Cinéfilos Eternos

domingo, 27 de janeiro de 2019

O PRIMEIRO HOMEM




“É um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade.”
Com essas palavras, que ficaram na história, Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua.
O filme é baseado no livro O Primeiro Homem: A Vida de Neil Armstrong, do historiador James R. Ransen, que trabalhou minuciosamente para fazer jus à importância de Neil: entrevistou mais de 120 pessoas, teve acesso a documentos privados da família Armstrong e gravou mais de 50 horas de entrevista com ele. O resultado é uma biografia rica em detalhes que apresenta a infância de Neil, os bastidores da missão especial Apolo 11, os percalços da fama e a trajetória do astronauta depois da NASA.
Em julho de 1969, mais precisamente no dia do meu aniversário (não vou dizer de quantos), o mundo parou para assistir à primeira pessoa a pisar na superfície de outro corpo celeste que não a Terra.
Protagonizado por Ryan Gosling, em uma interpretação fria e contida, pelo que deverá ser mais uma vez criticado, mas que parece que era exatamente como os amigos o descreviam, Armstrong, discreto e avesso a discussões, foi alçado ao estrelato no instante em que deu aquele primeiro passo na Lua. A mítica em torno do homem se expandia conforme o mundo inteiro acompanhava a saga que definiria a nossa história.
A adaptação do livro é dirigida por Damien Chazelle (La La Land e Whiplash). Já li comentários que o filme é chato. Com duração de 133 minutos, tenho certeza que agradará às pessoas fascinadas por história,pelo espaço e por grandes personalidades. Eu nem senti o tempo passar. Eu li até que o erro foi focar muito na vida do Armstrong. Ué, não é sobre ele o filme??? Pelo contrário, Chazelle teve que cortar várias partes do livro. A edição do livro contém ainda dois cadernos repletos de fotos de Armstrong, sua família e colegas de trabalho, cedidas pelo biografado. Interessante, não é?
Contrariando às expectativas, o filme ficou de fora das indicações às principais categorias do Oscar 2019, recebendo apenas indicações técnicas: melhores Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som e Direção de Arte.
Algumas cenas podem ser ficcionais, como a da pulseira da filha. Bem, dizer que algumas cenas podem ser ficcionais pode ser considerado um eufemismo para muitas pessoas. Isso porque uma grande parte não acredita nessa história que o homem foi à Lua.
"Durante os anos de corrida espacial, os EUA sempre estiveram um passo atrás da extinta União Soviética, a URSS. Foram os soviéticos os primeiros a enviar astronautas para fora da Terra, a construir estações espaciais, a lançar satélites. 
O jogo só mudaria no dia 20 de julho de 1969, quando o comandante da missão americana Apollo 11, Neil Armstrong, invadiu as televisões do mundo em uma transmissão ao vivo da primeira caminhada humana em solo lunar. 
Apesar das fotografias e pedras coletadas, há quem diga que a aventura lunar não passou de uma produção cinematográfica no deserto de Nevada (EUA), um embuste na disputa por corações, mentes e dinheiro entre os dois blocos da Guerra Fria".

