Cinéfilos Eternos: Filmes em língua espanhola
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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TODOS JÁ SABEM



O filme abriu o Festival de Cannes de 2018. Escrito e dirigido pelo cineasta iraniano Asghar Farhadi, a produção irá trazer uma estranheza, já que não só é rodada em Madrid, como não tem nada a ver com a temática iraniana. No elenco, atores e atrizes espanhóis, como Penélope Cruz e Javier Bardem, o argentino Ricardo Darin e a fotografia é de de José Luis Alcaine, parceiro de Pedro Almodóvar em vários filmes. Em língua espanhola e castelhana, algumas vezes também surge a francesa.
Estimado pelos seus excelentes filmes, onde insere diversos tipos de conflitos, abordando a moral, a ética, a religiosidade, entre outros, o diretor de A Separação, À Procura de Elly, O Passado e O Apartamento, esse último vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017 nos entrega em "Todos los Saben" um drama familiar com tons de thriller.
Laura (Penélope) mora na Argentina com Alejandro (Darin) e chega à sua cidade natal com seus dois filhos, para o casamento da irmã. Seu marido ficou por motivos inadiáveis. Na primeira parte do filme, vamos participar do seu encontro com os pais, as irmãs e também com um ex-namorado, que considera-se quase parte da família. A cerimônia transcorre alegre, a festa animada, todos bebendo exagerado e dançando, e cantando, aquelas coisas de festas de casamentos. Lá pelas tantas, Laura coloca seu filho pequeno para dormir e mesmo sua filha Irene, de 16 anos que, até então estava aprontando todas e agora parecia exausta.
A luz acaba, começa a chover, mas nada tira a alegria da família e dos convidados. Paco (Javier Bardem), sempre participativo, se apressa a pegar um gerador, e a festa e os risos continuam. Até que em determinada hora, Laura sobe e vê que Irene, sua filha, não encontra-se na cama. Tem início uma busca desesperada e, a partir daí, o clima é de tensão e desconfiança. Alejandro é chamado, desconfia-se de tudo e de todos, antigos rancores vêm à tona. O que prova que na maioria das vezes, socialmente ou mesmo em família, vivemos de aparências: aparentamos que está tudo bem, que não temos nada uns contra os outros. Julgamos ser melhor assim, é mais educado ser assim. Tem coisas que se dizemos em um momento errado, pode parecer inveja. Qual será o melhor momento? É preciso mesmo dizer tudo? O fato é que os pensamentos, os sentimentos, os segredos!, estão lá. Eles não passam com o tempo. Basta acontecer alguma coisa em comum, que deixe todos tensos e ninguém consegue mais segurar. A família perfeita, de sorrisos perfeitos, mostra sua cara.
Acredito que Farhadi quis mostrar aqui que as tensões e conflitos acontecem em todos os lugares e com quaisquer pessoas, independente do lugar onde vivam, o Irã tem suas peculiaridades, é claro, mas o seu olhar se abre também para o mundo. Em O Passado, a história transcorre na França, mas os personagens são iranianos.
Essa não é nenhuma história original, "Todos lo Saben", todos já sabiam e fingiam que não sabiam, todos sabiam que todos sabiam mas fingiam que não. Por que logo a Irene? Perguntava-se Laura, despedaçada.
No casamento, o padre lembra aos presentes que o sino e a igreja precisam de reformas, contém rachaduras. Talvez a família aqui do filme também.
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.” Tolstói.
Ficamos todos tentando descobrir pistas que levem à Irene e ao culpado, mas temos aqui mais que tudo a história da família e dos personagens.
É uma pena que a participação do Darin seja tão secundária, o filme é da Penélope e do Bardem, mais ainda do Bardem, com certeza. Alejandro, ex-alcoólatra, agarra-se com Deus e sua atitude mostra-se mais passiva que o desejado, o que torna até ele mesmo questionável. Asghar insere assim, mais uma vez, a religiosidade. Um outro que se destaca também, mais que o Darin, é o ator Eduard Fernández, no papel de Fernando, tio de Laura. Incansável, tenta ajudar de todas as maneiras. Mas lembrando que todos são suspeitos...
"Todos lo saben y nadie dice".

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha Nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Todos los Saben.
Outros nomes: Everybody Known.
País: Espanha/ França.
Ano: 2018
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darin, Bárbara Lennie, Eduard Fernández, Carla Campra.


