Uma vez vi um filme em que a história se resumia em: "o importante não é para onde se vai, mas para onde se volta".
"Made in Italy" é um filme que nos remete a recordações: amigos que perdemos, família, amores, desgastados porque estamos desgastados, períodos que parecem ser uma vida inteira, onde não vemos saída para nossas mazelas, apenas sobrevivemos, ...
... a busca de um sentido, ...será que é só isso?
"Cosa ci faccio qui?!" (O que estou fazendo aqui?)
Você já se perguntou isso? Teve a resposta?
Costumo me perguntar se somos nós que fazemos nossas escolhas ou se somos escolhidos.
Uma amiga me disse essa semana que tem preferência pelos filmes italianos, por serem românticos e passionais.
Riko vive em uma pequena cidade na Itália em uma casa construída pelo seu avô, ampliada pelo seu pai e que ele, com o seu insignificante emprego há 30 anos em uma fábrica de embutidos (mortadelas "made in Italy") mal tem condições de manter. A situação da Itália não vai nada bem e o fantasma do desemprego assoma a todos. Ricco aconselha seu filho a sair da cidade, procurar outros ares, oportunidades diferentes da dele. A vida com sua mulher também não vai nada bem, ele desconfia que ela o esteja traindo. E Ricco vai seguindo assim, bebendo e jogando com seus amigos, uma aventura aqui, outra ali, para ele é só sexo. "Empurrando a vida com a barriga", como se diz no popular.
Às vezes ele se pergunta: "Cosa ci faccio qui?!"
Uma vez ele se mete em uma confusão e leva uma cacetada na cabeça e desmaia. Perguntam-lhe o que ele pensou antes de desmaiar, ele diz que pensou que queria não pensar em nada.
Made in Italy recebeu o Nastro d’Argento de melhor história, mas não é filme que vá agradar às feministas. Porque Riko é o verdadeiro macho italiano. Ele tem amante, mas seu brio é afetado só de pensar que a sua mulher possa ter. A mulher com quem ele mal fala, mal dá atenção. Claro, como um bebezão, ele se queixa que a culpa é dela. A mulher é cabeleireira e o salão vai bem, mesmo que ele perca o emprego, o problema não chega a ser o dinheiro, mas sua autoestima de macho. E o filme todo é contado sob o ponto de vista de Riko. Não que a história em algum ponto o defenda, mas o carisma do ator (Stefano Accorsi) faz com que o vejamos com mais indulgência. Afinal, ele é o produto do meio cultural. E aqui fico me perguntando se os filmes italianos estão mais propensos a propagarem esse tipo de cultura. Se esse modelo de homem não é "made in Italy".
Sobre o diretor: Luciano Ligabue é um cantor e compositor italiano, além de escritor e diretor filmográfico. Ligabue nasceu na província de Reggio Emilia. Antes de tornar-se um cantor bem-sucedido, Luciano sustentou vários empregos, trabalhando com agricultura e em empresas.
Bem, mas é um filme que nos envolve: com suas belas músicas, mostra também vários lugares lindos da Itália. A queixa é sobre o que estão fazendo com a terra tão amada. É também uma bela história também sobre amizades e uma reflexão sobre afinal o que importa. Meio piegas? Sim, talvez. Como a paixão italiana.
"Cosa ci faccio qui?!"
"É necessário se ter uma aldeia,
nem que seja apenas
pelo prazer de abandoná-la.
Uma aldeia significa
não estar sozinho,
saber que nas pessoas,
nas plantas,
na terra,
há alguma coisa de nós,
que, mesmo quando
não se está presente,
continua a nossa espera."
(Cesare Pavese).
O filme foi exibido durante o Festival de Cinema Italiano 2018. O festival começou em Lisboa, em 2008, e já tem 10 anos de sucesso passando por dezenas de cidades lusófonas e em três continentes diferentes. No Brasil, em 2017, os filmes foram exibidos em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Recife e em 2018 Vitória, Goiânia, Belém e Florianópolis passaram a integrar o circuito.
IMDB: 5,9/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,2/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Made in Italy.
País: Itália.
Direção: Luciano Ligabue.
Roteiro: Luciano Ligabue.
Elenco: Stefano Accorsi, Kasia Smutniak, Fausto Maria Sciarappa, Walter Leonardi.
