(OBS.: SE VOCÊ NÃO VIU AINDA OU NÃO GOSTA DE SPOILER, NÃO LEIA)
"Você está autorizado a falar, ao longo do caminho?", pergunta ele a Verge. Virgílio responde: "As pessoas se sentem dominadas por esse desejo estranho e repentino de se confessarem durante essa viagem... pode continuar... só não acredite que você irá me dizer algo que eu nunca tenha ouvido antes."
Ele se chama Jack.
Por que Jack? Seria uma simples coincidência ou uma referência, quem sabe até uma homenagem, já que esse nosso diretor é louco, ao emblemático Jack, o estripador? Sim, emblemático, porque ele é lembrado e muitas vezes mencionado toda vez que se fala de assassinos em série. Na verdade, o responsável por vários crimes que aconteceram na periferia de Londres, em 1988, nunca foi identificado. O nome "Jack, o estripador" se originou de uma carta escrita pelo suposto assassino e que foi amplamente divulgada pela imprensa na época e acredita-se que foi inventada por jornalistas para aumentar o interesse e vender mais jornais.
O caminho, qual seria? Não dá para ver no princípio do filme, só se ouvem as vozes e um barulho de água, que sugere que Jack e Virgílio estão em um barco. Será que é o rio Aqueronte, em que outrora Caronte, o barqueiro que faz a travessia das almas, levou Dante e Virgílio?
A viagem de Dante é uma alegoria através do que é essencialmente o conceito medieval de Inferno, guiada pelo poeta romano Virgílio. No poema, o inferno é descrito com nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. Foi escrito no início do século XIV. Os mais variados pintores de todos os tempos criaram ilustrações sobre esta obra, se destacando Botticelli, Gustave Doré e Dalí. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves. Portanto os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final.
A viagem com Jack será bem longa, pelo visto. Literalmente: A Casa que Jack Construiu tem 2h35 de duração. A vontade, quando se origina como manifestação da natureza animal é ainda menos grave que aquele pecado que é cometido de forma premeditada, usando a inteligência do ser humano para o mal, mesmo assim, é menos grave um indivíduo planejar e executar um crime contra um desconhecido, que pode se defender do estranho que o ameaça, que ele fazer o mesmo com alguém que confia nele, e por isto está indefeso, por isso a traição é considerada o maior pecado, que recebe a punição máxima no local mais profundo do inferno.
Portanto, Jack, que recebe a permissão, tem muito para contar. O filme, como Lars gosta de fazer, se divide em 5 partes, que, aqui, ele denominou de 5 incidentes.
Significado de incidente na língua portuguesa: episódio inesperado que altera a ordem normal das coisas.
1º incidente: Jack encontra-se com uma mulher na estrada (Uma Thurman), que tem o pneu do carro furado e o macaco, que ela por coincidência (ou não) chama de Jack, quebrado. Jack não tem um "Jack" para emprestar e a orienta a ir a um ferreiro próximo. Ela lhe diz que talvez precise seduzi-lo para que ele a leve lá, cometendo seu primeiro erro. Depois de uma série de outros erros, onde ela o provoca o tempo todo, confesso que até eu fiquei com raiva dela, ele comete seu primeiro assassinato. Então, podemos chamar o primeiro incidente de "A MULHER IRRITANTE". Foi o episódio inesperado que fez Jack alterar sua condição de não assassino para assassino, até então ele não sabia que queria matar;
2º incidente: "A TOLA QUE QUER SER ESPERTA". Sempre falo isso, que a maioria das pessoas que são ludibriadas o são porque querem tirar vantagem de alguma coisa. Na ânsia de serem espertas, são enganadas. Como uma droga, o primeiro assassinato causa em Jack uma espécie de prazer, a abstinência causa dor, é preciso acabar com aquela dor. Jack aproveita para testar aqui o seu método de persuasão. Se no primeiro crime, a vontade de matar surgiu de repente, foi quase que provocada pela mulher irritante, agora é premeditada. Sucesso! Ele retira o corpo da casa e volta para limpar. Só tem um problema: ele sofre de transtorno obsessivo-compulsivo por limpeza e a cada vez que sai da casa, volta para verificar. É quase uma piada, de humor negro, mas é: um serial killer com toc?
3º incidente: "A INGÊNUA". O conceito de família inspirando o que Jack denominou sua maior obra até então.
"Não veja os atos, veja o trabalho, toda a ideia de troféus", diz ele para Verge (Virgílio);
4º incidente: "A DOCE E BURRA".
