Cinéfilos Eternos: Mindfuck.
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segunda-feira, 25 de junho de 2018

RESOLUTION



Vi Resolution na tentativa de tirar as dúvidas da continuação dele, The Endless. Tipo ver Better Call Saul depois de Breaking Bad. Resolution é uma produção independente de baixo orçamento, dirigido com competência por Justin Benson e Aaron Moorhead. Benson também assina o roteiro. Classificado como terror, mas é um terror sutil, o clima é tenso o tempo todo, daqueles que estão mais para fundir a cuca.
Tudo começa quando Michael (Peter Cilella) recebe uma fita com uma gravação do seu amigo drogado e um mapa de sua localização, o que ele interpreta como um pedido de ajuda. Ele deixa sua esposa grávida e parte para o que ele considera ser uma missão. Talvez Michael deseje ter alguma coisa para se orgulhar e contar para o filho que vai nascer.
Michael resolve prender Chris (Vinny Curran) com uma corrente, de forma que ele não tenha acesso às drogas nem às bebidas, dentro da cabana que depois ele vem a saber que foi ocupada ilegalmente pelo amigo e que está localizada em uma reserva indígena. Outro problema que ele tem que resolver. Ele pede para ficar por cinco dias e paga pelo aluguel. Não bastasse isso tudo e aturar as súplicas e as tentativas de Chris para ser desacorrentado, além do assédio de dois drogados, coisas estranhas começam a acontecer, fitas e fotos estranhas aparecem em todos os lugares, como a mandar um recado. E outra: Chris afirma que não foi ele quem mandou aquela fita para Michael.
Os dois amigos terão enfim muito tempo para se lembrarem e talvez se arrependerem de alguns atos praticados no passado, numa jornada de auto-conhecimento e reaproximação.
Mike só sai da cabana para comprar alguma coisa e caminhar. Numa dessas caminhadas, onde torce o pé, ele conhece um sujeito que mora em um trailer e que o convida para tomar um chá. Ele lhe diz que veio para o local com mais dois franceses, que diziam procurar um monstro, mas que desapareceram e que só ele acabou ficando, não conseguiu sair mais e nisso já estava por lá há trinta anos. Também o tal sujeito era chegado a umas ervas que trouxe da América do Sul. O cara era meio sinistro, começou a fazer uns lances com espelho e Michael, desconfortável, agradece a aspirina e resolve ir embora. Será que era mesmo aspirina? O sorrisinho do morador do trailer diz que não, o que nos leva a pensar se tudo não passa de alucinações provocadas pelas drogas, porque parece que todo mundo se droga naquele lugar.
Somos convidados a embarcar nessa aventura, novamente aqui, como em The Endless, não sabemos o que é real e o que é imaginário. Pior: nos questionamos sobre o que é a realidade afinal. Como em O Show de Truman, será que estamos apenas interpretando papéis em um cinema maior? 
Costumo dizer que o cinema, ou um livro, passa a ter vida própria da feita que começa a ser elaborado. O diretor passa a ser dirigido pelo próprio filme, o roteiro e as cenas começam a surgir, independentes da vontade do seu criador, brincando com seus limites.

Bem, e aí, quem viu? Alguém sabe me dizer o que significam afinal aqueles desenhos tribais, o que se esconde naquelas cavernas? Fala-se de uma seita de adoração ao demônio. Serão alienígenas que estão por ali? Qual a finalidade daqueles estranhos objetos (fotografias antigas, livros velhos, rolos de filmes)? Será que é apenas uma comunidade de traficantes que quer afastar as pessoas do local? Quem é o misterioso francês que mora no trailer? Por que ele nunca foi embora? Ah, e o que serão aquelas luzes alaranjadas que parecem flashes? Se não foi o Chris, quem enviou o vídeo para Mike? E o final, hein, o que foi aquilo??? Você não sabe? Hahaha, nem eu. Podemos supor várias coisas, diferentes pessoas terão diferentes explicações. Se você não gosta de finais abertos, não veja, porque Resolution, assim como sua continuação, The Endless, não entrega respostas. Na verdade, tenho a minha teoria, mas não vou dizer.
Mas assim como The Endless faz uma analogia com a rotina que nos devora, Resolution é também um filme sobre a amizade. O outro filme deles, Spring, também envolve bizarrices, porque é sobre um casal em que um deles é um monstro, mas fala principalmente sobre o amor. Então Benson e Moorhead usam sempre uma mensagem subliminar.
IMDB: 6,2/ 10
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Resolution
País: EUA
Ano: 2012
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Peter Cilella, Vinny Curran, com a participação de Aaron Moorhead e Justin Benson.