Bem, a intenção do filme não é dar razão nem aos céticos e nem aos que acreditam, mas sim mostrar os fatos relatados. Damien não toma nenhuma posição, apesar que achei que foi bem enfatizado o fato dos americanos estarem cobrando na época os milhões e milhões gastos no projeto em vez de serem usados para matarem a fome. A pressão que eles estavam sofrendo e a obrigação de mostrar resultados. Pessoas morreram também. Era preciso mostrar a importância do sacrifício dessas pessoas.
As teorias mais paranoicas inclusive apontam para a presença de Stanley Kubrick, que, um ano antes da chegada da Apollo 11 à Lua, havia filmado o épico 2001 – Uma Odisseia no Espaço. A lenda urbana do envolvimento de Kubrick com os filmes da Apollo 11 entreteve o diretor ainda em vida – a ponto de ele vestir o personagem Danny, em O Iluminado, com um suéter em referência à mais memorável missão espacial norte-americana. Hahahaha.
Mas então, o foco no filme é contar a história pessoal de Armstrong, até porque todo mundo já sabe como a história da corrida para ir à Lua termina. First Man é também uma verdadeira experiência sonora e visual. Chazelle consegue criar uma tensão até mesmo nas cenas que já sabemos que serão bem sucedidas. Issó é um grande mérito. O diretor também consegue passar a tensão da decisão do astronauta por fazer uma viagem que tinha uma grande chance de não ter volta, a tensão da despedida dele da família e apesar de tudo, da coragem de sua esposa, Karen, interpretada pela atriz Claire Foy.
O Presidente dos EUA, na época o Nixon, tinha discurso preparado, caso houvesse um desastre com a Apollo 11:
"— O destino quis que os homens que foram explorar a Lua em missão de paz descansem em paz. Que cada ser humano que olhe para a Lua afora ou nas noites que virão saiba que existe um canto de outro mundo que será sempre da humanidade." A agenda do presidente norte-americano também incluía telefonemas para as viúvas com as condolências do governante dos Estados Unidos. Após as despedidas, seria dada a ordem ao controle da missão para cortar as comunicações. O cerimonial da agência espacial norte-americana ainda previa um enterro no mar para os dois astronautas.

E você, faz parte dos que acreditam ou não que Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua?
IMDB: 7,5/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: First Man.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Josh Singer, Nicole Perlman. 
Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Corey Stoll, Jason Clark, Kyle Chandler, Brady Smith, Brian d'Arcy James.


(Por: Cecilia Peixoto)


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A CICATRIZ INTERIOR






Vou apenas transcrever aqui as minhas pesquisas sobre o filme porque eu mesma não tenho nenhuma opinião formada ainda. Também não darei nota, porque o que pareceu para mim um filme esquisito é considerado uma obra-prima. Pelo que eu pouco entendi, é um "home movie", uma viagem em busca de si mesmo e vagueia entre o lírico e o mítico. As imagens são fantásticas realmente e te levam a uma viagem sensorial. Acredito que é um filme para ser visto a primeira vez desnudo de qualquer conhecimento sobre ele, como uma experiência e depois ser revisto, prestando atenção nas inúmeras simbologias. Um pouco de conhecimento sobre mitologia também é importante.
"Aonde está me levando?",
pergunta a mulher que estava sentada em uma pedra, no meio da vastidão do nada, da imagem desértica que se descortina logo no início do filme, ao homem errante que ali passa para resgatá-la. Quem será esse homem? Um poeta, um romântico, Deus, o Diabo? Cansado de seus lamentos, ele vai embora, mas seus passos o trazem para o mesmo lugar, onde está a mulher.
A mulher é interpretada por Nico.
Nico ficou conhecida nos anos 60 quando se tornou musa da contracultura, integrante da banda de Lou Reed, amiga de Andy Warhol e namorada de Jim Morrison e Alain Delon.
Quando cantava, Nico estava quase sempre fora do tom e às vezes soava horrível. Mas isso não importava. Ela contava uma história com suas canções. Eu olhei para suas músicas como monólogos para capturar o estado emocional de sua personalidade”,
disse a atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, a quem coube a difícil missão de interpretar Nico no filme Nico, 1988, vencedor da mostra Horizontes do Festival de Veneza 2017. A influência de Nico é muito mais importante e duradoura do que se imagina e vai muito além dos anos com o Velvet Underground.
O homem é Philippe Garrel, também diretor e roteirista do filme. Os filmes do cineasta francês já ganharam prêmios em eventos prestigiados como o Festival de Cinema de Cannes e o Festival de Veneza. Ele teve um relacionamento de 10 anos com a cantora e atriz alemã Nico e ela participou de 7 de seus filmes entre 1972 e 1979. Ele é pai do ator e diretor Louis Garrel e da atriz Esther Garrel.
Garrel conheceu Nico em 1969, quando ela cantou a música "The Falconer" para o seu filme Le Lit de la Vierge e logo o casal estava vivendo junto.
Nico foi descoberta pelo fotógrafo Herbert Tobias em Berlim aos 16 anos. Foi ele quem a apelidou de Nico por conta de um namorado que ela teve, o cineasta Nikos Papatakis. Ela se mudou para Paris e começou a fotografar para Vogue e Elle e chegou a ser contratada pela Chanel, mas em vez de ir para o trabalho, ela voou para Nova York onde começou a fazer comerciais para televisão e a estudar atuação com Lee Strasberg.
Em 1959 ela foi convidada por Fellini para visitar o set de La Dolce Vita e acabou ganhando um pequeno papel, interpretando a si mesma. Em 61 ela estreia no filme A Man named Rocca, de Jean Paul Belmondo, e em seguida ganha o papel principal em Strip-Tease (1963), de Jacques Poitrenaud. Ela também canta uma música escrita por Serge Gainsbourg que só foi lançada em 2001 como parte da coletânea Le Cinéma de Serge Gainsbourg. Na década de 70, ela fez sete filmes com Philippe Garrel, com quem morou e por um tempo virou o centro de suas produções. Seu filme de 1991 J’entends Plus la Guitare é dedicado a ela.
Sobre La Cicatrice Intérieure:"Filme errante sobre a errância, travessia sonâmbula da noite branca: só a tautologia, esta figura retórica que designa a redundância do ser e do logos que o exprime, pode dar conta da vertiginosa celebração do invisível e do vazio a que nos convidam os "transeuntes" personagens de A Cicatriz Interior: uma Nico mais gutural e enlutada do que nunca, hierática como uma personagem elisabetana exilada contra a vastidão da Hubrys; Pierre Clémenti, entre Adão e Prometeu, fecundando um novo mundo ao entregar a tocha à criança; e um filho Peter Pan, que ora se desvanece no rastro da Mãe, ora se concentra e cristaliza no regaço dos elementos. " (Cinética, Luiz Soares Junior)