domingo, 16 de dezembro de 2018

ROMA



Em primeiro lugar (eu ia escrever "primeiramente", mas essa palavra sempre me lembra "fora uma certa pessoa"), ... então, em primeiro lugar, quero agradecer ao Cuarón por fazer um filme abordando tantos problemas femininos. Na minha cabeça, enquanto via o filme, só vinham as músicas de Chico Buarque, que é um dos homens que mais entende a alma feminina.
Tudo começou nos primórdios dos tempos, segundo a Bíblia, quando Eva foi feita de uma costela de Adão. A mulher como uma parte do homem, quando na verdade é a mulher que mantém em seu ventre um filho por tantos meses e que o pare. A partir daí, coube à mulher a culpa de tudo nesse mundo, quem mandou Eva comer a maçã? Aos homens sempre couberam as glórias, às mulheres o castigo de sangrar todo mês, algumas com muita cólica, e as dores do parto. Isso é apenas uma amostra do que elas teriam que passar. Algumas são aparentemente elogiadas: "por trás de um homem de sucesso, há sempre uma mulher de fibra".
Nós, mulheres, já nascemos com culpa. Sentimos uma imensa dor quando precisamos deixar nossos filhos para trabalhar para sustentá-los. Sentimos culpa se chegamos cansadas e sem energia para sentar no chão com eles e brincar. Se um pai abandona o lar, nos sentimos responsáveis pelo sofrimento dos filhos. 
Cleo sentiu-se culpada por engravidar. Envergonhada. Por não ser casada, por se deixar iludir, por ter que contar para sua patroa. Fermin simplesmente abortou o filho. Sim, esse é um caso de aborto masculino. Mas a culpa foi dela, quem mandou se envolver com ele? Cleo sentiu-se culpada por não desejar aquele filho, por não amá-lo como uma mãe deve amar. Logo ela, que ama tanto os filhos de sua patroa, não é capaz de amar o seu próprio. 
À mulher cabe o bom funcionamento da casa, sejam elas patroas ou empregadas. Cleo cuida das crianças e também da enorme casa e dos enormes cocôs do cachorro, que tem que limpar toda hora. Brincando com uma das crianças, ela declara que é bom "estar morta". O marido de Sofia chega em casa e reclama de tudo, está insatisfeito, Sofia diz que vai falar com as empregadas. Afinal, a culpa é dela também. Não dele, que nunca está presente e não ajuda em nada.

Sofia diz para Cleo:
"Estamos sós! Não importa o que fazemos, estamos sempre sós, as mulheres".

O filme foi o vencedor do Leão de Ouro, em Veneza. É aos poucos que Roma nos seduz. Sua bela fotografia em preto e branco retratando os anos 70 no Mexico vai ganhando matizes aos nossos olhos encantados. Um retrato tão perfeito do cotidiano, que nos sentimos da família. O universo dos patrões. O universo das empregadas. Dois universos bem diferentes, mesmo que os patrões digam que elas são da família. Mesmo que elas se dediquem, como a Cleo a dar carinho e amor e toda atenção para uns filhos que não são seus. Mesmo que tenham que escutar caladas críticas sobre seu trabalho e elas próprias só possam reclamar umas com as outras no seu quartinho dos fundos.
O início mostra a entrada de uma casa e o seu piso sendo lavado com sabão e mangueira. A câmera se detém alguns minutos ali, a mostrar a espuma se dissolvendo na água, como os sonhos da empregada que nunca vai ter uma casa como aquela.
Distribuído pela Netflix e exibido em seu catálogo desde o dia 14 último, Roma foi também lançado em salas de cinema, para garantir que possa ser selecionado para competir por outros prêmios, como o Globo de Ouro e o Oscar. O diretor mexicano já levou um Oscar de Melhor Direção em 2014, por seu filme Gravidade.
Eu me perguntava o motivo do título. Descobri que tem a ver com a própria infância de Cuarón, que foi criado na Colônia Roma, um bairro de classe média da Cidade do México. Ele homenageia com o filme as mulheres que o criaram.
É pelo olhar da personagem Cleo, interpretada por Yalitza Aparicio, 24 anos e nenhuma experiência como atriz, que a vida da família do filme e também da família Cuarón são recriadas. Cuarón queria uma pessoa nativa para interpretar a protagonista. Desempregada, ela se sentiu atraída pelo anúncio. A mãe de Yalitza foi doméstica e mesmo ela, formada professora, também já trabalhou em casas de família e como no papel, também cuidou de filhos dos outros.
Cuarón insere a história familiar na história do México, reconstituindo uma tremenda repressão das forças armadas a um movimento estudantil da época.
O fato é que Roma contêm cenas que dificilmente se apagarão da mente de quem assistiu. São imagens carregadas de conteúdo que só um cineasta muito sensível poderia elaborar. É justamente na simplicidade dos acontecimentos que está a força do filme. Amei!
IMDB: 8,6/ 10
Filmow: 4,6/ 5
Minha nota: 4,3/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Roma.
País: EUA/ México.
Ano: 2018
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón.
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Nancy Garcia Garcia.










quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

TEMPO COMPARTILHADO



Pedro chega feliz para uma temporada de férias em um resort. Gostou?, pergunta ele para Eva, sua esposa. Ela diz que sim, encantada e lhe pergunta como conseguiu pagar aquilo. O que aumenta um pouco o orgulho de Pedro por poder proporcionar à família aquele conforto todo. Ele mostra a piscina, onde sabe que o filho vai se deleitar. Pedro é uma daquelas pessoas "classe média" abençoado pelo sistema de poder usufruir de um clube de férias por módicas prestações mensais. 
Abençoado, eu disse? Bem, isso, até tocarem a campainha e eles descobrirem que houve uma confusão e uma outra família também reservou a unidade em que eles se instalaram. A princípio, eles tentam resolver, mas sem êxito, já que o resort está lotado. Eles decidem, não tem outro jeito, compartilhar a mesma casa com a família de Abel. Apesar do incômodo, a mulher de Pedro é bem compreensiva com a situação, o filho está até se divertindo com a tal família e suas bizarrices e, afinal, eles estavam dispostos a aproveitar a estada lá e o lema era que nada ia estragar isso.
O fato é que coisas estranhas acontecem no tal Everfields Resort e a musiquinha ajuda a criar um clima bem sinistro. Pedro começa a perceber. Paralelamente tem a história de um outro casal. Andres era animador do resort e de repente teve um ataque, me pareceu um derrame. Com limitações, ele foi direcionado para funções subalternas e fica cada vez mais deprimido, mais ainda porque sua mulher, Gloria, o trata com uma repentina indiferença. 
Aos poucos, vamos percebendo que o roteiro bem inteligente nos leva a uma crítica social das boas. O sistema do hotel, sob a nova direção, está contaminado por resoluções simplistas para resolver problemas familiares e sociais. O objetivo é deixar todo mundo feliz, claro que a custa do sacrifício de alguns, que, como laranjas podres, precisam ser descartados. Ou “separar o joio do trigo”, como alguns preferem se referir a isso. Quem entra no esquema, é aproveitado. A máquina precisa de peças perfeitas para funcionar. E para isso, as peças, ou os soldadinhos, precisam obedecer ao regime, sem pestanejar. Pensar, pra quê?
O conceito de tempo compartilhado refere-se também à necessidade do ser humano em viver em grupos e para que tudo funcione é preciso fazer uma lavagem cerebral, fazer de todos uma família só, que vai crescendo e se tornando uma grande família, a Família Everfield. É o desprezo pela individualidade, pelas diferenças. 
Pedro representa a lucidez naquilo tudo, mas que vai sendo esmagado pelo efeito manada. Como fazer ouvir sua voz? O filme tem um tom claustrofóbico, que eu adoro ver no cinema.
Eu, particularmente, desconfio quando vejo muita "felicidade". Aliás, acho que esse conceito de que a felicidade existe e de que devemos dedicar a nossa vida a buscá-la é, para mim, exatamente a nossa prisão.

Tiempo Compartido é um dos novos títulos no catálogo da Netflix e vai te surpreender.
Eu não conhecia esse diretor. Pesquisando aqui, vi que suas produções foram apresentadas nos festivais de cinema de Roterdão, Locarno, Sundance, Festival Fantástico, La Habana, entre outros. Talentoso ele. Fiquei super interessada em ver seu outro longa, de 2012, o Halley, que, pelo que entendi, é um retrato psicológico da depressão.
O cinema mexicano contemporâneo desfruta de uma liberdade formal e de mecanismos estruturais que permite aos cineastas filmar com certa frequência. Eles podem contar suas histórias, sem ter que fazer concessões a grupos políticos, religiosos ou comerciais. Esta pode ser considerada uma “Nova Época de Ouro” do cinema mexicano.
IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Tiempo Compartido
Outros nomes: Time Share.
País: México.
Ano: 2018
Direção: Sebastian Holfmann.
Roteiro: Julio Chavezmontes, Sebastian Hofmann.
Elenco: Luís Gerardo Méndez, Miguel Rodarte, Andrés Almeida, RJ Mitte, Cassandra Ciangherotti, Montserrat Manrañon.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

PASAJE DE VIDA




Uma boa surpresa esse filme. Escrito e dirigido por Diego Corsini, é baseado nas histórias que seus pais contavam sobre a luta armada na Argentina, na época da ditadura militar.
Miguel está perdendo o que tem de mais precioso: sua memória. Mario, seu filho, não sabia que ele estava tão mal assim. Miguel tem alta no hospital e Mario o leva para sua casa, em um povoado no interior da Espanha. Mario não lembra de sua mãe, existe apenas uma foto, mas seu pai sempre se negou a falar dela e nunca o levou para conhecer a avó materna. Agora, doente, Miguel mal reconhece o filho, passagens de sua vida quando era jovem vem e vão e ele não consegue separar o passado do presente. Algumas coisas que ele diz fazem Mario ter mais vontade de descobrir o que aconteceu com sua mãe. Seus pais eram argentinos. O que os fez virem para a Espanha? Seu pai o chama de nomes que ele nunca ouviu falar. Quem são essas pessoas? Quem principalmente é Diana, que o pai menciona com aflição e diz que precisa encontrá-la. Essa obsessão impulsiona Mario a investigar a misteriosa e complexa história de seu pai.
O Miguel jovem ( Chino Darin) "viveu em um dos períodos mais obscuros da Argentina, que ocorreu na década de 70, denominado Processo de Reorganização Nacional, ou seja, a Ditadura Militar que pôs fim ao governo de Isabelita Perón, através de um golpe de estado.
Como no Brasil, o governo torturava e assassinava opositores, seja de esquerda ou de direita. O protagonista pertencia a uma organização de esquerda, mas não fica claro que tipo de estado ela pretendia implementar." (trecho copiado)

