Cinéfilos Eternos

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

GREEN BOOK: O GUIA






Donald (Don) Walbridge Shirley nasceu na Florida, filho de mãe professora, que ele perdeu quando tinha apenas 9 anos, e pai sacerdote episcopal, ambos imigrantes jamaicanos. Don começou a aprender piano quando tinha apenas dois anos de idade. Continuou aprendendo com pessoas e em lugares renomados. Obteve o doutorado em Música, Psicologia e Artes Literárias, após desistir temporariamente do piano. Ele falava oito línguas fluentemente e era um talentoso pintor.
Frank Anthony Vallelonga era mais conhecido como Tony Lip e nasceu na Pensilvânia, filho de pais italianos e cresceu no Bronx, perto da casa de infância de John Gotti, um gangster ítalo-americano e chefe da Família Gambino de Nova Iorque. Ganhou seu apelido Lip porque podia ser muito "persuasivo".
No início dos anos 1960, formava-se uma parceria entre Tony e Don Shirley, quando Tony, desempregado, aceitou a oferta do pianista para acompanhá-lo por dois meses em uma turnê como seu motorista e guarda-costas.
O filme Green Book é a inspiradora história dessa viagem pelo sul segregado e da amizade do chofer italiano-americano "casca grossa" e o virtuoso pianista afro-americano Dr. Don Shirley.
Dois anos antes da morte de Vallelonga, Nick, um dos seus filhos, fez um documentário para comemorar seu 80º aniversário e parte desse doc. foi adaptado para o filme.
Podemos dizer que Green Book é uma releitura de Conduzindo Miss Daisy, de Bruce Beresford. Quem viu, não esquece da história de uma senhora judia de 72 anos que reluta em contratar um motorista negro no sul dos EUA mas, com o passar dos anos e a convivência diária, eles se tornam grandes amigos. No longa de Peter Farrely a situação se complica ainda mais, porque o motorista é branco e o patrão é negro, o que gera olhares preconceituosos e críticos. O livro verde a que o título faz referência é um guia que existiu realmente. Nele eram listados estabelecimentos que aceitavam servir negros no sul, onde a segregação racial era institucionalizada pelos estados.
O drama racista, além de ser uma história deliciosa de amizade e de trocas, não sei qual dos dois ali aprendeu mais com o outro, merece ser visto pelas excelentes interpretações de Viggo Mortensen, de quem fiquei mais fã ainda, e Mahersala Ali. Vencedor do prêmio principal do Festival Internacional de Cinema de Toronto, Green Book: O Guia levou três prêmios no Globo de Ouro 2019: Melhor Comédia ou Musical, Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali. Viggo Mortensen também foi indicado. Fortes termômetros para o Oscar 2019, que se aproxima.
A vida de Vallelonga foi extraordinária, o filme resume-se ao trabalho dele com Don, mas dez anos depois ele também fez sua estreia como ator! O menino que cresceu ao lado de um gangster mafioso, que trabalhou como segurança em clubes de mafiosos, tem a oportunidade de interpretar o chefe do crime Carmine Lupertazzi na série The Sopranos, da HBO e fazer vários papéis também no cinema, como The Godfather, Os Bons Companheiros. Tony trabalhou como maitre no Copacabana, onde teve a oportunidade de conhecer muitas celebridades. O Copacabana é uma boate de Nova York . Muitos artistas, como Danny Thomas , Pat Cooper e a equipe de comédia de Martin e Lewis , fizeram sua estréia em Nova York no Copacabana. A canção de Barry Manilow " Copacabana " (1978) leva o nome do clube. A boate foi usada como cenário nos filmes: Goodfellas , Raging Bull , Tootsie , The Purple Rose do Cairo , Carlito's Way , The French Connection , Martin e Lewis , Green Book e Beyond the Sea. De acordo com o site de seu filho Frank, Vallelonga conheceu Francis Ford Coppola e o diretor de elenco de O Poderoso Chefão , Louis DiGiaimo no Copacabana, o que o levou ao seu pequeno papel no filme.
Tony não ficou por aí e também foi co-autor de um livro de culinária! Como visto no filme, uma das maiores paixões de Vallelonga era a comida, em especial as refeições italianas caseiras. "Shut Up and Eat" expressa um sentimento de orgulho por sua herança.
Que me desculpe o Mahersala Ali e seu personagem, mas estou cada vez mais apaixonada pelo Viggo e seu personagem Tony Lip. Sensacionais os dois!
IMDB: 8,3/ 10
Filmow: 4/ 5
Minha nota: 3,9/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Green Book.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Peter Farrelly
Roteiro: Peter Farrelly, Brian Hayes Currie, Nick Vallelonga.
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O CONFEITEIRO