Filme produzido numa era "pós Nouvelle Vague", “La cicatrice intérieure” de Philippe Garrel nos mostra um lugar indefinido onde a memória parece persistir.
Garrel parece estar em constante procura por algo em seu filme enquanto é atormentado por seu passado. Nunca é dito ao espectador exatamente o que o perturba. O fato de ser pouco narrativo só aumenta a subjetividade e o leque de interpretações para compreender a obra.
São longas sequências que pouco, ou quase nada, se conectam entre si: um casal caminha pelo deserto. Ela parece culpá-lo pela situação e grita que não consegue respirar. Ele a ignora. Um menino observa um cavaleiro imóvel num círculo de fogo. Um arqueiro nu chega de barco numa praia e explora o território. Lá ele encontra uma mulher e um menino numa paisagem congelada. A música de Nico impregna os diferentes segmentos do filme.
Há uma sensação desoladora durante toda obra, não sabemos a origem dos personagens, não temos ideia do local onde estão. O filme é bastante aberto para o espectador. O próprio Garrel chegou a sugerir que deveria ser visto sem legendas, pois não afetaria em nada a experiência.

Ficha técnica:
Nome original: La Cicatrice Intérieure.
País: França.
Ano: 1972
Direção Philippe Garrel.
Roteiro: Philippe Garrel, Nico.

Elenco: Philippe Garrel, Nico, Pierre Cleménti, Christian Aaron Boulogne.




Nico.