Através de recortes do passado, também nós vamos aos poucos conhecendo a vida de Miguel. Mario precisa ir fundo dessa vez, sua vida é incompleta, ele não tem a memória da mãe, precisa pelo menos saber a história dela.
Diana era de uma abastada família burguesa mas escolheu como propósito de vida defender as classes menos favorecidas. Ela trabalha em uma fábrica, onde tem oportunidade de ver de perto as precárias condições com que são tratados os operários. Para termos uma ideia, morria-se por dia 20 pessoas em acidentes de trabalho em uma única fábrica, além disso, os salários eram péssimos. Sua mãe não a entendia e ela não entendia como a mãe podia viver alheia a tudo isso. É lá que Miguel e Diana se conhecem.
Mas para Miguel, trabalhar na fábrica não era uma opção, mas questão de sobrevivência. A princípio, é mostrado no filme, um conflito ideológico entre eles:
– Espero que não seja um daqueles pseudointelectuais que não querem sujar as mãos.
– Espero que não seja uma daquelas pequeno- burguesas que querem acalmar sua consciência com armas.
Miguel e Diana fizeram parte de uma geração que descobriu que o caminho para a liberdade era cheio de restrições. Eles se juntam a um grupo de ativistas, onde a luta armada estava inserida. Mas os jovens eram completamente despreparados, o inimigo era muito mais forte.
No início dos anos 2000, o cinema argentino começou a ganhar o público brasileiro pela capacidade de contar histórias humanas em narrativas simples e profundas. Essa é uma dessas belas histórias. Tocante e reflexiva, com uma linda fotografia. Um filme melancólico, de aspirações não concretizadas, mas que mostra a importância de seguirmos nossas convicções e de não ficarmos surdos às injustiças. Pasaje de Vida é uma história de luta e de luto. E de amor!
Nosso continente guarda uma história comum de invasões, colonialismo e violências. Também temos as ditaduras em comum. Muitos cineastas latino-americanos têm tentado narrar esses fatos. O jovem diretor argentino nascido na Espanha faz talvez uma homenagem à sua própria história familiar. Sim, talvez o filme tenha traços autobiográficos, mas se não, pelo menos nos permite conhecer a história de outras pessoas da época. Presente e passado, Espanha e Argentina, memórias e esquecimento.

IMDB: 6,6/ 5
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Pasaje de Vida.
País: Argentina.
Ano: 2015
Direção: Diego Corsini.
Roteiro: Diego Corsini, Fran Araujo.
Elenco: Carla Quevedo, Chino Darin, Javier Godino, Miguel Ángel Solá, Alejandro Awada.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A MEMÓRIA DA ÁGUA



Elena Anaya protagoniza esse drama sobre o luto. A atriz espanhola, vencedora do Prêmio Goya por sua atuação no filme A Pele que Habito, de Almodóvar, já tinha o seu talento reconhecido com o filme Lucía e o Sexo, de Julio Médem, no qual interpreta Belén, uma babá com jeito de "Lolita". Por esse trabalho, ganhou o prêmio da Unión de Actores de España e uma indicação ao prêmio Goya. Ou talvez vocês lembrem dela como a Doutora Veneno do filme Mulher Maravilha. Com seus lindos olhos expressivos, ela é Amanda no filme dirigido por Matias Bize. Uma mãe que acaba de perder seu filho de quatro anos e que retém na memória sua dor.

Ela era feliz com Javier, o pai de seu filho, mas com a tragédia, não consegue mais viver com ele. Javier (Benjamin Vicuña, A Linha Vermelha do Destino, Netflix) propõe que eles vendam a casa e viajem, mas Amanda está irredutível, quer se separar.
Acontece com muitos casais não conseguirem superar juntos a perda de um filho. Cada um tem uma maneira de reagir, às vezes um quer se apegar às lembranças, outro já quer seguir em frente. O conflito é inevitável. E logo na hora em que um mais deveria apoiar o outro. Javier diz para Amanda:
"Já o perdemos. Não podemos nos perder."
Javier e Amanda se amam, fica evidente, mas esse amor não basta para que sobrevivam juntos à tragédia.
Cada cena é o retrato do vazio que ficou. Adoro esse tipo de filme melancólico, com cores e belas paisagens melancólicas. Victor Hugo já dizia, "Melancolia é a felicidade de estar triste."
Matías Bize é diretor de cinema, produtor e roteirista chileno. Ele ganhou importantes prêmios de filmes independentes, incluindo o Espigo de Oro para En la Cama, mas ele considera que La Memoria del Agua é o seu melhor trabalho.
Um filme intenso e belo.



IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: La Memoria del Agua.
Outros nomes: The Memory of Water, A Memória da Água.
País: Chile.
Ano: 2015
Direção: Matías Bize.
Roteiro: Matías Bize, Julio Rojas.
Elenco: Elena Anaya, Benjamin Vicuña, Nestor Cantillana, Antonia Zegers, Alba Flores ( a Nairobi de A Casa de Papel).