Já mais experiente, ele sente que esta se livrando do seu transtorno por limpeza e perfeição e experimenta essa liberdade: ele percebe que as preocupações dele não são as das outras pessoas;
"Por que só mulheres?", pergunta Virgílio. "Não, matei muitos homens também, escolhi esses incidentes aleatoriamente." "Mas você só falou sobre mulheres estúpidas. Por que elas são tão estúpidas? A menos que você ache que todas as mulheres são estúpidas. Você se sente superior às mulheres e quer se gabar? Isso te excita, Jack?"
"Mulheres são sempre vítimas. E os homens são sempre os criminosos... pense na injustiça disso. Por que a culpa é sempre do homem? "
É o assassino mostrando que a misoginia o move também. Os homens são culpados, segundo ele, mesmo se não fazem nada e então ele faz.
Jack, que agora se intitula Sr Sofisticação, tem umas ideias para aprimorar seu trabalho, sua arte, como ele prefere reconhecer. Ele arruma os cadáveres e tira fotos. Apesar que ele é mais fascinado pelos negativos do que pelas fotos em si.
"Quando eu tinha dez anos, eu descobri que através do negativo, você poderia ver a verdadeira qualidade demoníaca da luz interior. A luz negra."
O 5º incidente: Jack achava que sinais do sol e da lua pediram a presença dele para outra obra de arte. Primeiro, o eclipse. Depois, a erupção vulcânica da montanha St. Helens...
Do mesmo jeito que ele não conseguia terminar de construir sua casa, o ciclo de mortes também não se concluía. O Sr. Sofisticação exigia novos métodos para refinar sua arte. Primeiro as execuções individuais, depois ele experimentou com uma família, agora, inspirado em alguns ícones da história do mundo, ele queria mais...
Sim, Lars ousa repetir através do personagem que Hitler é um ícone. Eu entendo esse termo como uma referência que valha a pena, e vocês?
Os cinco incidentes, os cinco níveis do inferno, ...
De onde vem a pulsão para matar?
Como todo bom psicopata, Jack parece fazer o possível para que o descubram. Primeiro, ele sempre é ajudado pela própria natureza e se existe um Deus, ele acredita que tem o seu aval. Ele deixa pistas, ele não é um profissional tão cuidadoso. Só de exemplo, uma vez ele deixou um rastro de sangue e aí veio a chuva e apagou. Não seria um sinal para ele continuar? E aí ele divide sua responsabilidade com a sociedade, porque as pessoas não se importam mais com as outras, suas vítimas gritam mas ninguém as acode, "não é da conta deles", pensam. Os policiais são de uma incompetência só. Uma vítima chegou a pedir o auxílio de um, mas ele não acreditou nela. As próprias famílias muitas vezes não dão falta de seus familiares.
Como a casa que Jack constrói há anos, o filme levou anos para ser desenvolvido. Jack e Lars visitam as profundezas em busca de respostas. "Fame, whats's your name?", ecoa a música de David Bowie durante o filme. Imagens de guerra, de Hitler, dos próprios filmes do Lars, como se Jack e Lars quisessem ir cada vez mais fundo. Aquela porta que não quer abrir trará a resposta?
Jack usa Virgílio para contra-argumentar. Sua personalidade dominante precisa mostrar que tem razão. E afinal, de que adianta aquilo tudo se ninguém reconhece sua arte? As cinco etapas para o inferno lhe darão pelo menos o devido tempo para ele se vangloriar dos seus feitos. Ele estava nessa estrada da vida e da morte há doze anos, sozinho. Jack talvez esteja cansado... talvez precise desesperadamente que aquela porta abra, aquela porta que pode por fim em tudo...quem sabe Virgílio tenha razão... Que tudo que ele queria era ser amado. E que não é a morte a verdadeira arte e sim o amor!
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O que achei: muito bom! Em alguns momentos, chatinho, porque longo e com várias dissertações sobre arte, mas que depois você vai entender que são importantes para o desenvolvimento da ideia do Lars. Sim, porque fica claro que essa viagem ao inferno não é só do Jack. É do Lars, através do Jack. Polêmico, sempre, Lars quer argumentar que na arte vale tudo. Acho que não concordo. Sim, tem violência, cenas chocantes, mas nada que não tenha em vários filmes de serial killer. Talvez o cinismo do Jack é que incomode mais. Li alguns comentários sobre o filme ser mediano e devo dizer que um filme dele nunca é mediano: ou você odeia ou você ama.
IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 4,2/ 5
Ficha técnica:
Nome original: The House That Jack Built.
País: Dinamarca/ Alemanha/ França/ Suécia.
Direção: Lars Von Trier.
Roteiro: Lars Von Trier, Jenle Hallund.
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman.
