julho 2018 - Cinéfilos Eternos

terça-feira, 31 de julho de 2018

O CONTO



Diretor: Jennifer Fox, roteiro: Jennifer Fox, personagem: Jennifer Fox. Sim, esta é uma história real, contada aqui corajosamente.

Incrível como a nossa mente cria mecanismos de defesa, eu mesma desenvolvi um quando preciso dormir, mas acordo toda hora preocupada com minha filha que está na rua: passei a sonhar que ela chegou!
Jennifer já está com 48 anos, quando sua mãe encontra um conto que ela escreveu aos treze. Jenny tenta tranquilizar a mãe, que ficou visivelmente perturbada pelo teor do conto. A mãe acredita que ela precisa lembrar e manda o conto para ela. Jenny começa a ler, mesmo convencida que aquilo faz parte do passado e que não teve tanta importância assim.
Mas aos poucos memórias vão surgindo, lembranças que incomodam. As percepções de uma época são traiçoeiras, principalmente as da infância, jamais conseguiremos lembrar e sentir sob a mesma dimensão.
Jenny tinha a Srª G, como um ídolo, para a adolescente ela era enorme, não só de tamanho, como de beleza, de elegância, de charme, impossível não ficar magnetizada ao olhar para ela. Jane Gramercy, a Srª G era sua instrutora de montaria. Depois veio Bill, o outro treinador da equipe. Jane e Bill lhe contaram que tinham um caso e lhe pediram segredo. Confiaram nela! Eles estavam sempre lhe dando atenção e elogiando. Pode ser bobagem, mas para a filha mais velha de uma família de seis filhos que se considerava quase invisível em casa era muito. Os acontecimentos que se seguiram estavam narrados no conto.
A Jenny adulta tenta boicotar a história verdadeira, achei demais quando a diretora coloca no filme as duas cenas, a primeira quando a protagonista se vê aos treze anos como uma moça feita. Na verdade, ela era pequena, pouco desenvolvida, quase uma criança. Como comentaram, chegava a parecer até um menininho!
O filme trata sobre um tema muito perturbador e sobre suas consequências. Jenny achava que não tinha esquecido, mas ela lembrava à sua maneira, romantizava, sentia mesmo um certo orgulho por ter virado a página, por ter transformado tudo em uma carreira brilhante, por ter até escrito um conto!
"Eu não sou uma vítima", ela dizia, "eu sou uma heroína".
Mas a mãe de Jenny, embora arrasada com a descoberta, sabia que ela precisava ir fundo nas suas lembranças para realmente se libertar e poder seguir adiante.
The Tale arrebatou aplausos após sua exibição no Festival de Sundance 2018.

IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Tale.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Jennifer Fox
Roteiro: Jennifer Fox
Elenco: Laura Dern, Isabelle Néllise, Ellen Burstyn, Elizabeth Debicki, Jason Ritter, Common.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

ANIVERSARIANTES


AS BOAS MANEIRAS




Nossa, que filme mais louco e mais lindo, mais bizarro e poético ao mesmo tempo...
Fala sobre a solidão...
sobre a rejeição...
a solidão de viver só
a solidão de ser diferente
a solidão de um segredo inconfessável
a solidão de ser abandonado
Fala sobre como as convenções
podem ser colocadas acima dos sentimentos.
Fala sobre o medo.
Sobre o amor, um amor que pode ser tão grande
que transforma o medo em entrega
Um amor tão grande que transforma
seu maior desejo em renúncia
Um amor tão grande
que vira uma dança...

O filme conta a história de Ana que contrata uma pessoa, Clara, para cuidar do bebê que está esperando. Ana vive sozinha e Clara também é uma pessoa solitária, ela está sem emprego e devendo o aluguel do seu quartinho, então o emprego vem a calhar, já que precisa dormir no apartamento. Mesmo antes do filho de Ana nascer, a jovem grávida precisa de cuidados, principalmente de companhia e amor. Clara vai se ver envolvida numa estranha relação, que vai modificar a sua vida para sempre!
Uma espécie de fábula que vai mostrar que "as boas maneiras" passam muito longe pelas regras de etiquetas e são mais ditadas pelo coração.
E eu paro por aqui, porque o filme deve ser uma descoberta do espectador, mas infelizmente a maioria das críticas está entregando a história, o que tira muito do sabor, até o poster é um spoiler.
Os diretores conseguiram com muito talento e criatividade juntar vários gêneros de uma forma muita harmoniosa. Além da direção, ainda são responsáveis pelo roteiro. Uma grata surpresa!

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: As Boas Maneiras.
Outros títulos: Good Manners, Les Bonnes Manières.
País: Brasil, França.
Ano: 2017
Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra.
Roteiro: Juliana Rojas, Marco Dutra.
Elenco: Marjorie Estiano, Isabel Zuaa, Miguel Lobo, Cida Moreira.

sábado, 28 de julho de 2018

UMA QUESTÃO PESSOAL



Una questione privata é um romance de Beppe Fenoglio, publicado em abril de 1963, dois meses após a morte do autor. Uma das obras mais importantes da literatura italiana. Giuseppe (Beppe) Fenoglio era filho de um partisan e teve uma vida privilegiada. Desde pequeno mostrou-se um garoto inteligente e aluno modelo. Era apaixonado pela língua inglesa e chegou a traduzir algumas obras para o italiano. Acredito que o personagem Milton tenha a ver com ele, que também era partigiano e também serviu na Divisão de Langhe.
O termo "partisan (a)", em francês e "partigiano (a)", em italiano, refere-se aos membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada área. Os partisans operavam atrás das linhas inimigas. Tinham por objetivo atrapalhar a comunicação, roubar cargas e executar tarefas de sabotagem. O termo ficou conhecido durante a Segunda Guerra Mundial para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã.
Paolo e Vittorio Taviani não foram os primeiros a a realizar uma adaptação para o cinema da obra. Antes deles:
Em 1996, direção Giorgio Trentin, 
Em 1982, direção Alessandro Cane.
Em 1993, direção Alberto Negrin.
Em 1998, direção Guido Chiesa.
Foi o último filme dos Irmãos Taviani, como são chamados, consagrados internacionalmente ao receberem o Palma de Ouro em 1977 por Padre Padrone e realizadores de outras obras inesquecíveis como César Deve Morrer e A Noite de São Lourenço. Não faltam obras notáveis no cinema simultaneamente político e poético dos irmãos. Vittorio Taviani morreu em abril passado, aos 88 anos, deixando um grande legado.

