Cinéfilos Eternos: Brasil
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sábado, 9 de março de 2019

O BANQUETE


Sinopse:
Na época do Impeachment de Fernando Collor de Mello, um grupo de intelectuais se encontra em um jantar: uma grande atriz, um jornalista famoso, um advogado e sua esposa, uma crítica de teatro, um colunista e uma jovem atriz e modelo. O jornalista Mauro escreveu um artigo contra Collor e corre o risco de ser preso naquela noite. No jantar regado a muito vinho, conforme a tensão aumenta com a iminência da prisão, vários segredos públicos e privados vêm a tona.
Com direção de Daniela Thomas, premiada cineasta, diretora teatral, dramaturga, iluminadora, cenógrafa e figurinista brasileira , filha de Ziraldo e irmã do compositor Antonio Pinto, o filme, apesar do delicioso vinho servido fartamente e das iguarias, não é de fácil digestão.
Em 2017, em seu primeiro trabalho solo (foi parceira de Walter Salles em filmes como “Terra Estrangeira” e “Linha de Passe” ), o filme Vazante provocou muitas polêmicas. O longa foi um dos concorrentes no 50º Festival de Brasília, no início do último mês de setembro, e, na noite seguinte à sua exibição, foi alvo de duras críticas, inclusive à diretora e a toda sua equipe de produção, durante um debate com outros nomes do cinema brasileiro, por levantar a questão da "fragilidade branca".
Em sua defesa, Daniela diz ter colocado nas telas a sua visão de mundo e que, em nenhum momento, quis defender qualquer tipo de militância, mas sim, contar histórias que ouvira de seus antepassados, enfatizando a questão da miscigenação violenta que formou a nossa sociedade. "Eu realmente não fiz o filme que seria um retrato do que o movimento negro quer ver representado na grande tela, hoje", pontua.
Em O Banquete, na minha opinião, a Daniela deveria ter se aprofundado mais no plano político. São os anos 90 presididos então por Fernando Collor. Mas ela não ousou. O jantar, que a princípio pareceu ser um agrado da anfitriã (Drica Moraes) ao casal de amigos que estava completando dez anos de casados, tem mais o objetivo de mostrar a futilidade e a decadência da elite brasileira. Mauro (Rodrigo Bolzan), o homenageado, está prestes a ser preso por ter escrito e assinado uma carta pública contra o presidente. Em uma clara referência a Otavio Frias Filho, diretor na época do Jornal Folha de São Paulo. Também inspirada em "O Banquete", de Platão, a conversa gira sobre a natureza e as qualidades do amor. Nora, a anfitriã, propõe mesmo aos convidados que naquela noite reflitam sobre o amor tendo “Baco como juiz”, embriagando-se de vinho. Será o amor um bom sentimento?
O filme é desenvolvido de forma teatral, com interpretações e diálogos exagerados, em um ambiente único e fechado, tendo como cenário uma linda sala e uma mesa arrumada de forma luxuosa. Maria, que foi acompanhada de Lucky, percebe logo ao chegar que aquele jantar é uma espécie de armadilha e quer ir embora, aflita. Mas Lucky se vê seduzido pelo caríssimo vinho e por Ted (Chay Suede), o chef de cozinha contratado, que é o único que destoa daquele ambiente que parece ter apodrecido. O casal aniversariante não percebe de início onde foi se meter. Quanto mais bêbados e alterados, mais "lavação de roupa suja", acentuadas com a chegada da stripper cat (Bruna Linzmeyer) e de Claudinha. Só o marido de Nora (Caco Ciocler) parecia não se surpreender com nada daquele jantar. É o absurdo e a decadência das relações humanas imperando.
IMDB: 6,3/ 10 Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,4/ 5
Ficha técnica: Nome original: O Banquete. País: Brasil. Ano: 2018 Direção: Daniela Thomas. Roteiro: Daniela Thomas.
Elenco: Drica Moraes, Caco Ciocler, Mariana Lima, Rodrigo Bolzan, Chay Suede, Bruna Linzmeyer, Gustavo Machado, Fabiana Gugli, Georgette Faddel.



segunda-feira, 30 de julho de 2018

AS BOAS MANEIRAS




Nossa, que filme mais louco e mais lindo, mais bizarro e poético ao mesmo tempo...
Fala sobre a solidão...
sobre a rejeição...
a solidão de viver só
a solidão de ser diferente
a solidão de um segredo inconfessável
a solidão de ser abandonado
Fala sobre como as convenções
podem ser colocadas acima dos sentimentos.
Fala sobre o medo.
Sobre o amor, um amor que pode ser tão grande
que transforma o medo em entrega
Um amor tão grande que transforma
seu maior desejo em renúncia
Um amor tão grande
que vira uma dança...