Aconselho a, antes de ver o filme, se cercar de  algumas guloseimas, ou você vai ficar, como eu, com água na boca. Também não sei se adiantará comer uma coisa pensando em outra. Um alemão, dono de uma confeitaria em Berlim, "o confeiteiro", viaja à Jerusalém e acaba se empregando em uma confeitaria lá, de uma viúva com um filho. Quando ele começa a mostrar suas habilidades, a princípio Anat se queixa que ele deve se limitar a realizar as tarefas que ela determina, mas quando ela começa a provar, ela muda de ideia totalmente. Cada vez que Anat coloca aquelas poções de gostosuras na boca, a expressão dela é de quem está nos céus. E nós ficamos hipnotizados, acompanhando cada movimento de deglutição.
“The Cakemaker”, primeiro longa do israelita Ofir Raul Graizer, foi premiado no Festival de Karlovy Vary e mostrado no Festival de Londres. Me perguntaram "ah, é aquele filme LGBT?" , mas eu considero que seja um filme sobre o luto.
Aos poucos, a viúva vai se rendendo não só aos cookies e cakes, mas ao próprio confeiteiro. Não quero me estender muito aqui, pra não contar o filme. Mas o que importa não é o que acontece, mas como acontece. O filme é de uma sutileza, de uma delicadeza só, cada olhar, cada gesto, isso sim, tem importância.
Ah, mas eu queria tanto falar sobre, rsrsrsrsrs. Quem já viu ou não se importa, continue a ler. Ou pare agora! Na verdade, o spoiler está em todas as sinopses e até nos posters do filme.
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Bem, como eu ia dizendo, Anat fica super envolvida com Thomas. O problema é que ele é gay. Se fosse só isso, mas a verdade é que Thomas teve um motivo muito forte para deixar Berlim e não foi por acaso que ele procurou o café de Anat: ele era o amante do marido dela em Berlim. E tudo o que restou dele, de Oren, estava lá em Jerusalém. Ficar perto das pessoas que ele amava era uma forma de se sentir perto dele. Ainda mais porque Thomas era um solitário, só tinha a cafeteria, seu apartamento e Oren.

Comentaram que ele se envolver com Anat era como admitir que existe a "cura gay". Eu entendo, até pensei nisso. Mas é que no filme existem muito mais coisas envolvidas. Thomas procura Oren em Anat. Oren sempre falava dela, como faziam amor, levava o seu bolo de canela pra ela, Anat já fazia parte de sua vida, mesmo sem conhecê-la. Existia uma grande afinidade entre eles, porque se Oren amava Anat e Oren amava Thomas, Anat e Thomas deveriam ter coisas em comum. E já tinham os dois as cafeterias.
Não pude deixar de lembrar de um filme franco italiano, com uma história parecida: Le Fate Ignoranti. Quando seu marido morre, Antonia acaba descobrindo que ele não lhe era fiel. Impelida a descobrir quem era a pessoa e os detalhes da vida do marido que lhe escaparam por tantos anos, sete na verdade, Antonia acaba sabendo que não era uma amante que ele tinha e sim um relacionamento homossexual com Michele. Michele divide o lugar onde mora com outros gays e uma transsexual e são uma espécie de uma família onde Massimo tinha um lugar de destaque. Antonia não sabia nem que o marido cozinhava, a estupefação dela cresce a cada dia. Aos poucos, ela mesma vai se envolvendo com aquela família diferente e também começa a surgir um interesse entre ela e o ex-amante do marido.
Né?
O que se segue é o retrato de duas pessoas profundamente machucadas por uma perda e como suas dores propõem uma aproximação.
E deixo aqui algumas palavras do filme Le Fate Ignoranti:
"Che stupidi che siamo, quanti inviti respinti, quante parole non dette, quanti sguardi non ricambiati... Tante volte la vita ci passa accanto e noi non ce ne accorgiamo nemmeno..."