O CULTO



Eu acho que o filme fala basicamente sobre o medo.
"O sentimento mais forte e mais antigo do ser humano é o medo, e o medo mais forte e mais antigo é o medo do desconhecido".
O que o ser humano mais deseja? Ser imortal. E o que o ser humano mais teme? A morte. Mas, pelo menos para os que acreditam na continuidade do espírito, é necessário que o corpo morra, é preciso nos despojarmos dessa roupa, muitas vezes já velha e cansada, às vezes doente, para realizarmos esse sonho.
O fato é que não deveríamos ter medo da morte, já que só podem acontecer duas coisas: não existir nada depois e então não sentiremos nada; ou existir vida após dela, a constatação de que nosso espírito, ou nossa alma, é uma energia e vai continuar fluindo.
Então por que temos medo? E não diga que não tem, todo mundo tem. Porque é o desconhecido. Acreditamos, enquanto vivos, ter controle sobre tudo. Precisamos acreditar que temos os pés no chão. No entanto, pisamos em um planeta que está "solto" no universo, às vezes estamos de cabeça pra baixo, se bem que não sei onde é o cima e onde é o baixo. Eu tenho uma mania quando estou sozinha, assim numa praia, aperto os olhos e olho para o horizonte e tento "ver" o que vem depois. Não depois daquela linha, porque é só mais água, mas fora, ... tento me ver, assim como se estivesse em um barco no meio do mar, além disso, em um planeta no meio da imensidão.
No filme Vida Selvagem, Paco diz que na natureza tudo é redondo, que quem inventou o quadrado foi o homem. Porque o quadrado é uma forma que delimita os espaços, dá controle ao homem. Mas na verdade não temos controle sobre nada. Não sabemos onde é o fim e muito menos o que representa o fim. E nem se existe o fim, não é? É a tal teoria do infinito, que eu acho muito estranha. Mas se existe um fim, o que vem depois do fim é o nada. O nada é o que há de mais assustador. Vivemos em círculos, em ciclos, preferimos nos apegar à nossa vidinha quantas vezes sem graça do que ir além.
Alguns ciclos são menores, como o dia, dormimos, acordamos, trabalhamos, comemos, e dormimos de novo. Acredito que o filme promova uma analogia com as rotinas de nossas vidas. Alguns ciclos são maiores, mais estimulantes. Quanto mais medo, menores os ciclos, maior a rotina. Inventamos monstros para não nos expandirmos, mas os monstros estão dentro de nossas cabeças. "Não olhe para eles, siga somente sua bússola e saia correndo", aconselha um personagem do filme.
Em O Culto, Justin convence seu irmão mais novo a fugirem da comunidade onde vivem. Mas de nada adiantou, a comunidade estava dentro deles, impedindo-os de viver, era o monstro deles. Depois de dez anos, eles resolvem voltar em busca de respostas.
Mas há respostas? Pelo menos não no filme, o longa não entrega respostas, só perguntas.
Justin e Aaron são interpretados pelos próprio diretores, Justin Benson e Aaron Moorhead. O filme deles, Resolution, de 2012, uma produção de baixíssimo orçamento, é considerado um desafio conceitual ao espectador. Depois desse, eles fizeram Spring, em 2015, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto.
The Endless é um filme que pode ser perturbador, mas não considero que seu gênero seja terror, mas que transita por ele. Porque o fato de não sabermos o tempo todo o que é real ou não nos deixa bastante desconfortáveis. Por exemplo, na tal comunidade pode-se ver três luas. Que para mim simbolizam o passado, o presente e o futuro. Uma lua só representa que tudo é uma coisa só. Já que o filme também brinca com o tempo. O fato é que está fazendo sucesso em diversos festivais do mundo e ganhando seu espaço.
Afinal, o que acontece naquele lugar? É um portal? São aliens? Talvez algum local amaldiçoado? O que significam todos aqueles símbolos tribais? E aquele monte de fitas e fotos? Ou será que tudo não faz parte da imaginação dos assustados Justin e Aaron? Quando eu era criança, eu tinha muito medo de cachorros. Alguém me ensinou que eu tinha que disfarçar quando passava perto de um, porque o cheiro do medo os atraía. Será que o medo é como um espelho, projeta fora de nós o que tememos?
Em busca de respostas, eu fui ver o Resolution, que é anterior. The Endless é uma continuação de Resolution. O que posso dizer é que não esclareceu nada, apenas eliminou um ou duas possibilidades. Pode ser que tenha um terceiro filme, não é?
E a pergunta que fica é: você voltaria a um local de onde fugiu há dez anos atrás, de um lugar onde acredita que acontecem coisas bizarras? Ou: você enfrentaria os seus monstros?
IMDB: 6,7/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Endless
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson.
Elenco: Aaron Moorhead, Justin Benson, Tate Ellington, Callie Hernandez.