O filme conta a história de Ana que contrata uma pessoa, Clara, para cuidar do bebê que está esperando. Ana vive sozinha e Clara também é uma pessoa solitária, ela está sem emprego e devendo o aluguel do seu quartinho, então o emprego vem a calhar, já que precisa dormir no apartamento. Mesmo antes do filho de Ana nascer, a jovem grávida precisa de cuidados, principalmente de companhia e amor. Clara vai se ver envolvida numa estranha relação, que vai modificar a sua vida para sempre!
Uma espécie de fábula que vai mostrar que "as boas maneiras" passam muito longe pelas regras de etiquetas e são mais ditadas pelo coração.
E eu paro por aqui, porque o filme deve ser uma descoberta do espectador, mas infelizmente a maioria das críticas está entregando a história, o que tira muito do sabor, até o poster é um spoiler.
Os diretores conseguiram com muito talento e criatividade juntar vários gêneros de uma forma muita harmoniosa. Além da direção, ainda são responsáveis pelo roteiro. Uma grata surpresa!

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: As Boas Maneiras.
Outros títulos: Good Manners, Les Bonnes Manières.
País: Brasil, França.
Ano: 2017
Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra.
Roteiro: Juliana Rojas, Marco Dutra.
Elenco: Marjorie Estiano, Isabel Zuaa, Miguel Lobo, Cida Moreira.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

SOUNDTRACK





Soundtrack (idem, 2017)
Na época de seu lançamento, eu li uma crítica ao filme que me interessou ainda mais em assisti-lo. Eis um trecho dela:
"Quando a política nos devolve à condição de vira-lata do mundo, não deixa de ser um alento notar que a tecnologia leva o cinema brasileiro a criar, com requinte, novas paisagens" (Naief Haddad)

Além desse mergulho no novo e diferente, que é feito com maestria já que o longa foi todo rodado no Rio De Janeiro em um estúdio lotado de papéis picados (Ao estilo do que fizeram com o longa Olga, 2004), as atuações de Ralph Ineson e em especial a de Selton Mello são excepcionais. A história também, com seus questionamentos filosóficos, existencialistas e as diferenças entre ciência e arte (que não se opõem de jeito algum), fazem de Soundtrack um tocante drama para se analisar e discutir.
A única ressalva é a falta de uma presença mais marcante da trilha sonora, já que o longa possui esse título. Mas talvez tenham feito de forma proposital, permitindo que o espectador exerça seu lado criativo e imagine as músicas nas cenas em que elas deveriam protagonizar.
Por mais aventuras assim na arte brasileira.
Sinopse: 
Na trama, Cris (Selton Mello) é um artista multimídia que entra em crise de identidade quando passa uma temporada em uma isolada estação de pesquisa internacional na Islândia. Ele vai para lá com o objetivo de criar uma mostra audiovisual, mesclando fotografias de paisagens desoladas e música. Porém, acaba indo contra seus próprios conceitos e valores ao conviver com outros pesquisadores do local.


Comentários: Tom Carneiro
IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Nota (Tom): 4/ 5


Ficha técnica: 
Direção e Roteiro – 300ml
Produção – Julio Uchôa, Isabelle Tanugi, Carlos Paiva, Selton Mello e Seu Jorge e 300ml
Coprodução – Orion, Globo Filmes, OM.art, Clan, FM Produções, Naymar/Cia Rio
Produção Associada – Mondo Cane, Cafuné, Suno Entertainment, MGP
Direção de Fotografia – Felipe Reinheimer
Direção de Arte – Tulé Peake, ABC
Fotos Cris – Oskar Metsavaht
Montagem – Felipe Lacerda
Elenco – Michael Cox & Thom Hammond
Som – Yan Saldanha
Figurino – Bia Salgado
Maquiagem – Juliana Mendes
Efeitos Visuais – Clã

