Em Um Lugar Silencioso, uma família se comunica somente por sinais. O silêncio precisa ser absoluto porque, a qualquer ruído, alguém (ou alguma coisa) os ataca. Em "Bird Box", ou Caixa de Pássaros, a ameaça é visual. O mundo é acometido por uma espécie de loucura , onde as pessoas começam a se suicidar. Os suicídios são precedidos de visões. As autoridades pedem que as pessoas se tranquem em casa e cubram todas as janelas. Mas ao contrário de em "A Quiet Place", em que o espectador acaba ficando igualmente em silêncio, tamanha a tensão, em "Bird Box" ficamos é com os olhos bem arregalados e querendo ver, procurando em cada detalhe uma pista. A inquietude, o nervosismo, tomam conta do espectador, na tentativa de desvendar o mistério.
Eu, particularmente, gostei muito mais desse, foram duas horas e cinco minutos em que não despreguei os olhos da tela. Com uma atuação maravilhosa de Sandra Bullock como Malorie, a protagonista da história inspirada no best-seller homônimo de Josh Malerman e dirigido por Susanne Bier, premiada diretora dinamarquesa, o filme é a nova aposta da Netflix e estreou ontem, 21 de dezembro.
Malorie, ainda por cima grávida, é levada para uma casa onde está um grupo de pessoas, uma delas o desagradável Douglas, interpretado por John Malkovich. Mas quando a casa deixa de ser segura, ela é obrigada a procurar outros caminhos e um deles a leva a uma difícil travessia de um rio com duas crianças, mais difícil ainda por precisarem estar com os olhos vendados. Sandra Bullock diz que se inspirou na força de sua própria experiência como mãe para fazer Malorie enfrentar essa travessia com as crianças, na tentativa de encontrar um lugar onde pudessem reconstruir a vida.
Como em outros filmes que não pude deixar de lembrar, Caixa de Pássaros é mais que uma obra de suspense ou terror. Em O Último Suspiro, Paris é tomada por uma bruma que mata as pessoas. É preciso fugir da névoa, procurar os andares mais altos dos prédios, mas o casal protagonista tem um grave problema: uma filha que sofre de uma doença rara e vive em uma espécie de bolha. Em A Noite Devorou o Mundo, também em Paris, a cidade da noite para o dia está tomada por zumbis famintos. Também o protagonista desse filme precisa se trancar no prédio para se proteger. Os roteiros-catástrofe criam uma intimidade, uma forte ligação entre os sobreviventes. Mas em A Noite Devorou o mundo, o protagonista se vê lutando por uma vida sem sentido, já que solitária. E se ele for o único sobrevivente do mundo, valerá a pena lutar? Na sua ilusória vida, em vigília o tempo todo, ele não estará se tornando uma espécie de zumbi? Não sou chegada a filmes de terror, por isso gostei desses, porque são também sobre solidão e escolhas. Como em O Último Suspiro, o que prende umas pessoas pode ser a libertação para outros. Caixa de Pássaros é mais que tudo um filme de descoberta do amor, de um amor reprimido e adormecido que vai ser forçado pelas circunstâncias a se manifestar com todas as forças.
Assim como não é da natureza do homem viver solitário, também não é da natureza dos pássaros viverem trancados em uma caixa. Malorie é dura com as crianças, as mantém em uma espécie de caixa de pássaros, onde só cabem o silêncio e a escuridão. Porque ela acredita que é a única maneira de sobreviverem. Mas adianta viverem sem sonhos, sem esperança? O casaco azul, a imensidão do rio, do azul do rio, nos remetem ao espaço, à liberdade, aonde os pássaros devem estar e também as nossas mentes. A própria Malorie sempre viveu em uma espécie de "caixa de pássaros", mesmo antes da tragédia.
Da mesma forma que as pessoas com deficiência visual apuram a audição, Malorie ensina as crianças a reconhecerem todos os tipos de barulhos, a perceberem quando alguma coisa está perto ou longe. E Susanne Bier também trabalha bem a trilha sonora para nos dar a mesma percepção. Existe uma lenda, eu gostava muito de ler sobre isso na adolescência, sobre um continente perdido, a Lemúria, cujo povo era cego e evoluído, eles desenvolveram a terceira visão.
Mas como em qualquer adaptação de livros, haverá sempre queixas de que o filme não se aprofundou nisso ou naquilo, chato isso, sabe? Caixa de Pássaros pode até não trazer nada de novo, mas é muito bem trabalhado e tem ótimas atuações, até das fofas crianças. Sim, existem algumas inverossimilhanças, mas é ficção e o que importa aqui é o que o filme nos faz sentir e, posso garantir que é, no mínimo, é um excelente entretenimento.
A atriz Sandra Bullock conta como foi difícil atuar com olhos vendados e diz que trombou com a câmera várias vezes.
Outro ponto a refletir é que a ameaça do filme é invisível e por isso provoca os piores medos e sensações. Uma personagem acredita que viu ou ouviu sua mãe, morta há vários anos. As pessoas, após as visões, se matam por desespero ou atraídas por algo muito maior? É mencionada uma certa beleza. Será o fim do mundo uma passagem para um outro bem melhor? O filme talvez sugira que em determinadas situações seja conveniente ficar de olhos vendados para preservar a lucidez. A mente limpa como um canal aberto para compreender o verdadeiro significado da vida. Em um mundo apocalíptico então, só os lúcidos sobreviverão. Ou talvez os loucos...
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Bird Box
Outros nomes: Às Cegas.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Susanne Bier.
Roteiro: Eric Heisserer, JoshMalerman.
Elenco: Sandra Bullock, John Malkovich, Trevante Rhodes, Sarah Paulson.
As crianças: Julian Edwards, Vivien Lyra Blair.
