dezembro 2018 - Cinéfilos Eternos

domingo, 30 de dezembro de 2018

A HISTÓRIA VERDADEIRA





Pensei, pensei, se deveria escrever sobre esse filme. Pelo mesmo motivo que talvez Michael Finkel não deveria ter escrito um livro e Rubert Goold não deveria ter feito um filme: dar publicidade a Christian Longo. Se bem que sou um pouco menos famosa, né, então acho que não tem problema, rsrsrsrs. Talvez, assim como o Finkel, eu tenha ficado obcecada, estou com necessidade de colocar para fora as minhas impressões. Baseado em uma história real, mas se você não lembra do crime, melhor não ler o que escrevo, antes de ver o filme.
Na verdade, o filme de deprimiu. Aquele olhar vazio do Christian (James Franco) me deixou gelada. Aquele olhar, vazio de tudo. Se existe um inferno, esse olhar é a janela para lá, ...
O filme baseia-se no livro escrito pelo jornalista investigativo Michael Finkel. Recém desempregado, ele descobre que um cara preso por assassinato estava se passando por ele no Mexico. A pergunta, claro: por que ele?
É isso que move Michael quando tenta e consegue uma visita ao Christian: "cara, por que eu?". Ele estava longe de saber a armadilha onde estava se metendo. Ele era um cara comum, com seus ideais, como tantos. Na época atual, com a autoestima lá embaixo, já que foi demitido sumariamente. Michael escrevia bem, era elogiado, mas uma demissão assim faz você questionar os seus valores. Talvez ele fosse um nada. Sua vulnerabilidade mais o carisma de Longo faz com que ele, involuntariamente, sinta-se atraído pela personalidade do outro. Além disso, quem sabe, pode ser sua chance de escrever uma boa história e esfregar na cara dos seus antigos superiores do New York Times. Inicialmente seria uma reportagem, mas Finkel reconheceu que tinha material para um livro. Por que ele? Quem sabe a vida estava lhe dando uma chance? Christian Longo enaltece seu trabalho, diz que leu tudo que ele publicou, está certo, é apenas um odioso e frio assassino, mas de uma certa maneira isso o envaidece, ele não sabe explicar, mas sente-se especial.
Forma-se mesmo uma camaradagem entre eles. Finkel começa a alimentar a esperança, como poderia ser de outro modo?, de que Longo vá lhe revelar algo que o inocente, ele terá o maior furo do ano. Felicity Jones interpreta a esposa de Michael, que acompanha e preocupa-se com a obsessão do marido pelo caso.
Christian era o principal suspeito pelo assassinato da esposa e dos três filhos, um crime que chocou os EUA e o mundo em 2001.
Quando Christian Longo conheceu sua esposa, Mary Jane, era uma história de amor ideal. Testemunhas de Jeová, eles se conheceram na igreja e Christian começou a fazer proselitismo de porta em porta com Mary Jane. Eles ficaram noivos, mas antes que pudessem se casar, Christian foi pego roubando de seu empregador, e eles não foram autorizados a se casar dentro do Salão do Reino das Testemunhas de Jeová. Em vez disso, um ministro os casou em um ginásio em Março de 1993. Em 1997, eles tiveram seu primeiro filho, Zachary, seguido por uma menina chamada Sadie e por último Madison. Em 1999, Mary Jane deixou o emprego e começou a vida que ela sempre sonhou - ser mãe em tempo integral e mulher. Christian parecia querer o melhor para sua família, mas ao invés de trabalhar duro para isso, ele começou com falsificação de cheques e roubou uma minivan. Ele também contraiu dívidas sob um nome falso e começou a vender equipamentos de construção roubados. Ele acabou sendo preso e expulso das Testemunhas de Jeová. Já em liberdade condicional, Longo vendeu seus bens e fugiu com sua família. No entanto, por causa de seus gastos extravagantes na fuga, a família ficou sem dinheiro, e Longo conseguiu um emprego em um Starbucks em Newport, Oregon. Mais uma vez, ele começou a viver acima das suas possibilidades, alugou um apartamento de luxo por US $ 1200 por mês, que era exatamente seu salário no