Filme cheio de camadas...
Primeiro fiquei surpresa ao ver que a protagonista é interpretada pela mesma atriz de Fortunata, do diretor Sergio Castellitto. Ela está completamente diferente. No outro, exuberante, muito maquiada, vestida de maneira vulgar, uma mulher pobre e sofrida. Nesse, magrinha, cabelo curto, vestida elegantemente com roupas estilo masculino mas que, ao contrário, lhe realçam a feminilidade. Mas linda nos dois.
Bem, vamos lá à história. Irene é Irene e também é Miele. Nome duplo, vida dupla. Quem é ela? A Irene é uma ex-estudante de medicina que mora sozinha, numa pequena casa de praia. Adora mergulhar e ouvir rock pesado.
Aliás, as músicas do filme são ótimas. Ela tem um namorado, nada que lhe exija muito compromisso. De vez em quando precisa se ausentar, porque seu trabalho exige. Mas qual é a sua profissão? Durante sua função, ela muda de nome, já que trabalha para uma organização clandestina. Seu namorado (?) não sabe o que ela faz. Nem seu pai (Massimiliano Iacolucci), que ela sempre visita, tem a menor ideia do que ela faz para viver. Irene acredita que ajuda as pessoas.
Sua convicção é abalada quando ela conhece um novo cliente, o engenheiro Carlo Grimaldi (Carlo Cecchi). É no conflito entre os dois que vai se alicerçar uma amizade e muitas dúvidas. Irene ajuda as pessoas, como diz, pelas pessoas ou pelo dinheiro que recebe? Que pessoas devem se utilizar do seu serviço? Quem decide isso? Ela? A organização? Ou as próprias pessoas? Quais as semelhanças e as diferenças entre os outros casos e o do engenheiro?
A atriz Valeria Golino (Respiro) estreia na direção com esse longa, com um tema bem ousado e polêmico. Assina também como co-roteirista, partindo do livro de Mauro Covacich: A Nome tuo.
A ética que Miele (Irene) achava que possuía é testada, a ordem que impôs à sua vida é jogada por terra. A estranha amizade que se forma entre ela e o engenheiro Grimaldi vai fazer com que ela repense em tudo e, certamente, também o espectador. Até onde vai a liberdade de cada um? É uma das perguntas que faremos. Qual o sentido da vida? Toda dor é visível? Quem tem direito de julgar ou opinar sobre a vida do outro? Esses e muito mais questionamentos farão parte dos noventa e seis minutos desse filme intrigante, que deixa sua marca.
Indicações: Prêmio David di Donatello de Melhor Atriz.
Prêmios: Nastro d'Argento de Melhor Atriz, Nastro d'Argento de Melhor Diretor. Foi vencedor também de uma Menção Especial do Júri Ecumênico do Festival de Cannes 2013
O filme evita de forma inteligente qualquer tomada de partido, conveniência política ou religiosa", escreveu Natalia Aspesi.
A nova diretora (e roteirista) italiana já está no seu segundo longa, o filme Euforia, de 2018, sobre dois irmãos de temperamentos completamente diferentes, mas que uma situação difícil vai fazê-los se aproximarem, unidos, num turbilhão de fragilidade e ternura, medo e euforia. Já quero ver!
IMDB: 6,8/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,5/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Miele.
Nome no Brasil: Mel.
País: Itália, França.
Ano: 2013
Direção: Valeria Golino.
Roteiro: Valeria Golino, adaptação da obra de Mauro Covacich.
Elenco: Jasmine Trinca, Carlo Cecchi, Libero de Rienzo, Massimiliano Iacolucci.