terça-feira, 22 de janeiro de 2019

JULIET, NUA E CRUA






Sim, não deixa de ser uma comédia romântica. Vi justamente por isso, tem hora que preciso descomplicar. Também pelo Ethan Hawke, ando na cola dele. Tenho visto tantas interpretações ótimas dele, que quero ver tudo o que ele faz. Aqui ele é um roqueiro que fez algum sucesso alguns bons anos atrás. O filme tem outras camadas. Trata também da idealização dos ídolos. De como a paternidade pode ser difícil para alguns homens. Trata da vida escorrendo pelos nossos dedos sem que a gente perceba.
Tucker Crowe tem um fã-clube, não chega a 200 membros, mas tem. Para um cantor desaparecido há 25 anos já é alguma coisa. Ou talvez seja até por isso. O grupo, liderado por Duncan (Chris O'Dowd), cria teorias sobre onde ele possa estar, cada um, principalmente Duncan, querendo mostrar que é mais conhecedor da vida dele. Ausente a realidade, surge o mito.
Annie (Rose Byrne) tinha outros planos para sua vida, queria morar em Londres, mas com a morte do pai, volta para o interior e assume o lugar dele, cuidando da irmã mais nova e na gerência do museu local. Ela conhece Duncan e acabam morando juntos. A princípio, ela achava até charmosa essa paixão dele por Tucker, embora não compartilhe a mesma opinião, mas a dedicação excessiva ao ídolo já começa a entediá-la. A mesma coisa que aproxima duas pessoas pode ser mais tarde exatamente o que as afasta.
A história é a adaptação de um livro homônimo de Nick Hornby. Não é o primeiro livro desse escritor a ser adaptado para o cinema. como exemplo, temos Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002). A direção é por conta de Jesse Peretz, irmão da roteirista Evgenia.
Como não podia deixar de ser, o cantor esquecido (Ethan Hawke) aparece para nos mostrar que a realidade dele, nua e crua, não tem nada de charmosa. Sem emprego, mora na garagem da casa de uma das ex-esposas, com quem tem um filho. O pequeno Jackson vai descobrir, ao longo do filme, que tem outros irmãos, todos negligenciados por Tucker. Sem saber conciliar sua carreira com sua vida pessoal, o astro acabou por abandonar as duas coisas.
É nesse contexto em que Tucker passa por um processo de auto-avaliação que, por um acaso, Annie, justamente ela que não tinha nenhuma opinião favorável sobre ele, o conhece. Sempre desconfortável, primeiro naquela vidinha que acabou adotando, depois ao conhecer uma pessoa como Tucker, com uma vida tão diferente, logo ela, sempre tão sensata, sempre tão prática, ...
Quem terá sido Juliet, a musa inspiradora da música que Duncan considera uma obra-prima? Tucker não soube assumir responsabilidades. Mas, e Annie? É responsável também colocar sua vida em segundo plano? Enfim, acho que o filme é mais sobre Annie do que sobre Juliet.

IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,2/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Juliet, Naked.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Jesse Peretz.
Roteiro: Evgenia Peretz, Jum Taylor, Tamara Jenkins, Nick Homby.
Elenco: Rose Byrne, Ethan Hawke, Chris O'Dowd.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

BUSCANDO






A história: desesperado com o desaparecimento da sua filha de 16 anos, um pai decide invadir o computador da jovem para procurar pistas que possam levar ao seu paradeiro.
Quando comecei a ver Searching, mesmo que já avisada, estranhei, achei que o filme não tinha aberto, porque o que eu via eram buscas em redes sociais. Pois é, o formato é bem criativo mesmo, começa mostrando as conversas entre pai e filha pelo celular e webcan e vamos aos poucos conhecendo a história daquela família através dos vídeos caseiros. Depois, acontece que Margot liga para o pai de madrugada, mas ele está dormindo e não ouve e de manhã, quando vê as ligações perdidas, não consegue o retorno. As horas vão passando e David, cada vez mais preocupado, ao mesmo tempo que contata a polícia local, invade as redes sociais da filha em busca de pistas. Daí para a frente, vamos ver mais vídeos, mais conversas entre David e a inspetora Rosemary Vick, que assumiu o caso e entre as diversas pessoas que ele tenta contatar, pelos diversos aplicativos sociais. Nenhuma conversa olho no olho, mostrando como as coisas funcionam hoje em dia.
Um pai aflito vai descobrir que nenhum dos contatos da filha é amigo de verdade dela. Todos a conhecem superficialmente e, aos poucos, ele mesmo vai percebendo que também não conhecia tão bem a filha, como imaginava. É uma corrida contra o tempo, antes que Margot desapareça definitivamente.
Está certo, esse formato cansa um pouco, mas ao mesmo tempo dá um realismo ao filme e o roteiro é tão bem amarrado, que nos sentimos buscando informações junto com David.
Quando o desaparecimento de Margot cai na mídia, as mesmas pessoas que mal a conheciam curtem, comentam, viram "melhores amigos", mostrando a hipocrisia social e a necessidade de reconhecimento.
O ator Aneesh Chaganty fez sua estréia na direção de longa-metragem com Searching, pelo qual ganhou o prêmio Alfred P. Sloan de longa-metragem no Festival de Cinema de Sundance de 2018.
A trama é simples, mas ao ser contada de uma maneira nada convencional, ao ser transformada em um suspense tecnológico, criou um clima real. Ao invadir a internet da filha, David está entrando na sua intimidade. A intenção aqui não é mostrar que a internet seja ruim ou boa, diz Aneesh, mas que ela é tudo, que pode ser tudo, depende de como você a usa. E, claro, mostra a total dependência atual da vida digital.
Para se manter fiel à história, as câmeras utilizadas foram condizentes com o que estava acontecendo na tela. Por exemplo, um iPhone 7S capturou boa parte das cenas que deveriam ser de celulares, como as chamadas de Facetime, enquanto uma GoPro gravou as cenas que seriam da webcam do computador. Nada de filmar em câmeras de alta resolução e colocar efeitos falsos ou baixar a qualidade digitalmente. A preocupação com a autenticidade era uma das prioridades para os cineastas. Por isso, tem também, claro, a evolução da tecnologia: a história da família era ainda nos tempos do Windows 95, até chegar aos dias de hoje, ao sistema operacional do MacBook.
Outra característica interessante, que fui saber só depois de ver, é que o filme inteiro tem respostas escondidas. Assim como David, você precisa aprender a procurar: se você pausar o filme e olhar para os cantos, lá estão as pistas. Legal, não é? O filme pode ser um jogo interativo.
A parte dramática é a reflexão. A detetive diz para David: nós não conhecemos nossos filhos de verdade e não temos culpa! Tem uma parte do filme que ela pede que David fique afastado das investigações, porque ele está ultrapassando os limites. Mas até onde devem ir os pais pelos filhos? Até onde você iria?


