Cinéfilos Eternos: Década 1981-1990
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terça-feira, 24 de julho de 2018

JEAN DE FLORETTE e A VINGANÇA DE MANON




Um tema comum na vida atual, um dissimulado que se faz passar por amigo e que amarga qualquer vitória do outro, até que aquela inveja toda vai minando, vai envolvendo o invejado e conspira para tudo dar errado. Isso quando ele próprio, o invejoso, não resolve dar uma mãozinha ao fracasso do outro. Pessoas que querem tirar o brilho dos outros para poderem aparecer elas mesmas. E quanto mais você é bom com essas pessoas, mais elas te odeiam intimamente. Porque mais medíocre elas se sentem. São os famosos "espertinhos".
Jean de Florette (Gérard Depardieu) herdou a casa da mãe após a morte dela e resolve largar seu emprego burocrático na cidade grande e morar no campo com sua família, sua esposa e sua filha pequena. Ele tem vários sonhos de prosperar naquela localidade. Tem várias ideias que quer colocar em prática. Comer o que plantar, criar coelhos, são apenas algumas metas do fabuloso Jean, que, mesmo corcunda, não tem medo do trabalho e é sempre doce com sua linda família. Aimee Cadoret, sua esposa, o respeita e o apoia. Interpretada por Élisabeth Guignol, na época do filme casada com Gérard e de sobrenome ainda Depardieu, e com quem teve dois filhos: o ator Guillaume e Julie. A pequena Manon também ajuda como pode o adorado pai.
Ugolin, interpretado por um Daniel Auteuil impagável, é o vizinho invejoso. Feio e sozinho no mundo, tem apenas o seu padrinho César (Yves Montand), eles são os últimos descendentes da imponente família Soubeyran. Ele tem apenas uma paixão: criar cravos, ter um campo de cravos. Mas para isso ele precisa de muita água. Incentivado pelo padrinho, ele quer comprar o terreno de Jean, onde tem uma nascente. Mas o corcunda nem pensa em sair de lá, otimista, já se imagina rico, vivendo no meio de suas abóboras e coelhos. Para tentar dissuadi-lo da ideia e ainda conseguir pagar um preço inferior, Ugolin resolve bloquear a passagem da água da nascente que Jean desconhece. Sempre apoiado e incentivado pelo padrinho, que amarga, além de tudo, um fracasso sentimental.
A partir daí, o pobre Jean fica praticamente a mercê das chuvas, mas ele não desiste, trabalha de sol a sol, dá pena ver aquele homem tão trabalhador. E o Ugolin e seu Papi só rindo das desventuras dele. Jean é ingênuo e vê em Ugolin um amigo. Já a pequena Manon olha para Ugolin sempre com olhos desconfiados.
O filme de Claude Berri é uma adaptação da obra de Marcel Pagnol. Quando Marcel tinha 13 anos de idade, um camponês da sua Provence natal lhe contou a história de Manon. Manon teve a sua saga levada para o cinema pelo próprio Pagnol em 1952. Dez anos depois, insatisfeito com o resultado, Pagnol teve vontade de contar, por escrito, a história de Manon e de seu pai. O desejo deu origem a dois dos romances mais populares da França na segunda metade do século 20 – Jean de Florette e Manon des Sources, díptico reunido sob o título de L’Eau des Collines (A Água das Colinas). A Versátil lançou o box com o filme Jean de Florette e sua continuação A Vingança de Manon. um drama inesquecível com grandes interpretações dos astros Gérard Depardieu, Yves Montand e Daniel Auteuil. Com uma história envolvente, ótimos diálogos e linda fotografia, Berri realizou um filme memorável que traduz toda a riqueza do universo literário inconfundível de Marcel Pagnol.
Em A Vingança de Manon, ela já é uma moça com cerca de uns 18 anos. Bonita e tímida, ela está disposta a se vingar de Le Papet e Ugolin. Esse último apaixona-se irremediavelmente por ela, sem saber dos seus planos de vingança. Interpretada pela atriz Emmanuelle Béart, filha do poeta Guy de Béart, em sua estreia no cinema. Aqui também teremos na vida real um futuro casal: Emmanuelle foi casada com Daniel Auteuil de 1993 a 1995, com quem teve uma filha, Nelly Auteuil. Atuou com ele em outros filmes, como Une Femme Française. Por A Vingança de Manon, Emmanuelle Béart ganhou o César de Melhor Atriz Coadjuvante.
A continuação de Jean de Florette, focada agora em Manon, uma camponesa de modos quase selvagens, embora culta vai mostrar um Ugolin ainda asqueroso, mesmo que digno de pena. O personagem tem suas fraquezas às vezes e algumas (poucas) crises de consciência. Que são rapidamente dissipadas pelo tio, que quer que ele tenha sucesso e se case, para dar continuidade ao clã dos Souberayn. Há que se destacar que César e Ugolin não são os únicos vilões da história. O obstinado Jean de Florette, criado na cidade, inteligente e mesmo simpático a todos, nunca passou de um forasteiro na localidade e assim eles silenciaram, mesmo sabendo ou desconfiando dos planos dos Souberayn. Outra coisa é que a ignorância local e da época fez com que eles acreditassem que ter um corcunda perto dava azar.
O filme Jean de Florette foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa; no BAFTA, teve 10 indicações, vencendo os de melhor filme, melhor ator, Daniel Auteuil, melhor roteiro adaptado e melhor fotografia.
Uma adaptação cinematográfica digna de se ver e inesquecível, um deslumbre de cores e natureza com um roteiro que envolve o amoralismo, a hipocrisia e a torpeza ao lado do entusiasmo e bondade de Jean de Florette. A trilha sonora também é outra coisa a ser elogiada, com La Forza del Destino, de Giuseppe Verdi. E, claro, as excelentes interpretações. Uma grata surpresa para quem ainda não viu.
FILME 1: JEAN DE FLORETTE
IMDB: 8,1/ 10
Filmow: 4,4/ 5
Minha nota: 4,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Jean de Florette.
País: França, Austrália, Itália, Suiça.
Ano: 1986
Direção: Claude Berri.
Roteiro: Gérard Brach, adaptação da obra de Marcel Pagnol.
Elenco: Gérard Depardieu, Yves Montand, Daniel Auteuil, Élisabeth (Depardieu) Guignol, André Dupont, Margarita Lozano.