A história: 1943, durante a guerra de libertação nas Langhe, colinas do sul do Piemonte, o militar Milton encontra-se dividido entre a luta contra os nazi-fascistas, a amizade com os companheiros da brigada e seu amor secreto por Fulvia.
Minhas considerações (ou o que eu percebi do filme):
Milton não caminha só por aquelas colinas. Junto com ele seguem as lembranças da mulher amada, o romance com ela, ele chega a ouvir a música que intitulou como a deles, de tanto que ouviram juntos: Somewhere over the rainbow. Uma massa de neblina o envolve e de repente ele vê, como se fosse um sonho, a casa de Fulvia. Ele, ela e Giorgio, amigos inseparáveis, quantas recordações daquela casa... 
Ele tenta se aproximar, olhar mais de perto, ele sabe que Fulvia não está lá, quase todos abandonaram suas casas durante a guerra, mas é uma maneira de se sentir mais perto dela. Uma pessoa o interrompe dos seus devaneios, é a caseira. Ela o reconhece, ele pede para entrar na casa por alguns minutos, ele precisa só de alguns minutos para sentir o perfume do passado. Ela deixa, conversam, sem querer ou não ela dá a entender a Milton que Fulvia e Giorgio podem ter se amado.

Milton é uma boa pessoa, é um bom combatente, mas a partir da visita àquela casa, ele não consegue pensar em outra coisa. Apesar de tanta coisa estar acontecendo, afinal é a guerra, inocentes morrendo, até crianças! Mas ele só pensa nas últimas palavras que ouvia sobre Fulvia. Ele pede licença para ir em outra divisão onde está Giorgio, ele precisa saber do amigo se ele o traiu, ele precisa saber se Fulvia não o amava. como ele pensava. Mas Giorgio foi capturado pelos fascistas. A obsessão dele por Fulvia passa entre tentar resgatar a todo custo o amigo, até porque ele deseja o confronto e o pensamento que o incomoda de que talvez seja melhor deixar o Giorgio para lá. A ideia de que Giorgio possa ter tido um relacionamento com Fúlvia o destrói.
Assim como as colinas, a mente de Milton está nebulosa. Ele luta entre seus ideais humanitários e suas questões pessoais. O mesmo amor que lhe dava coragem para continuar naquela guerra, que lhe dava forças para continuar vivo, agora é um amor perdido.
Milton, como eu mencionei no início, me parece ser um personagem inspirado no próprio autor do livro, o Fenoglio. Ele é o narrador e protagonista ao mesmo tempo. Eu li alguns comentários de pessoas que viram o filme e não gostaram, acharam que não tem história. Porque realmente o filme não entrega nada, percebemos que nem o próprio narrador possui as respostas que nos fazemos: a verdade sobre a Fúlvia, ela amava Milton? ela amava Giorgio? ela não amava nenhum dos dois?, Giorgio traiu o amigo?, o que aconteceu com o Giorgio afinal? O próprio final de Milton fica em aberto.
O título é perfeitamente consistente com o filme, já que é a questão privada de Milton que move todo o romance. Os espaços do filme são todos abertos, assim como todas as verdades e os destinos dos personagens. Por isso, nem todos irão gostar.
IMDB: 5,8/ 10
Filmow: 2,7/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Una Questione Privata
Outros nomes: Rainbow: A Private Affair.
País: Itália/ França.
Ano: 2017
Direção: Paolo e Vittorio Taviani.
Roteiro: Paolo Taviani, Vittorio Taviani, adaptação do livto de Boppe Fenoglio.
Elenco: Luca Marinelli, Valentina Bellè, Lorenzo Richelmy.



Homenagem ao grande Vittorio, um dos irmãos Taviani, que nos deixou
no dia 15 de abril de 2018. RIP




quinta-feira, 26 de julho de 2018

A NOITE DEVOROU O MUNDO



Quem diria que eu ia ver um filme com zumbis. Pesquisando, descobri que os zumbis não são completamente míticos, olha que assustador! Há rituais necromânticos, em particular ligados à religião do vodu haitiano, com a intenção de invocar os zumbis. Zumbis também são bem reais entre outras espécies animais, cujos comportamentos dos espécimes infectados podem ser drasticamente modificados e controlados por patógenos hospedeiros. A figura dos zumbis humanos ganhou destaque no gênero de filme de terror principalmente graças ao filme de 1968 "Night of the Living Dead", de George A. Romero.
Sam vai até o apartamento de sua ex para reaver umas fitas- cassetes que está precisando, o que ele não sabia é que tinha uma festa lá, com muita bebida. Ela diz pra ele onde está a caixa com as fitas e pede que ele a aguarde lá, mas Sam acaba dormindo. Quando ele acorda e sai do quarto, ele encontra um apartamento vazio, todo quebrado e com sangue por toda parte. Ainda confuso, ele descobre um terrível acontecimento: a cidade de Paris está tomada por zumbis famintos. Ele vai se trancar no prédio e começar a criar estratégias para se proteger. Toda a ação desse filme se passa nesse prédio, de onde se vê a Torre Eiffel.
A Noite Devorou o Mundo, embora com o clima de terror, é um filme sobre solidão e escolhas. Será Sam o único sobrevivente dos humanos? E terá sido sorte ele ter um lugar para se proteger, mas somente para isso? A sua vida dessa maneira valerá realmente a pena? Sam descobre que no prédio também ficou um zumbi, ele está preso no elevador, não oferece perigo, mas mesmo assim Sam deveria matá-lo. Mas a solidão é tão grande que ele decide mantê-lo "vivo". Alfred, o zumbi também solitário, todos o abandonaram ali, é interpretado pelo genial ator Denis Lavant. Alfred é diferente dos outros zumbis, ele ainda mantém resquícios de civilidade. 
Essa parte me lembrou de um outro filme, macabro por sinal, que vi há muitos anos, tenho quase certeza que é com o ator Sam Neill, mas não encontro mais: uma mulher vai a uma festa e lá pelas tantas, já alcoolizada, sai com um homem que conheceu, que a leva para a sua casa, bem no meio de uma ilha deserta. Ele a mantém refém e ela acaba matando o tal homem e o escondendo em um freezer. Mas ela não sabe sair dali e a solidão começa a consumi-la de tal maneira que faz com que ela veja no desconhecido congelado uma companhia. Lembrei também de Gravidade, já pensou ficar perdida no espaço?