Starbucks. Em 19 de dezembro de 2001, o corpo de 5 anos de idade, Zachary apareceu nas margens da Baia de Yaquina. Pouco tempo depois, Sadie 3 anos de idade, foi encontrada morta. Segundo a autópsia, as crianças se afogaram. Os corpos de Mary Jane e de Madison também foram encontrados em malas na mesma baía. Mary Jane havia sido espancada, e a menina tinha sido estrangulada. No dia em que os últimos corpos foram encontrados, Longo embarcou em um avião indo de San Francisco para Cancun, no México. Ele foi colocado na lista dos 10 mais procurados do FBI e foi reconhecido por uma mulher que se hospedara no mesmo albergue que ele.
Quando chegou a Cancun, ele adotou o nome de um jornalista do New York Times Magazine: Michael Finkel, até que o FBI finalmente o encontrou. Uma semana antes do Natal de 2001, Christian Longo saiu do trabalho e foi para casa. Foi a noite dos fatídicos acontecimentos. James Franco encarna com precisão o desafio de fazer o personagem, o que o deixou pela primeira vez desconfortável em sua carreira. O ator traz à cena um personagem obscuro, sem sentimentos, e sem dúvida alguma, manipulador. Já Jonas Hill encarna o jornalista Michael Finkel , num verdadeiro jogo que o deixa entre a cruz e a espada.
Numa noite de inverno em 2001, Penny Baker-Dupuie sentou-se no sofá na sala de estar de sua casa. Seus dois filhos, um recém-nascido e um de três anos, dormiam em suas camas e Penny observava em silêncio enquanto o marido, John, sentado do lado oposto, mostrava como carregar, esvaziar e depois recarregar a espingarda; devagar, meticulosamente. Apenas alguns dias antes, o cunhado de Penny, Christian Longo, havia matado toda a sua família: a irmã de Penny, MaryJane, tinha 34 anos. Seus três filhos pequenos, Zachery, Sadie e Madison, tinham quatro, três e dois anos, respectivamente. Se Longo pode fazer isso com sua própria esposa e filhos, ela tinha medo que pudesse fazer com sua família também. Penny foi a maior opositora ao fato de Michael escrever um livro sobre o cunhado e mais tarde haver um filme sobre o livro. Na opinião dela, estavam fornecendo combustível demais para uma pessoa que nem devia ser mencionada. Segundo Penny e a família, não há uma coisa no filme ou no livro que faça algum bem para o mundo. Nada. É apenas a história de um psicopata narcisista que quer, a qualquer custo, atenção.
Chris foi condenado à morte mas até hoje sua história é debatida, principalmente entre estudantes de direito. Porque ele quer doar seus órgãos, fato inédito entre os condenados. Ele diz que sabe que virar doador não vai corrigir o que fez, mas que precisa fazer a doação. Será? Estaria ganhando tempo ou fazendo o que sabe fazer melhor: chamar a atenção sobre ele mesmo? Ele teve a chance de preservar quatro vidas, qualquer que fosse seu limite em lidar com a situação da falta de dinheiro. Poderia simplesmente tê-los abandonado. E está preocupado em salvar vidas de quem nem conhece? Qual será a história verdadeira? Qual será a real história também de Michael Finkel, que construiu uma forte ligação com Longo? Em algum momento, ele acreditou na inocência dele?
É importante destacar o papel da mentira e da verdade na relação dos dois. Michael foi demitido por uma mentira que queria dizer uma verdade. Agora queria usar uma verdade que seria contada só para ele, por Christian, para se retratar. A verdade que o salvaria de uma mentira que o fez perder o emprego. Christian tem uma versão para Michael e no dia do julgamento tem outra.
É o tipo de história que te deixa com um gosto amargo na boca, fica uma sensação de que "True Story" podia ter se aprofundado mais, algumas coisas que senti e coloquei aqui foram frutos de pesquisa, mas, ao mesmo tempo, a história sustenta o filme e achei boa a interpretação do James Franco. Sabemos que existem pessoas como o Christian Longo por aí, mas conhecer os detalhes é bem assustador.


IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3/ 5

Ficha Técnica:
Nome original: True Story
País: EUA
Ano: 2015
Direção: Rupert Goold.
Roteiro: David Kajganich, Rubert Goold, baseado no livro de Michael Finkel.
Elenco: James Franco, Jonah Hill, Felicity Jones.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

SEMENTES PODRES





Penso que esse filme fala principalmente sobre a nossa tendência de julgar os outros. Wael (Kheiron), ajudado por Monique (Catherine Deneuve) vive de pequenos golpes. Em um deles, cometido contra Victor (André Dussolier), ele se dá mal e é pego. Convencido por Monique, Victor resolve dar uma chance para Kheiron em vez de entregá-lo à polícia, desde que ele substitua um professor em um centro de adolescentes excluídos do sistema devido a mal comportamento: as "mauvaises herbes", ou "sementes podres".
O maior trabalho dele será fazer com que os seis jovens voltem no dia seguinte. São pessoas totalmente desmotivadas, cheias de problemas e será que logo alguém como Wael, que não é lá nenhum bom exemplo vai conseguir? Contando assim, parece que é um filme piegas, mas não é. Aos poucos, vamos conhecendo a vida de todos. É como se Wael, tentando entender cada um, se confrontasse com seu próprio passado. As cenas com a turma são intercaladas com as cenas de um Wael menino (Aymane Wardane) e sua difícil vida. Monique, que de início, parecia meio avoada, vai se revelando também.
Não, não é um dramalhão, muito pelo contrário, tem cenas bem divertidas, embora algumas brutais. É justamente essa capacidade de juntar o drama com a comédia que me envolveu.
Kheiron é um comediante, ator e diretor de cinema francês. Depois do Prêmio Cesar como Melhor Primeiro Filme em 2016 por "Nous Trois ou Rien", o comediante, que construiu uma reputação no mundo da comédia de stand-up, volta a desempenhar o papel principal em Mauvaises Herbes, que ele também assina o roteiro, além da direção.
Ainda que com alguns clichês, o filme aborda questões sociais e humanas importantes, fala sobre a força da empatia e nos convida a um novo olhar, antes de virarmos as costas para alguém.

IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Mauvaises Herbes
Outros nomes: Bad Seeds
País: França.
Ano: 2018
Direção: Kheiron.
Roteiro: Kheiron.
Elenco: Kheiron, Catherine Deneuve, André Dussolier, Aymane Wardane.