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CAMINO A MARTE





Emilia (Tessa Ia, de Depois de Lucia) tem uma doença terminal mas não quer acabar sua vida em um hospital. Ajudada pela sua melhor amiga, Violeta (Bad Girls), elas resolvem fazer uma viagem. Não, não é aquele filme apelativo sobre os últimos dias de uma adolescente e as lições de amor que ela deixou, esqueça isso! Um contratempo impedirá talvez as duas amigas de chegarem à Balandra, o local pretendido: um furacão de grandes proporções se aproxima. O road movie ainda contará com um ingrediente inusitado: as meninas acabam conhecendo e dando carona para um cara que se diz um alienígena e que veio com a missão de acabar com a humanidade. Violeta não quer ele perto, acha que ele pode ser um louco perigoso, mas Emilia simpatiza com ele. Elas resolvem chamá-lo de Mark, o mesmo nome da tempestade tropical que se anuncia. "Mark" diz que seu trabalho é estudar a evolução planetária, que o ser humano é uma das poucas espécies inteligentes a experimentar emoções primitivas e que, pelo bem do universo, a humanidade deve desaparecer.
Indo para Marte ou para Balandra, a verdade é que o filme vai nos fazer embarcar juntos em uma agradável aventura. Cada momento da história é marcado pelos lugares mais belos da Península de Baixa Califórnia, situada a oeste do México, graças à fotografia de Guillermo Garza.
Mark verá sua convicção sobre os humanos abalada quando se apaixona por Emilia. Essa, por sua vez, tem a oportunidade de viver um amor antes de morrer.
De qualquer forma, a viagem se tornará uma jornada de auto-conhecimento para os três personagens.
Humberto Hinojosa Ozcariz é um diretor e roteirista mexicano, conhecido pelo seu filme Oveja Negra (2009) e o mais recente Paraiso Perdido (2016). Ele também é responsável pela série Luís Miguel, que virou febre na América Latina, sobre a vida do cantor mexicano com mãe desaparecida e pai vilão.

IMDB: 5,5/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Camino a Marte.
País: México.
Ano: 2017
Direção: Humberto Hinojosa Ozcariz
Roteiro: Anton Goenechea, Humberto Hinojosa Ozcariz.
Elenco: Tessa Ia, Camila Sodi, Luis Gerardo Méndez.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

SABERÁ O QUE FAZER COMIGO




Isabel conhece Nicolas, que é fotógrafo, em um hospital e ele a convida para sua exposição. Ela não dá importância mas o destino acaba levando-a lá, acompanhando uma amiga. 

Começa um relacionamento entre eles. Isabel, sempre enigmática, não fala muito de sua vida. Entendo ela. Algumas dores são só nossas. Falar delas é como se minimizasse o seu valor. E diminuí-las é como querer livrar-se delas. E se desprender delas é como trair nossos sentimentos. 

Mas Nicolas também esconde um segredo: sofre de uma epilepsia grave. Após uma crise testemunhada por ela, ele diz que quer terminar, que não quer que ela passe por isso de novo. Que não é justo dividir esse sofrimento com ela. 

Isabel também vive envolvida com a depressão da mãe.

Tantos problemas. Qual será a solução? Apoiar o Nico é acumular mais uma chance de sofrer. Viver o seu amor ou ficar na superfície, não se deixar afetar de verdade? 

O sofrimento e as perdas fazem parte da vida. Pelo menos foi como crescemos ouvindo. É um filme sobre perdas e ganhos. Sobre lutos. Sobre o que fazer com o que restou.




Filme delicado e sensível, ao mesmo tempo que profundo. Interpretações bem tocantes. Diálogos incríveis que nos levam a suspirar e refletir. A fotografia é linda também. As paisagens maravilhosas parecem nos mostrar que existe a feiura no mundo, mas também existe a beleza. O quanto conseguimos captar dessa beleza, da natureza e da vida, é o que nos sustentará. Ou nos derrubará.


IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,7/ 5



Ficha técnica:
Nome original: Sabrás qué Hacer Conmigo
País: México.
Ano: 2015
Direção: Katina Medina Mora.
Roteiro: Katina Medina Mora, Emma Bertrán, Samara Ibrahim.
Elenco: Ilse Salas, Pablo Derqui

terça-feira, 3 de julho de 2018

O VAZIO DO DOMINGO




Quem espera ver um filme movimentado, não veja esse. É uma história de silêncios, de lacunas, de palavras não ditas, ... de vazios, não só de domingos vazios, de olhares vazios, sem esperança, o retrato do desalento. Um silêncio ensurdecedor, que fala por ele mesmo. Que desabafa, que pergunta, ... também não espere respostas, o autor não oferece esse caminho fácil, talvez não hajam, ... será que existem mesmo respostas para tudo?
Agora prepare-se para se deslumbrar com as interpretações e com as fotografias, não só da imponente casa e do luxo do princípio do filme, mas também do vilarejo entre a Espanha e a França, para onde vai Chiara com Anabel passar uns dias.
Dez dias. É o que Chiara pede à mãe que a abandonou aos oito anos de idade. "Como você sabe que ela é mesmo a sua filha?", perguntam à Anabel. "Eu me vejo nela", responde. Só isso que ela quer da mãe: dez dias, que ela bem sabe nunca irão preencher todos os domingos que ela passou à janela de sua casa, à janela de sua alma, a esperar que a mãe voltasse.
"Por que meu nome é Chiara?" 
"Por causa de um famoso ator italiano, que não lembro o nome, que tinha uma filha com esse nome."