ELENCO – PERSONAGENS
Selton Mello – Cris
Ralph Ineson – Mark
Seu Jorge – Cao
Lukas Loughran – Rafnar
Thomas Chaanhing – Huang
Gustavo Falcão – Amigo do Cris
J.G.Franklin – Nórdico

quarta-feira, 4 de julho de 2018

MATE-ME POR FAVOR



Sob uma perspectiva adolescente, a história mergulha em um mundo quase isolado de adultos, e isso acontece de modo proposital, pois uma de suas críticas é justamente a ausência dos pais na vida dos filhos. 
Embebido de alegorias e simbologismos, o filme acompanha a vida de Bia (Valentina Herszage), uma estudante de classe média que mora na Barra da Tijuca, RJ, com sua mãe e o irmão. Assassinatos estão acontecendo pela redondeza e a menina fica obcecada com aquilo enquanto a comunidade parece se apavorar e busca conforto em cultos e vigílias religiosos. 

O ostracismo da juventude atual é traduzido por Bia com perfeição na medida em que ela se distrai e se atrai com facilidade pelo oculto e mórbido. A mortes a seduzem, em contrapartida suas atitudes são de indiferença a cada minuto da projeção. Inclusive essas mortes refletem com perícia a contagem de corpos na cidade maravilhosa, promovida fatalmente por uma violência indiferente às autoridades. 
O interessante do longa, é também a abordagem com que os jovens e seus mundos são retratados. Por momentos isso é feito de maneira bem crua e perversa, além de um humor bem ácido. 

A direção estilosa, com a ajuda da belíssima fotografia garantem um charme ao filme. E a trilha é bem característica do público abordado na história, bem como da cidade do Rio de Janeiro. 

Infelizmente o filme foi vendido como um terror e, apesar da trama flertar com o gênero, em especial pela primeira cena, o pêndulo recai para o lado do drama. Inclusive o frio desfecho é tão triste quanto pesado.
(Comentários: Tom Carneiro)
*Telecine Play
IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Mate-me Por Favor.
País: Brasil e Argentina.
Ano: 2015
Direção: Anita Rocha da Silveira
Roteiro: Anita Rocha da Silveira
Elenco: Valentina Herszage, Dora Freind, Mariana Oliveira 

sábado, 9 de junho de 2018

AOS TEUS OLHOS



Carolina Jabor (Boa Sorte) é filha do cineasta Arnaldo Jabor e esposa de Guel Arraes. Impossível não associá-la aos dois, embora seja desejo dela ser reconhecida por seu trabalho e não pelo seus parentescos. No seu segundo longa, Aos Teus Olhos, ela conta a história de Rubens, um professor de natação vivido por Daniel de Oliveira que é acusado de ter beijado na boca uma das crianças de sua turma. Carolina não entrega respostas e o filme levanta várias questões.
Vamos pensar o seguinte: você conhece uma pessoa há tantos anos e de repente vem uma suspeita dessas. Difícil acreditar. Mas até onde conhecemos alguém de verdade? Porque infelizmente são tantos casos ... Por que teria Alex acusado Rubens injustamente? Com qual intuito? A diretora Ana fica realmente em uma posição desconfortável. Por um lado, ela sempre gostou do trabalho do professor de natação, era o melhor de todos. Por outro, ela não pode ignorar a aflição dos pais.
Mas e se não for verdade? A mãe do Alex joga nas redes sociais uma denúncia contra Rubens. Nós sabemos como o ódio cresce de uma maneira espantosa nessas redes, pessoas que não se preocupam nem de verificar se a notícia tem uma base sólida, pessoas que estão prontas para julgar. Para condenar. Eu imagino que a grande maioria possui muitas culpas, fazer isso com o outro é uma maneira de se colocar como defensores do bem, quando nem sempre estão desse lado. Quando apontam o dedo para o outro, esquecem um pouco dos seus defeitos, têm a satisfação, nem que seja momentânea, de se acharem melhores. Não estão nem aí se é verdade ou mentira, precisam de um "bode expiatório".
Mais uma coisa, quando Davi (Marco Ricca), o pai do Alex, pergunta à Ana (Malu Galli) se o professor do filho é gay, temos aí a velha história de confundir homossexualidade com pedofilia.
E é assim que a vida de Rubens, dos Rubens da vida, é virada pelo avesso. Vejam bem, não estou defendendo ele, talvez seja até culpado. Mas talvez não! Estou falando do poder do ódio pela internet e acredito que esse é o mote principal do filme.
Outra questão que o filme levanta é que agora tudo é visto com maldade. Lembro de viajar muito com amigas ou com uma amiga só, hoje em dia, não que tenha nada demais se fosse, mas já seríamos consideradas um casal. Eu acho que até mesmo o nosso comportamento mudou. Um carinho pode ser considerado um assédio. Perdemos a liberdade, a espontaneidade e, do jeito que as coisas seguem, um simples carinho é realmente um assédio, porque se não é, ninguém tem mais coragem de fazer. Dois amigos evitam de sair juntos numa noite de sábado, porque serão considerados gays. Tudo é visto com outros olhos. Aos teus Olhos, eu posso ser muito diferente do que sou. É preciso ter muita personalidade para encarar e nem todo mundo tem. Um deslize e sua vida está acabada!
Aos Teus Olhos é uma adaptação da peça de grande sucesso O Princípio de Arquimedes, texto do catalão Josep Maria Miró. Temas como benefício da dúvida, exercício da empatia e julgamento sumário (às vezes, a um passo do linchamento moral) estão na ordem do dia de diálogos ou polarizações entre gente de toda parte.
IMDB: 6,7/ 10
Minha nota: 3,5- 5