IMDB: 7,7/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Searching.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Aneesh Chaganty
Roteiro: Aneesh Chaganty, Sev Ohanian
Elenco: John Cho, Debra Messing, Michelle La, Joseph Lee, Sara Sohn.


JONATHAN





Não, aqui a culpa não é das estrelas. Lembram do Augusto Waters? Ansel Elgorts, o ator que interpretou esse personagem nasceu em Nova York. Tem descendência russa, por parte de pai, e inglesa, germânica e norueguesa por parte de mãe.
O filme Jonathan fez sua estreia no Festival de Tribeca em abril de 2018, onde arrancou elogios da crítica.
Todos os dias Jonathan acorda às 7h01 e cumpre sua rotina: mantém a casa limpa, corre, vai para o trabalho, em um escritório de arquitetura... ele é muito elogiado por sua competência e criatividade, seu supervisor só se queixa do seu pouco tempo de trabalho, precisa dele em tempo integral. Mas Jonathan diz que não pode, que precisa cuidar de uma pessoa da família. Às 19h, chega seu irmão John, ele é mais relaxado, até no modo de vestir, curte sair à noite. Mas os dois, embora de personalidades diferentes, se dão bem e procuram seguir as regras. Como eles nunca se encontram, se comunicam através de vídeos gravados. Dizem o que fizeram e o que compraram na ausência do outro. Jonathan cozinha e deixa o prato do irmão na geladeira, às vezes leva sua roupa pra lavanderia. Tudo ia mais ou menos bem, até que John arruma uma namorada, a Elena. Ela é o início da instabilidade na rotina dos gêmeos.
Em Baby Driver, o ator representa um personagem que não vive sem a música. A música silencia um zumbido que o perturba desde um acidente na infância. Jonathan e John não vivem um sem o outro também. Abandonados pela mãe, um cuida do outro. Suprimir um é deixar o outro em uma situação de profunda solidão. Baby, de Baby Driver, após conhecer a mulher dos seus sonhos, reconhece uma oportunidade de se livrar do estilo de vida questionável e recomeçar do zero. Em Jonathan, também uma mulher faz com que os irmãos queiram ter um novo recomeço, só que aqui só há espaço para um deles.
O filme nos faz refletir o quanto precisamos reprimir em nós mesmos para criar um padrão. O quanto desejamos amar e ser amados ao ponto de na solidão, criarmos um personagem de nós mesmos. O quanto é difícil desapegar, o quanto é difícil matar certos comportamentos para deixar aflorar outros. Jonathan é o certinho, o comportado, o organizado, aparentemente o bem-sucedido.
O longa dirigido pelo estreante Bill Oliver, que também assina o roteiro, está classificado como ficção científica, mas para mim trata-se de um drama de distúrbio de personalidade. Exceto por um dispositivo tipo chip que Jonathan usa no pescoço, que foi colocado por Patrícia Clarkson (Sharp Objects) , uma espécie de cientista, médica, terapeuta, que cuida dos irmãos.

