Cinéfilos Eternos

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

VIDA SELVAGEM




Em um melancólico e real retrato de uma dona de casa, vivendo em uma época em que mulheres nem ao menos tinham voz, o estreante Paul Dano insere a personagem da talentosíssima Carey Mulligan em uma família suburbana e pobre cujo o marido (Jake Gyllenhaal), não diferente de muitos da época, coloca suas frustrações e problemas acima da própria esposa e do filho (Ed Oxenbould). 


O marido é demitido e, por orgulho, recusa todo e qualquer tipo de trabalho na cidade. Então, ele decide se juntar a um grupo de homens e partir para a floresta onde havia um grande incêndio, deixando para trás sua família. 

Desamparada e sozinha, a dona de casa começa a trabalhar para prover a si mesma e ao filho. O peso em seus ombros se torna ainda pior com as estradas nebulosas que ela percorre, destruindo ainda mais o filho, que tenta manter uma ponta de esperança de que a família ficaria bem. 

Eu sinto que eu preciso acordar, mas eu não sei de que ou para que...”, diz a mãe para o filho em um total momento de desespero e desnorteamento. 

Dano consegue fotografar perfeitamente uma família se despedaçando. Ele não só tem as mãos habilidosas para o triste projeto, como tem a sorte de ter três atores incríveis envolvidos e que tornam este longa ainda mais tocante e real. 

Em uma das cenas em que a mãe já está em total aceitação de sua situação, ela faz uma comparação do estado das árvores no grande incêndio com seu próprio estado após a partida do marido: 

“Você sabe como eles chamam as árvores em um incêndio florestal? Combustível. Você sabe como eles chamam as árvores depois que o incêndio passa? Eles as chamam de mortos em pé”. 

Talvez donas de casa sejam uma das parcelas da sociedade que mais sofreram caladas no passado (em países como o Brasil até hoje). Muitas infelizmente viraram cinzas, mas elas, como pilares das famílias, resistiram de pé, mesmo mortas por dentro.

Comentários e sinopse: Tom Carneiro.


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,7/ 5

Nota (Tom Carneiro): 4,5/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Wildlife 
País: EUA
Ano: 2018, EUA


Direção: Paul Dano
Roteiro: Paul Dano, Richard Ford, Zoe Kazan.
Elenco: Carey Mulligan, Jake Gyllenhaal, Ed Oxenbould.