sábado, 22 de dezembro de 2018

CAIXA DE PÁSSAROS




Em Um Lugar Silencioso, uma família se comunica somente por sinais. O silêncio precisa ser absoluto porque, a qualquer ruído, alguém (ou alguma coisa) os ataca. Em "Bird Box", ou Caixa de Pássaros, a ameaça é visual. O mundo é acometido por uma espécie de loucura , onde as pessoas começam a se suicidar. Os suicídios são precedidos de visões. As autoridades pedem que as pessoas se tranquem em casa e cubram todas as janelas. Mas ao contrário de em "A Quiet Place", em que o espectador acaba ficando igualmente em silêncio, tamanha a tensão, em "Bird Box" ficamos é com os olhos bem arregalados e querendo ver, procurando em cada detalhe uma pista. A inquietude, o nervosismo, tomam conta do espectador, na tentativa de desvendar o mistério.
Eu, particularmente, gostei muito mais desse, foram duas horas e cinco minutos em que não despreguei os olhos da tela. Com uma atuação maravilhosa de Sandra Bullock como Malorie, a protagonista da história inspirada no best-seller homônimo de Josh Malerman e dirigido por Susanne Bier, premiada diretora dinamarquesa, o filme é a nova aposta da Netflix e estreou ontem, 21 de dezembro.
Malorie, ainda por cima grávida, é levada para uma casa onde está um grupo de pessoas, uma delas o desagradável Douglas, interpretado por John Malkovich. Mas quando a casa deixa de ser segura, ela é obrigada a procurar outros caminhos e um deles a leva a uma difícil travessia de um rio com duas crianças, mais difícil ainda por precisarem estar com os olhos vendados. Sandra Bullock diz que se inspirou na força de sua própria experiência como mãe para fazer Malorie enfrentar essa travessia com as crianças, na tentativa de encontrar um lugar onde pudessem reconstruir a vida.
Como em outros filmes que não pude deixar de lembrar, Caixa de Pássaros é mais que uma obra de suspense ou terror. Em O Último Suspiro, Paris é tomada por uma bruma que mata as pessoas. É preciso fugir da névoa, procurar os andares mais altos dos prédios, mas o casal protagonista tem um grave problema: uma filha que sofre de uma doença rara e vive em uma espécie de bolha. Em A Noite Devorou o Mundo, também em Paris, a cidade da noite para o dia está tomada por zumbis famintos. Também o protagonista desse filme precisa se trancar no prédio para se proteger. Os roteiros-catástrofe criam uma intimidade, uma forte ligação entre os sobreviventes. Mas em A Noite Devorou o mundo, o protagonista se vê lutando por uma vida sem sentido, já que solitária. E se ele for o único sobrevivente do mundo, valerá a pena lutar? Na sua ilusória vida, em vigília o tempo todo, ele não estará se tornando uma espécie de zumbi? Não sou chegada a filmes de terror, por isso gostei desses, porque são também sobre solidão e escolhas. Como em O Último Suspiro, o que prende umas pessoas pode ser a libertação para outros. Caixa de Pássaros é mais que tudo um filme de descoberta do amor, de um amor reprimido e adormecido que vai ser forçado pelas circunstâncias a se manifestar com todas as forças.
Assim como não é da natureza do homem viver solitário, também não é da natureza dos pássaros viverem trancados em uma caixa. Malorie é dura com as crianças, as mantém em uma espécie de caixa de pássaros, onde só cabem o silêncio e a escuridão. Porque ela acredita que é a única maneira de sobreviverem. Mas adianta viverem sem sonhos, sem esperança? O casaco azul, a imensidão do rio, do azul do rio, nos remetem ao espaço, à liberdade, aonde os pássaros devem estar e também as nossas mentes. A própria Malorie sempre viveu em uma espécie de "caixa de pássaros", mesmo antes da tragédia.
Da mesma forma que as pessoas com deficiência visual apuram a audição, Malorie ensina as crianças a reconhecerem todos os tipos de barulhos, a perceberem quando alguma coisa está perto ou longe. E Susanne Bier também trabalha bem a trilha sonora para nos dar a mesma percepção. Existe uma lenda, eu gostava muito de ler sobre isso na adolescência, sobre um continente perdido, a Lemúria, cujo povo era cego e evoluído, eles desenvolveram a terceira visão.
Mas como em qualquer adaptação de livros, haverá sempre queixas de que o filme não se aprofundou nisso ou naquilo, chato isso, sabe? Caixa de Pássaros pode até não trazer nada de novo, mas é muito bem trabalhado e tem ótimas atuações, até das fofas crianças. Sim, existem algumas inverossimilhanças, mas é ficção e o que importa aqui é o que o filme nos faz sentir e, posso garantir que é, no mínimo, é um excelente entretenimento.
A atriz Sandra Bullock conta como foi difícil atuar com olhos vendados e diz que trombou com a câmera várias vezes.
Outro ponto a refletir é que a ameaça do filme é invisível e por isso provoca os piores medos e sensações. Uma personagem acredita que viu ou ouviu sua mãe, morta há vários anos. As pessoas, após as visões, se matam por desespero ou atraídas por algo muito maior? É mencionada uma certa beleza. Será o fim do mundo uma passagem para um outro bem melhor? O filme talvez sugira que em determinadas situações seja conveniente ficar de olhos vendados para preservar a lucidez. A mente limpa como um canal aberto para compreender o verdadeiro significado da vida. Em um mundo apocalíptico então, só os lúcidos sobreviverão. Ou talvez os loucos...
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Bird Box
Outros nomes: Às Cegas.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Susanne Bier.
Roteiro: Eric Heisserer, JoshMalerman.
Elenco: Sandra Bullock, John Malkovich, Trevante Rhodes, Sarah Paulson.
As crianças: Julian Edwards, Vivien Lyra Blair.