Algumas perguntas simples, que remetem ao passado, à intimidade.
O filme é intenso, também nós buscamos verdades, também nós queremos entender. Fomos condicionadas a não dar muita importância quando um pai vai embora. Mas uma mãe?Chiara nunca entendeu, a sensação de abandono esteve sempre presente em sua vida. Anabel também não entende o que a filha quer dela agora, depois de mais de trinta anos. Não parece ser uma aproximação. Chiara quase não fica com ela, quase não fala com ela. Os silêncios são devastadores. A raiva e a tristeza estão presentes, é fato. Será que Chiara quer justificativas? Mas ela não parece querer ouvir. E, como já disse, algumas coisas não têm explicações. Acontecem, como se tomassem um corpo próprio e sem nosso consentimento ou recusa, seguissem seu destino.
Drama pesado, desconfortável. Doloroso e tocante, ao mesmo tempo. Um rancor que precisava ser vomitado. Uma dívida de amor que precisava ser paga... um drama delicado, construído aos poucos pela visão do cineasta Ramón Salazar. Um filme que vai te deixar talvez também sem palavras...
Ramón Salazar é também diretor do filme 20 Centímetros, uma comédia musical adaptada do livro escrito por ele. O filme gerou diversas polêmicas quando o autor denunciou o Metrô municipal de ter se recusado a permitir as filmagens das cenas finais no local, alegando que um transexual jamais trabalharia nas bilheteria de lá e que a sequência causaria uma imagem errada da empresa e poderia ferir a suscetibilidade de seus trabalhadores. Só rindo, a gente vê cada coisa, em pleno século XXI.
Bárbara Lennie deslumbrou no Festival de Málaga, com sua beleza e frescor, recebendo o Prêmio Belleza Comprometida, dado no ano anterior à atriz Maribel Verdú. Adepta da beleza "de cara lavada", além de ter se tornado uma das atrizes com mais talento e mais solicitadas pela indústria cinematográfica espanhola, a naturalidade de Lennie tem chamado a atenção dos amantes do mundo da moda e da beleza. Pelo filme A Garota de Fogo, de Carlos Vermut, Bárbara Lennie recebeu o Prêmio Goya de Melhor Atriz.
Susi Sánchez é uma atriz espanhola que já participou de inúmeras produções, tanto de teatro, televisão quanto de cinema, trabalhando com os principais diretores espanhóis. Fez vários filmes com Almodóvar.
Quero deixar aqui, não tem legenda, mas para quem se interessar, até porque as imagens falam mais que os diálogos, o link do curta de Ramón Salazar, disponível no youtube, que é o prólogo de La Enfermedad del Domingo, vale a pena, também é de uma beleza...
IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Enfermedad del Domingo
Outros nomes: Sunday's Illness
País: Espanha
Ano: 2018
Direção: Ramón Salazar.
Roteiro: Ramón Salazar.
Elenco: Bárbara Lennie, Susi Sánchez,

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A NOITE QUE MINHA MÃE MATOU MEU PAI




Uma família moderna, onde os ex convivem com os atuais numa boa. Angel é casado com Isabel e eles têm uma filha. Mas Angel também tem uma filha com sua ex e Isabel um filho com seu ex.
Angel é diretor de cinema e Susana, mesmo sendo sua ex, ainda dá seus pitacos. Bem, na verdade tudo o que Angel escreve passa por ela, que modifica várias coisas e faz parte da direção dos filmes. Isso não incomoda em nada a Isabel, que é atriz. Tudo o que Isabel quer é ser a protagonista do filme, mas seu marido e sua ex parecem não confiar muito nela para o papel. Eles querem muito convencer o ator argentino Diego Peretti, interpretado pelo próprio, a aceitar o papel de ator principal. Para isso eles resolvem oferecer um jantar para ele. Tudo transcorria bem entre os quatro, Isabel, Angel, Susana e Diego, até que o ex de Isabel, Carlos, aparece sem ser convidado. Acompanhado de uma jovem, Alex, que não cabe em si quando vê o ator Diego.
Bem, embora, Angel tivesse pedido à anfitriã Isabel que desse um jeito de despachar o ex e a eufórica namorada, não teve jeito, eles acabaram se juntando ao grupo e a conversa tão importante não ia pra frente.
Tudo seria só um contratempo desagradável se Carlos não tivesse passado mal de repente e morrido. Aí a coisa degringolou de vez.
Segredos acabaram sendo revelados, suspeitas surgiram, a coisa foi se complicando de uma maneira...
... que só vocês vendo!
O filme da diretora Inés París (Miguel y William) promete situações inusitadas e umas boas risadas.
La Noche que Mi Madre Mató a Mi Padre participou da 19ª Edição do Festival de Málaga.
IMDB: 6,3/ 10
Minha nota: 3,4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Noche que Mi Madre Mató a Mi Padre.
Outros nomes: The Night My Mother Killed My Father
País: Espanha
Ano: 2016
Direção: Inés París.
Roteiro: Inés París.
Elenco: Belén Rueda, Eduard Fernández. Diego Peretti, Maria Pujalte, Patricia Montero, Fele Martinez.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

DE SUA JANELA À MINHA



Três mulheres, três épocas e lugares diferentes. Mas o mesmo sonho: viver um grande amor.
O longa espanhol teve três indicações ao Prêmio Goya: Melhor Nova Direção, Melhor Atriz (Maribel Verdú) e Melhor Canção Original ( Debajo del Limón). Participou também da 56ª edição da Semana Internacional de Cine de Valladolid, onde obteve o Prêmio Pilar Miró de Melhor Novo Diretor.