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The Cakemaker.
País: Alemanha/ Israel.
Ano: 2017
Direção: Ofir Raul Graizer
Roteiro: Ofir Raul Graizer

Elenco: Tim Kalkhof, Sarah Adler, Roy Miller, Zohar Strauss.

sábado, 5 de janeiro de 2019

NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO





Ainda digerindo o filme, devagar, como o capelão Toller. O reverendo tinha uma ferida que não fechava, mesmo entregando sua vida a Deus: seu filho, morto numa guerra depois que ele o incentivou a se alistar. Sua mulher não o perdoou. Será que um dia ele se perdoaria? Será que Deus o perdoaria? Será que Deus sempre perdoa nossos pecados?
Toller resolve fazer um diário, escrever todos os dias, durante um ano. Escolhe fazer isso a mão. As frases ou as palavras riscadas possuem significado. Elas precisam estar ali para que ele tenha certeza de que não está enganando a ele mesmo. Ele escreve para ele mesmo. A intenção é essa: uma conversa inadiável com ele mesmo. Porque muitas coisas deixaram de ser ditas. Também eu gosto de escrever, muitas vezes gosto mais de um filme depois que escrevo sobre ele. É como se ele se explicasse para mim. Que impressões retidas na minha mente se revelassem no papel. Desculpem, não no papel, no computador, não tenho mais essa paciência.
Ethan Hawke, assim como seu personagem, em uma entrega poderosa. É como se nós, espectadores, fôssemos seus confessores. Bem, ninguém fala muito, mas eu também adorei a performance dele em Born To Be Blue, em que ele interpreta Chet Baker. Ethan já foi indicado ao Oscar duas vezes na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Será que vai rolar outra indicação?
A Igreja de Sião (Zion) é uma congregação episcopal inclusiva em Douglaston, Nova York, fundada em 1830, com membros de todo o bairro de Queens e do condado de Nassau . Sião está dentro da Diocese Episcopal de Long Island e é uma das igrejas mais antigas do Queens , no topo da colina com vista para Douglaston e Little Neck. Aqui no filme denominada First Reformed. O auge do filme é a festa de comemoração dos 250 anos da igreja, a festa de congregação. Porque o pastor Toller também está passando por um momento dos mais difíceis. Respostas que ele não encontra. Mais que a dor que o dilacera frente à impotência perante situações que ele entende que precisam mudar, o vazio daquilo tudo. Será que Deus sempre perdoa nossos pecados?
O pastor marca uma conversa com Michael (Philip Ettinger), a pedido da esposa dele, Mary. O diálogo entre os dois é um dos pontos altos do filme porque, longe dele apaziguar Michael, ele mesmo sai daquele embate enfraquecido e confuso. Aliás, o título em português é No Coração da Escuridão, mas deveria ser A Escuridão do Coração. Toller não tem respostas para os questionamentos de Michael, porque não tem nem para ele mesmo. Sua fé e sua moral são mais uma vez testadas. Será que Deus sempre perdoa nossos pecados?
Será que Deus sempre perdoa nossos pecados? Por que repito sempre essa frase? Porque é o "coração da escuridão". Confiando nesse perdão, os homens cometem os maiores pecados. Como crianças bobas que entornam o leite no chão, sabendo que o pai e a mãe vão limpar e desculpar, cometem as maiores atrocidades contra o planeta, contra o chão do lado de fora. Não seria mais convincente para Deus não orar tanto, mais procurar ser uma pessoa melhor?
Toller se vê como uma peça usada na engrenagem de coisas que ele não aprova. Quando ele encorajou o filho a se alistar, achou que estava certo, assim fez seu pai com ele quando era jovem, provavelmente seu avô com seu pai. A repetição de certos comportamentos passados de geração em geração embota a mente dos homens, faz com que aceitem sem pensar ou questionar. E, afinal, certo ou errado, cremos que teremos um Deus para nos perdoar. Não entendemos tudo que fazemos, nem precisamos entender, Deus dará seu jeito, no final. Mas Toller não acredita mais nisso.
No final, bem poético, vem a resposta ou a redenção. É como se Toller finalmente se prostrasse aos pés de Deus e aceitasse sua pequenez, sua falta de respostas, suas fraquezas, sua humanidade. Talvez exista um limite para a fé, mas também devemos aceitar as nossas limitações. Mary representa toda a pureza, a luz no meio da escuridão. Um coração atormentado não ajuda em nada. É o amor (ou Amor) o verdadeiro perdão.
IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: First Reformed.
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Paul Schrader
Roteiro: Paul Schrader
Elenco: Ethan Hawker, Amanda Seyfried.
Zion Episcopal Church






sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

VIDA SELVAGEM




Em um melancólico e real retrato de uma dona de casa, vivendo em uma época em que mulheres nem ao menos tinham voz, o estreante Paul Dano insere a personagem da talentosíssima Carey Mulligan em uma família suburbana e pobre cujo o marido (Jake Gyllenhaal), não diferente de muitos da época, coloca suas frustrações e problemas acima da própria esposa e do filho (Ed Oxenbould). 


O marido é demitido e, por orgulho, recusa todo e qualquer tipo de trabalho na cidade. Então, ele decide se juntar a um grupo de homens e partir para a floresta onde havia um grande incêndio, deixando para trás sua família. 

Desamparada e sozinha, a dona de casa começa a trabalhar para prover a si mesma e ao filho. O peso em seus ombros se torna ainda pior com as estradas nebulosas que ela percorre, destruindo ainda mais o filho, que tenta manter uma ponta de esperança de que a família ficaria bem. 

Eu sinto que eu preciso acordar, mas eu não sei de que ou para que...”, diz a mãe para o filho em um total momento de desespero e desnorteamento. 

Dano consegue fotografar perfeitamente uma família se despedaçando. Ele não só tem as mãos habilidosas para o triste projeto, como tem a sorte de ter três atores incríveis envolvidos e que tornam este longa ainda mais tocante e real. 

Em uma das cenas em que a mãe já está em total aceitação de sua situação, ela faz uma comparação do estado das árvores no grande incêndio com seu próprio estado após a partida do marido: 

“Você sabe como eles chamam as árvores em um incêndio florestal? Combustível. Você sabe como eles chamam as árvores depois que o incêndio passa? Eles as chamam de mortos em pé”. 

Talvez donas de casa sejam uma das parcelas da sociedade que mais sofreram caladas no passado (em países como o Brasil até hoje). Muitas infelizmente viraram cinzas, mas elas, como pilares das famílias, resistiram de pé, mesmo mortas por dentro.

Comentários e sinopse: Tom Carneiro.


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,7/ 5

Nota (Tom Carneiro): 4,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Wildlife 
País: EUA
Ano: 2018, EUA


Direção: Paul Dano
Roteiro: Paul Dano, Richard Ford, Zoe Kazan.
Elenco: Carey Mulligan, Jake Gyllenhaal, Ed Oxenbould.