Ficha técnica:
Nome original: Aos teus olhos
Outros nomes: Liquid Truth
País: Brasil.
Ano: 2018
Direção: Carolina Jabor.
Roteiro: Jorge Moura, Josep Maria Miró, Lucas Paraizo, Ventura Pons Sala.
Elenco: Daniel Oliveira, Malu Galli, Marco Ricca, Stella Rabello.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O FILME DA MINHA VIDA


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Adaptação do livro "Um pai de Cinema", do chileno Antonio Skármeta, o qual assina o roteiro junto de Selton Mello, "O Filme da Minha Vida" é um delicioso escape em tempos tão difíceis para o país. E sua importância não para aí, o longa é uma verdadeira homenagem à sétima arte e sua construção rara no cinema nacional foge do ensolarado cinema sudeste-nordeste já bem recorrente. O Brasil de Selton Mello nesta sensível adaptação é tão Brasil quanto o emocionante "Central do Brasil" e o cativante "Auto da Compadecida" e lembra a indústria de que o cinema verde amarelo precisa traçar viagens corajosas por outros cantos ricos, porém desconhecidos deste país, pois existem muitas histórias a serem contadas ainda.
A trama trata acima de tudo sobre o tempo. Logo no início, o personagem principal Tony Terranova (Johnny Massaro), narra o seguinte trecho: "Antes, eu só via o início e o fim dos filmes. O início, para conhecer a história; e o fim, gostava de assistir porque o fim é sempre bonito", indo na contramão com uma belíssima cena metafórica em um trem, quando o maquinista explica que se alguém quiser adiantar o rumo das coisas o trem fatalmente sai dos trilhos. 
Faz-se necessário então assistir o começo e depois o meio, para então chegar até o desfecho de um filme. Tudo em seu tempo certo, sem atropelos, pois só assim é possível compreender o porquê dos finais. E mais que isso, os meios também devem ser aproveitados.

Em conformidade com o que prega, a história se transcorre. Tony retorna de Porto Alegre, onde cursou faculdade, mas no dia em que ele desceu do trem, seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), subiu no mesmo vagão e desapareceu, deixando pra trás o filho e a esposa em uma pequena e charmosa cidade do interior gaúcho. Tony segue inconformado com a atitude do pai e se torna professor de francês na escola local. Ele vive na esperança do retorno ou ao menos de uma resposta do homem por quem ele tinha grande admiração. A mãe, em contrapartida, prefere não falar mais sobre o assunto e se ocupa com o serviço em uma empresa de telefonia e o árduo trabalho de casa. Seguir em frente quando há um assunto inacabado é mais difícil que diante de uma tragédia declarada. Aquele silêncio irremediável fazia de Tony um rapaz melancólico e que se arrastava pela cidade querendo pular o meio e ir direto para o desfecho, quando ele desvendava o maior mistério de sua vida. E assim, ele vivia seus dias, pela metade e sem aproveitar seus meios. Contudo, uma reviravolta estava prestes a acontecer em seu filme.
O roteiro cheio de metáforas, peca um pouco ao entrega-las de forma muito direta ao espectador. Sem dar muita chance a interpretação e a dúvida. Já o grande mistério da história talvez tenha ficado previsível nas atitudes de um personagem. Ainda sim, não é nada que estrague a experiência deliciosa que esse filme proporciona e que em grande parte é mérito do diretor de fotografia Walter Carvalho, o qual com seus planos abertos vislumbrastes, capturou bem a região sul e construiu essa atmosfera triste e bucólica, fazendo o espectador se apaixonar a cada quadro dessa obra de arte. Inclusive um vagão do Trem de Vinho e a própria estação, ambos em Garibaldi (RS), foram restaurados para voltarem ao tempo em que a história acontece. As cenas ali são ainda mais belas pelas mãos de Walter. 
Já a direção competente de Selton Mello, atesta seu crescimento e maturidade por trás das câmeras. Ele, que também atua na fita como um gaúcho machão, certamente está no caminho certo para se tornar um grande diretor brasileiro contemporâneo, a julgar pelos três filmes que Selton dirigiu até agora. Já as músicas foram escolhidas a dedo e dão ainda mais vida e cor a cada quadro.