IMDB: 5,8/ 10
Minha nota: 3,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Jonathan.
Outros nomes: Duplicates.
País:EUA
Ano: 2018
Direção: Bill Oliver.
Roteiro: Gregory Daves, Peter Nickowitz, Bill Oliver.
Elenco: Ansel Elgort, Patricia Clarkson, Suki Waterhouse.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

NASCE UMA ESTRELA




Afinal, qual o melhor?
Bem, devo dizer que assisti a todos entre o final de 2018 e início de 2019. Assistir a um filme de 1937 agora é uma experiência de tentar ver com os olhos daquela época, o que é difícil, porque (juro!) eu não era nem nascida. Mas vi os quatro em ordem cronológica, então foi o primeiro, o roteiro original premiado com o Oscar, que me apresentou a história de uma mulher que realizou o sonho de ser famosa e de encontrar o amor. Esther Blodgett (Janet Gaynor) abandonou a pequena cidade onde morava, Dakota do Norte, para tentar a vida como atriz, na Califórnia. Já desanimada, ela conhece um astro famoso, Norman Maine (Fedric March), que, além de se apaixonar perdidamente por ela, acredita nela como atriz. Foi então esse que me surpreendeu, que me tirou as primeiras lágrimas, que me tirou risos também, que me fez torcer e, mesmo tendo visto só recentemente, já se tornou um dos meus inesquecíveis.

A adaptação de 1954, com Judy Garland e James Mason quase me fez desistir de assistir, porque são mais de duas horas e meia de filme, vi ém três partes. Começo a ver tarde e morro de sono. Não por causa do filme, mas pelo cansaço mesmo. O roteiro aqui é bem fiel ao original, mas a Esther, ou Vicki Lester, é uma cantora, então nessa temos vários números de música. Embora longo, é bem emocionante e quando acaba, dá vontade de ver tudo de novo. E chorar tudo de novo. A gente lembra de cada diálogo, as várias falas repetidas do primeiro. E choramos e rimos em dobro, lembrando também do primeiro filme.
No terceiro filme, de 1976, temos o casal formado por Barbra Streisand e Kris Kristofferson. Ambos os atores levaram os Globos de Ouro de Comédia e Musical, em suas respectivas categorias. É o primeiro remake a fazer algumas alterações consideráveis no roteiro, ainda que a essência da história permaneça lá. Mas mesmo assim, eu já fiel à história dos dois primeiros, fiquei meio que frustrada. Eu acho que por a Barbra ser uma cantora maravilhosa, eles focaram muito nos números musicais e menos na intensidade do romance. Posso estar errada, mas foi isso que senti. O que posso dizer é que foi o que eu menos gostei.
Agora o último, gente, é difícil não se apaixonar, porque é com Bradley Cooper e ele está lindo como o músico Jackson Maine e o olhar dele para a Ally Campana (Lady Gaga), a ternura que ele transmite, é de derreter qualquer coração. Os números musicais também são demais. A quarta versão marca a estreia de Cooper na direção de uma maneira que merece muitos aplausos e reconhecimento, porque atenta, competente, grandiosa, vibrante! Também foi muito feliz e acertada a escolha de Lady Gaga para o papel da protagonista.
Alcoólatra e dependente de drogas, o casal se apaixona e é uma exigência dela que ele pare com os vícios. A princípio, o relacionamento ajuda Maine a se segurar um pouco, afinal ele está tão feliz com o amor e com a parceria nas músicas, nos shows, muito contente por apresentá-la ao público, mostrar que ela tem valor, que ele soube ver isso, é quase como se fosse uma criação dele, ele se orgulha muito e também se alegra por ela. Mas a vida meio que lhe dá uma rasteira e a carreira de Ally cresce o tempo todo, enquanto a sua não vai tão bem, a frustração o leva a se entregar aos vícios de novo, principalmente ao álcool e aí vira um círculo vicioso: quanto mais bebe, mais decai, quanto mais é esquecido e rejeitado pelos produtores que agora só tem olhos para Ally, mais bebe.
Bradley não faz feio de jeito nenhum, nem como diretor e nem como ator e ainda: nem como cantor! Imagine a responsabilidade de ainda cantar ao lado de Lady Gaga! Ela, que já tinha feito um trabalho em American Horror History, pelo qual recebeu inclusive um Globo de Ouro como Melhor Atriz em Minissérie, disputado com atrizes experientes (Kirsten Dunst, Felicity Huffman e Queen Latifah), prova que tem outro talento além de cantar. "Sempre quis ser atriz, mas a música aconteceu primeiro", diz, em discurso.
Uma outra boa escolha para o elenco foi a do veterano Sam Elliott, conhecido por sua voz forte e pelo bigode característico.
O filme é forte candidato em várias categorias, teve várias indicações mas, por enquanto não levou tantos prêmios assim. Recebeu o Globo de Ouro o o prêmio do Critic's Choice Awards de Melhor Música com Shallow. Vamos ver no Oscar.
Caretice minha, mas senti falta de algumas falas marcantes do filme original. A versão de 2019 focou mais do declínio do astro Jackson Maine que na ascensão da estrela. Também não ficou claro para mim que o ato final de Maine foi pensando nela ou nele. 
O fato de eu já conhecer a história tirou um pouco do impacto, mas sim, é um filme maravilhoso, como eu já disse: vibrante. Que merece ser visto e revisto. Parabéns, Bradley, todo o meu respeito e admiração pelo seu trabalho.

