junho 2018 - Cinéfilos Eternos

sábado, 30 de junho de 2018

É APENAS O FIM DO MUNDO



Para quem curte um filme bem denso, esse é uma boa pedida. Que cara talentoso esse Xavier Dolan. Consegue extrair de cada ator a dramaticidade certa.
Louis se afastou da família há doze anos.

"É assim que após uns 12 anos de ausência, e apesar do medo, eu decidi voltar a vê-los".

Existe uma gama de motivações que vêm de nós mesmos, que não se relaciona a ninguém além de nós, que nos impulsiona a sair pela vida afora, a não olhar pra trás.
Da mesma forma, existe uma variedade tão grande de motivações quanto essa que nos fazem voltar.!"
A motivação de Louis era anunciar a sua morte iminente.

"Foi assim que após todos esses anos tomei a decisão de voltar atrás, de fazer a viagem, para anunciar a minha morte."

Seria justo isso? Depois de tantos anos privando a família do seu convívio, há tanta expectativa, tantas esperanças de retomar os laços, de talvez até recuperar o tempo perdido...
Mas não é por certo isso que Louis pretende:
"Anunciá-la eu mesmo e sentir o poder de dar a mim mesmo e aos outros a ilusão de estar até esse extremo senhor de mim mesmo."

Com um elenco fabuloso, fotografia e trilha sonora sensacionais, Dolan nunca me decepciona.
Apesar de receber o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio Ecumênico do Júri no Festival de Cannes de 2016, além de ter concorrido à Palma de Ouro, o filme foi vaiado em sua apresentação. Vai entender. Talvez por ser intimista ao extremo, nem todo mundo aprecia. Dependendo do gosto, sim, o filme pode ser exaustivo. Ele é composto o tempo todo de diálogos e nem sempre verbalizados. O personagem Louis quase não fala, balbucia e sorri. Mas é tão intenso, como não gostar?

Nathalie Baye, a mãe, que atriz! A princípio, parecia tão frívola, que fiquei em dúvida se era a mãe ou madrasta. Mas entendo ela, sou assim às vezes, entendo quando continuou terminando de pintar as unhas quando ele chegou. Sei como é, enquanto isso estava se preparando para o momento. E aquela cena em que ela passa perfume e chega perto dele e pede pra ele sentir o perfume, dizer se gosta? E então os dois se desarmam, se entregam naquele abraço que parecia não ter mais fim. E ela lhe diz: "Você pensa que eu não te entendo e não te amo. Eu não te entendo mesmo! Mas te amo muito!"
Léa Seidoux interpreta a irmã que quase não conviveu com o irmão, já que quando ele partiu ela ainda era pequena. Mas é tão carente dele, tão carente das coisas que poderia ter vivido com ele, das coisas que ele teve coragem de enfrentar e ela não tem.
Já Antoine (Vincent Cassel) é aquele babaca invejoso que disfarça sua frustração com ironias malvadas. Terá ele um pouco de razão? Sempre ficou ao lado da família mas parece que todas as atenções voltam-se para Louis. Também, Louis é um escritor, mora na cidade grande, ... Talvez Antoine seja o mais lúcido, aquele que percebe que Louis não voltou por ninguém, só por ele mesmo.
Catherine (Marion Cotillard) é a cunhada, de uma doçura, com aqueles olhos sempre ávidos de perceber a essência das coisas, das pessoas e ela mais que ninguém parece saber que Antoine sofre com isso tudo por trás de toda sua grosseria. Tem também aquele momento lindo em que ela e Louis se olham infinitamente e ela lhe diz com o olhar: "eu te entendo, também não pertenço a nada disso".

Adaptação de uma peça de teatro de mesmo nome, de Jean-Luc Lagarce, é o primeiro filme de Dolan com um elenco totalmente francês.
"Juste la fin du Monde" é daqueles filmes que você pensa: "preciso ver mais uma vez", há uma riqueza de detalhes que você quer rever, refletir, ou talvez haja tanta coisa que você deixou passar, é preciso voltar lá. É como se através do filme você pudesse talvez repassar sua própria vida. Quem sabe? Existem coisas sobre as quais pensamos poder ter controle. Mas não temos. Nem Louis.

IMDB: 
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Juste La Fin du Monde
Outros nomes: It's Only The End of The World
País: Canadá/ França
Ano: 2016
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan

Elenco: 
Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Léa Seydoux, Marion Cotillard e Vincent Cassel
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MOMMY



Antoine-Olivier Pilon é Steve, um rapaz ao mesmo tempo carinhoso e explosivo, em decorrência do TDAH.
Devido ao seu temperamento peculiar, ele tem vários problemas pelos colégios onde passa até que uma expulsão faz com que sua mãe (Anne Dorval) tenha que levá-lo para casa e cuidar dele integralmente, o que é um problema para ela. Die, como toda mãe, tem que se dividir entre o filho e outras tarefas mas além disso, ela é uma mãe peculiar, porque ela é tão perdida quanto Steve.

No meio de toda essa confusão, de onde menos se podia esperar ajuda, ela chega através de uma vizinha, Kyla ( Suzanne Clement), uma mulher com claros problemas emocionais.
O filme, embora de uma maneira confusa, mas ao mesmo tempo poética, é uma declaração de amor entre mãe e filho e talvez seja a redenção de Dolan por "Eu matei minha mãe" em 2009.
Dolan inclui nele uma fictícia lei, que permitiria aos familiares abandonarem os filhos problemáticos, que ficariam aos cuidados do Governo.Essa lei seria uma tentação e um conflito para diversas mães, com certeza.