FILME 2: A VINGANÇA DE MANON
IMDB: 8/ 10
Filmow: 4,4/ 5
Minha nota: 4,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Manon des Sources
Outros nomes: Manon of The Spring.
País: França, Itália, Suiça.
Ano: 1986
Direção: Claude Berri.
Roteiro: Claude Berri, Gérard Brach, adaptação da obra de Marcel Pagnol.
Elenco: Yves Montand, Daniel Auteuil, Emmanuelle Béart, Élisabeth (Depardieu) Guignol, Hippolyte Girardot, André Dupont, Margarita Lozano.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A MISSA ACABOU



Don Giulio passou muitos anos em uma ilha, mas agora tem a oportunidade de pregar em uma paróquia no bairro onde nasceu, onde pode ficar perto da família e dos antigos amigos. Mas encontra tudo muito diferente e confrontado com os problemas da comunidade, vai se tornando a cada dia mais intolerante. Incapaz de resolver os conflitos dos mais próximos, começa a duvidar se tem alguma serventia para alguém dali. Sua fé nele mesmo como pároco é profundamente abalada. O diretor faz aí uma crítica sutil à utilidade da figura cristã, mais particularmente da Igreja Católica, para a humanidade.
Angustiado, Giulio, também ex-militante da esquerda, se depara com a sua própria vulnerabilidade e vai ser levado a refletir sobre o verdadeiro significado do amor, principalmente do amor universal que ele prega. Um sentimento de impotência toma conta dele, que começa a ficar até mesmo violento. Aqui o personagem não está viajando, ou montado em sua vespa, mas da mesma maneira, nos dá a dimensão de que há um longo caminho a ser percorrido por ele.
“De vez em quando, não dou a absolvição porque não estão mesmo arrependidos. Antes pelo contrário, às vezes apetece-me mesmo bater em alguns. Sim, é um pensamento que tenho cada vez mais. Mesmo bater-lhes. Não haverá outra maneira?”
Nanni Moretti costuma assumir o papel principal em grande parte dos seus filmes. Em La Messa è Finita, mesmo com os questionamentos e o lado dramático, ele consegue nos passar, como sempre, uma espécie de humor sarcástico, que me lembra bem outro diretor que gosta de atuar nos filmes que dirige: Woody Allen.
Destaque para a música composta por Nicola Piovani, que já recebeu o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original pelo filme A Vida é Bela e Prêmio David di Donatello de Melhor Música pelos filmes O Quarto do Filho e Caro Diário, esses dois últimos também dirigidos por Moretti.
O filme recebeu o Urso de prata do Festival de Berlim de 1986.
IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 3,9/ 5
Ficha técnica:
Nome original: La Messa è Finita
País: Itália.
Ano: 1985.
Direção: Nanni Moretti.
Roteiro: Nanni Moretti e Sandro Petraglia.
Elenco: Nanni Moretti. Marco Messeri, Vincenzo Salemme, Enrica Maria Modugno, Dario Cantarelli, Margarita Lozano, Ferruccio de Ceresa,