Destaque também para a parte comovente do filme, que tem a participação da iraniana Golshifteh Farahan.
O filme será considerado talvez parado para os que esperam perseguições e cenas sangrentas assustadoras o tempo todo. Mas o foco é o psicológico do protagonista. Até quanto tempo Sam aguentará aquela situação sem enlouquecer? E o quanto ele realmente está seguro ali? 
Sam terá que fazer a escolha de ficar ali, onde se sente protegido, catando as comidas que restam dos outros apartamentos, colocando diversas vasilhas no terraço do prédio à espera da água das chuvas, verificando e reforçando as portas e janelas o tempo todo, na mais profunda solidão, ou procurar uma saída, tentar achar um lugar onde talvez não hajam zumbis, mas correndo o risco de vida. É uma alegoria, acredito, à vida de todos nós. Sempre digo que muitas pessoas para não morrerem, deixam de viver. Porque se Sam optar por ficar ali na sua ilusória segurança, ele também não estará praticamente se tornando um zumbi?

Dominique Rocher, que também assina o roteiro, dirige com muita criatividade e sensibilidade esse seu primeiro longa, que é baseado em um livro de mesmo nome e que fez muito sucesso no Festival Varilux 2018.
IMDB: 6/10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Nuit a Dévoré le Monde.
Outros títulos: The Night Eats the World.
País: França.
Ano: 2018
Direção: Dominique Rocher
Roteiro: Dominique Rocher
Elenco: Anders Danielsen Lie, Golshifteh Farahani, participação especial de Denis Lavant.

ANIVERSARIANTES


quarta-feira, 25 de julho de 2018

LA TRÊVE

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Heiderfeld, um lugar encantador...As Ardenas, em francês Ardennes, é uma região de colinas montanhosas partilhada principalmente pela Bélgica e Luxemburgo, mas estende-se também à França. Heiderfeld é uma pequena cidade nas Ardenas belgas. Perto de lá fica o rio Semois.
Poucos moradores, casas deliciosas, clima maravilhoso, até então tudo perfeito. O policial Yoann Peeters morou lá alguns anos quando jovem e sabe bem o que é isso. E é para lá que resolve voltar com sua filha, em busca de tranquilidade e mais proximidade com ela, após a morte de sua esposa, que o deixou profundamente abalado.

Mas duas coisas estão tirando a paz dos moradores. A primeira, é o tal progresso querendo chegar à força, com a construção de uma represa, que para se concretizar precisa desapropriar várias residências, moradores de muitos anos, cujo valor que a companhia deseja indenizá-los não cobre o preço do afeto e apego que têm pelas casas e fazendas. A outra coisa é a ocorrência de um crime inédito no local: o corpo do jovem jogador de futebol Driss Assani é encontrado no rio Semois e o que a princípio parecia suicídio revela-se como um assassinato.
A investigação da morte caberá ao policial recém-chegado, Yoann Peeters, acompanhado por Sebastian Drummer, um jovem e inexperiente policial.
O crime se revelará bem mais complicado do que parecia a princípio.
"Todos são capazes de matar", diz Peeters.
Os métodos de Yoann não são muito bem aceitos na comunidade. Fora isso, muitos segredos irão aflorar. O silêncio de alguns também não os torna responsáveis?
O caso promete muitas reviravoltas e vai abalar inclusive a sanidade de Peeters.
No elenco também como o jovem Kevin, filho da Prefeita, o também cantor Thomas Mustin, mais conhecido como Mustii, do álbum The Darkest Night e que atuou também recentemente no filme Raw e no Troca de Rainhas.
Não sei se terá continuação, mas o último episódio é conclusivo.



IMDB: 7,8/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5


Ficha técnica:
Nome original: La Trêve
Outros nomes: A Treva, The Break.
País: Bélgica
Ano: 2016
Direção: Matthieu Donck
Roteiro: Matthieu Donck, Benjamin d'Aoust, Stéphane Bergmans.
Elenco: Yoann Blanc, como Yoann Peeters, Guillaume Kerbush, como Sébastian Drummer.