domingo, 16 de dezembro de 2018

ROMA



Em primeiro lugar (eu ia escrever "primeiramente", mas essa palavra sempre me lembra "fora uma certa pessoa"), ... então, em primeiro lugar, quero agradecer ao Cuarón por fazer um filme abordando tantos problemas femininos. Na minha cabeça, enquanto via o filme, só vinham as músicas de Chico Buarque, que é um dos homens que mais entende a alma feminina.
Tudo começou nos primórdios dos tempos, segundo a Bíblia, quando Eva foi feita de uma costela de Adão. A mulher como uma parte do homem, quando na verdade é a mulher que mantém em seu ventre um filho por tantos meses e que o pare. A partir daí, coube à mulher a culpa de tudo nesse mundo, quem mandou Eva comer a maçã? Aos homens sempre couberam as glórias, às mulheres o castigo de sangrar todo mês, algumas com muita cólica, e as dores do parto. Isso é apenas uma amostra do que elas teriam que passar. Algumas são aparentemente elogiadas: "por trás de um homem de sucesso, há sempre uma mulher de fibra".
Nós, mulheres, já nascemos com culpa. Sentimos uma imensa dor quando precisamos deixar nossos filhos para trabalhar para sustentá-los. Sentimos culpa se chegamos cansadas e sem energia para sentar no chão com eles e brincar. Se um pai abandona o lar, nos sentimos responsáveis pelo sofrimento dos filhos. 
Cleo sentiu-se culpada por engravidar. Envergonhada. Por não ser casada, por se deixar iludir, por ter que contar para sua patroa. Fermin simplesmente abortou o filho. Sim, esse é um caso de aborto masculino. Mas a culpa foi dela, quem mandou se envolver com ele? Cleo sentiu-se culpada por não desejar aquele filho, por não amá-lo como uma mãe deve amar. Logo ela, que ama tanto os filhos de sua patroa, não é capaz de amar o seu próprio. 
À mulher cabe o bom funcionamento da casa, sejam elas patroas ou empregadas. Cleo cuida das crianças e também da enorme casa e dos enormes cocôs do cachorro, que tem que limpar toda hora. Brincando com uma das crianças, ela declara que é bom "estar morta". O marido de Sofia chega em casa e reclama de tudo, está insatisfeito, Sofia diz que vai falar com as empregadas. Afinal, a culpa é dela também. Não dele, que nunca está presente e não ajuda em nada.

Sofia diz para Cleo:
"Estamos sós! Não importa o que fazemos, estamos sempre sós, as mulheres".

O filme foi o vencedor do Leão de Ouro, em Veneza. É aos poucos que Roma nos seduz. Sua bela fotografia em preto e branco retratando os anos 70 no Mexico vai ganhando matizes aos nossos olhos encantados. Um retrato tão perfeito do cotidiano, que nos sentimos da família. O universo dos patrões. O universo das empregadas. Dois universos bem diferentes, mesmo que os patrões digam que elas são da família. Mesmo que elas se dediquem, como a Cleo a dar carinho e amor e toda atenção para uns filhos que não são seus. Mesmo que tenham que escutar caladas críticas sobre seu trabalho e elas próprias só possam reclamar umas com as outras no seu quartinho dos fundos.
O início mostra a entrada de uma casa e o seu piso sendo lavado com sabão e mangueira. A câmera se detém alguns minutos ali, a mostrar a espuma se dissolvendo na água, como os sonhos da empregada que nunca vai ter uma casa como aquela.
Distribuído pela Netflix e exibido em seu catálogo desde o dia 14 último, Roma foi também lançado em salas de cinema, para garantir que possa ser selecionado para competir por outros prêmios, como o Globo de Ouro e o Oscar. O diretor mexicano já levou um Oscar de Melhor Direção em 2014, por seu filme Gravidade.
Eu me perguntava o motivo do título. Descobri que tem a ver com a própria infância de Cuarón, que foi criado na Colônia Roma, um bairro de classe média da Cidade do México. Ele homenageia com o filme as mulheres que o criaram.
É pelo olhar da personagem Cleo, interpretada por Yalitza Aparicio, 24 anos e nenhuma experiência como atriz, que a vida da família do filme e também da família Cuarón são recriadas. Cuarón queria uma pessoa nativa para interpretar a protagonista. Desempregada, ela se sentiu atraída pelo anúncio. A mãe de Yalitza foi doméstica e mesmo ela, formada professora, também já trabalhou em casas de família e como no papel, também cuidou de filhos dos outros.
Cuarón insere a história familiar na história do México, reconstituindo uma tremenda repressão das forças armadas a um movimento estudantil da época.
O fato é que Roma contêm cenas que dificilmente se apagarão da mente de quem assistiu. São imagens carregadas de conteúdo que só um cineasta muito sensível poderia elaborar. É justamente na simplicidade dos acontecimentos que está a força do filme. Amei!
IMDB: 8,6/ 10
Filmow: 4,6/ 5
Minha nota: 4,3/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Roma.
País: EUA/ México.
Ano: 2018
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón.
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Nancy Garcia Garcia.










quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

TEMPO COMPARTILHADO



Pedro chega feliz para uma temporada de férias em um resort. Gostou?, pergunta ele para Eva, sua esposa. Ela diz que sim, encantada e lhe pergunta como conseguiu pagar aquilo. O que aumenta um pouco o orgulho de Pedro por poder proporcionar à família aquele conforto todo. Ele mostra a piscina, onde sabe que o filho vai se deleitar. Pedro é uma daquelas pessoas "classe média" abençoado pelo sistema de poder usufruir de um clube de férias por módicas prestações mensais. 
Abençoado, eu disse? Bem, isso, até tocarem a campainha e eles descobrirem que houve uma confusão e uma outra família também reservou a unidade em que eles se instalaram. A princípio, eles tentam resolver, mas sem êxito, já que o resort está lotado. Eles decidem, não tem outro jeito, compartilhar a mesma casa com a família de Abel. Apesar do incômodo, a mulher de Pedro é bem compreensiva com a situação, o filho está até se divertindo com a tal família e suas bizarrices e, afinal, eles estavam dispostos a aproveitar a estada lá e o lema era que nada ia estragar isso.
O fato é que coisas estranhas acontecem no tal Everfields Resort e a musiquinha ajuda a criar um clima bem sinistro. Pedro começa a perceber. Paralelamente tem a história de um outro casal. Andres era animador do resort e de repente teve um ataque, me pareceu um derrame. Com limitações, ele foi direcionado para funções subalternas e fica cada vez mais deprimido, mais ainda porque sua mulher, Gloria, o trata com uma repentina indiferença. 
Aos poucos, vamos percebendo que o roteiro bem inteligente nos leva a uma crítica social das boas. O sistema do hotel, sob a nova direção, está contaminado por resoluções simplistas para resolver problemas familiares e sociais. O objetivo é deixar todo mundo feliz, claro que a custa do sacrifício de alguns, que, como laranjas podres, precisam ser descartados. Ou “separar o joio do trigo”, como alguns preferem se referir a isso. Quem entra no esquema, é aproveitado. A máquina precisa de peças perfeitas para funcionar. E para isso, as peças, ou os soldadinhos, precisam obedecer ao regime, sem pestanejar. Pensar, pra quê?
O conceito de tempo compartilhado refere-se também à necessidade do ser humano em viver em grupos e para que tudo funcione é preciso fazer uma lavagem cerebral, fazer de todos uma família só, que vai crescendo e se tornando uma grande família, a Família Everfield. É o desprezo pela individualidade, pelas diferenças. 
Pedro representa a lucidez naquilo tudo, mas que vai sendo esmagado pelo efeito manada. Como fazer ouvir sua voz? O filme tem um tom claustrofóbico, que eu adoro ver no cinema.
Eu, particularmente, desconfio quando vejo muita "felicidade". Aliás, acho que esse conceito de que a felicidade existe e de que devemos dedicar a nossa vida a buscá-la é, para mim, exatamente a nossa prisão.

