Cinéfilos Eternos: Selton Mello
Mostrando postagens com marcador Selton Mello. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Selton Mello. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O FILME DA MINHA VIDA


.
Adaptação do livro "Um pai de Cinema", do chileno Antonio Skármeta, o qual assina o roteiro junto de Selton Mello, "O Filme da Minha Vida" é um delicioso escape em tempos tão difíceis para o país. E sua importância não para aí, o longa é uma verdadeira homenagem à sétima arte e sua construção rara no cinema nacional foge do ensolarado cinema sudeste-nordeste já bem recorrente. O Brasil de Selton Mello nesta sensível adaptação é tão Brasil quanto o emocionante "Central do Brasil" e o cativante "Auto da Compadecida" e lembra a indústria de que o cinema verde amarelo precisa traçar viagens corajosas por outros cantos ricos, porém desconhecidos deste país, pois existem muitas histórias a serem contadas ainda.
A trama trata acima de tudo sobre o tempo. Logo no início, o personagem principal Tony Terranova (Johnny Massaro), narra o seguinte trecho: "Antes, eu só via o início e o fim dos filmes. O início, para conhecer a história; e o fim, gostava de assistir porque o fim é sempre bonito", indo na contramão com uma belíssima cena metafórica em um trem, quando o maquinista explica que se alguém quiser adiantar o rumo das coisas o trem fatalmente sai dos trilhos. 
Faz-se necessário então assistir o começo e depois o meio, para então chegar até o desfecho de um filme. Tudo em seu tempo certo, sem atropelos, pois só assim é possível compreender o porquê dos finais. E mais que isso, os meios também devem ser aproveitados.

Em conformidade com o que prega, a história se transcorre. Tony retorna de Porto Alegre, onde cursou faculdade, mas no dia em que ele desceu do trem, seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), subiu no mesmo vagão e desapareceu, deixando pra trás o filho e a esposa em uma pequena e charmosa cidade do interior gaúcho. Tony segue inconformado com a atitude do pai e se torna professor de francês na escola local. Ele vive na esperança do retorno ou ao menos de uma resposta do homem por quem ele tinha grande admiração. A mãe, em contrapartida, prefere não falar mais sobre o assunto e se ocupa com o serviço em uma empresa de telefonia e o árduo trabalho de casa. Seguir em frente quando há um assunto inacabado é mais difícil que diante de uma tragédia declarada. Aquele silêncio irremediável fazia de Tony um rapaz melancólico e que se arrastava pela cidade querendo pular o meio e ir direto para o desfecho, quando ele desvendava o maior mistério de sua vida. E assim, ele vivia seus dias, pela metade e sem aproveitar seus meios. Contudo, uma reviravolta estava prestes a acontecer em seu filme.
O roteiro cheio de metáforas, peca um pouco ao entrega-las de forma muito direta ao espectador. Sem dar muita chance a interpretação e a dúvida. Já o grande mistério da história talvez tenha ficado previsível nas atitudes de um personagem. Ainda sim, não é nada que estrague a experiência deliciosa que esse filme proporciona e que em grande parte é mérito do diretor de fotografia Walter Carvalho, o qual com seus planos abertos vislumbrastes, capturou bem a região sul e construiu essa atmosfera triste e bucólica, fazendo o espectador se apaixonar a cada quadro dessa obra de arte. Inclusive um vagão do Trem de Vinho e a própria estação, ambos em Garibaldi (RS), foram restaurados para voltarem ao tempo em que a história acontece. As cenas ali são ainda mais belas pelas mãos de Walter. 
Já a direção competente de Selton Mello, atesta seu crescimento e maturidade por trás das câmeras. Ele, que também atua na fita como um gaúcho machão, certamente está no caminho certo para se tornar um grande diretor brasileiro contemporâneo, a julgar pelos três filmes que Selton dirigiu até agora. Já as músicas foram escolhidas a dedo e dão ainda mais vida e cor a cada quadro.

Em uma nostálgica cena do belo "De Onde Eu Te Vejo", o personagem de Juca de Oliveira relembra com gosto como tudo era mágico na saída de um cinema de rua. Isso é retratado aqui de forma tão inesquecível como nas saudosas falas de Juca. Após se maravilhar com o filme de John Wayne, Rio Vermelho, Tony deixa o cinema flutuando e, de acordo com a precisa descrição do outro filme, o personagem sai da sessão, mas tudo ainda parece ter trilha sonora. Foi exatamente como me senti após essa sessão, que por coincidência foi em um cinema de rua.

Sinopse e análise: Tom Carneiro.

IMDB: 7,5/ 10
Nota de Tom Carneiro: 8,5 / 10,0

Ficha técnica:
Nome original: O Filme da Minha Vida
Outros nomes: The Movie of My Life
Paía: Brasil
Ano:  2017
Dirigido por: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello, Antonio Skármeta, Marcelo Vindicato
Elenco: Vincent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, entre outros.