Cinéfilos Eternos: Sebastian Holfmann
Mostrando postagens com marcador Sebastian Holfmann. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sebastian Holfmann. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

TEMPO COMPARTILHADO



Pedro chega feliz para uma temporada de férias em um resort. Gostou?, pergunta ele para Eva, sua esposa. Ela diz que sim, encantada e lhe pergunta como conseguiu pagar aquilo. O que aumenta um pouco o orgulho de Pedro por poder proporcionar à família aquele conforto todo. Ele mostra a piscina, onde sabe que o filho vai se deleitar. Pedro é uma daquelas pessoas "classe média" abençoado pelo sistema de poder usufruir de um clube de férias por módicas prestações mensais. 
Abençoado, eu disse? Bem, isso, até tocarem a campainha e eles descobrirem que houve uma confusão e uma outra família também reservou a unidade em que eles se instalaram. A princípio, eles tentam resolver, mas sem êxito, já que o resort está lotado. Eles decidem, não tem outro jeito, compartilhar a mesma casa com a família de Abel. Apesar do incômodo, a mulher de Pedro é bem compreensiva com a situação, o filho está até se divertindo com a tal família e suas bizarrices e, afinal, eles estavam dispostos a aproveitar a estada lá e o lema era que nada ia estragar isso.
O fato é que coisas estranhas acontecem no tal Everfields Resort e a musiquinha ajuda a criar um clima bem sinistro. Pedro começa a perceber. Paralelamente tem a história de um outro casal. Andres era animador do resort e de repente teve um ataque, me pareceu um derrame. Com limitações, ele foi direcionado para funções subalternas e fica cada vez mais deprimido, mais ainda porque sua mulher, Gloria, o trata com uma repentina indiferença. 
Aos poucos, vamos percebendo que o roteiro bem inteligente nos leva a uma crítica social das boas. O sistema do hotel, sob a nova direção, está contaminado por resoluções simplistas para resolver problemas familiares e sociais. O objetivo é deixar todo mundo feliz, claro que a custa do sacrifício de alguns, que, como laranjas podres, precisam ser descartados. Ou “separar o joio do trigo”, como alguns preferem se referir a isso. Quem entra no esquema, é aproveitado. A máquina precisa de peças perfeitas para funcionar. E para isso, as peças, ou os soldadinhos, precisam obedecer ao regime, sem pestanejar. Pensar, pra quê?
O conceito de tempo compartilhado refere-se também à necessidade do ser humano em viver em grupos e para que tudo funcione é preciso fazer uma lavagem cerebral, fazer de todos uma família só, que vai crescendo e se tornando uma grande família, a Família Everfield. É o desprezo pela individualidade, pelas diferenças. 
Pedro representa a lucidez naquilo tudo, mas que vai sendo esmagado pelo efeito manada. Como fazer ouvir sua voz? O filme tem um tom claustrofóbico, que eu adoro ver no cinema.
Eu, particularmente, desconfio quando vejo muita "felicidade". Aliás, acho que esse conceito de que a felicidade existe e de que devemos dedicar a nossa vida a buscá-la é, para mim, exatamente a nossa prisão.

Tiempo Compartido é um dos novos títulos no catálogo da Netflix e vai te surpreender.
Eu não conhecia esse diretor. Pesquisando aqui, vi que suas produções foram apresentadas nos festivais de cinema de Roterdão, Locarno, Sundance, Festival Fantástico, La Habana, entre outros. Talentoso ele. Fiquei super interessada em ver seu outro longa, de 2012, o Halley, que, pelo que entendi, é um retrato psicológico da depressão.
O cinema mexicano contemporâneo desfruta de uma liberdade formal e de mecanismos estruturais que permite aos cineastas filmar com certa frequência. Eles podem contar suas histórias, sem ter que fazer concessões a grupos políticos, religiosos ou comerciais. Esta pode ser considerada uma “Nova Época de Ouro” do cinema mexicano.
IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Tiempo Compartido
Outros nomes: Time Share.
País: México.
Ano: 2018
Direção: Sebastian Holfmann.
Roteiro: Julio Chavezmontes, Sebastian Hofmann.
Elenco: Luís Gerardo Méndez, Miguel Rodarte, Andrés Almeida, RJ Mitte, Cassandra Ciangherotti, Montserrat Manrañon.