Técnicamente, o filme usa de um recurso muito interessante e original, o formato quadrado, como a mostrar todos os sentimentos aprisionados e de repente, como numa explosão de emoções, vem a liberdade, e a tela se expande. E esse momento é tão bonito, ainda mais ao som de Wonderwall, de Oasis, que faz com que a nossa percepção se abra também, de uma maneira intensa e calorosa. 

Mommy é daqueles filmes que ao mesmo tempo que incomoda te encanta.
Recomendadíssimo!

*Prêmio do Júri, César de Melhor Filme Estrangeiro, entre outros.

IMDB: 8,1/ 10
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Mommy
País: Canadá
País: 2014
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Antoine-Olivier Pilon, Anne Dorval, Suzanne Clement.

TOM NA FAZENDA



Depois da morte de seu parceiro em um acidente, Tom (Xavier Dolan) viaja até a fazenda da mãe do rapaz para o funeral, e mais que isso, em busca de conforto, talvez até de uma amenização para o seu sofrimento. O que ele não sabe é que a mãe de seu noivo falecido não tinha ciência de que o filho era homossexual. E o problema é ainda maior quanto ao outro filho da senhora que também mora com ela, o problemático Francis (Pierre-Yves Cardinal), machista e com um histórico de violência. Francis é o único que sabia da sexualidade do irmão e obriga Tom a mentir para a mãe, evitando que ela sofresse mais. Dai em diante, Tom se vê sufocado dentro dele mesmo e perseguido por um cunhado desequilibrado, representando uma verdadeira incógnita, o que faz a história prender o espectador à poltrona por não ter qualquer chance de prever o que vem a seguir.
O longa é baseado em uma peça de Michel Marc Bouchard (que também divide os créditos do roteiro com o Xavier Dolan) e representa um avanço na carreira do excelente Dolan. Acostumado, até o então, com certos exageros estéticos e visuais em suas obras, Dolan foca nos personagens em Tom Na Fazenda, contudo ainda deixa a desejar no roteiro que parece não seguir um rumo só, deixando a sensação de que faltou algo. Ainda sim, o longa tem seus méritos, em especial pelas atuações. Cardinal entrega um rapaz completamente doentio e desequilibrado. Sua atuação é tão visceral que chega a causar medo. Já Dolan acerta o que muitos diretores que também atuam em seus filmes erram. Ele sabe aparecer na medida certa na frente da câmera, não se expõe demais em detrimento dos outros personagens e sua atuação é angustiante.
A história gira em torno da dificuldade de algumas pessoas em se livrar se certos sentimentos, deixar ir certos amores, desilusões, paixões, traumas... O próprio Tom vai até a fazenda e permanece nela, se autoflagelando, porque possuía essa dificuldade. Já para Francis a situação é mais complicada, pois o personagem nem sequer se entende e passa, em determinadas cenas, a impressão de que lutava internamente por um desejo reprimido de ser aberto como o falecido irmão, como o próprio Tom. Há muito erotismo nas cenas, em especial na luta final entre os dois rapazes. Mas essas suposições são do campo especulativo e cabe ao espectador analisar e discutir com outros.
Extremamente angustiante e claustrofóbico, Tom Na Fazenda pode ser considerado um dos melhores filmes de Dolan.

(Comentários e sinopse de Tom Carneiro)

IMDB: 7/ 10
Nota do Tom (Carneiro, rsrsrs): 8/ 10

Ficha técnica:
Nome original: Tom à La Ferme
Outros nomes: Tom at The Farm.
País: Canadá
Ano: 2013
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: 
Michel Marc Bouchard, Xavier Dolan.
Elenco: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

FRASES DE FILMES


LAURENCE ANYWAYS



Novamente a temática do AMOR nos filmes do Dolan.
Em "Eu Matei Minha Mãe" e "Mommy" é o amor entre mãe e filho.
Mesmo o primeiro falando sobre o homossexualidade e o segundo sobre transtorno de personalidade, o foco é o amor. Sempre o amor, em todas as suas formas.


Em, Laurence Anyways, o personagem (Melvil Poupaud) é um transsexual, mas o tema é apenas o pano de fundo para uma história de amor quase que visceral entre ele e sua mulher Fred (Suzanne Clément).
Os personagens dos filmes que Dolan dirige são complexos, é sofrido amá-los. Mas é justamente aí é que está toda a beleza. Amar o simples é fácil. Ser calmo quando não existem problemas é fácil. Mas os amores dos filmes do Dolan beiram ao ódio. É como se ele buscasse a verdade sobre o amor incondicional. É como se ele próprio precisasse provar que esse tipo de amor existe. Ou que deseje atrair esse tipo de amor para ele. Se amamos os personagens dele, podemos amá-lo também.

A história: é aniversário de Laurence e Fred resolve presenteá-lo com uma viagem a NY, achando que o deixaria feliz com essa surpresa. Mas quem ficará surpreendida é ela. Laurence diz que não quer fazer viagem nenhuma, que ele está sufocado, que precisa falar, que não pode deixar passar mais nenhum dia sem lhe revelar que deseja se tornar mulher.
Fred fica chocadíssima mas o seu amor por ele é tanto que resolve ajudá-lo. Tudo, menos ficar longe dele.
Será possível viver um amor assim, ao mesmo tempo tão intenso quando complicado?

Profissionalmente, Laurence, que era um respeitado e admirado professor, tinha a ilusão que o fato de se vestir de mulher não mudaria a forma como era visto. Mas se enganou.
Também não será fácil com relação aos seus pais e amigos.
Pra piorar, Fred, por mais que deseje, não segura a onda e entra em depressão. A vida do casal toma rumos inesperados, mesmo com a dimensão do amor deles.

