Cinéfilos Eternos

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A GUERRA DOS SEXOS



Billie Jean King, um dos grandes nomes da história do esporte e fundadora da WTA (Associação de Tênis Feminino), foi pioneira na luta pelo reconhecimento do tênis feminino e na remuneração igual para homens e mulheres.
Dona de 12 títulos em Grand Slam, a norte-americana aceitou, aos 29 anos, o desafio de enfrentar o ex-jogador Bobby Riggs, 55 (número 1 do mundo como amador e profissional nos anos 1930 e 1940), carimbado por seus comentários machistas e a opinião de que homem era sempre superior no esporte.
E King venceu por 3 sets a 0 (6/4, 6/3 e 6/3) no antigo Houston Astrodome, nos EUA. O duelo ficou conhecido como ‘Battle of the Sexes’ e se tornou um dos eventos esportivos mais assistidos da história, transmitido ao vivo na televisão para 90 milhões de pessoas ao redor do mundo.
O filme dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris ilustra essa história real, com Emma Stone e Steve Carell como os protagonistas. É essencial ressaltar a belíssima performance de Emma Stone, que foge totalmente de todas as personagens que interpretou anteriormente.
Antes de se tornar tenista Billie era uma boa jogadora de baseball. Uma de suas maiores marcas era que ela jogava de óculos. Billie Jean Moffitt, quando solteira, nasceu em Long Beach, Califórnia, no dia 22 de novembro de 1943. Em 1965, casou-se com Larry King e mudou seu nome para Billy Jean King. Eles ficaram casados por 22 anos.
"Eu estava totalmente apaixonada por Larry quando eu tinha 21 anos.", declarou ela, que não sabia que era gay. "Eu nunca teria me casado com Larry se eu soubesse. Eu nunca teria feito isso com ele."
Por volta de 1968, King percebeu seu interesse por mulheres e em 1971 começou um relacionamento íntimo com sua secretária, Marilyn Barnett. King admitiu o relacionamento quando o caso se tornou público por meio de um processo judicial em maio de 1981, tornando-se a primeira atleta profissional feminina de destaque a admitir que era homossexual.
Billy Jean diz ainda que queria dizer a verdade, mas que seus pais eram homofóbicos e ela não podia se abrir. Além disso, várias pessoas diziam-lhe que se ela falasse sobre isso, poderia ser o fim do circuito feminino. Só aos 51 anos, ela finalmente fui capaz de falar sobre isso adequadamente com seus pais.
Atualmente, Billy vive com sua companheira, Ilana Kloss. Larry casou-se de novo, teve dois filhos e elas são madrinhas.

Como filme, não tem nada de mais, mas como é o relato de um episódio real tem seu valor e vai empolgar principalmente aos fãs de esportes. Fora ser um tema ainda muito atual ao tratar do feminismo e do homossexualismo.
King tem sido uma advogada sem papas na língua contra o sexismo nos esportes e na sociedade.
Em 2009, foi condecorada pelo presidente americano Barack Obama com a mais alta honraria que um civil pode receber nos Estados Unidos: a Medalha da Liberdade.


IMDB: 6,8/ 10
Minha nota: 3,3/ 5



Ficha técnica:
Nome original: Battle of the Sexes
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Jonathan Dayton,  Valerie Faris 
Roteiro: Simon Beaufoy.
Elenco: Emma Stone, Steve Carrell.

FRASES DE FILMES


quarta-feira, 23 de maio de 2018

THE SQUARE - A ARTE DA DISCÓRDIA



Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017, indicado ao Globo de Ouro, ao Cesar, entre outros, foi um dos indicados ao Oscar 2018 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Não é um filme que irá agradar a todos. Longo, com 2:30 h de duração, o filme também não tem assim uma história definida, o que na verdade não vai importar e sim os questionamentos inseridos.
O personagem principal é Christian, interpretado pelo dinamarquês Claes Bang. Ele é um respeitado curador de arte de um museu em Estocolmo. Rico, elegante e charmoso, um típico representante da elite da arte. Li alguns comentários sobre ele ser arrogante e o exemplo do individualismo em nossa sociedade. Não concordo. Christian é somente alguém que tem uma visão idealizada sobre a vida e que procura agir de forma correta, dentro dos seus conceitos. Tem as suas fraquezas sim, mas quem não as tem? 
Sua noção de realidade vai ser minada quando lhe roubam o celular e a carteira de dinheiro. A partir daí, ele perde pouco a pouco o controle que tinha sobre o museu e sobre sua vida em geral.