AMOR E REVOLUÇÃO




O filme prende bastante a atenção e devo destacar aqui a interpretação de Michael Nyqvist, ator de Millennium, que infelizmente faleceu em 2017. Pelo papel de Paul Schäfer, um ex-militar nazista, ele foi indicado ao Prêmio do Cinema Alemão de Melhor Ator Coadjuvante.
"Chile, 1973. Em meio ao golpe de estado que derrubou o presidente eleito Salvador Allende e possibilitou a ascensão do ditador Augusto Pinochet, as massas estão nas ruas protestando, entre eles um casal alemão, Lena (Emma Watson) e Daniel (Daniel Brühl)".
Dirigido pelo alemão Florian Gallenberger, que teve seu filme "Quiero Ser" premiado com o Oscar de Melhor Curta de Live Action em 2001, Colonia (nome original) é, infelizmente para a humanidade, baseado em fatos reais.
"A ditadura chilena não é um tema desconhecido para o ator alemão que nasceu em Barcelona e cuja mãe é espanhola. Daniel Brühl conta que, “quando era criança (…) houve mesmo uma família de chilenos exilados que viveu lá em casa. Os meus pais estavam muito envolvidos nas questões chilenas e portanto tive uma relação com o Chile, com a sua cultura e a sua história desde tenra idade”."
Já a atriz britânica, nascida em Paris, explicou aos jornalistas os motivos que a levaram a aceitar o papel de Lena, a noiva de Daniel: “Muita gente me pergunta se escolhi esse filme por causa do meu interesse recente pela política. Mas, a verdade é que adorei o papel. Claro que é também uma época em que estou interessada, mas foi a personagem que me atraiu para este filme”.
Uma outra personagem que vai aparecer ao longo do filme e que eu sabia que conhecia mas custei a lembrar é a Ursel. A atriz é Vicky Krieps, a Alma de Trama Fantasma.
Bem, voltemos ao filme. "Quando Daniel é levado pela polícia secreta de Pinochet, Lena procura por ele e descobre que seu amado está em um lugar chamado Colonia Dignidad, uma suposta missão de caridade dirigida por um pregador (Michael Nyqvist), só que na verdade é uma prisão de onde ninguém nunca escapou. A fim de encontrar Daniel, a moça decide se juntar ao culto religioso da Colonia".
Amor e Revolução se centra mais na ação do que no contexto histórico. Gallenberger disse que o objetivo dele foi focado mais no entretenimento, em contar uma história fascinante, mas não deixando de despertar no espectador o interesse pela história da ditadura chilena.
O roteiro tem suas falhas e um certo exibicionismo no final. Acredito que o casal de protagonistas é ficcional, não encontrei nenhuma referência a eles. Mas a Colônia Dignidad é verdadeira e seu líder idem. Outra coisa que não gostei é que o filme se passa no Chile, Daniel e Lena são alemães, mas o idioma é inglês.
A Colônia Dignidade é um assentamento fundado no Chile em 1961 por Paul Schäfer, um ex-militar nazista, acusado de abuso infantil na antiga Alemanha Ocidental. Está localizada na comuna de Parral, província de Linares, na região do Maule. Se tornou famosa como centro de detenção e tortura nos tempos da ditadura de Augusto Pinochet, embora de fachada fosse apenas uma seita de "excêntricos inofensivos". Vídeos de residentes felizes em meio a celebrações e comemorações eram divulgados mas, lá dentro atrocidades e abusos eram cometidos.
O local era cercado por arame farpado, cercas e apresentava uma torre de vigia e luzes de busca, segurança máxima. Mais tarde foi relatado conter também armas secretas, que eram comercializadas. Poucas pessoas conseguiram escapar da fortaleza e denunciaram os abusos e o trabalho escravo.
Após décadas de abusos e torturas, Paul Schaefer foi preso em 2005, somente em 2005, vejam só! Depois de chegar no Chile, Schaefer transformou os 230 ‘colegas alemães’, que deixaram o país com ele, em escravos. Famílias foram separadas e crianças conduzidas a uma casa onde Schaefer mantinha um apartamento privativo. No local, meninas e meninos eram criados nos moldes da cultura germânica e abusados pelo soldado nazista. O isolamento da colônia permitiu que as torturas e os abusos permanecessem absolutamente em sigilo. Alguns torturadores escaparam ilesos, como o administrador do hospital de torturas Harmutt Hopp, que fugiu para a Alemanha.
Mais da metade dos antigos colonos voltaram para a Alemanha e o local se tornou um lugar de lazer e diversão. Muitos pedófilos e torturadores, no entanto, continuam vivendo normalmente na aldeia. Apesar dos esforços dos advogados das vítimas, ninguém foi indenizado até hoje.
Schafer morreu em 2010, em Santiago, Chile, aos 89 anos.Foi tarde, muito tarde!

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Colonia.
País: Alemanha/ França/ Luxemburgo.
Ano: 2015
Direção: Florian Gallenberger
Roteiro: Florian Gallenberger, Torsten Wenzel.
Elenco: Emma Watson, Daniel Brühl, Michael Nyqvist, Vicky Krieps.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A CASA QUE JACK CONSTRUIU





(OBS.: SE VOCÊ NÃO VIU AINDA OU NÃO GOSTA DE SPOILER, NÃO LEIA)