terça-feira, 24 de julho de 2018

JEAN DE FLORETTE e A VINGANÇA DE MANON




Um tema comum na vida atual, um dissimulado que se faz passar por amigo e que amarga qualquer vitória do outro, até que aquela inveja toda vai minando, vai envolvendo o invejado e conspira para tudo dar errado. Isso quando ele próprio, o invejoso, não resolve dar uma mãozinha ao fracasso do outro. Pessoas que querem tirar o brilho dos outros para poderem aparecer elas mesmas. E quanto mais você é bom com essas pessoas, mais elas te odeiam intimamente. Porque mais medíocre elas se sentem. São os famosos "espertinhos".
Jean de Florette (Gérard Depardieu) herdou a casa da mãe após a morte dela e resolve largar seu emprego burocrático na cidade grande e morar no campo com sua família, sua esposa e sua filha pequena. Ele tem vários sonhos de prosperar naquela localidade. Tem várias ideias que quer colocar em prática. Comer o que plantar, criar coelhos, são apenas algumas metas do fabuloso Jean, que, mesmo corcunda, não tem medo do trabalho e é sempre doce com sua linda família. Aimee Cadoret, sua esposa, o respeita e o apoia. Interpretada por Élisabeth Guignol, na época do filme casada com Gérard e de sobrenome ainda Depardieu, e com quem teve dois filhos: o ator Guillaume e Julie. A pequena Manon também ajuda como pode o adorado pai.
Ugolin, interpretado por um Daniel Auteuil impagável, é o vizinho invejoso. Feio e sozinho no mundo, tem apenas o seu padrinho César (Yves Montand), eles são os últimos descendentes da imponente família Soubeyran. Ele tem apenas uma paixão: criar cravos, ter um campo de cravos. Mas para isso ele precisa de muita água. Incentivado pelo padrinho, ele quer comprar o terreno de Jean, onde tem uma nascente. Mas o corcunda nem pensa em sair de lá, otimista, já se imagina rico, vivendo no meio de suas abóboras e coelhos. Para tentar dissuadi-lo da ideia e ainda conseguir pagar um preço inferior, Ugolin resolve bloquear a passagem da água da nascente que Jean desconhece. Sempre apoiado e incentivado pelo padrinho, que amarga, além de tudo, um fracasso sentimental.
A partir daí, o pobre Jean fica praticamente a mercê das chuvas, mas ele não desiste, trabalha de sol a sol, dá pena ver aquele homem tão trabalhador. E o Ugolin e seu Papi só rindo das desventuras dele. Jean é ingênuo e vê em Ugolin um amigo. Já a pequena Manon olha para Ugolin sempre com olhos desconfiados.
O filme de Claude Berri é uma adaptação da obra de Marcel Pagnol. Quando Marcel tinha 13 anos de idade, um camponês da sua Provence natal lhe contou a história de Manon. Manon teve a sua saga levada para o cinema pelo próprio Pagnol em 1952. Dez anos depois, insatisfeito com o resultado, Pagnol teve vontade de contar, por escrito, a história de Manon e de seu pai. O desejo deu origem a dois dos romances mais populares da França na segunda metade do século 20 – Jean de Florette e Manon des Sources, díptico reunido sob o título de L’Eau des Collines (A Água das Colinas). A Versátil lançou o box com o filme Jean de Florette e sua continuação A Vingança de Manon. um drama inesquecível com grandes interpretações dos astros Gérard Depardieu, Yves Montand e Daniel Auteuil. Com uma história envolvente, ótimos diálogos e linda fotografia, Berri realizou um filme memorável que traduz toda a riqueza do universo literário inconfundível de Marcel Pagnol.
Em A Vingança de Manon, ela já é uma moça com cerca de uns 18 anos. Bonita e tímida, ela está disposta a se vingar de Le Papet e Ugolin. Esse último apaixona-se irremediavelmente por ela, sem saber dos seus planos de vingança. Interpretada pela atriz Emmanuelle Béart, filha do poeta Guy de Béart, em sua estreia no cinema. Aqui também teremos na vida real um futuro casal: Emmanuelle foi casada com Daniel Auteuil de 1993 a 1995, com quem teve uma filha, Nelly Auteuil. Atuou com ele em outros filmes, como Une Femme Française. Por A Vingança de Manon, Emmanuelle Béart ganhou o César de Melhor Atriz Coadjuvante.
A continuação de Jean de Florette, focada agora em Manon, uma camponesa de modos quase selvagens, embora culta vai mostrar um Ugolin ainda asqueroso, mesmo que digno de pena. O personagem tem suas fraquezas às vezes e algumas (poucas) crises de consciência. Que são rapidamente dissipadas pelo tio, que quer que ele tenha sucesso e se case, para dar continuidade ao clã dos Souberayn. Há que se destacar que César e Ugolin não são os únicos vilões da história. O obstinado Jean de Florette, criado na cidade, inteligente e mesmo simpático a todos, nunca passou de um forasteiro na localidade e assim eles silenciaram, mesmo sabendo ou desconfiando dos planos dos Souberayn. Outra coisa é que a ignorância local e da época fez com que eles acreditassem que ter um corcunda perto dava azar.
O filme Jean de Florette foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa; no BAFTA, teve 10 indicações, vencendo os de melhor filme, melhor ator, Daniel Auteuil, melhor roteiro adaptado e melhor fotografia.
Uma adaptação cinematográfica digna de se ver e inesquecível, um deslumbre de cores e natureza com um roteiro que envolve o amoralismo, a hipocrisia e a torpeza ao lado do entusiasmo e bondade de Jean de Florette. A trilha sonora também é outra coisa a ser elogiada, com La Forza del Destino, de Giuseppe Verdi. E, claro, as excelentes interpretações. Uma grata surpresa para quem ainda não viu.
FILME 1: JEAN DE FLORETTE
IMDB: 8,1/ 10
Filmow: 4,4/ 5
Minha nota: 4,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Jean de Florette.
País: França, Austrália, Itália, Suiça.
Ano: 1986
Direção: Claude Berri.
Roteiro: Gérard Brach, adaptação da obra de Marcel Pagnol.
Elenco: Gérard Depardieu, Yves Montand, Daniel Auteuil, Élisabeth (Depardieu) Guignol, André Dupont, Margarita Lozano.