A crise de Christian é apenas um ponto em um universo que é criticado, de forma bem-humorada. Sim, há um humor sutil no filme, aquele humor que é difícil de perceber, mas ele está ali. É só você estar aberto a ele, como precisa estar a uma obra de arte. Tentar dizer que alguma coisa não é arte, isso sim é arrogância. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime nossa alma. E quem somos nós para questionar o que se passa na alma de outro?
Afinal, qual é o papel da arte na sociedade moderna? Principalmente a arte contemporânea? A arte é acessível para todos? Um museu é uma arte de elite, visto que é excludente? Para que serve uma arte que ninguém entende?
Contrastando com a elegância e a grandiosidade do museu, vemos o tempo todo no filme mendigos aqui e ali, pedindo uns trocados, incomodando com suas vidas feias, ameaçando os ideais de beleza. Um panorama social da Suécia, que nada mais é que o panorama social do mundo. Eu nem sabia que lá haviam tantos mendigos... 
De que serve a arte para os que têm fome?

No desenvolvimento da história, o nosso curador está às voltas com seu mais novo projeto: a apresentação de uma obra conceitual, o quadrado. A ideia da artista é que nos limites desse quadrado existe um mundo utópico, onde as pessoas têm os mesmos direitos e deveres. A perfeição do quadrado pressupõe a preservação dos direitos. O "quadrado" é uma provocação ao público, para experimentar o altruísmo que há em cada um. E seu objetivo é restituir a confiança às pessoas. Quando Christian leva as filhas ao museu, ele lhes diz para deixar os celulares dentro de um quadrado na entrada (o quadrado com a função de um santuário!).
"O quadrado é uma zona franca onde impera a confiança e o cuidado

Em seu limite, todos têm os mesmos direitos e deveres."
A pergunta que todos nós fazemos é como diferenciar tudo que é mostrado sob a etiqueta de arte contemporânea do embuste? É também uma das funções do curador. ,Tem uma cena em que Christian é entrevistado por Anne (Elisabeth Moss) e ele lhe pergunta: "se eu pegar sua bolsa e colocar aqui no chão do museu, isso é arte?"
E quais são os limites da arte? Ou melhor, a arte deve ter limites? Perguntado sobre isso, o ator Claes Bang responde: "Acho que não deve haver qualquer limite. A motivação da arte é varrer esses limites e ir em frente. A arte precisa ter permissão para ir onde quiser. Claro que você não pode matar, mas lamento saber que exposições são fechadas por qualquer motivo, como ocorreu aí(no Brasil). A liberdade de expressão é importante."
Testando todos esses limites, tem a cena emblemática do filme, em que um ator, com uma impressionante expressão corporal, interpreta um macaco. Ele é colocado no meio de um sofisticado jantar e os participantes são avisados:


"O instinto da caça é demonstrado pela fraqueza. Se demonstrarem medo, o animal sentirá, Se tentarem escapar, o animal alcançará vocês. Mas se permanecerem imóveis, sem mover um músculo, o animal poderá passar despercebido. Você pode se esconder na multidão, tendo a segurança de que outro será a presa."


O que começa com curiosidade e risos disfarçados transforma-se em pavor, porque Oleg (o ator interpretado por Terry Notary), parece perder, tal qual a arte, os limites e incorporar realmente uma personalidade grotesca e ameaçadora. 
"Ter a segurança de que outro será a presa" é um sentimento bastante individualista também.

The Square é um filme totalmente instável, enquanto estamos assistindo não conseguimos seguir uma linha de pensamento. Ao mesmo tempo que precisamos lidar com tantos conceitos, estamos absortos com o que acontecerá com Christian, que se meteu em uma enrascada em sua busca, que acha justificada, pelas suas coisas roubadas. Não sabemos o que vem a seguir. Não sabemos o que queremos que venha a seguir, o que é pior, pois o filme não apresenta saídas fáceis.
Paralelamente, Christian está às voltas com promover o sucesso do lançamento do "quadrado". Ele precisa atrair a atenção e o público para o museu, porque como ele mesmo declarou, uma exposição demanda muito dinheiro. Então decide contratar uma equipe de marketing. Normalmente muito cuidadoso, ele está envolvido com todas esses acontecimentos que vem afetando sua vida pessoal e um vídeo com um conteúdo que ele não compactua viraliza nas redes sociais, desconstruindo mais ainda sua imagem e colocando a arte como instrumento da discórdia.
Genial e provocativo, é um filme que traz bastante reflexões e material para debates.


IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 4,3/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The Square
País: Suécia/ Dinamarca/ França/ EUA.
Ano: 2017
Direção e roteiro: Ruben Östlund
Elenco: Claes Bang, Terry Notary, Dominic West, Elisabeth Moss.


O diretor Ruben Östlund e parte do elenco do filme
The Square, no Festival de Cannes 2017.



A GAROTA IDEAL



Pense em um rapaz bonito, de boa família, trabalhador e que está sempre ajudando as pessoas. Lars Lindstrom é assim. Mas também é meio esquisito. Sua família são o seu irmão e sua cunhada grávida, ele mora nos fundos da casa deles, mas embora a mulher do seu irmão esteja sempre convidando-o para participar das refeições da família, ele sempre dá um jeito de escapar e ficar sozinho em casa. As pessoas em geral também estão sempre querendo arrumar uma namorada para ele. Mas Lars é um solitário. Sua timidez é maior que tudo.
Um dia, chega uma encomenda na casa dele. Uma boneca inflável. Sim, dessas que as pessoas compram para fazer sexo. Mas não é o caso de Lars. Ele quer ter uma namorada, uma companhia. Ele se arruma todo antes de abrir a caixa, quer dizer, antes de se apresentar a ela.
Tem início uma transformação em Lars. Ele passa a participar dos programas da família, ir a festas do pessoal do trabalho. Seu irmão está consternado e envergonhado, acha que ele precisa ser internado, mas a sua cunhada e a Drª Dagmar pensam o contrário, que todos precisam fazer o jogo dele. E, por incrível que pareça, toda a comunidade acaba aceitando tudo muito bem. Bianca, a namorada estrangeira de Lars, participa de todos os eventos sociais, vai à Igreja... Bianca dorme na casa do irmão de Lars, porque segundo ele não fica bem ele ficar sozinho com a moça.

Fica claro no filme que Lars passa por uma situação de conflito e angústia, por isso precisou da Bianca. Acontece que a mãe de Lars morreu no parto e a a aproximação do parto da cunhada está mexendo muito com ele. Lars diz que a mãe de Bianca também morreu no parto. A companheira imaginária é então uma maneira do fechado Lars de externar seus sentimentos. A psicóloga foi muito profissional para entender e conduzir a questão.
A delusão que Lars está passando não é um sentimento que o aprisiona, mas antes que o liberta. Não tão claramente, quantas vezes também precisamos nos utilizar desse recurso? A pessoa que coloca roupinhas de criança em cachorros ou gatos também não está se utilizando da delusão? Quando amamos um parceiro, imaginando nele qualidades que ele não possui, não estamos acaso sofrendo de delusão?
O filme mostra como, ao contrário do bullyng, a ausência de julgamentos e a valorização da pessoa provocam resultados positivos.

IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Lars and the Real Girl
País: EUA
Ano: 2007
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Nancy Oliver
Elenco: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paulo Schneider.


FESTA DE FAMÍLIA


***CONTÉM SPOILER***


Nossa, que filme forte! 

Junte uma família grande numa festa e sempre haverá algum tipo de confusão, uma alfinetada aqui, uma risada mal interpretada ali, normal. Acontece nas melhores famílias, porque embora os laços consanguíneos, os temperamentos são muito variados e a convivência entre pessoas parecidas já é difícil.

Mas na família Klingenfeldt, na comemoração dos sessenta anos do patriarca (Henning Moritzen) a coisa extrapolou de vez.

Além do pai e da mãe e de vários familiares e convidados, Christian (Ulrich Thomsen) vai encontrar seu irmão Michael (Thomas Bo Larsen) e sua irmã Helene (Paprika Steen). A sua irmã gêmea foi enterrada recentemente, encontrada morta em sua banheira.
O clima é de alto luxo, suítes espetaculares, o jantar de gala com uma alta equipe de cozinheiros e serventes.
É então que Christian pede a palavra e oferece ao pai a alternativa de escolher entre dois discursos, cada um num papel de cor diferente. 
Ninguém sabe mas esse ato foi uma alusão ao que o pai fazia com ele e com sua irmã gêmea, um sorteio para praticar um ato bárbaro.
Não só a família e os convidados ficam desconfortáveis com o discurso do filho mais velho, nós como espectadores também.