"Você está autorizado a falar, ao longo do caminho?", pergunta ele a Verge. Virgílio responde: "As pessoas se sentem dominadas por esse desejo estranho e repentino de se confessarem durante essa viagem... pode continuar... só não acredite que você irá me dizer algo que eu nunca tenha ouvido antes."
Ele se chama Jack.
Por que Jack? Seria uma simples coincidência ou uma referência, quem sabe até uma homenagem, já que esse nosso diretor é louco, ao emblemático Jack, o estripador? Sim, emblemático, porque ele é lembrado e muitas vezes mencionado toda vez que se fala de assassinos em série. Na verdade, o responsável por vários crimes que aconteceram na periferia de Londres, em 1988, nunca foi identificado. O nome "Jack, o estripador" se originou de uma carta escrita pelo suposto assassino e que foi amplamente divulgada pela imprensa na época e acredita-se que foi inventada por jornalistas para aumentar o interesse e vender mais jornais.
O caminho, qual seria? Não dá para ver no princípio do filme, só se ouvem as vozes e um barulho de água, que sugere que Jack e Virgílio estão em um barco. Será que é o rio Aqueronte, em que outrora Caronte, o barqueiro que faz a travessia das almas, levou Dante e Virgílio?
A viagem de Dante é uma alegoria através do que é essencialmente o conceito medieval de Inferno, guiada pelo poeta romano Virgílio. No poema, o inferno é descrito com nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. Foi escrito no início do século XIV. Os mais variados pintores de todos os tempos criaram ilustrações sobre esta obra, se destacando Botticelli, Gustave Doré e Dalí. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves. Portanto os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final.
A viagem com Jack será bem longa, pelo visto. Literalmente: A Casa que Jack Construiu tem 2h35 de duração. A vontade, quando se origina como manifestação da natureza animal é ainda menos grave que aquele pecado que é cometido de forma premeditada, usando a inteligência do ser humano para o mal, mesmo assim, é menos grave um indivíduo planejar e executar um crime contra um desconhecido, que pode se defender do estranho que o ameaça, que ele fazer o mesmo com alguém que confia nele, e por isto está indefeso, por isso a traição é considerada o maior pecado, que recebe a punição máxima no local mais profundo do inferno.
Portanto, Jack, que recebe a permissão, tem muito para contar. O filme, como Lars gosta de fazer, se divide em 5 partes, que, aqui, ele denominou de 5 incidentes.
Significado de incidente na língua portuguesa: episódio inesperado que altera a ordem normal das coisas.
1º incidente: Jack encontra-se com uma mulher na estrada (Uma Thurman), que tem o pneu do carro furado e o macaco, que ela por coincidência (ou não) chama de Jack, quebrado. Jack não tem um "Jack" para emprestar e a orienta a ir a um ferreiro próximo. Ela lhe diz que talvez precise seduzi-lo para que ele a leve lá, cometendo seu primeiro erro. Depois de uma série de outros erros, onde ela o provoca o tempo todo, confesso que até eu fiquei com raiva dela, ele comete seu primeiro assassinato. Então, podemos chamar o primeiro incidente de "A MULHER IRRITANTE". Foi o episódio inesperado que fez Jack alterar sua condição de não assassino para assassino, até então ele não sabia que queria matar;
2º incidente: "A TOLA QUE QUER SER ESPERTA". Sempre falo isso, que a maioria das pessoas que são ludibriadas o são porque querem tirar vantagem de alguma coisa. Na ânsia de serem espertas, são enganadas. Como uma droga, o primeiro assassinato causa em Jack uma espécie de prazer, a abstinência causa dor, é preciso acabar com aquela dor. Jack aproveita para testar aqui o seu método de persuasão. Se no primeiro crime, a vontade de matar surgiu de repente, foi quase que provocada pela mulher irritante, agora é premeditada. Sucesso! Ele retira o corpo da casa e volta para limpar. Só tem um problema: ele sofre de transtorno obsessivo-compulsivo por limpeza e a cada vez que sai da casa, volta para verificar. É quase uma piada, de humor negro, mas é: um serial killer com toc?
3º incidente: "A INGÊNUA". O conceito de família inspirando o que Jack denominou sua maior obra até então. 
"Não veja os atos, veja o trabalho, toda a ideia de troféus", diz ele para Verge (Virgílio);

4º incidente: "A DOCE E BURRA".
Já mais experiente, ele sente que esta se livrando do seu transtorno por limpeza e perfeição e experimenta essa liberdade: ele percebe que as preocupações dele não são as das outras pessoas;

"Por que só mulheres?", pergunta Virgílio. "Não, matei muitos homens também, escolhi esses incidentes aleatoriamente." "Mas você só falou sobre mulheres estúpidas. Por que elas são tão estúpidas? A menos que você ache que todas as mulheres são estúpidas. Você se sente superior às mulheres e quer se gabar? Isso te excita, Jack?"
"Mulheres são sempre vítimas. E os homens são sempre os criminosos... pense na injustiça disso. Por que a culpa é sempre do homem? "
É o assassino mostrando que a misoginia o move também. Os homens são culpados, segundo ele, mesmo se não fazem nada e então ele faz.
Jack, que agora se intitula Sr Sofisticação, tem umas ideias para aprimorar seu trabalho, sua arte, como ele prefere reconhecer. Ele arruma os cadáveres e tira fotos. Apesar que ele é mais fascinado pelos negativos do que pelas fotos em si.
"Quando eu tinha dez anos, eu descobri que através do negativo, você poderia ver a verdadeira qualidade demoníaca da luz interior. A luz negra."