Tiempo Compartido é um dos novos títulos no catálogo da Netflix e vai te surpreender.
Eu não conhecia esse diretor. Pesquisando aqui, vi que suas produções foram apresentadas nos festivais de cinema de Roterdão, Locarno, Sundance, Festival Fantástico, La Habana, entre outros. Talentoso ele. Fiquei super interessada em ver seu outro longa, de 2012, o Halley, que, pelo que entendi, é um retrato psicológico da depressão.
O cinema mexicano contemporâneo desfruta de uma liberdade formal e de mecanismos estruturais que permite aos cineastas filmar com certa frequência. Eles podem contar suas histórias, sem ter que fazer concessões a grupos políticos, religiosos ou comerciais. Esta pode ser considerada uma “Nova Época de Ouro” do cinema mexicano.
IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Minha nota: 3,7/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Tiempo Compartido
Outros nomes: Time Share.
País: México.
Ano: 2018
Direção: Sebastian Holfmann.
Roteiro: Julio Chavezmontes, Sebastian Hofmann.
Elenco: Luís Gerardo Méndez, Miguel Rodarte, Andrés Almeida, RJ Mitte, Cassandra Ciangherotti, Montserrat Manrañon.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O MUNDO A SEUS PÉS






Apresentado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2018, Le Monde Est à Toi é o segundo longa de Romain Gavras, diretor francês nascido na Grécia e filho do grande Costa Gavras.

O filme mescla comédia e ação, é uma paródia sobre filmes de gangsters. O ponto forte é a trilha sonora de alta energia (Michel Sardou, Laurent Voulzy, Daniel Balavoine). É aquele filme meio "nada a ver" mas que te faz acordar e não tirar os olhos da tela.

Karim Leklou tem aquela cara de menino carente e ele é François no filme, um comerciante que tem um sonho de ter um grande negócio e viver em uma casa com piscina com seu amor de juventude, Lamya (Oulaya Amamra, César de Melhor Atriz Revelação por Divines).

Sim, a trilha sonora é de fazer "levantar do caixão" mas quem arrebata o filme é a personagem de Isabelle Adjani: Dany, a mãe de François é uma gangster de carteirinha, não poupa nem o filho, de quem roubou todo o dinheiro que ele economizou e perdeu em jogatinas, o dinheiro com o qual ele pretendia comprar sua casa e viver uma vida diferente da que ele foi criado.
Agora ele vai precisar se arriscar em uma missão que será levar uma soma alta para trazer drogas da Espanha. Poutine, o chefe do tráfico, oferece a ele essa chance de se refazer.
Ele parte acompanhado do seu ex-sogro, Henry (Vincent Cassel), recém saído da prisão e aficionado por histórias de conspiração e dois jovens meio aloprados, que trabalham para o Poutine. Mas as coisas não saem como o previsto e François é forçado a pedir a ajuda de sua mãe.
Os acostumados a ver filmes dramáticos ou românticos com a Adjani, vão se deliciar com esse papel dela, aos 63 anos, como uma chefe de quadrilha, astuciosa e egocêntrica. Já o Cassel faz um papel menor.
Vou confessar que não entendi algumas coisas, o roteiro é meio confuso, mas mesmo assim recomendo. Eu tenho uma relação de amor com o cinema francês, que para mim, mesmo quando é ruim é bom, rsrsrsrs. Mas a qualidade da direção, do elenco, das atuações e da trilha sonora e os personagens caricatos que oferecem ótimos momentos de comédia já são argumentos mais que suficientes para você ver. Mas sei que nem todos irão gostar...




IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Minha nota: 3,5/ 5


Ficha técnica: 
Nome original: Le Monde Est à Toi.
País: França.
Ano: 2018
Direção Romain Gavras.
Roteiro: Romain Gavras, Karim Boukercha, Noé Debré.
Elenco: Karim Leklou, Isabelle Adjani, Vincent Cassel, Oulaya Amamra.