Fora o drama, o filme usa uns efeitos estéticos muito interessantes, como a cena em que o casal está jantando e os figurinos deles estão em total harmonia com as paredes que estão atrás de cada um. 
E a cena em que ela recebe o livro de poesias que ele escreveu e, à medida que lê, sentada no sofá de sua sala, é como se estivesse chovendo muito, uma tempestade de lágrimas, uma explosão de sentimentos, inundando todo o ambiente.


Os anjinhos barrocos mais uma vez aparecem aqui e ali, penso que são a assinatura do Xavier Dolan. E também as borboletas. Tem uma cena em que sai uma delas da boca do Laurence. As borboletas, que são símbolos de transformação e da liberdade. Linda a cena em que parecem voar um monte de peças de roupas, lembrando a cumplicidade que ele tinham

O filme deixa uma questão: o preço que pagamos para sermos autênticos, olharmos no espelho e nos reconhecermos, vale a pena? Com quem deve ser o nosso maior compromisso?


Sendo que mudanças pessoais podem influenciar mudanças sociais. Se ninguém tiver coragem, os paradigmas não serão alterados, nunca. Então, quando temos um compromisso de sermos verdadeiros com nós mesmos, assumimos ao mesmo tempo com a humanidade.



"- É uma revolta?
  - Não, é uma revolução."

Aos impacientes, aviso que o filme tem quase 3 horas de duração, 168 min, mas para os que decidirem embarcar nessa aventura com o sentimento, acredito que amarão.



IMDB: 7,6/ 10
Minha nota: 3,8/ 5



Ficha técnica: 
Nome original: Laurence Anyways
País: Canadá/ França
Ano: 2012
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Emmanuel Schwartz

AMORES IMAGINÁRIOS



Não pude deixar de comparar o Nicolas (Niels Schneider) com o Tadzio, personagem do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti. Achei-os inclusive parecidos fisicamente, aquele jeito de anjo louro sedutor. Em Morte em Veneza, Gustav é um compositor austríaco que vai para Veneza, buscando repouso, porém não encontra a paz desejada porque desenvolve uma paixão doentia pelo jovem Tadzio, que incorpora o ideal de beleza que ele sempre imaginou.
Em Amores imaginários, Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokri) são amigos inseparáveis e conhecem ao mesmo tempo Nicolas, que acaba de se mudar para Montreal. 
Nicolas passa a representar tudo o que eles imaginaram numa pessoa e eles ficam obsessivamente apaixonados por ele, ao ponto da disputa abalar a antiga amizade.
De uma certa forma, Nicolas alimenta a paixão dos dois, se mostrando sempre encantador e atencioso e deixando dúvidas sobre se é hétero ou homossexual.
O duelo entre os amigos é sugerido pela canção Bang bang quando eles se preparam para ir a um café para encontrarem Nicolas.
Francis e Marie estão sempre tentando se encontrar a sós com o objeto de desejo deles, mas Nicolas acaba sempre convidando os dois, formando-se assim um triângulo amoroso, que embora platônico, é coberto de emoções.

O que podemos dizer do tema do filme? Amores imaginários? Mas não serão todos os amores entre um casal imaginários? Na minha opinião, quando nos interessamos por alguém, vemos nessa pessoa as qualidades que procuramos para amá-la. Eu penso que amamos o amor, não a pessoa. Amamos o que imaginamos. A partir daí, também nos esforçaremos em ser ou fingir ser aquilo que vai agradar à pessoa amada. Porque não queremos decepcioná-la. Mais pra frente, os véus vão caindo e começa a desilusão.
O filme é entremeado de depoimentos de pessoas que sofreram ou estão sofrendo decepções amorosas.
Novamente a temática amor nos filmes do Dolan. 


IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Les Amours Imaginaires.
Outros nomes: Hearbeats
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider, participação especial no final de Louis Garrel..

FRASES DE FILMES


EU MATEI MINHA MÃE



Nossa, dirigir um filme deve ser fácil demais. Não? Então como esse rapaz com apenas 19 anos conseguiu fazer essa beleza de trabalho já no seu primeiro longa?
Além da direção, Xavier é o produtor e ainda assina o roteiro, que escreveu aos 16 anos e é semi autobiográfico.
Ele também é o protagonista, Hubert Minel, um adolescente em conflito, por achar que odeia a mãe.

Chantale (Anne Dorval), como muitas mães que criam o filho sozinhas, precisa se dividir entre o trabalho que dá o sustento à família e os serviços de casa, além de dar atenção a Hubert.
Que além de tudo só sabe criticá-la ou então nem conversa com ela. Onde terá ido parar aquele menino com quem tinha tantas afinidades, com quem dividiu tantas coisas, tantos sonhos?

Hubert também sente falta daquela época, mas atualmente a mãe só o irrita, o constrange. Ele tem vontade de matá-la às vezes.

Uma história normal, mas é contada de uma maneira tão intensa, tão visceral. 
Me identifiquei diversas vezes com Chantale ao mesmo tempo que me coloquei no lugar de Hubert e entendi a raiva dele. O amor, principalmente o familiar, é complexo, porque envolve culpa. 
E no caso dos adolescentes, cada frustração, cada não recebido da mãe, é entendido como uma grande maldade, tudo vira um drama colossal.

A história de Hubert se complica porque ele é homossexual e a mãe do seu namorado Antonin (François Arnaud) é totalmente liberal, o que o faz inevitavelmente comparar a mãe com ela.