FILME 2: A VINGANÇA DE MANON
IMDB: 8/ 10
Filmow: 4,4/ 5
Minha nota: 4,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Manon des Sources
Outros nomes: Manon of The Spring.
País: França, Itália, Suiça.
Ano: 1986
Direção: Claude Berri.
Roteiro: Claude Berri, Gérard Brach, adaptação da obra de Marcel Pagnol.
Elenco: Yves Montand, Daniel Auteuil, Emmanuelle Béart, Élisabeth (Depardieu) Guignol, Hippolyte Girardot, André Dupont, Margarita Lozano.

ANIVERSARIANTES

A homenageada de hoje é a carismática e talentosa atriz Elisabeth Moss, vencedora do Emmy, Globo de Ouro, Critic's Choice, como Melhor Atriz na série The Handmaid's Tale, além de acumular vários outros prêmios e nomeações.
Elisabeth fez questão de decorar todas as falas da personagem Offred na série, além do tempo que levava para fal
ar cada frase, para poder se dedicar às suas expressões faciais. Na foto, a famosa Marcha das Mulheres da série.
Happy birthday, Elisabeth
!♥️

segunda-feira, 23 de julho de 2018

ANIVERSARIANTES


CUSTÓDIA




Justamente na sexta, antes de eu assistir a esse filme, eu estava em um salão fazendo unhas e estava correndo de mãos em mãos um vídeo que um pai gravou de uma mãe falando baixinho para o filho: "você não precisa ir com ele", depois ele mostra o vídeo pra ela, que, nervosa, o agride. Alienação parental? Para quem não sabe o que significa: a alienação parental acontece quando o pai ou a mãe de uma criança faz com que esta repudie, rejeite ou sinta ódio do outro cônjuge. Este termo foi utilizado pela primeira vez por Richard Gardner, em 1985, designando o conceito da Síndrome de Alienação Parental. Para todas ali no salão, era isso que o vídeo mostrava, que a mãe estava jogando o filho contra o pai. Eu acho que era a única a contestar que era um julgamento precipitado, que talvez a mãe tivesse suas razões e só estivesse tentando proteger o filho. E que eu não tinha achado nada bonito ele expor a mãe do filho dele daquela maneira em redes sociais.
O filme Custódia começa com uma mãe pedindo a guarda exclusiva do filho Julien, 11 anos, após sua separação de um marido que ela acusa de violento. Sua outra filha já vai fazer 18 anos e já tem o poder de decidir que não quer ver o pai. Sabemos que muitas mulheres usam os filhos para se vingarem do marido, o que considero abominável. A criança fica em um conflito, tanto o pai ou a mãe deveriam sempre chegar a um acordo que fosse o melhor para os filhos. Há testemunhos de amigos e colegas de trabalho que afirmam que Antoine Besson é um homem calmo, tranquilo. A juíza encarregada do caso decide pela guarda compartilhada, pois considera o pai desrespeitado.
O ator, roteirista e cineasta francês de 39 anos, Xavier Legrand já tem em seu currículo um César de Melhor Curta Metragem por Antes de Perder Tudo (Avant que de Tout Perdre), pelo qual também foi indicado ao Oscar. Custódia é o seu primeiro longa-metragem e já recebeu o Leão de Prata 2017 como Melhor Diretor.
Denis Menochet, quem poderia esquecer o seu personagem em Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino? O ator faz uma ótima interpretação aqui como o pai de Julien, um menino que fica entre o "fogo cruzado" na disputa entre o pai e a mãe. Thomas Gioria é uma das revelações do drama francês. O jovem ator entrega uma atuação simplesmente extraordinária em seu primeiro trabalho no cinema ao interpretar Julien.
O filme entra em um clima de tensão, muito bem trabalhado. A cena do aniversário de Joséphine Besson, a filha do casal cantando em sua festa, enquanto seu olhar está atento, preocupado, querendo saber o que está acontecendo, é uma das melhores. Impossível respirar normal nas últimas cenas do filme.
É o bom cinema francês, combinando uma direção competente com atuações convincentes que te levarão a se sentir no centro da história, vivenciando tudo aquilo, em vez de espectador. Super indico!
IMDB: 7,7/ 10
Filmow: 4,3/ 5
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Jusqu'à la Garde 
Outros títulos: Custody
País: França.
Ano: 2017
Direção: Xavier Legrand.
Roteiro: Xavier Legrand.
Elenco: Denis Menochet, Léa Drucker, Thomas Gioria, Mathilde Auneveux.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

SOUNDTRACK





Soundtrack (idem, 2017)
Na época de seu lançamento, eu li uma crítica ao filme que me interessou ainda mais em assisti-lo. Eis um trecho dela:
"Quando a política nos devolve à condição de vira-lata do mundo, não deixa de ser um alento notar que a tecnologia leva o cinema brasileiro a criar, com requinte, novas paisagens" (Naief Haddad)

Além desse mergulho no novo e diferente, que é feito com maestria já que o longa foi todo rodado no Rio De Janeiro em um estúdio lotado de papéis picados (Ao estilo do que fizeram com o longa Olga, 2004), as atuações de Ralph Ineson e em especial a de Selton Mello são excepcionais. A história também, com seus questionamentos filosóficos, existencialistas e as diferenças entre ciência e arte (que não se opõem de jeito algum), fazem de Soundtrack um tocante drama para se analisar e discutir.
A única ressalva é a falta de uma presença mais marcante da trilha sonora, já que o longa possui esse título. Mas talvez tenham feito de forma proposital, permitindo que o espectador exerça seu lado criativo e imagine as músicas nas cenas em que elas deveriam protagonizar.
Por mais aventuras assim na arte brasileira.
Sinopse: 
Na trama, Cris (Selton Mello) é um artista multimídia que entra em crise de identidade quando passa uma temporada em uma isolada estação de pesquisa internacional na Islândia. Ele vai para lá com o objetivo de criar uma mostra audiovisual, mesclando fotografias de paisagens desoladas e música. Porém, acaba indo contra seus próprios conceitos e valores ao conviver com outros pesquisadores do local.


