Cinéfilos Eternos: Hirokazu Koreeda
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quinta-feira, 28 de março de 2019

ASSUNTO DE FAMÍLIA





"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira" . Liev Tolstoi, Anna Karenina.
Mas a família retratada no mais novo filme do cineasta japonês Hirokazu Koreeda foge à regra. Porque, ao seu modo, era uma família feliz. E era diferente de qualquer outra. Na verdade, foge a muitas regras...
A princípio, não entendemos muito a ligação deles: uma senhora idosa, a quem todos chamavam de "vovó", um casal, uma jovem e um menino. Eram bem pobres, moravam todos em um cômodo só, onde cozinhavam, comiam, dormiam. Além daquele cômodo, só um banheiro. A privacidade só se exercia no banheiro, mas não parecia que ninguém sentia falta disso. Riam, contavam histórias, dividiam as refeições, ... Vovó podia estar costurando enquanto a jovem se encostava nela para se aquecer com o calor do seu corpo. Um dia encontraram uma menininha que estava sozinha, passando frio, e levaram pra lá. Ela parecia um passarinho assustado, tinha medo de levantar os olhos, de falar. Já era tarde e ela acabou ficando naquele dia. No outro também. Aos poucos foi adquirindo confiança e deixando escapar que era maltratada pelos pais. Pensaram em levá-la de volta. Mas ficaram com pena. E também já tinham se afeiçoado a ela. O menino ficou um pouco enciumado, mas aquele que queria ser chamado de pai por ele, mas que ele ainda não conseguia, lhe disse: "- é sua irmã.".
Sim, porque naquela família, os laços não eram impostos pelo nascimento, mas pelo acolhimento.
Um dia, uma foto da menininha, Yuri, apareceu no telejornal, estavam dando ela como sequestrada. Não os pais, eles nem procuraram por ela. Nobuyo, que cuida dela como uma mãe, lhe pergunta se ela quer voltar pra casa. Mas percebe que ela tem medo.
Os códigos morais da Família Shibata eram bem diferentes. Osamu ensinava às crianças a roubar. É claro que ficamos chocados com isso. Eles roubavam em lojas. Segundo Osamu, não roubavam nada que pertencia a ninguém, pois ainda estavam à venda. Nobuyo tambem não achava que tinham sequestrado a menina, que agora tinha o cabelo curto e roupa nova e até um nome novo: Rin. Como, se não pediram dinheiro? Já o código familiar deles era muito simples: eles se tratavam bem, se protegiam, se importavam uns com os outros. Em nenhum momento, apesar das dificuldades financeiras, pensaram em Yuri como mais uma boca para alimentar. Para eles era mais uma pessoa para amar.
Um dos momentos mais lindos que achei foi quando perguntaram pra Osamu por que ele ensinava às crianças a roubar. E ele responde: " - porque eu não sei fazer mais nada, era só isso que eu tinha para ensinar... " Como qualquer pai, ele queria ser admirado por alguma coisa que soubesse fazer bem.
Mas ele não era qualquer pai e nem ela era qualquer mãe. E o filme nos leva a diversos questionamentos sobre o que é certo e o que é errado. Mais uma obra sensível de Koreeda sobre assuntos de família.
O filme concorreu ao Oscar 2019 como Melhor Filme Estrangeiro, mas quem venceu foi Roma, que também é o retrato de uma família e, curiosamente, os dois têm cenas emblemáticas em praias.




IMDB: 8,1/ 10
Filmow: 4,3/ 5
Minha nota: 4,2 / 5


Ficha Técnica:
Nome original: Manbiki Kazoku.
Outros nomes: Shoplifters, 万引き家族
País: Japão.
Ano: 2018
Direção: Hirokazu Koreeda.
Roteiro: Hirokazu Koreeda.
Elenco: Lily Franky, Jyo Kairi, Miyu Sasaki, Sakura Andou, Kirin Kiki. Mayu Matsuoka.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O TERCEIRO ASSASSINATO



Koreeda, ou Kore-eda, é um dos mais representativos realizadores do cinema japonês atual. Seus filmes possuem um estilo contemplativo e exploram a sensibilidade do espectador. Diretor do premiado Pais e Filhos, do aclamado Depois da Tempestade, do excelente Nossa Irmã Mais Nova, do Seguindo em Frente, que foi baseado em sua própria família, Koreeda é comparado a Ozu, mas deixa indiscutivelmente sua própria marca. Ele gosta de analisar e a sociedade japonesa e, em suas próprias palavras, acredita ser mais comparável a Mikio Naruse e Ken Loach.
Sua inclinação para filmes com um argumento muito delicado e emocional, nos faz pensar por quê agora um filme sobre assassinato. É um filme policial? Não deixa de ser. Um advogado de elite, Shigemori, é encarregado de defender um caso de assassinato. Mikuma já cumpriu pena de trinta anos por um homicídio duplo. Na época, o juiz, pai de Shigemori, o livrou da pena de morte. Mas, com pouco tempo de liberdade, Mikuma confessa ser o responsável por esse que vem a ser o seu terceiro assassinato. O crime, aparentemente por um motivo fútil, porque ele rouba a carteira do morto, tem ainda detalhes sórdidos, porque o corpo é também incendiado. Um caso difícil para o filho do juiz que hoje arrepende-se de não ter aplicado a pena máxima.
Mas Mikuma não tem o perfil de assassino: não é violento aparentemente, é educado, parece respeitar as regras, gosta de pássaros e suas explicações sobre sua motivação para cometer o crime deixa falhas algumas vezes. Shigemori começa a ter dúvidas sobre a autoria do assassinato e quer, pelo menos, encontrar um motivo menos abjeto que o dinheiro.
É nesse contexto que entra o estilo de Koreeda. Não é apenas um filme que visa a confirmação ou não da culpa do réu e desvendar todos os detalhes. O diretor, mais uma vez, pretende nos sensibilizar e nos fazer questionar a culpa. Quem decide quem é o culpado? Quem decide quem morre? Um ser superior, Deus, diante de qual passamos como em uma fila e somos selecionados "esse morre, esse não morre"? O juiz? O julgamento das pessoas que estão ao nosso redor? Quem decide qual é a nossa culpa? Porque muitas vezes somos condenados por uma quando na verdade já nos condenamos por outra, ou por outras.
Shigemori precisa mais como pessoa do que como advogado provar que aquele homem não é culpado, ele precisa acreditar que um ser humano não pode ser tão vazio ao ponto de cometer um crime grave por um motivo banal.
Afinal, quem fala a verdade? E o que é a verdade? "Aqui ninguém diz a verdade."

IMDB: 6,7/10
Minha nota: 4,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Sandome no Satsujin
Outros nomes: The Third Murder
País: Japão
Ano: 2017
Direção e roteiro: Hirokazu Koreeda.
Elenco: Masaharu Fukuyama, Koji Yakusho, Suzu Hirose.