Não se preocupe com o título, "Eu matei minha mãe" não é literal, na verdade é uma declaração de amor entre mãe e filho.

Há muita coisa envolvida, Chantale tem medo de errar na disciplina com Hubert, ela também se ressente com ele, nem sempre tem paciência, talvez a vida a tenha endurecido, talvez não esteja sabendo mais demonstrar pra ele o quanto o ama.
Talvez nem soubesse mais o quanto o ama.
Tanto que quando ele revoltado lhe pergunta "Se eu morresse hoje, o que você faria?", ela para pra pensar e o ônibus vem e ele vai embora sem escutar a resposta dela: "Eu morreria amanhã".

A história é simples, mas é contada com grande eloquência, é um filme intimista e envolvente. Eu diria ainda genial!



IMDB: 7,5/ 10
Minha nota: 3,9 / 5

Ficha técnica:
Nome original: J'ai Tué Ma Mère
Outros nomes: I Killed My Mother
País: Canadá
Ano: 2009
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Anne Dorval.


PRIMAVERA



Um idílico vilarejo na costa italiana... uma jovem bonita e interessante que o seduz... um emprego em uma fazenda...
Nada mal para quem precisava recomeçar sua vida. Evan é americano e acaba de perder sua mãe e, além da tristeza, um sentimento de abandono toma posse dele, porque ela era toda a sua família, ele está só no mundo. No dia do seu funeral, ele se mete em uma briga e fica também sem o emprego. Ele conhece uns caras que o convidam para dividir a gasolina e fazer turismo da Itália. É quando conhece Louise, uma estudante de Ciências, sensual, mas também muito misteriosa. O dono da fazenda gosta dele, é um outro solitário. O emprego propicia a Evan um lugar para dormir, aprender a língua e a oportunidade de se aproximar de Louise.
Um romance começa a florescer entre os dois, Louise é divertida, meiga, inteligente, a lua e o mar azul, azul, azul, ajudam, e os lugares incríveis, praças enormes, cafés e bares em locais que parecem escavados nas pedras, basílicas, museus e igrejas antigas, universidades onde estudaram poetas italianos famosos, um forte contexto histórico e cultural que remete ao passado, ... 
Um amor que desabrocha como a primavera... 
Mas Evan não demora a perceber que ela esconde um segredo.

O filme mescla comédia romântica com horror. A linda fotografia e a bela trilha sonora, composta por Jimmy LaValle encantam os sentidos, mas coisas estranhas começam a acontecer. Coisas bem estranhas...
Sim, é claro que a condução de algumas cenas levam ao velho clichê de que devemos aceitar as diferenças, à reflexão que também temos as nossas bizarrices, mas nem por isso as cenas de terror deixam de ser competentes e originais.
IMDB: 6,7/ 10
Minha nota:

Ficha técnica:
Nome original: Spring.
País: EUA
Ano: 2014
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Lou Taylor Pucci, Nadia Hilker, Francesco Carnelutti

quinta-feira, 28 de junho de 2018

ANIVERSARIANTES

Sabe aquele momento da vida que você tem a oportunidade de fazer parte da história de um produto de sucesso, mas simplesmente recusa? Foi exatamente o que aconteceu com o ator americano John Cusack quando recebeu um telefonema por parte de Steve Jobs. Jobs explicou que tinha intenção de fazer um comercial para um novo produto, usando o personagem do filme. Este novo produto era o iPod.
"Eu simplesmente disse “Eu não quero fazer um comercial”. Mas agora que eu penso em tudo isso, se eu tivesse feito, ele poderia ser “o” comercial. "

ANIVERSARIANTES

O papel que ela interpreta em Misery, película baseada no livro de Stephen King, como Annie Wilkes, é considerado como uma das melhores interpretações femininas da história do cinema e deu a ela o Oscar de 1990.

SIMPLESMENTE MARTHA



Bella Martha, nome original do filme da diretora Sandra Nettelbeck, é uma produção alemã, lançada em 2001, que conta a história de Martha Klein, a obstinada e perfeccionista chef de cozinha de um refinado restaurante de Hamburgo.
Prepare seus sentidos. A fotografia inspirada de Michael Berthl nos coloca no clima de uma cozinha de primeira linha, com os ingredientes sendo cortados e preparados com enorme capricho. Dá quase para sentir o cheirinho das deliciosas iguarias preparadas por Martha e por seus auxiliares.
"Não se pode pensar direito, amar direito, dormir direito, se não se jantar direito", observou uma vez a escritora Virginia Woolf.
Ao longo do filme, a relação entre saborear a vida e os alimentos vai se tornando cada vez mais clara. Martha se agarra no concreto das receitas, no sensorial dos gostos e cheiros, da limpeza e ordem externa. Quem sabe se para não olhar para sua vida pessoal, que é sem graça e solitária. Séria e compenetrada, ela cobra de sua equipe a mesma dedicação e, consciente do seu trabalho, não admite nenhuma crítica por parte dos clientes. O que causa alguns problemas para a dona do restaurante, que faz um acordo com ela: se ela quiser manter o emprego, tem que concordar em fazer terapia.
Mas Martha não se desliga de suas receitas e combinações nem durante suas sessões com o terapeuta:
"As trufas são perfeitas com qualquer prato com pombo, pois o delicado sabor da ave…"
Ele lhe pergunta o que a levou lá, ela responde que foi sua patroa que mandou. "E por quê ela te mandou fazer terapia?", pergunta ele. "Não faço a menor ideia", responde ela. A nossa Chef acaba ensinando receitas para ele. Ao provar um doce que ele fez, ela diz que está diferente e lhe explica que ela fica atenta ao ingrediente que ele não usou. O que seria uma boa dica para esse terapeuta, não é? Que tal ele prestar mais atenção ao que ela não fala?
Quando um acidente leva sua irmã, Martha se vê com a difícil tarefa de cuidar de sua sobrinha de oito anos. Não vai ser nada fácil, porque além dela ser totalmente envolvida com o trabalho, ela não sabe lidar com Lina. A única coisa que ela sabe fazer é cozinhar e a sobrinha se recusa a comer.
A entrada de Mario (Sergio Castellito) na história e na cozinha de Martha, já que a dona do restaurante está preocupada com o andamento das coisas vai trazer desconfiança por parte de Martha e descontração para a equipe. O Sou Chef é um extrovertido cozinheiro italiano, que coloca músicas e faz todo mundo dançar.
O filme consegue dosar drama e comédia na medida certa e é obrigatório para os amantes de "food movies". Está bem que é meio clichê, mas isso não tira o seu "sabor". Conquistou 14 prêmios e outras cinco nomeações e teve um remake americano, o filme Sem Reservas, com Catherina Zeta-Jones e Aaron Eckart.
IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 3,5/ 5.