Comentários: Tom Carneiro
IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Nota (Tom): 4/ 5


Ficha técnica: 
Direção e Roteiro – 300ml
Produção – Julio Uchôa, Isabelle Tanugi, Carlos Paiva, Selton Mello e Seu Jorge e 300ml
Coprodução – Orion, Globo Filmes, OM.art, Clan, FM Produções, Naymar/Cia Rio
Produção Associada – Mondo Cane, Cafuné, Suno Entertainment, MGP
Direção de Fotografia – Felipe Reinheimer
Direção de Arte – Tulé Peake, ABC
Fotos Cris – Oskar Metsavaht
Montagem – Felipe Lacerda
Elenco – Michael Cox & Thom Hammond
Som – Yan Saldanha
Figurino – Bia Salgado
Maquiagem – Juliana Mendes
Efeitos Visuais – Clã

ELENCO – PERSONAGENS
Selton Mello – Cris
Ralph Ineson – Mark
Seu Jorge – Cao
Lukas Loughran – Rafnar
Thomas Chaanhing – Huang
Gustavo Falcão – Amigo do Cris
J.G.Franklin – Nórdico

A OUTRA TERRA



Não sei nem por onde começo, há tantas coisas a se dizer sobre esse filme...
Só a parte ficcional já é super interessante e envolve também a metafísica, que considero apaixonante. Um novo planeta é descoberto, ele estava escondido atrás do sol e finalmente pode ser visto. Acontece que ele é exatamente igual ao Planeta Terra, seria um segundo Planeta Terra, e aqui começamos a chamá-lo de Terra 2. Percebem a subjetividade? Para nós ele é o segundo planeta, mas se ele é visto aqui, também somos vistos de lá e certamente "eles" considerarão que são o planeta 1. E quem serão "eles"? Várias teorias começam a surgir, se ele tem as mesmas condições, então também há vida nele. Surge até uma teoria assustadora. Se ele é um duplo do nosso planeta, será que também tudo que há nele não é a duplicata daqui. Até mesmo as pessoas? E uma questão é colocada: você se reconheceria se confrontado com seu duplo? Uau, achei isso o máximo! Essa parte do filme me lembrou um outro, o Coherence.
Mas o filme não fica por aí. No mesmo dia que o tal planeta ficou visível, um trágico acidente entrelaça a vida de duas pessoas. Ela é Rhoda Williams, uma jovem brilhante recentemente aceita no programa de astrofísica do MIT e que pretende explorar o cosmos. Ele é John Burroughs, um compositor no auge de sua carreira e que encontra-se também na vida pessoal em uma fase muito boa, casado, sua mulher está prestes a ter o segundo filho. Rhoda perde o controle de seu carro, que colide com o de John. A partir daí, a vida dos dois vai mudar, irremediavelmente. Todos os sonhos escorrerão pelos ralos.
O que eu posso dizer é que você vai ficar com vontade de conhecer o tal planeta, mas o foco do filme é o drama que envolve a vida de Rhoda e John. Ela precisa fazer qualquer coisa por ele para se redimir, nem que seja um pouco. Ele não a conhece, mas a odeia, tentou descobrir na época quem ela era, tinha vontade de matá-la, mas como ela era menor, a lei a protegeu. Duas vidas marcadas por um sofrimento sem fim.
Que fotografia linda, que músicas encantadoras, o filme tem aquele clima melancólico que eu adoro. Conseguimos quase que apalpar a dor dos dois personagens.
Não conhecia essa atriz, muito bonita e talentosa. Ou melhor, depois lembrei dela, da séria The OA, aliás, que fim levou essa série? Ela também assina o roteiro e a produção. Brit Marling conheceu Mike Cahill, de quem também foi namorada e posteriormente fez com ele o documentário Boxers and Ballerinas, que foi quando ganhou reconhecimento pelo seu trabalho. Ela chegou a participar de audições nas quais foram oferecidos papéis em filmes de terror, mas rejeitou todos. Numa entrevista ao The Daily Beast, ela declarou que "queria ser capaz de escalar a si própria para papéis que não exigissem que ela fizesse as partes típicas oferecidas a jovens atrizes, como a namorada superficial ou uma vítima de crime". Mais tarde, se tornou uma estrela no Festival Sundance de Cinema, com os filmes Sound of My Voice (2011), Another Earth (2011) e The East (2013), tanto protagonizando quanto co-escrevendo em todos eles.
Já William Mapother é um antigo professor, graduado pela Universidade de Notre Dame. Ele lecionou em uma escola no Leste de Los Angeles por três anos antes de tornar-se ator. Ele é primo de Tom Cruise e foi assistente de produção em muitos de seus filmes, olhem que interessante!
Another Earth é um filme que vai te deixar reflexivo, só pela possibilidade de não estarmos sós no universo. Acreditamos estar observando mas e se na verdade estamos sendo observados? Todos nós cometemos erros, quem não erra, uns mais que os outros, mas se existisse uma Terra 2 realmente, isso significaria dizer que também existiria uma segunda chance, uma segunda oportunidade? Buscamos o perdão, mas se fossemos colocados frente a frente com nós mesmos,seríamos capazes de nos perdoar?
Aos 21 anos o diretor Mike Cahill teve um estranho sonho e quando acordou sentiu a necessidade de escrever a seguinte frase: “Os olhos dos mortos retornam nos recém-nascidos”. Catorze anos depois tornou-se interessado no tema da biometria através da íris. Junto com a lembrança da misteriosa frase do passado, Cahill escreveu o argumento do roteiro do filme I Origins (O Universo no Olhar). A produção independente estreou no Festival Sundance de Cinema de 2014 e ganhou o Prêmio Alfred P. Sloan Prize do festival, que reconhece os filmes que retratam ciência e tecnologia. A vitória foi a segunda de Cahill; seu filme Another Earth também ganhou o prêmio em 2011.
A Outra Terra pode ser considerado por muitos mais um filme sobre o tema do perdão e de segundas chances. Metaforicamente, as realidades paralelas existem, são espelhos de nós mesmos. Mas a direção sai do convencional, inserindo elementos que despertam a estranheza e nos seduzem. Como na lenda da sereia, o planeta 2 se aproximando cada vez mais nos deixa curiosos e perplexos, nos proporcionando uma experiência sutil e transformadora. E mostrando que Brit Marling é uma realizadora criativa e que pode nos surpreender com trabalhos futuros.