AMOR E REVOLUÇÃO




O filme prende bastante a atenção e devo destacar aqui a interpretação de Michael Nyqvist, ator de Millennium, que infelizmente faleceu em 2017. Pelo papel de Paul Schäfer, um ex-militar nazista, ele foi indicado ao Prêmio do Cinema Alemão de Melhor Ator Coadjuvante.
"Chile, 1973. Em meio ao golpe de estado que derrubou o presidente eleito Salvador Allende e possibilitou a ascensão do ditador Augusto Pinochet, as massas estão nas ruas protestando, entre eles um casal alemão, Lena (Emma Watson) e Daniel (Daniel Brühl)".
Dirigido pelo alemão Florian Gallenberger, que teve seu filme "Quiero Ser" premiado com o Oscar de Melhor Curta de Live Action em 2001, Colonia (nome original) é, infelizmente para a humanidade, baseado em fatos reais.
"A ditadura chilena não é um tema desconhecido para o ator alemão que nasceu em Barcelona e cuja mãe é espanhola. Daniel Brühl conta que, “quando era criança (…) houve mesmo uma família de chilenos exilados que viveu lá em casa. Os meus pais estavam muito envolvidos nas questões chilenas e portanto tive uma relação com o Chile, com a sua cultura e a sua história desde tenra idade”."
Já a atriz britânica, nascida em Paris, explicou aos jornalistas os motivos que a levaram a aceitar o papel de Lena, a noiva de Daniel: “Muita gente me pergunta se escolhi esse filme por causa do meu interesse recente pela política. Mas, a verdade é que adorei o papel. Claro que é também uma época em que estou interessada, mas foi a personagem que me atraiu para este filme”.
Uma outra personagem que vai aparecer ao longo do filme e que eu sabia que conhecia mas custei a lembrar é a Ursel. A atriz é Vicky Krieps, a Alma de Trama Fantasma.
Bem, voltemos ao filme. "Quando Daniel é levado pela polícia secreta de Pinochet, Lena procura por ele e descobre que seu amado está em um lugar chamado Colonia Dignidad, uma suposta missão de caridade dirigida por um pregador (Michael Nyqvist), só que na verdade é uma prisão de onde ninguém nunca escapou. A fim de encontrar Daniel, a moça decide se juntar ao culto religioso da Colonia".
Amor e Revolução se centra mais na ação do que no contexto histórico. Gallenberger disse que o objetivo dele foi focado mais no entretenimento, em contar uma história fascinante, mas não deixando de despertar no espectador o interesse pela história da ditadura chilena.
O roteiro tem suas falhas e um certo exibicionismo no final. Acredito que o casal de protagonistas é ficcional, não encontrei nenhuma referência a eles. Mas a Colônia Dignidad é verdadeira e seu líder idem. Outra coisa que não gostei é que o filme se passa no Chile, Daniel e Lena são alemães, mas o idioma é inglês.
A Colônia Dignidade é um assentamento fundado no Chile em 1961 por Paul Schäfer, um ex-militar nazista, acusado de abuso infantil na antiga Alemanha Ocidental. Está localizada na comuna de Parral, província de Linares, na região do Maule. Se tornou famosa como centro de detenção e tortura nos tempos da ditadura de Augusto Pinochet, embora de fachada fosse apenas uma seita de "excêntricos inofensivos". Vídeos de residentes felizes em meio a celebrações e comemorações eram divulgados mas, lá dentro atrocidades e abusos eram cometidos.
O local era cercado por arame farpado, cercas e apresentava uma torre de vigia e luzes de busca, segurança máxima. Mais tarde foi relatado conter também armas secretas, que eram comercializadas. Poucas pessoas conseguiram escapar da fortaleza e denunciaram os abusos e o trabalho escravo.
Após décadas de abusos e torturas, Paul Schaefer foi preso em 2005, somente em 2005, vejam só! Depois de chegar no Chile, Schaefer transformou os 230 ‘colegas alemães’, que deixaram o país com ele, em escravos. Famílias foram separadas e crianças conduzidas a uma casa onde Schaefer mantinha um apartamento privativo. No local, meninas e meninos eram criados nos moldes da cultura germânica e abusados pelo soldado nazista. O isolamento da colônia permitiu que as torturas e os abusos permanecessem absolutamente em sigilo. Alguns torturadores escaparam ilesos, como o administrador do hospital de torturas Harmutt Hopp, que fugiu para a Alemanha.
Mais da metade dos antigos colonos voltaram para a Alemanha e o local se tornou um lugar de lazer e diversão. Muitos pedófilos e torturadores, no entanto, continuam vivendo normalmente na aldeia. Apesar dos esforços dos advogados das vítimas, ninguém foi indenizado até hoje.
Schafer morreu em 2010, em Santiago, Chile, aos 89 anos.Foi tarde, muito tarde!

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Colonia.
País: Alemanha/ França/ Luxemburgo.
Ano: 2015
Direção: Florian Gallenberger
Roteiro: Florian Gallenberger, Torsten Wenzel.
Elenco: Emma Watson, Daniel Brühl, Michael Nyqvist, Vicky Krieps.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A CASA QUE JACK CONSTRUIU





(OBS.: SE VOCÊ NÃO VIU AINDA OU NÃO GOSTA DE SPOILER, NÃO LEIA)