Em uma nostálgica cena do belo "De Onde Eu Te Vejo", o personagem de Juca de Oliveira relembra com gosto como tudo era mágico na saída de um cinema de rua. Isso é retratado aqui de forma tão inesquecível como nas saudosas falas de Juca. Após se maravilhar com o filme de John Wayne, Rio Vermelho, Tony deixa o cinema flutuando e, de acordo com a precisa descrição do outro filme, o personagem sai da sessão, mas tudo ainda parece ter trilha sonora. Foi exatamente como me senti após essa sessão, que por coincidência foi em um cinema de rua.

Sinopse e análise: Tom Carneiro.

IMDB: 7,5/ 10
Nota de Tom Carneiro: 8,5 / 10,0

Ficha técnica:
Nome original: O Filme da Minha Vida
Outros nomes: The Movie of My Life
Paía: Brasil
Ano:  2017
Dirigido por: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello, Antonio Skármeta, Marcelo Vindicato
Elenco: Vincent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, entre outros.

MÃE SÓ HÁ UMA



O filme é baseado na história de Pedrinho que comoveu o país em 2002, quando os pais biológicos dele, após 16 anos e buscas incessantes finalmente o encontraram. Pedro tinha sido sequestrado em uma maternidade em Brasília em 1986, poucas horas após o seu nascimento, por Vilma Martins Costa. Mais tarde descobriu-se que também a outra filha de Vilma era vítima de sequestro. Vilma foi presa e os filhos encaminhados às verdadeiras famílias.
Anna Muylaert mostra com o filme o desconforto da situação. É justo, claro, que os pais biológicos que tanto sofreram passem a ter a guarda dos filhos. É justo para os pais. Mas será justo para os filhos? A força do sangue que os une falará mais forte? Eu não acredito nisso. Pierre e a suposta irmã viviam bem com Aracy, agora têm que se separar, os três. Será possível para as novas famílias preencherem todas as lacunas deixadas pelo tempo em que viveram separados?
A diretora aproveita a história real para tratar de outro assunto que é sempre motivo de preocupação entre os pais: a adolescência. Se para os pais que viram os filhos crescerem, têm toda uma série de lembranças, é muito difícil lidar com eles nessa fase, imagina os que começam a conhecer um filho quando ele tem 16/ 17 anos de idade. No filme, Pierre que de repente vira Felipe, nessa difícil fase de transição de uma identidade para outra, também está enfrentando outra crise, que é a definição de sua identidade sexual. Os conflitos com a família são inevitáveis. A família com medo de perdê-lo de novo. E para Pierre/ Felipe é como se os seus pais biológicos é que o tivessem roubado da sua verdadeira família.
O ator que interpreta Pierre, Naomi Nero, é sobrinho de Alexandre Nero. Achei muito interessante ser a mesma atriz, a Dani Nefussi a representar tanto a mãe biológica quanto a mãe que o criou. Numa analogia a que todas as mães são uma só? Dizem que uma mãe de verdade sofre por todos os filhos de todas as mães.
A diretora Anna Muylaert, depois do aplaudido "Que horas ela volta", ousa contar uma história real sem ater-se somente aos fatos, mesclando ficção e focando mais no drama familiar e também no individual.

IMDB: 6,8/ 10
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Mãe Só Há Uma
Outros nomes: Don't Call Me Son
País: Brasil 
Ano: 2016
Direção e roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Naomi Nero, Dani Nefussi, Matheus Nachtergaele..

Pedro, com a sequestradora Vilma Martins.

COMO NOSSOS PAIS



♫♫♫ 
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais ♫♫♫


É, não dá pra não ficar com essa linda canção composta por Belchior e interpretada maravilhosamente por Elis Regina tamborilando na nossa cabeça, só de lermos o título do filme da diretora Laís Bodanzky. Nem de não refletir sobre o quanto isso é verdade.
Rosa, como a maioria das mulheres de hoje, alterna, ou melhor, faz tudo ao mesmo tempo: ela é mãe, esposa, filha, trabalha fora. E sobra pouco tempo para o papel principal dela, que é ser ela mesma. Rosa quer ser diferente da mãe, quer ser para suas filhas mais do que sua mãe foi pra ela. Sim, Rosa almeja a perfeição. Ela quer ser também uma ótima esposa e amante, uma excelente profissional e, além de tudo, o mundo atual cobra dela que esteja sempre bem informada, que tenha sua opinião formada sobre política, que defenda direitos sociais, que seja engajada!
Rosas, Marias, Joanas, Cecilias, ... pensamos que seria diferente porque achamos que agimos diferente, que somos diferentes. Rosa contestou a vida toda sua mãe e agora sua filha está fazendo a mesma coisa com ela. Quando a mãe de Rosa joga na cara dela um segredo sobre seu pai, sem a menor cerimônia e cuidado, parece ser o fim da linha para as duas. Rosa questiona a mãe por não ter se colocado no lugar dela. Mas a mãe, que já passou por tudo que Rosa está passando, lhe responde que finalmente ela está se colocando no lugar dela mesma.
Parece que vejo esse filme todos os dias, é o filme da minha vida, é o filme da moça que é caixa na farmácia, da moça da esquina, é o filme da moça que faz minhas unhas que diz ter um sonho: chegar do trabalho e sentar no sofá pra ver TV.
O tempo passou, queimou-se sutiãs, houve a revolução sexual, mas as necessidades de nós, mulheres, parecem ser as mesmas. Questionamos os homens por ajudarem pouco nas obrigações domésticas e na atenção com os filhos, mas só essa palavra, ajuda, já mostra que não mudamos nada. Fulano é um marido maravilhoso porque ajuda, escuto dizerem. As próprias mulheres perpetuam esse modo de vida, quando educam os filhos homens.
Culturalmente falando, o modelo de família continua o mesmo. Fomos criadas para sermos super mulheres, super mães, falaram para nós que a maternidade é a melhor coisa que pode acontecer para uma mulher, que amor de mãe é incondicional, mas não nos avisaram que nunca mais iríamos dormir da mesma maneira. A diferença talvez consista em que as mulheres antigamente aceitavam melhor esse papel pois os anseios da mulher contemporânea são diferentes. O que, a longo prazo, pode gerar uma mudança de verdade. Mas, por enquanto, só nos deixa mais estressadas.
Estamos sempre com a sensação de estar fazendo tudo pela metade. E a culpa? Convivemos com ela o tempo todo!
Como os homens são endeusados, ninguém parece achar nada demais ele se espreguiçar em frente a uma televisão enquanto toma uma cerveja. Merecidamente, vão dizer!
Maria Ribeiro carrega todo o filme nas costas. Como todas as Marias carregam todas as responsabilidades nas costas. Como a mãe de Rosa, como as mães das Marias, como as mães das mães das Rosas e Marias do mundo. Aos homens, aos pais dos homens, aos pais dos pais dos pais dos pais, cabe a leveza de deixar o trabalho para trás quando encerra-se o expediente do seu trabalho. E talvez perguntar o que tem para jantar.
O filme prima não pela originalidade, mas pela naturalidade. Todas nós conhecemos uma Rosa. Como Nossos Pais é um filme sobre mulheres. E como trata de mulheres, trata também da difícil relação mãe e filha. E principalmente da necessidade de se buscar um equilíbrio entre homens e mulheres, um novo comportamento!
Laís Bodanzky é uma cineasta e roteirista brasileira, diretora do premiado filme Bicho de Sete Cabeças e do documentário Cine Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil.

IMDB: 7,5/ 10
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Como Nossos Pais
Outros nomes: Like Our Parents
País: Brasil
Ano: 2017
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi.
Elenco: Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, Clarisse Abujamra.