Uma boa surpresa esse filme. Escrito e dirigido por Diego Corsini, é baseado nas histórias que seus pais contavam sobre a luta armada na Argentina, na época da ditadura militar.
Miguel está perdendo o que tem de mais precioso: sua memória. Mario, seu filho, não sabia que ele estava tão mal assim. Miguel tem alta no hospital e Mario o leva para sua casa, em um povoado no interior da Espanha. Mario não lembra de sua mãe, existe apenas uma foto, mas seu pai sempre se negou a falar dela e nunca o levou para conhecer a avó materna. Agora, doente, Miguel mal reconhece o filho, passagens de sua vida quando era jovem vem e vão e ele não consegue separar o passado do presente. Algumas coisas que ele diz fazem Mario ter mais vontade de descobrir o que aconteceu com sua mãe. Seus pais eram argentinos. O que os fez virem para a Espanha? Seu pai o chama de nomes que ele nunca ouviu falar. Quem são essas pessoas? Quem principalmente é Diana, que o pai menciona com aflição e diz que precisa encontrá-la. Essa obsessão impulsiona Mario a investigar a misteriosa e complexa história de seu pai.
O Miguel jovem ( Chino Darin) "viveu em um dos períodos mais obscuros da Argentina, que ocorreu na década de 70, denominado Processo de Reorganização Nacional, ou seja, a Ditadura Militar que pôs fim ao governo de Isabelita Perón, através de um golpe de estado.
Como no Brasil, o governo torturava e assassinava opositores, seja de esquerda ou de direita. O protagonista pertencia a uma organização de esquerda, mas não fica claro que tipo de estado ela pretendia implementar." (trecho copiado)
Através de recortes do passado, também nós vamos aos poucos conhecendo a vida de Miguel. Mario precisa ir fundo dessa vez, sua vida é incompleta, ele não tem a memória da mãe, precisa pelo menos saber a história dela.
Diana era de uma abastada família burguesa mas escolheu como propósito de vida defender as classes menos favorecidas. Ela trabalha em uma fábrica, onde tem oportunidade de ver de perto as precárias condições com que são tratados os operários. Para termos uma ideia, morria-se por dia 20 pessoas em acidentes de trabalho em uma única fábrica, além disso, os salários eram péssimos. Sua mãe não a entendia e ela não entendia como a mãe podia viver alheia a tudo isso. É lá que Miguel e Diana se conhecem.
Mas para Miguel, trabalhar na fábrica não era uma opção, mas questão de sobrevivência. A princípio, é mostrado no filme, um conflito ideológico entre eles:
– Espero que não seja um daqueles pseudointelectuais que não querem sujar as mãos.
– Espero que não seja uma daquelas pequeno- burguesas que querem acalmar sua consciência com armas.
Miguel e Diana fizeram parte de uma geração que descobriu que o caminho para a liberdade era cheio de restrições. Eles se juntam a um grupo de ativistas, onde a luta armada estava inserida. Mas os jovens eram completamente despreparados, o inimigo era muito mais forte.
No início dos anos 2000, o cinema argentino começou a ganhar o público brasileiro pela capacidade de contar histórias humanas em narrativas simples e profundas. Essa é uma dessas belas histórias. Tocante e reflexiva, com uma linda fotografia. Um filme melancólico, de aspirações não concretizadas, mas que mostra a importância de seguirmos nossas convicções e de não ficarmos surdos às injustiças. Pasaje de Vida é uma história de luta e de luto. E de amor!
Nosso continente guarda uma história comum de invasões, colonialismo e violências. Também temos as ditaduras em comum. Muitos cineastas latino-americanos têm tentado narrar esses fatos. O jovem diretor argentino nascido na Espanha faz talvez uma homenagem à sua própria história familiar. Sim, talvez o filme tenha traços autobiográficos, mas se não, pelo menos nos permite conhecer a história de outras pessoas da época. Presente e passado, Espanha e Argentina, memórias e esquecimento.
IMDB: 6,6/ 5
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Pasaje de Vida.
País: Argentina.
Ano: 2015
Direção: Diego Corsini.Roteiro: Diego Corsini, Fran Araujo.
Elenco: Carla Quevedo, Chino Darin, Javier Godino, Miguel Ángel Solá, Alejandro Awada.



