amá-lo como uma mãe deve amar. Logo ela, que ama tanto os filhos de sua patroa, não é capaz de amar o seu próprio. 
À mulher cabe o bom funcionamento da casa, sejam elas patroas ou empregadas. Cleo cuida das crianças e também da enorme casa e dos enormes cocôs do cachorro, que tem que limpar toda hora. Brincando com uma das crianças, ela declara que é bom "estar morta". O marido de Sofia chega em casa e reclama de tudo, está insatisfeito, Sofia diz que vai falar com as empregadas. Afinal, a culpa é dela também. Não dele, que nunca está presente e não ajuda em nada.

Sofia diz para Cleo:
"Estamos sós! Não importa o que fazemos, estamos sempre sós, as mulheres".

O filme foi o vencedor do Leão de Ouro, em Veneza. É aos poucos que Roma nos seduz. Sua bela fotografia em preto e branco retratando os anos 70 no Mexico vai ganhando matizes aos nossos olhos encantados. Um retrato tão perfeito do cotidiano, que nos sentimos da família. O universo dos patrões. O universo das empregadas. Dois universos bem diferentes, mesmo que os patrões digam que elas são da família. Mesmo que elas se dediquem, como a Cleo a dar carinho e amor e toda atenção para uns filhos que não são seus. Mesmo que tenham que escutar caladas críticas sobre seu trabalho e elas próprias só possam reclamar umas com as outras no seu quartinho dos fundos.
O início mostra a entrada de uma casa e o seu piso sendo lavado com sabão e mangueira. A câmera se detém alguns minutos ali, a mostrar a espuma se dissolvendo na água, como os sonhos da empregada que nunca vai ter uma casa como aquela.
Distribuído pela Netflix e exibido em seu catálogo desde o dia 14 último, Roma foi também lançado em salas de cinema, para garantir que possa ser selecionado para competir por outros prêmios, como o Globo de Ouro e o Oscar. O diretor mexicano já levou um Oscar de Melhor Direção em 2014, por seu filme Gravidade.
Eu me perguntava o motivo do título. Descobri que tem a ver com a própria infância de Cuarón, que foi criado na Colônia Roma, um bairro de classe média da Cidade do México. Ele homenageia com o filme as mulheres que o criaram.
É pelo olhar da personagem Cleo, interpretada por Yalitza Aparicio, 24 anos e nenhuma experiência como atriz, que a vida da família do filme e também da família Cuarón são recriadas. Cuarón queria uma pessoa nativa para interpretar a protagonista. Desempregada, ela se sentiu atraída pelo anúncio. A mãe de Yalitza foi doméstica e mesmo ela, formada professora, também já trabalhou em casas de família e como no papel, também cuidou de filhos dos outros.
Cuarón insere a história familiar na história do México, reconstituindo uma tremenda repressão das forças armadas a um movimento estudantil da época.
O fato é que Roma contêm cenas que dificilmente se apagarão da mente de quem assistiu. São imagens carregadas de conteúdo que só um cineasta muito sensível poderia elaborar. É justamente na simplicidade dos acontecimentos que está a força do filme. Amei!
IMDB: 8,6/ 10
Filmow: 4,6/ 5
Minha nota: 4,3/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Roma.
País: EUA/ México.
Ano: 2018
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón.
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Nancy Garcia Garcia.










quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

TEMPO COMPARTILHADO



Pedro chega feliz para uma temporada de férias em um resort. Gostou?, pergunta ele para Eva, sua esposa. Ela diz que sim, encantada e lhe pergunta como conseguiu pagar aquilo. O que aumenta um pouco o orgulho de Pedro por poder proporcionar à família aquele conforto todo. Ele mostra a piscina, onde sabe que o filho vai se deleitar. Pedro é uma daquelas pessoas "classe média" abençoado pelo sistema de poder usufruir de um clube de férias por módicas prestações mensais. 
Abençoado, eu disse? Bem, isso, até tocarem a campainha e eles descobrirem que houve uma confusão e uma outra família também reservou a unidade em que eles se instalaram. A princípio, eles tentam resolver, mas sem êxito, já que o resort está lotado. Eles decidem, não tem outro jeito, compartilhar a mesma casa com a família de Abel. Apesar do incômodo, a mulher de Pedro é bem compreensiva com a situação, o filho está até se divertindo com a tal família e suas bizarrices e, afinal, eles estavam dispostos a aproveitar a estada lá e o lema era que nada ia estragar isso.
O fato é que coisas estranhas acontecem no tal Everfields Resort e a musiquinha ajuda a criar um clima bem sinistro. Pedro começa a perceber. Paralelamente tem a história de um outro casal. Andres era animador do resort e de repente teve um ataque, me pareceu um derrame. Com limitações, ele foi direcionado para funções subalternas e fica cada vez mais deprimido, mais ainda porque sua mulher, Gloria, o trata com uma repentina indiferença. 
Aos poucos, vamos percebendo que o roteiro bem inteligente nos leva a uma crítica social das boas. O sistema do hotel, sob a nova direção, está contaminado por resoluções simplistas para resolver problemas familiares e sociais. O objetivo é deixar todo mundo feliz, claro que a custa do sacrifício de alguns, que, como laranjas podres, precisam ser descartados. Ou “separar o joio do trigo”, como alguns preferem se referir a isso. Quem entra no esquema, é aproveitado. A máquina precisa de peças perfeitas para funcionar. E para isso, as peças, ou os soldadinhos, precisam obedecer ao regime, sem pestanejar. Pensar, pra quê?
O conceito de tempo compartilhado refere-se também à necessidade do ser humano em viver em grupos e para que tudo funcione é preciso fazer uma lavagem cerebral, fazer de todos uma família só, que vai crescendo e se tornando uma grande família, a Família Everfield. É o desprezo pela individualidade, pelas diferenças. 
Pedro representa a lucidez naquilo tudo, mas que vai sendo esmagado pelo efeito manada. Como fazer ouvir sua voz? O filme tem um tom claustrofóbico, que eu adoro ver no cinema.
Eu, particularmente, desconfio quando vejo muita "felicidade". Aliás, acho que esse conceito de que a felicidade existe e de que devemos dedicar a nossa vida a buscá-la é, para mim, exatamente a nossa prisão.

Tiempo Compartido é um dos novos títulos no catálogo da Netflix e vai te surpreender.
Eu não conhecia esse diretor. Pesquisando aqui, vi que suas produções foram apresentadas nos festivais de cinema de Roterdão, Locarno, Sundance, Festival Fantástico, La Habana, entre outros. Talentoso ele. Fiquei super interessada em ver seu outro longa, de 2012, o Halley, que, pelo que entendi, é um retrato psicológico da depressão.
O cinema mexicano contemporâneo desfruta de uma liberdade formal e de mecanismos estruturais que permite aos cineastas filmar com certa frequência. Eles podem contar suas histórias, sem ter que fazer concessões a grupos políticos, religiosos ou comerciais. Esta pode ser considerada uma “Nova Época de Ouro” do cinema mexicano.
IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Tiempo Compartido
Outros nomes: Time Share.
País: México.
Ano: 2018
Direção: Sebastian Holfmann.
Roteiro: Julio Chavezmontes, Sebastian Hofmann.
Elenco: Luís Gerardo Méndez, Miguel Rodarte, Andrés Almeida, RJ Mitte, Cassandra Ciangherotti, Montserrat Manrañon.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

SABERÁ O QUE FAZER COMIGO




Isabel conhece Nicolas, que é fotógrafo, em um hospital e ele a convida para sua exposição. Ela não dá importância mas o destino acaba levando-a lá, acompanhando uma amiga. 

Começa um relacionamento entre eles. Isabel, sempre enigmática, não fala muito de sua vida. Entendo ela. Algumas dores são só nossas. Falar delas é como se minimizasse o seu valor. E diminuí-las é como querer livrar-se delas. E se desprender delas é como trair nossos sentimentos. 

Mas Nicolas também esconde um segredo: sofre de uma epilepsia grave. Após uma crise testemunhada por ela, ele diz que quer terminar, que não quer que ela passe por isso de novo. Que não é justo dividir esse sofrimento com ela. 

Isabel também vive envolvida com a depressão da mãe.

Tantos problemas. Qual será a solução? Apoiar o Nico é acumular mais uma chance de sofrer. Viver o seu amor ou ficar na superfície, não se deixar afetar de verdade? 

O sofrimento e as perdas fazem parte da vida. Pelo menos foi como crescemos ouvindo. É um filme sobre perdas e ganhos. Sobre lutos. Sobre o que fazer com o que restou.




Filme delicado e sensível, ao mesmo tempo que profundo. Interpretações bem tocantes. Diálogos incríveis que nos levam a suspirar e refletir. A fotografia é linda também. As paisagens maravilhosas parecem nos mostrar que existe a feiura no mundo, mas também existe a beleza. O quanto conseguimos captar dessa beleza, da natureza e da vida, é o que nos sustentará. Ou nos derrubará.


IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,7/ 5



Ficha técnica:
Nome original: Sabrás qué Hacer Conmigo
País: México.
Ano: 2015
Direção: Katina Medina Mora.
Roteiro: Katina Medina Mora, Emma Bertrán, Samara Ibrahim.
Elenco: Ilse Salas, Pablo Derqui