"Você está autorizado a falar, ao longo do caminho?", pergunta ele a Verge. Virgílio responde: "As pessoas se sentem dominadas por esse desejo estranho e repentino de se confessarem durante essa viagem... pode continuar... só não acredite que você irá me dizer algo que eu nunca tenha ouvido antes."
Ele se chama Jack.
Por que Jack? Seria uma simples coincidência ou uma referência, quem sabe até uma homenagem, já que esse nosso diretor é louco, ao emblemático Jack, o estripador? Sim, emblemático, porque ele é lembrado e muitas vezes mencionado toda vez que se fala de assassinos em série. Na verdade, o responsável por vários crimes que aconteceram na periferia de Londres, em 1988, nunca foi identificado. O nome "Jack, o estripador" se originou de uma carta escrita pelo suposto assassino e que foi amplamente divulgada pela imprensa na época e acredita-se que foi inventada por jornalistas para aumentar o interesse e vender mais jornais.
O caminho, qual seria? Não dá para ver no princípio do filme, só se ouvem as vozes e um barulho de água, que sugere que Jack e Virgílio estão em um barco. Será que é o rio Aqueronte, em que outrora Caronte, o barqueiro que faz a travessia das almas, levou Dante e Virgílio?
A viagem de Dante é uma alegoria através do que é essencialmente o conceito medieval de Inferno, guiada pelo poeta romano Virgílio. No poema, o inferno é descrito com nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. Foi escrito no início do século XIV. Os mais variados pintores de todos os tempos criaram ilustrações sobre esta obra, se destacando Botticelli, Gustave Doré e Dalí. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves. Portanto os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final.
A viagem com Jack será bem longa, pelo visto. Literalmente: A Casa que Jack Construiu tem 2h35 de duração. A vontade, quando se origina como manifestação da natureza animal é ainda menos grave que aquele pecado que é cometido de forma premeditada, usando a inteligência do ser humano para o mal, mesmo assim, é menos grave um indivíduo planejar e executar um crime contra um desconhecido, que pode se defender do estranho que o ameaça, que ele fazer o mesmo com alguém que confia nele, e por isto está indefeso, por isso a traição é considerada o maior pecado, que recebe a punição máxima no local mais profundo do inferno.
Portanto, Jack, que recebe a permissão, tem muito para contar. O filme, como Lars gosta de fazer, se divide em 5 partes, que, aqui, ele denominou de 5 incidentes.
Significado de incidente na língua portuguesa: episódio inesperado que altera a ordem normal das coisas.
1º incidente: Jack encontra-se com uma mulher na estrada (Uma Thurman), que tem o pneu do carro furado e o macaco, que ela por coincidência (ou não) chama de Jack, quebrado. Jack não tem um "Jack" para emprestar e a orienta a ir a um ferreiro próximo. Ela lhe diz que talvez precise seduzi-lo para que ele a leve lá, cometendo seu primeiro erro. Depois de uma série de outros erros, onde ela o provoca o tempo todo, confesso que até eu fiquei com raiva dela, ele comete seu primeiro assassinato. Então, podemos chamar o primeiro incidente de "A MULHER IRRITANTE". Foi o episódio inesperado que fez Jack alterar sua condição de não assassino para assassino, até então ele não sabia que queria matar;
2º incidente: "A TOLA QUE QUER SER ESPERTA". Sempre falo isso, que a maioria das pessoas que são ludibriadas o são porque querem tirar vantagem de alguma coisa. Na ânsia de serem espertas, são enganadas. Como uma droga, o primeiro assassinato causa em Jack uma espécie de prazer, a abstinência causa dor, é preciso acabar com aquela dor. Jack aproveita para testar aqui o seu método de persuasão. Se no primeiro crime, a vontade de matar surgiu de repente, foi quase que provocada pela mulher irritante, agora é premeditada. Sucesso! Ele retira o corpo da casa e volta para limpar. Só tem um problema: ele sofre de transtorno obsessivo-compulsivo por limpeza e a cada vez que sai da casa, volta para verificar. É quase uma piada, de humor negro, mas é: um serial killer com toc?
3º incidente: "A INGÊNUA". O conceito de família inspirando o que Jack denominou sua maior obra até então. 
"Não veja os atos, veja o trabalho, toda a ideia de troféus", diz ele para Verge (Virgílio);

4º incidente: "A DOCE E BURRA".
Já mais experiente, ele sente que esta se livrando do seu transtorno por limpeza e perfeição e experimenta essa liberdade: ele percebe que as preocupações dele não são as das outras pessoas;