Ah, afinal, qual eu gostei mais? Pergunta difícil. Já disse que o que eu gostei menos foi a versão de 1976, com a Barbra. Quase empatado com o de 2018, mas acho que gostei mais da versão de 1954, com Judy Garland e James Mason.

E não, não consigo tirar a música da minha cabeça:
https://www.youtube.com/watch?v=bo_efYhYU2A

A tradução:

SUPERFÍCIE.
Me diga uma coisa, garota
Você está feliz neste mundo moderno?
Ou você precisa de mais?
Existe algo mais que você está procurando?

Estou caindo
Em todos os bons momentos
Eu me vejo almejando uma mudança
E nos momentos ruins, eu tenho medo de mim mesmo

Me diga uma coisa, garoto
Você não está cansado de tentar preencher esse vazio?
Ou você precisa de mais?
Não é difícil manter toda essa energia?

Estou caindo
Em todos os bons momentos
Eu me vejo almejando uma mudança
E nos momentos ruins, eu tenho medo de mim mesma

Eu estou à beira do precipício, assista enquanto mergulho
Eu nunca vou tocar o chão
Caio através da água
Onde eles não podem nos machucar
Estamos longe da superfície agora

Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Estamos longe da superfície agora

Eu estou à beira do precipício, assista enquanto mergulho
Eu nunca vou tocar o chão
Caio através da água
Onde eles não podem nos machucar
Estamos longe da superfície agora

Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Na superfície, superfície
Estamos longe da superfície agora



Ficha técnica:
Nome original: A Star is Born.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Bradley Cooper.
Roteiro: Bradley Cooper e outros
Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott.