Ficha técnica:
Nome original: Bella Martha.
Outros nomes: Mostly Martha.
País: Alemanha/ Itália.
Ano: 2001
Direção: Sandra Nettelbeck
Roteiro: Sandra Nettelbeck, Bettina Helmi, Michael Berti,
Elenco: Martina Gedeck, Sergio Castellito, Maxine Foerste, Ulrich Thomsen, August Zirner, Diego Ribon. Participação de Sandra Nettelbeck.

Cena do filme Sem Reservas,
com Catherina Zeta-Jones e Aaron Eckart.

A GAROTA NO TREM



Três mulheres: uma, a Anna, é casada com Tom e tem uma filha. Megan também é casada, ela e Luke moram numa linda casa próxima a de Anna. Luke quer muito ter filhos mas Megan não quer. Megan trabalha na casa de Anna e cuida do seu bebê. A terceira chama-se Rachel e não tem nada: nem casa, nem marido e nem filhos. Também perdeu seu emprego. Mora na casa de uma amiga, que pensa que ela ainda trabalha, porque sai todos os dias cedo e volta horas depois.
A amiga não sabe, mas Rachel passa seus dias viajando em um trem, todos os dias passa pelos mesmos lugares. Passa pela casa de Megan e de Anna. Rachel fantasia que é Megan, que mora naquela linda casa, que é feliz com o marido, que daqui a pouco terão um filho, um lindo filho. Seu pensamento percorre o jardim da casa de Megan, sua varanda, os aposentos de sua casa, dorme abraçada com seu marido...
Seus devaneios são interrompidos quando o trem passa pela casa de Anna. Ela não quer olhar, mas não resiste. É mais forte que ela.
Na verdade Rachel é a ex-mulher de Tom. Aquela casa já foi dela. 
Rachel escolheu cada móvel daquela casa. Da janela do trem ela os observa, felizes, com a filha nos braços. Pensa que aquela vida deveria ser a dela.
Rachel Watson sofre de depressão e alcoolismo. E não lida nada bem com o seu divórcio. Ronda a casa do ex, liga insistentemente pra casa dele e para o celular dele. Uma vez, enquanto Anna dormia, Rachel entrou na casa e pegou o bebê. Ela disse que só queria segurar. Mas Anna sente-se ameaçada.
Um dia Rachel acorda em casa toda suja de lama e de sangue e toda machucada, mas não se lembra de nada. Ela já teve várias vezes essas ausências quando bebia demais. Mas agora está chocada com seu estado. 
Ao mesmo tempo uma mulher desaparece perto de onde ela foi vista bêbada. 
E ela se vê totalmente envolvida na situação.
A história dessas três mulheres vai com certeza se entrelaçar.

O filme nos faz refletir o quanto é tolice desejarmos ter a vida dos outros. Por trás das aparências, nunca sabemos realmente o que se passa nas vidas e nas mentes deles. Além do mais, mesmo se alguém é muito feliz hoje não sabemos sua vida de amanhã. Por isso é sempre melhor ficarmos com nossa própria vida e tentar vivê-la da melhor forma.
O começo do filme é meio confuso, mas depois vai tomando forma.
É uma pena que não foi dirigido por um diretor mais experiente, seria um filme e tanto. Mas mesmo assim, vale à pena.

O roteiro é adaptado do livro de mesmo nome, da escritora Paula Hawkins, que foi um fenômeno editorial. Eu não li o livro, o que ajuda a gostar mais do filme.



IMDB: 6,5/ 10
Minha nota: 3,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Girl on The Train
País: EUA
Ano: 2016
Direção: Tate Taylor
Roteiro: Erin Cressida, baseado na novela de Paula Hawkins.
Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Justin Theroux, Luke Evans, Edgar Ramirez.

A GAROTA DO LIVRO





Alice sempre quis ser escritora, mas o seu instinto criativo parece estar bloqueado por um segredo do passado. Nem tão segredo assim, bem que ela tentou contar, mas seus pais não acreditaram nela. Ela sempre se sentiu ignorada e invisível. Mesmo sendo filha de um poderoso agente literário, tudo o que ela conseguiu nos seus 29 anos de vida foi procurar novos talentos para uma editora.
Quando ela é convocada para trabalhar no relançamento do livro de Milan Deneker, grande amigo de seu pai, ela é envolvida no turbilhão de lembranças que lhe provoca a história, porque simplesmente, embora todos os mais próximos finjam ignorar, ela é a garota do livro.
Alice precisará enfrentar seus demônios para finalmente poder se reencontrar.

Emily VanCamp ficou conhecida por seu trabalho em duas séries conhecidas: Everwood e Revenge. 
Michael Nyqvist, lembram dele? Era o jornalista Mikael Blomkvist na versão original e sueca "Os homens que não amavam as mulheres", aliás, de toda a trilogia Millennium, de Stieg Larsson.

Quanto à Marya Cohn, é sua estréia como roteirista/ diretora.
É óbvio desde o princípio que Alice é a garota do livro, não vejo o porquê da crítica pois não creio que a diretora quis criar nenhum suspense com isso. 
É mais uma reconstrução dos fatos e para mostrar a densidade psicológica da protagonista. Mas a narrativa é feita de uma forma bem interessante e as interpretações são muito boas. Recomendo sim.


IMDB: 6,2/ 10
Minha nota: 3/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: The Girl in the Book
País: EUA
Ano: 2015
Direção: Marya Cohn
Roteiro: Marya Cohn
Elenco: Emily VanCamp, Michael Nyqvist, Ana Mulvoy, David Call.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

ANIVERSARIANTES

Em 2015, uma importante revista americana, a Variety, divulgou uma lista com os 20 astros que se destacaram por suas atuações em novas séries deste ano e um famoso brasileiro foi citado na publicação. Segundo os críticos, a interpretação de Wagner Moura como o narcotraficante Pablo Escopar em “Narcos”, da plataforma Netflix, foi uma das melhores de 2015

ANIVERSARIANTES

Isabelle Yasmine Adjani é uma atriz francesa; foi indicada duas vezes ao Oscar e premiada cinco vezes com o César, o mais importante troféu do cinema francês.

terça-feira, 26 de junho de 2018

ANIVERSARIANTES


THOROUGHBREDS



Eu não ia postar esse filme porque achei bem doentio. Me lembrou o Almas Gêmeas, do Peter Jackson. Eu tinha o dvd desse do Jackson e até dei, mesmo sendo, se não me engano, o primeiro filme da Kate Winslet. Em Heavenly Creatures (nome original) duas adolescentes criam uma amizade tão obsessiva ao ponto de resolverem matar a mãe de uma delas, que estava proibindo a estranha ligação. Thoroughbreds é sobre duas amigas também, Lily ( Anya Taylor-Joy, de A Bruxa, Fragmentado) e Amanda (Olívia Cooke, de Bates Motel). Também adolescentes, elas se juntam para bolar um plano para assassinar o padrasto da Lily. Para isso, elas vão tentar convencer Tim a fazer o serviço sujo. Tim é interpretado pelo ator Anton Yelchin (Star Trek, Sala Verde), que morreu precocemente aos 27 anos em um infeliz acidente em sua residência. Isso foi em 2016, embora esse filme seja de 2018. Acredito que foi sua última atuação.
Bem, Lily e Amanda já se conheciam, eram meio que "amigas" de infância e a mãe de Amanda contrata Lily para lhe explicar sobre algumas matérias, acho que mais pra as duas se reaproximarem. Penso que numa tentativa de melhorar o comportamento bem esquisito da filha. Amanda é aquela típica adolescente que não se interessa por nada, não tem amigas, nem namorado e nem uma relação boa com a família. Mais tarde ela revelará a Lily que não tem sentimentos. Seus pensamentos são movidos apenas pelo racional. A confissão, em vez de assombrar a Lily, muito pelo contrário, meio que a fascinou.
Amanda passa então a frequentar a casa de Lily e percebe que esta sente-se muito incomodada e intimidada com a presença do seu padrasto. É quando ela lhe sugere matá-lo. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Atenção para o foco do filme, pois muito mais que toda a trama do crime, o que importa é se traçar o perfil das duas jovens. Com diálogos interessantes, as duas personagens são muito bem interpretadas.
O suspense/comédia de humor negro, dirigido pelo estreante Cory Finley, foi muito elogiado pela crítica internacional nos festivais de Sundance e de Londres,
IMDB: 6,9/ 10
Minha nota: 3,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Thoroughbreds
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Cory Finley 
Roteiro: Cory Finley 
Elenco: Anya Taylor-Joy, Olívia Cooke, Anton Yelchin.

Por que acabei postando? Porque li algumas explicações sobre o filme que não concordo de jeito nenhum. Eis a minha opinião:
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O grande lance do filme é que Amanda, aparentemente perigosa, acaba sendo totalmente manipulada por Lily, personalidade fria e dissimulada

A PELE DE VÊNUS



A Vênus das peles, de Sacher-Masoch, foi publicado originalmente em 1870 e narra, pela primeira vez, com detalhe e clareza, a submissão sexual e existencial, ao mesmo tempo dolorosa e prazerosa, servil e libertária – pois se trata de servidão voluntária –, de um homem a uma mulher. O livro não é apenas a obra fundamental do masoquismo, é também uma das obras fundamentais da cultura contemporânea, em que a liberdade e a realização individuais se alimentam reciprocamente.
Baseada no livro, o dramaturgo norte-americano David Ives fez a peça teatral A Pele de Vênus, que Polanski, magistralmente, adaptou para o cinema.
Na sua melhor interpretação, Emmanuelle Seigner é Vanda, uma atriz que vai fazer um teste para a peça teatral de Thomas (Mathieu Amalric). Ela chega muito atrasada, encharcada de chuva e não tem mais ninguém lá, além do próprio Thomas, que está ao telefone, desabafando sobre a dificuldade para encontrar uma atriz à altura do papel principal. Esgotado, ele não quer atender á inconveniente e insistente Vanda. Ela nem de longe faz o perfil da mulher que ele procura. Mas ela chora, suplica e ele finalmente cede e aceita fazer o papel masculino, já que todos se foram. E ela o surpreende de uma forma contundente. Ela sabe todo o texto de cor e sua interpretação é tão convincente que personagens e atores se confundem, papéis se invertem, é ela, Vanda, quem está no comando em vez do diretor da peça. Vanda quer a todo o custo o papel e não aceita um não como resposta e começa a tornar-se cada vez mais dominante e provocante. Erótica, Thomas está cada vez mais submisso a ela, ao mesmo tempo que uma forte atração toma conta dele. A tensão sexual está no ar.
A trilha sonora de Alexandre Desplat é o complemento para essa mistura de teatro e cinema. São 96 minutos no mesmo local e com apenas esses dois atores. E mesmo assim, você não vai conseguir piscar.
Os dois atores já contracenaram em O Escafandro e a Borboleta e na vida real, Emmanuelle é casada com Polanski, com quem tem dois filhos.
O filme proporciona uma reflexão sobre como o poder pode mudar de mãos. Provocativo e desconcertante, o embate entre os personagens aborda temas como o sexismo, a misoginia e o machismo.
"Em nossa sociedade a mulher só possui poder através do homem. Gostaria de saber o que seria da mulher quando ela se iguala ao homem. Quando ela se torna ela mesma".
O final é sensacional. Misturando personagens mitológicos e elementos de tragédia grega.
"Ela já havia preparado tudo antes de entrar ali?"
IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Vénus à la Fourrure
País: França/ Polônia.
Ano: 2013
Direção: Roman Polanski.
Roteiro: Roman Polanski (adaptação para o cinema da peça teatral homônima)
Elenco: Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

RESOLUTION



Vi Resolution na tentativa de tirar as dúvidas da continuação dele, The Endless. Tipo ver Better Call Saul depois de Breaking Bad. Resolution é uma produção independente de baixo orçamento, dirigido com competência por Justin Benson e Aaron Moorhead. Benson também assina o roteiro. Classificado como terror, mas é um terror sutil, o clima é tenso o tempo todo, daqueles que estão mais para fundir a cuca.
Tudo começa quando Michael (Peter Cilella) recebe uma fita com uma gravação do seu amigo drogado e um mapa de sua localização, o que ele interpreta como um pedido de ajuda. Ele deixa sua esposa grávida e parte para o que ele considera ser uma missão. Talvez Michael deseje ter alguma coisa para se orgulhar e contar para o filho que vai nascer.
Michael resolve prender Chris (Vinny Curran) com uma corrente, de forma que ele não tenha acesso às drogas nem às bebidas, dentro da cabana que depois ele vem a saber que foi ocupada ilegalmente pelo amigo e que está localizada em uma reserva indígena. Outro problema que ele tem que resolver. Ele pede para ficar por cinco dias e paga pelo aluguel. Não bastasse isso tudo e aturar as súplicas e as tentativas de Chris para ser desacorrentado, além do assédio de dois drogados, coisas estranhas começam a acontecer, fitas e fotos estranhas aparecem em todos os lugares, como a mandar um recado. E outra: Chris afirma que não foi ele quem mandou aquela fita para Michael.
Os dois amigos terão enfim muito tempo para se lembrarem e talvez se arrependerem de alguns atos praticados no passado, numa jornada de auto-conhecimento e reaproximação.
Mike só sai da cabana para comprar alguma coisa e caminhar. Numa dessas caminhadas, onde torce o pé, ele conhece um sujeito que mora em um trailer e que o convida para tomar um chá. Ele lhe diz que veio para o local com mais dois franceses, que diziam procurar um monstro, mas que desapareceram e que só ele acabou ficando, não conseguiu sair mais e nisso já estava por lá há trinta anos. Também o tal sujeito era chegado a umas ervas que trouxe da América do Sul. O cara era meio sinistro, começou a fazer uns lances com espelho e Michael, desconfortável, agradece a aspirina e resolve ir embora. Será que era mesmo aspirina? O sorrisinho do morador do trailer diz que não, o que nos leva a pensar se tudo não passa de alucinações provocadas pelas drogas, porque parece que todo mundo se droga naquele lugar.
Somos convidados a embarcar nessa aventura, novamente aqui, como em The Endless, não sabemos o que é real e o que é imaginário. Pior: nos questionamos sobre o que é a realidade afinal. Como em O Show de Truman, será que estamos apenas interpretando papéis em um cinema maior? 
Costumo dizer que o cinema, ou um livro, passa a ter vida própria da feita que começa a ser elaborado. O diretor passa a ser dirigido pelo próprio filme, o roteiro e as cenas começam a surgir, independentes da vontade do seu criador, brincando com seus limites.