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Another Earth
País: EUA
Ano: 2011
Direção: Mike Cahill
Roteiro: Brit Marling, Mike Cahill
Elenco: Brit Marling, William Mapother.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

RICKY





Katie é a mãe solteira de Lisa e trabalha numa fábrica, onde conhece Paco, que passa a morar com elas no apartamento de baixa renda.
Katie engravida de Paco e nasce Ricky.
O bebê transforma toda a rotina da família.
A pequena Lisa, de 6 anos, está amuada, porque não é mais o centro das atenções.
Ricky chora dia e noite, afetando o relacionamento do casal.

Até aí, nada demais, não é? Não poderia haver história mais comum.
Mas de comum não há nada em Ricky, o bebê e mais novo membro da família.
É aí que esse diretor, que está se tornando um dos meus prediletos, nos surpreende.

A loucura do filme cresce pouco a pouco e, ao mesmo tempo, qual é a diferença entre um filho normal e um filho diferente? O amor de mãe será menor ou maior?
Ou talvez uma mãe se sinta especial por ter um filho especial?

O foco todo do filme, na verdade, está em Lisa, que se sente em segundo plano por um irmão que chama cada vez mais atenção.
Vemos nas cenas finais, ao som da bela canção The Greatest, de Cat Power, o sorriso voltar a surgir no rosto dela.
Você precisa ver esse filme com a mente aberta e dar asas à sua imaginação.
IMDB: 5,8/ 10
Minha nota: 3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Ricky.
País: França.
Ano: 2009
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon
Elenco: Alexandra Lamy, Sergi López, Mélusine Mayance

ANIVERSARIANTES


ANIVERSARIANTES


quarta-feira, 18 de julho de 2018

ANIVERSARIANTES


ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS



Vi ontem esse filme e confesso que me incomodou, tenso praticamente o tempo todo. Fui dormir com aquele mal-estar, com aquela sensação ruim, tentando entender o que realmente aconteceu, como se fosse possível, já que a própria polícia não conseguiu provar nada.
Saber que um criminoso desse tipo continua vivo, levando uma vida normal, se é que foi ele, não é?, porque também se não foi, estamos cometendo uma grande injustiça.
O filme começa com um romance maravilhoso entre David (Ryan Gosling) e Katie (Kirsten Dunst), ele, um milionário herdeiro de um império imobiliário, embora de negócios escusos, ela, uma moça simples e sensível. 
Eles se casam e aos poucos, o que parecia ser um conto de fadas se torna um pesadelo para Katie, devido à alma doentia de David.

O filme é baseado em fatos reais e é isso que impressiona mais! Eles se conheceram em 1971 e em 1982 Katie desapareceu e nunca mais foi encontrada. Não é spoiler, gente, é um filme sobre um acontecimento real.
Jarecki fez mais de 100 horas de entrevistas com pessoas próximas ao empresário, que na vida real se chama Robert Durst, para fazer o filme.
A fotografia é cheia de contrastes, porque embora de cores frias a maior parte do tempo, nos presenteia com a beleza do lago onde eles têm uma casa para o fim-de-semana.
Entre Segredos e Mentiras é baseado em fatos reais, mas vai além deles, ao exibir a sua versão sobre essa poderosa família nova-iorquina.
O resultado é um filme intenso, com poderosas atuações e uma bela trilha sonora.
Mas que, como disse no início, incomoda.


IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: All Good Things
País: EUA
Ano: 2011 
Direção: Andrew Jarecki
Roteiro: Marc Smerling, Marcus HincheyElenco: Ryan Gosling, Kirsten Dunst, Frank Langella

Robert Durst e Kathleen Durst





SENTIDOS DO AMOR



Como acontece a interação humana? Respondemos e agimos em decorrência de ações da natureza ou de simples situações cotidianas? Já parou para pensar que, por mais simples que seja, cada ruído, gosto ou sombra de algo são extremamente importantes para nossa vida?
Cientificamente, nosso corpo é composto por cinco sentidos: olfato, paladar, audição, visão e tato. São essas cinco capacidades que nos permitem apreciar praticamente qualquer coisa que exista. Mas o que dizer dos sentimentos? Seriam eles algo acima desse aspecto? Pois nós não precisamos sentir o gosto, ouvir o som, apreciar o cheiro ou enxergar alguma luz para amar ou odiar algo. Apenas precisamos ''sentir''. Seria o amor também um sentido humano?
'Sentidos do Amor, tradução um tanto comercial (mas se encaixa bem) para Perfect Sense (Sentido Perfeito), é um filme que faz o mesmo questionamento.
Na trama, Michael (Ewan McGregor) é chef de um restaurante ao lado do prédio onde mora a epidemiologista Susan (Eva Green). O casal se conhece casualmente e, enquanto uma espécie de doença totalmente desconhecida começa a propagar-se, os dois sentem a necessidade de estarem juntos. 
Iniciando um romance mesmo com suas diferenças, eles passam juntos pelo primeiro sintoma da doença: são tomados por uma forte depressão, lembrando de pessoas que morreram, amizades que se perderam e conflitos não resolvidos. Terminando esse ciclo, eles perdem completamente o olfato. Há um desespero inicial, as pessoas não entendem o que se passa e os médicos não sabem o que fazer. Transmite-se pelo ar? É vírus? Uma bactéria?

Os dias passam e a vida segue. As pessoas habituam-se, essa é uma qualidade humana. Aos poucos, a sociedade volta ao normal. Aliás, pra que serve o olfato? Podemos viver sem isso...
É quando o próximo sintoma vem e as pessoas perdem mais um sentido que vemos a dúvida e o desespero florescerem nos semblantes do casal. O que será daqui pra frente? Até onde essa ''doença'' irá levar a espécie humana? A partir daí, qualquer outro detalhe que eu descrever aqui poderá estragar a experiência única de assistir ao filme. Para quem viu Ensaio sobre a Cegueira (2008), trama que parte de premissa parecida, prepare-se para ver algo um pouco semelhante, porém de um ponto de vista diferente. Em Sentidos do Amor, há momentos de incrível tensão e desespero, mas a mensagem é mais otimista e até bonita, para ser sincero.
Tenho certeza que depois de assistir ao filme, você se perguntará se o amor é ou não é um Sentido Perfeito.

Texto e avaliação: Marcos Poli
IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 
Nota (Marcos Poli): 10/10

Ficha técnica:
Nome original: Perfect Sense.
País: Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2011
Direção: David Mackenzie
Roteiro: Kim Fupz Aakeson
Elenco: Ewan McGregor e Eva Green

terça-feira, 17 de julho de 2018

ANIVERSARIANTES


ESTOU AQUI




Spike Jonze é bom em criar mundos paralelos, seja na direção de filmes como “Quero Ser John Malkovich”, “Onde Vivem os Monstros” e “Ela” ou mesmo na roteirização de filmes como o insano “Jackass”. Em 2010, ele escreveu e dirigiu o curta I’m Here, no qual, tal como nos trabalhos citados, Jonze constrói um mundo ficcional onde robôs dividem o mundo com seres humanos, ilustrando a própria vida real.
Na trama, Sheldon (Andrew Garfield) é um bibliotecário de Los Angeles, que leva a vida de forma simples e tímida. Sheldon é um robô e vive todos os dias de forma repetitiva e vazia. Esse sentido que faltava é preenchido quando ele conhece Francesca (Sienna Guillory), uma robô divertida, que não se importa nem um pouco com a inferiorização dos robôs por parte dos humanos. Ela só quer se divertir e enxerga amizade em cada ser existente. Sheldon e Francesca se apaixonam e começam a namorar. A relação deles é a mais encantadora possível. Eles vão à festas, fazem passeios noturnos, passeios em parques, assistem shows musicais, como qualquer outro casal no mundo (real ou deles). Só Francesca consegue tirar o robô de sua rotina. Mas, como em todo bom romance, uma dose de drama sempre vai bem para acompanhar. Sheldon prova seu amor incondicional e infinito por sua robômorada e isso culmina em um desfecho comovente, indagando o espectador se ele seria capaz de fazer o mesmo por quem ama.
O mundo proposto por Jonze na história é a própria representação do mundo real, onde os robôs, excluídos pelos seres humanos e vistos como seres inferiores, funcionam como os excluídos da sociedade real. São os pobres, negros, homossexuais, mulheres ou quem quer que seja visto como menor e gera olhares nas ruas por serem quem eles são por direito. Francesca, em uma cena, cola cartazes escrito: I’m Here (Eu Estou Aqui) pelas ruas da cidade. O que ela está gritando para o mundo é que ela não quer só ser vista, mas enxergada também. Ela pode ser considerada excluída, no entanto ela está aqui, quer que seus direitos e deveres sejam validados como os dos seres humanos. Portanto, aquele cartaz demarca que Francesca está aqui neste planeta como qualquer outro ser. E não existem pessoas lutando para serem enxergadas todos os dias fora da tela?
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(continuação da análise com SPOILER)
Outro ponto discutido no filme é acerca do amor. Francesca é desajeitada e quebra uma parte do corpo a cada momento, o que faz Sheldon doar o seu corpo para ela por amor. Isso é lindo, mas convenhamos que passou pela sua cabeça que esse problema poderia ter sido facilmente resolvido se eles comprassem novos membros ou os achassem no ferro velho, só que isso arruinaria a discussão do filme! Além do mais, os robôs são aqui a representação dos seres humanos. As partes perdidas por Francesca são como órgãos ou membros do corpo humano, não são facilmente substituíveis, por vezes só com transplantes, como no filme. E é preciso muito amor para doar uma parte sua para alguém. Seja em vida ou não, são admiráveis os que fazem isso.
No caso do filme, o amor de Sheldon pela namorada era tamanho, que ele preferia se ver sem aquele membro a ter de viver sem ela. Isso é amor intenso, profundo e verdadeiro. E aquele desfecho, quando apenas a cabeça de Sheldon é o que restou de seu corpo, ele prova de uma vez por todas que se doou completamente por aquela relação e por sua amada. É claro que na vida real não seria possível alguém fazer o mesmo, mas a ideia ai é justamente mostrar que as pessoas precisam se doar por completo quando entram em um relacionamento. E isso é tão raro de acontecer. A maioria das pessoas têm sempre interesses pessoais, seja sexo, dinheiro, fama, … porém, não doam nem o tempo ao lado do outro, que dirá se doar por inteiro! Sheldon é, portanto, o amor verdadeiro.
Analisando a parte mais técnica do curta, Spike Jonze conquista os olhos dos espectadores com uma fotografia bela e viva. Somada a uma trilha sonora sensível e de bastante conteúdo, como as músicas There Are Many Of Us (Aska) e Hellhole Ratrace (Girls). As atuações também são ótimas, mesmo os atores escondendo os rostos debaixo das fantasias de robôs.

Texto e análise: Tom Carneiro.
Filmow: 4,2/ 5
Nota (Tom): 9/ 10

Ficha técnica:
Nome original: I'm Here
Outros nomes: Estou aqui
País: EUA
Ano: 2010
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Andrew Garfield, Sienna Guillory.