Violeta, Inês e Luisa são mulheres que não puderam escolher seu caminho e tiveram que viver uma vida sonhada, olhando pela janela. Recordando ou imaginando... vendo pelas janelas de suas almas, se alimentando do que poderia ter sido. A beleza das lembranças ou dos sonhos é o que lhes resta. Para quem as olhava, pareciam estar em silêncio. Mas um mundo de desejos e paixões ocupavam sus pensamentos, habitavam em cada milímetro de suas mentes.
As chrysalis são larvas que se transformam em borboletas. Criam asas, beleza, simbolizam a liberdade e a leveza, inspiram poetas e amores. Quando vemos uma borboleta em nossos sonhos ou mesmo na vida real, imediatamente associamos a um bom presságio. Algumas pessoas acreditam até que são anjos se comunicando, nos enviando algum sinal.
Violeta pergunta ao seu tio: "mas e o contrário, também pode acontecer? A borboleta virar larva?"
As borboletas parecem etéreas e frágeis, como fadas dançando no ar...
Um sonho de amor pode durar quanto tempo? Pode um sonho virar um casulo, fechado em si mesmo, em suas lembranças apenas, sem poder ser vivido?
As histórias contadas por Paula Ortiz podem ser baseadas em narrações que ela tenha escutado. O filme é carregado de elementos simbólicos, como as flores, as mariposas, os espelhos, as metamorfoses, as cartas, ... criando um ambiente poético que vai ficar também em sua memória. Difícil terminar de ver o filme e não se sentir impregnado pelo perfume dele, pelas locações e figurinos harmoniosos, pelas músicas que fazem doer o coração.
São dramas profundos, histórias de mulheres contadas por uma mulher. O rosto de Inês simboliza a resistência a um mundo hostil; Violeta, como as flores que seu tio cultiva, é bela, suave e delicada. Já Luisa é uma mulher que deixou a vida passar, como uma flor que murchou e esqueceu de guardar seu perfume. O vermelho do sangue é visto aqui e ali, em um corte de um dedo, no novelo de lã que liga talvez as histórias de todas mulheres. O vermelho simbolizando, quem sabe, a vulnerabilidade das coisas...
De Sua Janela à Minha, apesar de melancólico, é um canto à beleza. Porque mesmo das histórias mais tristes podem sobreviver belas lembranças.

IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: De Tu Ventana a La Mía.
Outros nomes: Chrysalis.
País: Espanha
Ano: 2011
Direção e roteiro: Paula Ortiz.
Elenco: Maribel Verdú, Letícia Dolera, Luisa Gavasa, Roberto Álamo, Carlos Álvarez-Novoa.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

LEONERA



O filme começa com Julia (Martina Gusman) acordando toda machucada e ensanguentada em um apartamento revirado.
Ela toma banho e vai para o seu trabalho. Não tenho certeza mas acho que era um pedacinho de sangue coagulado que cai de seu cabelo e que começa a despertar lembranças nela. No caminho de volta, começa a perceber com horror os hematomas no seu pescoço.
A sensação de pânico chega ao clímax ao voltar ao apartamento e perceber que tem dois homens caídos e muito sangue por tudo quanto é lado.


Julia liga para alguém apavorada relatando os acontecimentos enquanto a polícia arromba a porta.
Um dos homens está morto: Nahuel. O outro, Ramiro, interpretado por Rodrigo Santoro, ainda tem vida e é levado para o hospital enquanto Julia é presa e enviada a uma penitenciária.



Chegando lá, como está grávida, é encaminhada para uma ala específica para mães e grávidas.
Lá, as celas individuais não são trancadas, há uma área em comum e os filhos ficam com as mães até os 4 anos de idade.
Por isso o nome do filme - Leoneras - que, em espanhol significa o lugar onde se mantem os leões, no caso as leoas, as mães leoas.



Este é o 2º filme em que o diretor Pablo Trapero e a atriz Martina Gusman, que é a esposa dele na vida real, trabalham juntos. O anterior foi Nascido e Criado (2006).
Leonera foi rodado em uma verdadeira prisão e muitos figurantes eram detentos do local.
Walter Salles é um dos co-produtores deste Leonera.



A princípio, Julia rejeita o filho, quando ele nasce também se mostra totalmente despreparada para cuidar dele.
Mas, ajudada por Marta (Laura Garcia), aos poucos começa a se adaptar e, muito mais que isso, o pequeno Tomás se torna a fonte de transformação e sustentação para Julia, que se torna uma mãe forte e corajosa, capaz de tudo para ter o filho com ela.



Rodrigo Santoro faz o principal papel masculino do filme argentino, mas não é um papel de destaque. O filme é sobre mulheres e sobre o presídio feminino.
Depois que sai do hospital, ele também é preso, ele e Julia são suspeitos da morte de Nahuel.
Qual a relação dos três? Por que Julia estava ferida? Qual dos dois matou Nahuel? Por que motivo? Nem Julia e nem Ramiro se lembram de nada. Por que não lembram? Tomás é filho de quem?



Se você está interessado nessas respostas, não veja Leonera.



O filme não é sobre o crime, é sobre Julia, é tão real que é quase como se víssemos o mundo através dela. É a jornada de uma mulher frágil, confusa, que passou a ver sentido na vida e se transformou numa leoa para ficar com o filho.



Leonera foi muito elogiado pela crítica. Participou da mostra competitiva de Cannes, foi o representante da Argentina para a indicação do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Recebeu o Prêmio Ariel de Melhor Filme Ibero-Americano.



