Em primeiro lugar (eu ia escrever "primeiramente", mas essa palavra sempre me lembra "fora uma certa pessoa"), ... então, em primeiro lugar, quero agradecer ao Cuarón por fazer um filme abordando tantos problemas femininos. Na minha cabeça, enquanto via o filme, só vinham as músicas de Chico Buarque, que é um dos homens que mais entende a alma feminina.
Tudo começou nos primórdios dos tempos, segundo a Bíblia, quando Eva foi feita de uma costela de Adão. A mulher como uma parte do homem, quando na verdade é a mulher que mantém em seu ventre um filho por tantos meses e que o pare. A partir daí, coube à mulher a culpa de tudo nesse mundo, quem mandou Eva comer a maçã? Aos homens sempre couberam as glórias, às mulheres o castigo de sangrar todo mês, algumas com muita cólica, e as dores do parto. Isso é apenas uma amostra do que elas teriam que passar. Algumas são aparentemente elogiadas: "por trás de um homem de sucesso, há sempre uma mulher de fibra".
Nós, mulheres, já nascemos com culpa. Sentimos uma imensa dor quando precisamos deixar nossos filhos para trabalhar para sustentá-los. Sentimos culpa se chegamos cansadas e sem energia para sentar no chão com eles e brincar. Se um pai abandona o lar, nos sentimos responsáveis pelo sofrimento dos filhos.
Cleo sentiu-se culpada por engravidar. Envergonhada. Por não ser casada, por se deixar iludir, por ter que contar para sua patroa. Fermin simplesmente abortou o filho. Sim, esse é um caso de aborto masculino. Mas a culpa foi dela, quem mandou se envolver com ele? Cleo sentiu-se culpada por não desejar aquele filho, por não amá-lo como uma mãe deve amar. Logo ela, que ama tanto os filhos de sua patroa, não é capaz de amar o seu próprio.
À mulher cabe o bom funcionamento da casa, sejam elas patroas ou empregadas. Cleo cuida das crianças e também da enorme casa e dos enormes cocôs do cachorro, que tem que limpar toda hora. Brincando com uma das crianças, ela declara que é bom "estar morta". O marido de Sofia chega em casa e reclama de tudo, está insatisfeito, Sofia diz que vai falar com as empregadas. Afinal, a culpa é dela também. Não dele, que nunca está presente e não ajuda em nada.
Sofia diz para Cleo:
"Estamos sós! Não importa o que fazemos, estamos sempre sós, as mulheres".
O filme foi o vencedor do Leão de Ouro, em Veneza. É aos poucos que Roma nos seduz. Sua bela fotografia em preto e branco retratando os anos 70 no Mexico vai ganhando matizes aos nossos olhos encantados. Um retrato tão perfeito do cotidiano, que nos sentimos da família. O universo dos patrões. O universo das empregadas. Dois universos bem diferentes, mesmo que os patrões digam que elas são da família. Mesmo que elas se dediquem, como a Cleo a dar carinho e amor e toda atenção para uns filhos que não são seus. Mesmo que tenham que escutar caladas críticas sobre seu trabalho e elas próprias só possam reclamar umas com as outras no seu quartinho dos fundos.
O início mostra a entrada de uma casa e o seu piso sendo lavado com sabão e mangueira. A câmera se detém alguns minutos ali, a mostrar a espuma se dissolvendo na água, como os sonhos da empregada que nunca vai ter uma casa como aquela.
Distribuído pela Netflix e exibido em seu catálogo desde o dia 14 último, Roma foi também lançado em salas de cinema, para garantir que possa ser selecionado para competir por outros prêmios, como o Globo de Ouro e o Oscar. O diretor mexicano já levou um Oscar de Melhor Direção em 2014, por seu filme Gravidade.
Eu me perguntava o motivo do título. Descobri que tem a ver com a própria infância de Cuarón, que foi criado na Colônia Roma, um bairro de classe média da Cidade do México. Ele homenageia com o filme as mulheres que o criaram.
É pelo olhar da personagem Cleo, interpretada por Yalitza Aparicio, 24 anos e nenhuma experiência como atriz, que a vida da família do filme e também da família Cuarón são recriadas. Cuarón queria uma pessoa nativa para interpretar a protagonista. Desempregada, ela se sentiu atraída pelo anúncio. A mãe de Yalitza foi doméstica e mesmo ela, formada professora, também já trabalhou em casas de família e como no papel, também cuidou de filhos dos outros.
Cuarón insere a história familiar na história do México, reconstituindo uma tremenda repressão das forças armadas a um movimento estudantil da época.
O fato é que Roma contêm cenas que dificilmente se apagarão da mente de quem assistiu. São imagens carregadas de conteúdo que só um cineasta muito sensível poderia elaborar. É justamente na simplicidade dos acontecimentos que está a força do filme. Amei!
IMDB: 8,6/ 10
Filmow: 4,6/ 5
Minha nota: 4,3/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Roma.
País: EUA/ México.
Ano: 2018
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón.
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Nancy Garcia Garcia.

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