IMDB: 8,1/ 10
Filmow: 4,2/ 5
Minha nota: 4,3/ 5

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

GREEN BOOK: O GUIA






Donald (Don) Walbridge Shirley nasceu na Florida, filho de mãe professora, que ele perdeu quando tinha apenas 9 anos, e pai sacerdote episcopal, ambos imigrantes jamaicanos. Don começou a aprender piano quando tinha apenas dois anos de idade. Continuou aprendendo com pessoas e em lugares renomados. Obteve o doutorado em Música, Psicologia e Artes Literárias, após desistir temporariamente do piano. Ele falava oito línguas fluentemente e era um talentoso pintor.
Frank Anthony Vallelonga era mais conhecido como Tony Lip e nasceu na Pensilvânia, filho de pais italianos e cresceu no Bronx, perto da casa de infância de John Gotti, um gangster ítalo-americano e chefe da Família Gambino de Nova Iorque. Ganhou seu apelido Lip porque podia ser muito "persuasivo".
No início dos anos 1960, formava-se uma parceria entre Tony e Don Shirley, quando Tony, desempregado, aceitou a oferta do pianista para acompanhá-lo por dois meses em uma turnê como seu motorista e guarda-costas.
O filme Green Book é a inspiradora história dessa viagem pelo sul segregado e da amizade do chofer italiano-americano "casca grossa" e o virtuoso pianista afro-americano Dr. Don Shirley.
Dois anos antes da morte de Vallelonga, Nick, um dos seus filhos, fez um documentário para comemorar seu 80º aniversário e parte desse doc. foi adaptado para o filme.
Podemos dizer que Green Book é uma releitura de Conduzindo Miss Daisy, de Bruce Beresford. Quem viu, não esquece da história de uma senhora judia de 72 anos que reluta em contratar um motorista negro no sul dos EUA mas, com o passar dos anos e a convivência diária, eles se tornam grandes amigos. No longa de Peter Farrely a situação se complica ainda mais, porque o motorista é branco e o patrão é negro, o que gera olhares preconceituosos e críticos. O livro verde a que o título faz referência é um guia que existiu realmente. Nele eram listados estabelecimentos que aceitavam servir negros no sul, onde a segregação racial era institucionalizada pelos estados.
O drama racista, além de ser uma história deliciosa de amizade e de trocas, não sei qual dos dois ali aprendeu mais com o outro, merece ser visto pelas excelentes interpretações de Viggo Mortensen, de quem fiquei mais fã ainda, e Mahersala Ali. Vencedor do prêmio principal do Festival Internacional de Cinema de Toronto, Green Book: O Guia levou três prêmios no Globo de Ouro 2019: Melhor Comédia ou Musical, Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali. Viggo Mortensen também foi indicado. Fortes termômetros para o Oscar 2019, que se aproxima.
A vida de Vallelonga foi extraordinária, o filme resume-se ao trabalho dele com Don, mas dez anos depois ele também fez sua estreia como ator! O menino que cresceu ao lado de um gangster mafioso, que trabalhou como segurança em clubes de mafiosos, tem a oportunidade de interpretar o chefe do crime Carmine Lupertazzi na série The Sopranos, da HBO e fazer vários papéis também no cinema, como The Godfather, Os Bons Companheiros. Tony trabalhou como maitre no Copacabana, onde teve a oportunidade de conhecer muitas celebridades. O Copacabana é uma boate de Nova York . Muitos artistas, como Danny Thomas , Pat Cooper e a equipe de comédia de Martin e Lewis , fizeram sua estréia em Nova York no Copacabana. A canção de Barry Manilow " Copacabana " (1978) leva o nome do clube. A boate foi usada como cenário nos filmes: Goodfellas , Raging Bull , Tootsie , The Purple Rose do Cairo , Carlito's Way , The French Connection , Martin e Lewis , Green Book e Beyond the Sea. De acordo com o site de seu filho Frank, Vallelonga conheceu Francis Ford Coppola e o diretor de elenco de O Poderoso Chefão , Louis DiGiaimo no Copacabana, o que o levou ao seu pequeno papel no filme.
Tony não ficou por aí e também foi co-autor de um livro de culinária! Como visto no filme, uma das maiores paixões de Vallelonga era a comida, em especial as refeições italianas caseiras. "Shut Up and Eat" expressa um sentimento de orgulho por sua herança.
Que me desculpe o Mahersala Ali e seu personagem, mas estou cada vez mais apaixonada pelo Viggo e seu personagem Tony Lip. Sensacionais os dois!
IMDB: 8,3/ 10
Filmow: 4/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Green Book.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Peter Farrelly
Roteiro: Peter Farrelly, Brian Hayes Currie, Nick Vallelonga.
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali.