Cinéfilos Eternos: Maria Ribeiro
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quarta-feira, 6 de junho de 2018

COMO NOSSOS PAIS



♫♫♫ 
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais ♫♫♫


É, não dá pra não ficar com essa linda canção composta por Belchior e interpretada maravilhosamente por Elis Regina tamborilando na nossa cabeça, só de lermos o título do filme da diretora Laís Bodanzky. Nem de não refletir sobre o quanto isso é verdade.
Rosa, como a maioria das mulheres de hoje, alterna, ou melhor, faz tudo ao mesmo tempo: ela é mãe, esposa, filha, trabalha fora. E sobra pouco tempo para o papel principal dela, que é ser ela mesma. Rosa quer ser diferente da mãe, quer ser para suas filhas mais do que sua mãe foi pra ela. Sim, Rosa almeja a perfeição. Ela quer ser também uma ótima esposa e amante, uma excelente profissional e, além de tudo, o mundo atual cobra dela que esteja sempre bem informada, que tenha sua opinião formada sobre política, que defenda direitos sociais, que seja engajada!
Rosas, Marias, Joanas, Cecilias, ... pensamos que seria diferente porque achamos que agimos diferente, que somos diferentes. Rosa contestou a vida toda sua mãe e agora sua filha está fazendo a mesma coisa com ela. Quando a mãe de Rosa joga na cara dela um segredo sobre seu pai, sem a menor cerimônia e cuidado, parece ser o fim da linha para as duas. Rosa questiona a mãe por não ter se colocado no lugar dela. Mas a mãe, que já passou por tudo que Rosa está passando, lhe responde que finalmente ela está se colocando no lugar dela mesma.
Parece que vejo esse filme todos os dias, é o filme da minha vida, é o filme da moça que é caixa na farmácia, da moça da esquina, é o filme da moça que faz minhas unhas que diz ter um sonho: chegar do trabalho e sentar no sofá pra ver TV.
O tempo passou, queimou-se sutiãs, houve a revolução sexual, mas as necessidades de nós, mulheres, parecem ser as mesmas. Questionamos os homens por ajudarem pouco nas obrigações domésticas e na atenção com os filhos, mas só essa palavra, ajuda, já mostra que não mudamos nada. Fulano é um marido maravilhoso porque ajuda, escuto dizerem. As próprias mulheres perpetuam esse modo de vida, quando educam os filhos homens.
Culturalmente falando, o modelo de família continua o mesmo. Fomos criadas para sermos super mulheres, super mães, falaram para nós que a maternidade é a melhor coisa que pode acontecer para uma mulher, que amor de mãe é incondicional, mas não nos avisaram que nunca mais iríamos dormir da mesma maneira. A diferença talvez consista em que as mulheres antigamente aceitavam melhor esse papel pois os anseios da mulher contemporânea são diferentes. O que, a longo prazo, pode gerar uma mudança de verdade. Mas, por enquanto, só nos deixa mais estressadas.
Estamos sempre com a sensação de estar fazendo tudo pela metade. E a culpa? Convivemos com ela o tempo todo!
Como os homens são endeusados, ninguém parece achar nada demais ele se espreguiçar em frente a uma televisão enquanto toma uma cerveja. Merecidamente, vão dizer!
Maria Ribeiro carrega todo o filme nas costas. Como todas as Marias carregam todas as responsabilidades nas costas. Como a mãe de Rosa, como as mães das Marias, como as mães das mães das Rosas e Marias do mundo. Aos homens, aos pais dos homens, aos pais dos pais dos pais dos pais, cabe a leveza de deixar o trabalho para trás quando encerra-se o expediente do seu trabalho. E talvez perguntar o que tem para jantar.
O filme prima não pela originalidade, mas pela naturalidade. Todas nós conhecemos uma Rosa. Como Nossos Pais é um filme sobre mulheres. E como trata de mulheres, trata também da difícil relação mãe e filha. E principalmente da necessidade de se buscar um equilíbrio entre homens e mulheres, um novo comportamento!
Laís Bodanzky é uma cineasta e roteirista brasileira, diretora do premiado filme Bicho de Sete Cabeças e do documentário Cine Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil.

IMDB: 7,5/ 10
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Como Nossos Pais
Outros nomes: Like Our Parents
País: Brasil
Ano: 2017
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi.
Elenco: Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, Clarisse Abujamra.