Cinéfilos Eternos: Ruben Östlund
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quarta-feira, 23 de maio de 2018

THE SQUARE - A ARTE DA DISCÓRDIA



Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017, indicado ao Globo de Ouro, ao Cesar, entre outros, foi um dos indicados ao Oscar 2018 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Não é um filme que irá agradar a todos. Longo, com 2:30 h de duração, o filme também não tem assim uma história definida, o que na verdade não vai importar e sim os questionamentos inseridos.
O personagem principal é Christian, interpretado pelo dinamarquês Claes Bang. Ele é um respeitado curador de arte de um museu em Estocolmo. Rico, elegante e charmoso, um típico representante da elite da arte. Li alguns comentários sobre ele ser arrogante e o exemplo do individualismo em nossa sociedade. Não concordo. Christian é somente alguém que tem uma visão idealizada sobre a vida e que procura agir de forma correta, dentro dos seus conceitos. Tem as suas fraquezas sim, mas quem não as tem? 
Sua noção de realidade vai ser minada quando lhe roubam o celular e a carteira de dinheiro. A partir daí, ele perde pouco a pouco o controle que tinha sobre o museu e sobre sua vida em geral.

A crise de Christian é apenas um ponto em um universo que é criticado, de forma bem-humorada. Sim, há um humor sutil no filme, aquele humor que é difícil de perceber, mas ele está ali. É só você estar aberto a ele, como precisa estar a uma obra de arte. Tentar dizer que alguma coisa não é arte, isso sim é arrogância. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime nossa alma. E quem somos nós para questionar o que se passa na alma de outro?
Afinal, qual é o papel da arte na sociedade moderna? Principalmente a arte contemporânea? A arte é acessível para todos? Um museu é uma arte de elite, visto que é excludente? Para que serve uma arte que ninguém entende?
Contrastando com a elegância e a grandiosidade do museu, vemos o tempo todo no filme mendigos aqui e ali, pedindo uns trocados, incomodando com suas vidas feias, ameaçando os ideais de beleza. Um panorama social da Suécia, que nada mais é que o panorama social do mundo. Eu nem sabia que lá haviam tantos mendigos... 
De que serve a arte para os que têm fome?

No desenvolvimento da história, o nosso curador está às voltas com seu mais novo projeto: a apresentação de uma obra conceitual, o quadrado. A ideia da artista é que nos limites desse quadrado existe um mundo utópico, onde as pessoas têm os mesmos direitos e deveres. A perfeição do quadrado pressupõe a preservação dos direitos. O "quadrado" é uma provocação ao público, para experimentar o altruísmo que há em cada um. E seu objetivo é restituir a confiança às pessoas. Quando Christian leva as filhas ao museu, ele lhes diz para deixar os celulares dentro de um quadrado na entrada (o quadrado com a função de um santuário!).
"O quadrado é uma zona franca onde impera a confiança e o cuidado

Em seu limite, todos têm os mesmos direitos e deveres."
A pergunta que todos nós fazemos é como diferenciar tudo que é mostrado sob a etiqueta de arte contemporânea do embuste? É também uma das funções do curador. ,Tem uma cena em que Christian é entrevistado por Anne (Elisabeth Moss) e ele lhe pergunta: "se eu pegar sua bolsa e colocar aqui no chão do museu, isso é arte?"
E quais são os limites da arte? Ou melhor, a arte deve ter limites? Perguntado sobre isso, o ator Claes Bang responde: "Acho que não deve haver qualquer limite. A motivação da arte é varrer esses limites e ir em frente. A arte precisa ter permissão para ir onde quiser. Claro que você não pode matar, mas lamento saber que exposições são fechadas por qualquer motivo, como ocorreu aí(no Brasil). A liberdade de expressão é importante."
Testando todos esses limites, tem a cena emblemática do filme, em que um ator, com uma impressionante expressão corporal, interpreta um macaco. Ele é colocado no meio de um sofisticado jantar e os participantes são avisados:


"O instinto da caça é demonstrado pela fraqueza. Se demonstrarem medo, o animal sentirá, Se tentarem escapar, o animal alcançará vocês. Mas se permanecerem imóveis, sem mover um músculo, o animal poderá passar despercebido. Você pode se esconder na multidão, tendo a segurança de que outro será a presa."


O que começa com curiosidade e risos disfarçados transforma-se em pavor, porque Oleg (o ator interpretado por Terry Notary), parece perder, tal qual a arte, os limites e incorporar realmente uma personalidade grotesca e ameaçadora. 
"Ter a segurança de que outro será a presa" é um sentimento bastante individualista também.

The Square é um filme totalmente instável, enquanto estamos assistindo não conseguimos seguir uma linha de pensamento. Ao mesmo tempo que precisamos lidar com tantos conceitos, estamos absortos com o que acontecerá com Christian, que se meteu em uma enrascada em sua busca, que acha justificada, pelas suas coisas roubadas. Não sabemos o que vem a seguir. Não sabemos o que queremos que venha a seguir, o que é pior, pois o filme não apresenta saídas fáceis.
Paralelamente, Christian está às voltas com promover o sucesso do lançamento do "quadrado". Ele precisa atrair a atenção e o público para o museu, porque como ele mesmo declarou, uma exposição demanda muito dinheiro. Então decide contratar uma equipe de marketing. Normalmente muito cuidadoso, ele está envolvido com todas esses acontecimentos que vem afetando sua vida pessoal e um vídeo com um conteúdo que ele não compactua viraliza nas redes sociais, desconstruindo mais ainda sua imagem e colocando a arte como instrumento da discórdia.
Genial e provocativo, é um filme que traz bastante reflexões e material para debates.


IMDB: 7,3/ 10
Minha nota: 4,3/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The Square
País: Suécia/ Dinamarca/ França/ EUA.
Ano: 2017
Direção e roteiro: Ruben Östlund
Elenco: Claes Bang, Terry Notary, Dominic West, Elisabeth Moss.


O diretor Ruben Östlund e parte do elenco do filme
The Square, no Festival de Cannes 2017.