Bem, e aí, quem viu? Alguém sabe me dizer o que significam afinal aqueles desenhos tribais, o que se esconde naquelas cavernas? Fala-se de uma seita de adoração ao demônio. Serão alienígenas que estão por ali? Qual a finalidade daqueles estranhos objetos (fotografias antigas, livros velhos, rolos de filmes)? Será que é apenas uma comunidade de traficantes que quer afastar as pessoas do local? Quem é o misterioso francês que mora no trailer? Por que ele nunca foi embora? Ah, e o que serão aquelas luzes alaranjadas que parecem flashes? Se não foi o Chris, quem enviou o vídeo para Mike? E o final, hein, o que foi aquilo??? Você não sabe? Hahaha, nem eu. Podemos supor várias coisas, diferentes pessoas terão diferentes explicações. Se você não gosta de finais abertos, não veja, porque Resolution, assim como sua continuação, The Endless, não entrega respostas. Na verdade, tenho a minha teoria, mas não vou dizer.
Mas assim como The Endless faz uma analogia com a rotina que nos devora, Resolution é também um filme sobre a amizade. O outro filme deles, Spring, também envolve bizarrices, porque é sobre um casal em que um deles é um monstro, mas fala principalmente sobre o amor. Então Benson e Moorhead usam sempre uma mensagem subliminar.
IMDB: 6,2/ 10
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Resolution
País: EUA
Ano: 2012
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Peter Cilella, Vinny Curran, com a participação de Aaron Moorhead e Justin Benson.


O CULTO



Eu acho que o filme fala basicamente sobre o medo.
"O sentimento mais forte e mais antigo do ser humano é o medo, e o medo mais forte e mais antigo é o medo do desconhecido".
O que o ser humano mais deseja? Ser imortal. E o que o ser humano mais teme? A morte. Mas, pelo menos para os que acreditam na continuidade do espírito, é necessário que o corpo morra, é preciso nos despojarmos dessa roupa, muitas vezes já velha e cansada, às vezes doente, para realizarmos esse sonho.
O fato é que não deveríamos ter medo da morte, já que só podem acontecer duas coisas: não existir nada depois e então não sentiremos nada; ou existir vida após dela, a constatação de que nosso espírito, ou nossa alma, é uma energia e vai continuar fluindo.
Então por que temos medo? E não diga que não tem, todo mundo tem. Porque é o desconhecido. Acreditamos, enquanto vivos, ter controle sobre tudo. Precisamos acreditar que temos os pés no chão. No entanto, pisamos em um planeta que está "solto" no universo, às vezes estamos de cabeça pra baixo, se bem que não sei onde é o cima e onde é o baixo. Eu tenho uma mania quando estou sozinha, assim numa praia, aperto os olhos e olho para o horizonte e tento "ver" o que vem depois. Não depois daquela linha, porque é só mais água, mas fora, ... tento me ver, assim como se estivesse em um barco no meio do mar, além disso, em um planeta no meio da imensidão.
No filme Vida Selvagem, Paco diz que na natureza tudo é redondo, que quem inventou o quadrado foi o homem. Porque o quadrado é uma forma que delimita os espaços, dá controle ao homem. Mas na verdade não temos controle sobre nada. Não sabemos onde é o fim e muito menos o que representa o fim. E nem se existe o fim, não é? É a tal teoria do infinito, que eu acho muito estranha. Mas se existe um fim, o que vem depois do fim é o nada. O nada é o que há de mais assustador. Vivemos em círculos, em ciclos, preferimos nos apegar à nossa vidinha quantas vezes sem graça do que ir além.
Alguns ciclos são menores, como o dia, dormimos, acordamos, trabalhamos, comemos, e dormimos de novo. Acredito que o filme promova uma analogia com as rotinas de nossas vidas. Alguns ciclos são maiores, mais estimulantes. Quanto mais medo, menores os ciclos, maior a rotina. Inventamos monstros para não nos expandirmos, mas os monstros estão dentro de nossas cabeças. "Não olhe para eles, siga somente sua bússola e saia correndo", aconselha um personagem do filme.
Em O Culto, Justin convence seu irmão mais novo a fugirem da comunidade onde vivem. Mas de nada adiantou, a comunidade estava dentro deles, impedindo-os de viver, era o monstro deles. Depois de dez anos, eles resolvem voltar em busca de respostas.
Mas há respostas? Pelo menos não no filme, o longa não entrega respostas, só perguntas.
Justin e Aaron são interpretados pelos próprio diretores, Justin Benson e Aaron Moorhead. O filme deles, Resolution, de 2012, uma produção de baixíssimo orçamento, é considerado um desafio conceitual ao espectador. Depois desse, eles fizeram Spring, em 2015, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto.
The Endless é um filme que pode ser perturbador, mas não considero que seu gênero seja terror, mas que transita por ele. Porque o fato de não sabermos o tempo todo o que é real ou não nos deixa bastante desconfortáveis. Por exemplo, na tal comunidade pode-se ver três luas. Que para mim simbolizam o passado, o presente e o futuro. Uma lua só representa que tudo é uma coisa só. Já que o filme também brinca com o tempo. O fato é que está fazendo sucesso em diversos festivais do mundo e ganhando seu espaço.
Afinal, o que acontece naquele lugar? É um portal? São aliens? Talvez algum local amaldiçoado? O que significam todos aqueles símbolos tribais? E aquele monte de fitas e fotos? Ou será que tudo não faz parte da imaginação dos assustados Justin e Aaron? Quando eu era criança, eu tinha muito medo de cachorros. Alguém me ensinou que eu tinha que disfarçar quando passava perto de um, porque o cheiro do medo os atraía. Será que o medo é como um espelho, projeta fora de nós o que tememos?
Em busca de respostas, eu fui ver o Resolution, que é anterior. The Endless é uma continuação de Resolution. O que posso dizer é que não esclareceu nada, apenas eliminou um ou duas possibilidades. Pode ser que tenha um terceiro filme, não é?
E a pergunta que fica é: você voltaria a um local de onde fugiu há dez anos atrás, de um lugar onde acredita que acontecem coisas bizarras? Ou: você enfrentaria os seus monstros?
IMDB: 6,7/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Endless
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson.
Elenco: Aaron Moorhead, Justin Benson, Tate Ellington, Callie Hernandez.