Acho que o que mais me incomodou na história não foi a revelação do Christian mas a maneira como todos se comportaram, tentando abafar o caso, tentando fingir que não acreditavam, tentando salvar a qualquer custo a festa e a família.
Tipo, aconteça o que acontecer, a família precisa ser preservada.
Eu sempre fui contra pessoas que sentem culpa por odiar o pai ou a mãe, alguns pais e mãe merecem ser odiados mesmo, essa coisa de laços de sangue, de amor incondicional são convenções. A gente tem que amar a quem merece ser amado.

Logo após o discurso, Christian meio que recua, porém o Chef de cuisine que o conhece desde a infância bola um plano e ajudado pela equipe escondem todas as chaves dos carros, ninguém pode sair e o confronto será inevitável.
No final, o irmão babaca Michael, que já tinha brigado com o namorado da irmã por ser negro e tratava a esposa super mal. é que se mostrou melhor que todo mundo, no meio de tanta gente hipócrita ele surpreendeu.


Thomas Vinterberg (A caça) assina esse primoroso trabalho de direção, esse retrato nu e cru da hipocrisia social e familiar, que defende alguns valores acima da dignidade humana. As interpretações são impecáveis e a fotografia desbotada e desagradável, com certeza propositalmente, em contraste com aquela família aparentemente bonita e bem sucedida.
Festen foi o primeiro trabalho do movimento Dogma 95, criado por Vintrberg e Lars Von Tryer, que estabelece um conjunto de dez regras para a realização cinematográfica, em parte em protesto contra as obras hollywoodianas. O filme recebeu inúmeros prêmios.

Em 2015, o cinema nórdico ganhou sua devida atenção na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Uma das mais talentosas regiões da Europa, sua história cinematográfica é um primor. Os países nórdicos constituem uma região da Europa setentrional e do Atlântico Norte, composta pela Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia, e as regiões autónomas das Ilhas Faroé, arquipélago da Åland e Groenlândia.

O termo "Escandinávia" é por vezes utilizado como sinônimo para os países nórdicos, embora dentro desses países os termos sejam considerados distintos. Os países escandinavos são a Noruega, a Suécia e a Dinamarca. Os países nórdicos são os países escandinavos e a Finlândia e a Islândia. 

Dentro desse conceito, o filme Fasten pode ser considerado tanto como Cinema Nórdico quanto como Cinema Escandinavo.

IMDB: 8,1/ 10
Minha nota: 4,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Festen
Outros Nomes:  Das Fest, The Celebration
País: Dinamarca/ Suécia
Ano:  1998
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg, Mogens Rukov
Elenco:  

JULIETA




A Julieta de Almodóvar é interpretada por duas atrizes diferentes: Adriana Ugarte na primeira fase e Emma Suárez na segunda. Não é à toa, claro. As "duas" Julietas têm comportamentos distintos, uma precisou nascer pra deixar sobreviver a outra.

Uma Julieta já mais madura e seu companheiro Lorenzo (Dario Grandinetti) planejam ir à Portugal mas às vésperas de sua viagem o encontro dela com Bea (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha, faz com que ela não queira mais sair de Madrid. Ela se muda para o antigo prédio onde morava e começa a escrever uma carta para Antía, sua filha. A partir dessa carta, vamos desvendando todo o passado de Julieta, não só seu passado, mas sua alma, tudo o que ela sentiu por todos os anos, desde um pouco antes de nascer Antía. 

O filme trata da eterna complexidade do relacionamento entre mães e filhas. Mas, além de tudo, é um filme sobre culpas. Quem não as tem?As mães já são seres culpados por natureza. Nos culpamos se nossos filhos não são felizes, nos culpamos dos momentos em que não estamos com eles, como se roubássemos um tempo que é deles... De uma maneira geral, uma palavra dita em um momento errado, pra qualquer pessoa, mesmo para um estranho, ou uma não dita...a falta de um olhar mais detalhado para uma determinada situação...e pronto, lá vem a culpa!