"Por que só mulheres?", pergunta Virgílio. "Não, matei muitos homens também, escolhi esses incidentes aleatoriamente." "Mas você só falou sobre mulheres estúpidas. Por que elas são tão estúpidas? A menos que você ache que todas as mulheres são estúpidas. Você se sente superior às mulheres e quer se gabar? Isso te excita, Jack?"
"Mulheres são sempre vítimas. E os homens são sempre os criminosos... pense na injustiça disso. Por que a culpa é sempre do homem? "
É o assassino mostrando que a misoginia o move também. Os homens são culpados, segundo ele, mesmo se não fazem nada e então ele faz.
Jack, que agora se intitula Sr Sofisticação, tem umas ideias para aprimorar seu trabalho, sua arte, como ele prefere reconhecer. Ele arruma os cadáveres e tira fotos. Apesar que ele é mais fascinado pelos negativos do que pelas fotos em si.
"Quando eu tinha dez anos, eu descobri que através do negativo, você poderia ver a verdadeira qualidade demoníaca da luz interior. A luz negra."

O 5º incidente: Jack achava que sinais do sol e da lua pediram a presença dele para outra obra de arte. Primeiro, o eclipse. Depois, a erupção vulcânica da montanha St. Helens...
Do mesmo jeito que ele não conseguia terminar de construir sua casa, o ciclo de mortes também não se concluía. O Sr. Sofisticação exigia novos métodos para refinar sua arte. Primeiro as execuções individuais, depois ele experimentou com uma família, agora, inspirado em alguns ícones da história do mundo, ele queria mais...

Sim, Lars ousa repetir através do personagem que Hitler é um ícone. Eu entendo esse termo como uma referência que valha a pena, e vocês?
Os cinco incidentes, os cinco níveis do inferno, ...
De onde vem a pulsão para matar?
Como todo bom psicopata, Jack parece fazer o possível para que o descubram. Primeiro, ele sempre é ajudado pela própria natureza e se existe um Deus, ele acredita que tem o seu aval. Ele deixa pistas, ele não é um profissional tão cuidadoso. Só de exemplo, uma vez ele deixou um rastro de sangue e aí veio a chuva e apagou. Não seria um sinal para ele continuar? E aí ele divide sua responsabilidade com a sociedade, porque as pessoas não se importam mais com as outras, suas vítimas gritam mas ninguém as acode, "não é da conta deles", pensam. Os policiais são de uma incompetência só. Uma vítima chegou a pedir o auxílio de um, mas ele não acreditou nela. As próprias famílias muitas vezes não dão falta de seus familiares.
Como a casa que Jack constrói há anos, o filme levou anos para ser desenvolvido. Jack e Lars visitam as profundezas em busca de respostas. "Fame, whats's your name?", ecoa a música de David Bowie durante o filme. Imagens de guerra, de Hitler, dos próprios filmes do Lars, como se Jack e Lars quisessem ir cada vez mais fundo. Aquela porta que não quer abrir trará a resposta?
Jack usa Virgílio para contra-argumentar. Sua personalidade dominante precisa mostrar que tem razão. E afinal, de que adianta aquilo tudo se ninguém reconhece sua arte? As cinco etapas para o inferno lhe darão pelo menos o devido tempo para ele se vangloriar dos seus feitos. Ele estava nessa estrada da vida e da morte há doze anos, sozinho. Jack talvez esteja cansado... talvez precise desesperadamente que aquela porta abra, aquela porta que pode por fim em tudo...quem sabe Virgílio tenha razão... Que tudo que ele queria era ser amado. E que não é a morte a verdadeira arte e sim o amor!
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O que achei: muito bom! Em alguns momentos, chatinho, porque longo e com várias dissertações sobre arte, mas que depois você vai entender que são importantes para o desenvolvimento da ideia do Lars. Sim, porque fica claro que essa viagem ao inferno não é só do Jack. É do Lars, através do Jack. Polêmico, sempre, Lars quer argumentar que na arte vale tudo. Acho que não concordo. Sim, tem violência, cenas chocantes, mas nada que não tenha em vários filmes de serial killer. Talvez o cinismo do Jack é que incomode mais. Li alguns comentários sobre o filme ser mediano e devo dizer que um filme dele nunca é mediano: ou você odeia ou você ama.

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 4,2/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The House That Jack Built.
País: Dinamarca/ Alemanha/ França/ Suécia.
Direção: Lars Von Trier.
Roteiro: Lars Von Trier, Jenle Hallund.
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TODOS JÁ SABEM



O filme abriu o Festival de Cannes de 2018. Escrito e dirigido pelo cineasta iraniano Asghar Farhadi, a produção irá trazer uma estranheza, já que não só é rodada em Madrid, como não tem nada a ver com a temática iraniana. No elenco, atores e atrizes espanhóis, como Penélope Cruz e Javier Bardem, o argentino Ricardo Darin e a fotografia é de de José Luis Alcaine, parceiro de Pedro Almodóvar em vários filmes. Em língua espanhola e castelhana, algumas vezes também surge a francesa.
Estimado pelos seus excelentes filmes, onde insere diversos tipos de conflitos, abordando a moral, a ética, a religiosidade, entre outros, o diretor de A Separação, À Procura de Elly, O Passado e O Apartamento, esse último vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017 nos entrega em "Todos los Saben" um drama familiar com tons de thriller.
Laura (Penélope) mora na Argentina com Alejandro (Darin) e chega à sua cidade natal com seus dois filhos, para o casamento da irmã. Seu marido ficou por motivos inadiáveis. Na primeira parte do filme, vamos participar do seu encontro com os pais, as irmãs e também com um ex-namorado, que considera-se quase parte da família. A cerimônia transcorre alegre, a festa animada, todos bebendo exagerado e dançando, e cantando, aquelas coisas de festas de casamentos. Lá pelas tantas, Laura coloca seu filho pequeno para dormir e mesmo sua filha Irene, de 16 anos que, até então estava aprontando todas e agora parecia exausta.
A luz acaba, começa a chover, mas nada tira a alegria da família e dos convidados. Paco (Javier Bardem), sempre participativo, se apressa a pegar um gerador, e a festa e os risos continuam. Até que em determinada hora, Laura sobe e vê que Irene, sua filha, não encontra-se na cama. Tem início uma busca desesperada e, a partir daí, o clima é de tensão e desconfiança. Alejandro é chamado, desconfia-se de tudo e de todos, antigos rancores vêm à tona. O que prova que na maioria das vezes, socialmente ou mesmo em família, vivemos de aparências: aparentamos que está tudo bem, que não temos nada uns contra os outros. Julgamos ser melhor assim, é mais educado ser assim. Tem coisas que se dizemos em um momento errado, pode parecer inveja. Qual será o melhor momento? É preciso mesmo dizer tudo? O fato é que os pensamentos, os sentimentos, os segredos!, estão lá. Eles não passam com o tempo. Basta acontecer alguma coisa em comum, que deixe todos tensos e ninguém consegue mais segurar. A família perfeita, de sorrisos perfeitos, mostra sua cara.
Acredito que Farhadi quis mostrar aqui que as tensões e conflitos acontecem em todos os lugares e com quaisquer pessoas, independente do lugar onde vivam, o Irã tem suas peculiaridades, é claro, mas o seu olhar se abre também para o mundo. Em O Passado, a história transcorre na França, mas os personagens são iranianos.
Essa não é nenhuma história original, "Todos lo Saben", todos já sabiam e fingiam que não sabiam, todos sabiam que todos sabiam mas fingiam que não. Por que logo a Irene? Perguntava-se Laura, despedaçada.
No casamento, o padre lembra aos presentes que o sino e a igreja precisam de reformas, contém rachaduras. Talvez a família aqui do filme também.
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.” Tolstói.
Ficamos todos tentando descobrir pistas que levem à Irene e ao culpado, mas temos aqui mais que tudo a história da família e dos personagens.
É uma pena que a participação do Darin seja tão secundária, o filme é da Penélope e do Bardem, mais ainda do Bardem, com certeza. Alejandro, ex-alcoólatra, agarra-se com Deus e sua atitude mostra-se mais passiva que o desejado, o que torna até ele mesmo questionável. Asghar insere assim, mais uma vez, a religiosidade. Um outro que se destaca também, mais que o Darin, é o ator Eduard Fernández, no papel de Fernando, tio de Laura. Incansável, tenta ajudar de todas as maneiras. Mas lembrando que todos são suspeitos...
"Todos lo saben y nadie dice".

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha Nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Todos los Saben.
Outros nomes: Everybody Known.
País: Espanha/ França.
Ano: 2018
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darin, Bárbara Lennie, Eduard Fernández, Carla Campra.