Esqueci de falar que o filme me lembrou um pouco O quarto de Jack, o Tomás nascido e criado naquele ambiente claustrofóbico, a sobrevivência da mãe dependendo do amor que ela tinha por ele. A questão levantada se ela seria mais mãe se tivesse aberto mão dele. Sendo que aqui a visão é a da mãe e não a do filho, como em Room.



IMDB: 7,1/ 10
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Leonera
Outros nomes: Lion's Den
País: Argentina 
Ano:2008 
Direção: Pablo Trapero.
Roteiro: Alejandro Fadel, Martin Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero.
Elenco: Martina Gusman, Rodrigo Santoro, 

ANITA



Lá vem a piadinha: "um filme argentino sem o Darin?" Pois é. 
Do diretor de "Elsa & Fred", "Anita" é a história comovente de uma menina com síndrome de down, que mora com sua mãe (Norma Aleandro, O Filho da Noiva) em Buenos Aires. Muito doce e obediente, ela depende totalmente da mãe. Porém uma tragédia vai separá-las: o ataque terrorista que houve em 1994 com uma bomba que atingiu a AMIA - Assoc Mutual Israelita Argentina. A mãe de Anita estava lá quando ocorreu. A explosão, que matou 85 pessoas e deixou 300 feridas foi tão forte que foi sentida em toda a redondeza e atingiu até a casa e a loja onde Anita tinha ficado esperando pela mãe.

Anita era condicionada a obedecer, já que não tinha inteligência suficiente pra tomar decisões sozinha. Mas o que fazer se o relógio que ela marcaria a hora que a mãe ia voltar se quebrou com a explosão, o que fazer naquela desordem, com o nariz sangrando, sem ninguém pra ajudá-la, sem ninguém pra lhe dar as coordenadas?
Perdida e confusa, ela sai pelas ruas, não sabe pra onde, não lembra de onde veio. 

Enquanto isso, seu irmão (Peto Menahem) que viu a notícia pela tv está desesperado, acreditando na morte das duas.

Anita encontra algumas pessoas na rua, diz que quer telefonar para a mãe, mas não sabe o número, não sabe nem o nome da mãe, sabe só que é "mamãe". Também não sabe explicar o que houve, diz só que caiu da cadeira, isto é, não fala nada que a ligue ao atentado.
Perambulando com frio e com fome, mas sem nunca perder a doçura, ela conhece umas pessoas boas e outras que não se importam. 

Dá pra imaginar o que Anita passou? 

Ótimo filme, o cinema argentino se destacando mais uma vez.
O mais bacana é uma atriz com síndrome de down (Alejandra Manzo) sendo a protagonista.


IMDB: 7,3/10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Anita 
País:  Argentina 
Ano:  2009
Direção: Marcos Carnevale.
Roteiro: Marcos Carnevale, Marcela Guerty, Lily Ann Martin.
Elenco: Norma Aleandro, Alejandra Manzo.

NEVE NEGRA



Conhecemos primeiro Marcos (Leonardo Sbaraglia), onde parecem cair todos os problemas da família. Tem que se dividir entre sua esposa Laura (Laia Costa), que está grávida e os cuidados e despesas com sua irmã Sabrina, que está internada com problemas psiquiátricos. Seu pai faleceu recentemente e lhe deixou com o encargo de enterrar suas cinzas junto aos restos mortais do outro filho, Juan. 
E lá partem ele e Laura ao encontro de Salvador (Ricardo Darin), que, após a morte de Juan e de ter sido acusado de matá-lo, isso há trinta anos, se isolou na antiga cabana da família. 
Marcos precisa da ajuda de Salvador, porque não lembra onde o irmão mais novo foi enterrado. Mas também deseja convencer o irmão a vender a propriedade herdada por eles. E que por sinal, não se sabe por quê, vale muito mais do que se imaginava. Mas Salvador tornou-se uma pessoa de difícil trato e o dinheiro não lhe interessa. Alega também que não pode sair dali e deixar o irmão enterrado sozinho. Culpa talvez? Mas tudo indica que foi somente um acidente de caça.

O clima é claustrofóbico, o personagem de Darin é um homem envelhecido e amargurado, o cenário são as colinas geladas da Patagônia.
Segunda produção do argentino Martín Hodara para os cinemas. A parceria com Darin teve sua participação como diretor no primeiro filme, "O sinal" e agora como ator, em "Nieve negra".
Quase não vi porque li tantas críticas negativas. "Pretensioso", disse o critico da Folha de São Paulo, por exemplo. Pretensioso é ele , que não poupou adjetivos negativos ao filme e o pior, a quem quer que goste, que ele chamou de "público com síndrome de inferioridade". O filme é bom sim, nada de extraordinário, como acredito que nem era a intenção. E, ao contrário de ser pretensioso, achei que é um filme honesto. Elenco forte, um roteiro instigante e conduzido com habilidade, alternando o reencontro constrangedor entre os dois irmãos com inevitáveis lembranças do passado.
IMDB: 6,2/10
Minha nota: 3,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Nieve negra
País: Argentina
Ano: 2017
Direção: Martin Hodara
Roteiro: Martin Hodara/ Leonel D'Agostino
Elenco: Ricardo Darin, Leonardo Sbaraglia, Laia Costa, Federico Luppi.