Baseado em três contos do livro Fugitiva, da vencedora do Prêmio Nobel Alice Munro, Julieta é um filme delicado e envolvente. As cores do filme como sempre são o toque de Almodóvar para descrever os sentimentos e as passagens das vidas dos personagens. 

"Julieta" é um filme introspectivo, nem Lorenzo sabe o porquê dela não querer mais sair de Madrid, ele entende que existe algo que ela não quer contar e respeita. Almodóvar dirige com tanta sensibilidade e maestria que nós espectadores chegamos a nos sentir desconfortáveis, a mim me pareceu estar andando nas pontas dos pés e falando baixinho para não interromper ou incomodar Julieta na sua intimidade, na sua dor.


IMDB: 7,1/ 10
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Julieta
País: Espanha
Ano:  2016
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar, Alice Munro
Elenco: Adriana Ugarte, Emma Suárez, Daniel Grao, Michelle Jenner, Rossy de Palma, Inma Cuesta, Dario Grandinetti, Blanca Parés.

ELLA & JOHN



Que filme delicioso. Baseado na novela de Michael Zadoorian, à primeira vista, pode parecer deprimente, visto ser sobre um casal no fim da vida que decide fugir dos filhos para fazerem sozinhos o que pode ser sua última viagem juntos, a bordo de seu velho e viajado trailer: The Leisure Seeker.
Ella possui um jeito simples e aprecia conhecer as peculiaridades e as pessoas dos lugares por onde passa. Ao estilo Forrest Gump, ela gosta de reviver e contar histórias do seu passado. Já John, ex-professor, já acredita que a viagem deve ter fins culturais. Fã inveterado de Hemingway, ela gosta de recitar partes dos romances do admirável escritor. Isso quando se lembra, porque ele tem Alzheimer. De vez em quando se esquece que está viajando e em que tempo está. Aí que funciona perfeitamente o relacionamento entre eles. Porque Ella está sempre ali ao seu lado, para lhe contar passagens maravilhosas de suas vidas. Ele precisa ser lembrado e ela gosta de lembrar.
Nesse sentido, o filme é saboroso, poucos casais podem se orgulhar de uma vida juntos e é tanta lembrança boa, tanto prazer compartilhado, que esse lindo casal vai nos provocar é muita inveja, em vez de pena. Quem não quer olhar para trás e poder dizer que a vida valeu a pena? Aliás, acho que esse é um dos grandes motivos do medo da morte: o saber que ficou tanta coisa por fazer, tanta coisa por viver, muito por dizer.
Mas não é o caso do nosso casal de protagonistas interpretados pela grande Helen Mirren e o maravilhoso Donald Sutherland. O destino deles é visitar a casa de Hemingway. E lá vão eles pela estrada, dormindo em campings, tomando vinho e curtindo mais uma vez a companhia prazerosa um do outro, até o silêncio é motivo de deleite.
"Sabe o que eu amo em você, John? O seu silêncio nunca foi constrangedor. Nenhuma vez eu pensei: Agora eu preciso falar algo."
Do diretor italiano Paolo Virzì, também ator e roteirista e que ganhou com o seu primeiro filme, La Bella Vita, de 1994, o Grava d'Oro, Nastro d'Argento e David di Donatello de Melhor Novo Diretor. Posteriormente foi muito premiado com os filmes Il Capital Umano, 2013 e Loca Alegría, 2016. Paolo é casado com a atriz italiana Micaela Ramazzotti.
Ella & John é um filme sensível, que traz algumas questões delicadas, mas de uma forma cativante. Os dois atores veteranos dão força e leveza aos belos diálogos e o tema pesado vira poesia:
"Não vamos nos separar, ok? Porque não nos resta muito tempo."
Eles não querem se separar porque o tempo que resta é curto, mas também porque há muito amor envolvido e eles querem aproveitar cada segundo que resta. É triste e lindo ao mesmo tempo. Eu sei que o tema já foi abordado em outros filmes, mas foi muito bem conduzido e mistura emoções com diversões na dose certa. Vale a pena embarcar nessa viagem com eles.

IMDB: 6,6/ 10
Minha nota: 3,7/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The Leisure Seeker 
País: Itália, França.
Ano: 2017
Direção: Paollo Virzi.
Roteiro: Paollo Virzi e outros
Elenco: Helen Mirren, Donald Sutherland.