O 5º incidente: Jack achava que sinais do sol e da lua pediram a presença dele para outra obra de arte. Primeiro, o eclipse. Depois, a erupção vulcânica da montanha St. Helens...
Do mesmo jeito que ele não conseguia terminar de construir sua casa, o ciclo de mortes também não se concluía. O Sr. Sofisticação exigia novos métodos para refinar sua arte. Primeiro as execuções individuais, depois ele experimentou com uma família, agora, inspirado em alguns ícones da história do mundo, ele queria mais...

Sim, Lars ousa repetir através do personagem que Hitler é um ícone. Eu entendo esse termo como uma referência que valha a pena, e vocês?
Os cinco incidentes, os cinco níveis do inferno, ...
De onde vem a pulsão para matar?
Como todo bom psicopata, Jack parece fazer o possível para que o descubram. Primeiro, ele sempre é ajudado pela própria natureza e se existe um Deus, ele acredita que tem o seu aval. Ele deixa pistas, ele não é um profissional tão cuidadoso. Só de exemplo, uma vez ele deixou um rastro de sangue e aí veio a chuva e apagou. Não seria um sinal para ele continuar? E aí ele divide sua responsabilidade com a sociedade, porque as pessoas não se importam mais com as outras, suas vítimas gritam mas ninguém as acode, "não é da conta deles", pensam. Os policiais são de uma incompetência só. Uma vítima chegou a pedir o auxílio de um, mas ele não acreditou nela. As próprias famílias muitas vezes não dão falta de seus familiares.
Como a casa que Jack constrói há anos, o filme levou anos para ser desenvolvido. Jack e Lars visitam as profundezas em busca de respostas. "Fame, whats's your name?", ecoa a música de David Bowie durante o filme. Imagens de guerra, de Hitler, dos próprios filmes do Lars, como se Jack e Lars quisessem ir cada vez mais fundo. Aquela porta que não quer abrir trará a resposta?
Jack usa Virgílio para contra-argumentar. Sua personalidade dominante precisa mostrar que tem razão. E afinal, de que adianta aquilo tudo se ninguém reconhece sua arte? As cinco etapas para o inferno lhe darão pelo menos o devido tempo para ele se vangloriar dos seus feitos. Ele estava nessa estrada da vida e da morte há doze anos, sozinho. Jack talvez esteja cansado... talvez precise desesperadamente que aquela porta abra, aquela porta que pode por fim em tudo...quem sabe Virgílio tenha razão... Que tudo que ele queria era ser amado. E que não é a morte a verdadeira arte e sim o amor!
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O que achei: muito bom! Em alguns momentos, chatinho, porque longo e com várias dissertações sobre arte, mas que depois você vai entender que são importantes para o desenvolvimento da ideia do Lars. Sim, porque fica claro que essa viagem ao inferno não é só do Jack. É do Lars, através do Jack. Polêmico, sempre, Lars quer argumentar que na arte vale tudo. Acho que não concordo. Sim, tem violência, cenas chocantes, mas nada que não tenha em vários filmes de serial killer. Talvez o cinismo do Jack é que incomode mais. Li alguns comentários sobre o filme ser mediano e devo dizer que um filme dele nunca é mediano: ou você odeia ou você ama.

IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 4,2/ 5


Ficha técnica:
Nome original: The House That Jack Built.
País: Dinamarca/ Alemanha/ França/ Suécia.
Direção: Lars Von Trier.
Roteiro: Lars Von Trier, Jenle Hallund.
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TODOS JÁ SABEM



O filme abriu o Festival de Cannes de 2018. Escrito e dirigido pelo cineasta iraniano Asghar Farhadi, a produção irá trazer uma estranheza, já que não só é rodada em Madrid, como não tem nada a ver com a temática iraniana. No elenco, atores e atrizes espanhóis, como Penélope Cruz e Javier Bardem, o argentino Ricardo Darin e a fotografia é de de José Luis Alcaine, parceiro de Pedro Almodóvar em vários filmes. Em língua espanhola e castelhana, algumas vezes também surge a francesa.
Estimado pelos seus excelentes filmes, onde insere diversos tipos de conflitos, abordando a moral, a ética, a religiosidade, entre outros, o diretor de A Separação, À Procura de Elly, O Passado e O Apartamento, esse último vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017 nos entrega em "Todos los Saben" um drama familiar com tons de thriller.
Laura (Penélope) mora na Argentina com Alejandro (Darin) e chega à sua cidade natal com seus dois filhos, para o casamento da irmã. Seu marido ficou por motivos inadiáveis. Na primeira parte do filme, vamos participar do seu encontro com os pais, as irmãs e também com um ex-namorado, que considera-se quase parte da família. A cerimônia transcorre alegre, a festa animada, todos bebendo exagerado e dançando, e cantando, aquelas coisas de festas de casamentos. Lá pelas tantas, Laura coloca seu filho pequeno para dormir e mesmo sua filha Irene, de 16 anos que, até então estava aprontando todas e agora parecia exausta.
A luz acaba, começa a chover, mas nada tira a alegria da família e dos convidados. Paco (Javier Bardem), sempre participativo, se apressa a pegar um gerador, e a festa e os risos continuam. Até que em determinada hora, Laura sobe e vê que Irene, sua filha, não encontra-se na cama. Tem início uma busca desesperada e, a partir daí, o clima é de tensão e desconfiança. Alejandro é chamado, desconfia-se de tudo e de todos, antigos rancores vêm à tona. O que prova que na maioria das vezes, socialmente ou mesmo em família, vivemos de aparências: aparentamos que está tudo bem, que não temos nada uns contra os outros. Julgamos ser melhor assim, é mais educado ser assim. Tem coisas que se dizemos em um momento errado, pode parecer inveja. Qual será o melhor momento? É preciso mesmo dizer tudo? O fato é que os pensamentos, os sentimentos, os segredos!, estão lá. Eles não passam com o tempo. Basta acontecer alguma coisa em comum, que deixe todos tensos e ninguém consegue mais segurar. A família perfeita, de sorrisos perfeitos, mostra sua cara.
Acredito que Farhadi quis mostrar aqui que as tensões e conflitos acontecem em todos os lugares e com quaisquer pessoas, independente do lugar onde vivam, o Irã tem suas peculiaridades, é claro, mas o seu olhar se abre também para o mundo. Em O Passado, a história transcorre na França, mas os personagens são iranianos.
Essa não é nenhuma história original, "Todos lo Saben", todos já sabiam e fingiam que não sabiam, todos sabiam que todos sabiam mas fingiam que não. Por que logo a Irene? Perguntava-se Laura, despedaçada.
No casamento, o padre lembra aos presentes que o sino e a igreja precisam de reformas, contém rachaduras. Talvez a família aqui do filme também.
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.” Tolstói.
Ficamos todos tentando descobrir pistas que levem à Irene e ao culpado, mas temos aqui mais que tudo a história da família e dos personagens.
É uma pena que a participação do Darin seja tão secundária, o filme é da Penélope e do Bardem, mais ainda do Bardem, com certeza. Alejandro, ex-alcoólatra, agarra-se com Deus e sua atitude mostra-se mais passiva que o desejado, o que torna até ele mesmo questionável. Asghar insere assim, mais uma vez, a religiosidade. Um outro que se destaca também, mais que o Darin, é o ator Eduard Fernández, no papel de Fernando, tio de Laura. Incansável, tenta ajudar de todas as maneiras. Mas lembrando que todos são suspeitos...
"Todos lo saben y nadie dice".

IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha Nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Todos los Saben.
Outros nomes: Everybody Known.
País: Espanha/ França.
Ano: 2018
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darin, Bárbara Lennie, Eduard Fernández, Carla Campra.


domingo, 30 de dezembro de 2018

A HISTÓRIA VERDADEIRA





Pensei, pensei, se deveria escrever sobre esse filme. Pelo mesmo motivo que talvez Michael Finkel não deveria ter escrito um livro e Rubert Goold não deveria ter feito um filme: dar publicidade a Christian Longo. Se bem que sou um pouco menos famosa, né, então acho que não tem problema, rsrsrsrs. Talvez, assim como o Finkel, eu tenha ficado obcecada, estou com necessidade de colocar para fora as minhas impressões. Baseado em uma história real, mas se você não lembra do crime, melhor não ler o que escrevo, antes de ver o filme.
Na verdade, o filme de deprimiu. Aquele olhar vazio do Christian (James Franco) me deixou gelada. Aquele olhar, vazio de tudo. Se existe um inferno, esse olhar é a janela para lá, ...
O filme baseia-se no livro escrito pelo jornalista investigativo Michael Finkel. Recém desempregado, ele descobre que um cara preso por assassinato estava se passando por ele no Mexico. A pergunta, claro: por que ele?
É isso que move Michael quando tenta e consegue uma visita ao Christian: "cara, por que eu?". Ele estava longe de saber a armadilha onde estava se metendo. Ele era um cara comum, com seus ideais, como tantos. Na época atual, com a autoestima lá embaixo, já que foi demitido sumariamente. Michael escrevia bem, era elogiado, mas uma demissão assim faz você questionar os seus valores. Talvez ele fosse um nada. Sua vulnerabilidade mais o carisma de Longo faz com que ele, involuntariamente, sinta-se atraído pela personalidade do outro. Além disso, quem sabe, pode ser sua chance de escrever uma boa história e esfregar na cara dos seus antigos superiores do New York Times. Inicialmente seria uma reportagem, mas Finkel reconheceu que tinha material para um livro. Por que ele? Quem sabe a vida estava lhe dando uma chance? Christian Longo enaltece seu trabalho, diz que leu tudo que ele publicou, está certo, é apenas um odioso e frio assassino, mas de uma certa maneira isso o envaidece, ele não sabe explicar, mas sente-se especial.
Forma-se mesmo uma camaradagem entre eles. Finkel começa a alimentar a esperança, como poderia ser de outro modo?, de que Longo vá lhe revelar algo que o inocente, ele terá o maior furo do ano. Felicity Jones interpreta a esposa de Michael, que acompanha e preocupa-se com a obsessão do marido pelo caso.
Christian era o principal suspeito pelo assassinato da esposa e dos três filhos, um crime que chocou os EUA e o mundo em 2001.
Quando Christian Longo conheceu sua esposa, Mary Jane, era uma história de amor ideal. Testemunhas de Jeová, eles se conheceram na igreja e Christian começou a fazer proselitismo de porta em porta com Mary Jane. Eles ficaram noivos, mas antes que pudessem se casar, Christian foi pego roubando de seu empregador, e eles não foram autorizados a se casar dentro do Salão do Reino das Testemunhas de Jeová. Em vez disso, um ministro os casou em um ginásio em Março de 1993. Em 1997, eles tiveram seu primeiro filho, Zachary, seguido por uma menina chamada Sadie e por último Madison. Em 1999, Mary Jane deixou o emprego e começou a vida que ela sempre sonhou - ser mãe em tempo integral e mulher. Christian parecia querer o melhor para sua família, mas ao invés de trabalhar duro para isso, ele começou com falsificação de cheques e roubou uma minivan. Ele também contraiu dívidas sob um nome falso e começou a vender equipamentos de construção roubados. Ele acabou sendo preso e expulso das Testemunhas de Jeová. Já em liberdade condicional, Longo vendeu seus bens e fugiu com sua família. No entanto, por causa de seus gastos extravagantes na fuga, a família ficou sem dinheiro, e Longo conseguiu um emprego em um Starbucks em Newport, Oregon. Mais uma vez, ele começou a viver acima das suas possibilidades, alugou um apartamento de luxo por US $ 1200 por mês, que era exatamente seu salário no Starbucks. Em 19 de dezembro de 2001, o corpo de 5 anos de idade, Zachary apareceu nas margens da Baia de Yaquina. Pouco tempo depois, Sadie 3 anos de idade, foi encontrada morta. Segundo a autópsia, as crianças se afogaram. Os corpos de Mary Jane e de Madison também foram encontrados em malas na mesma baía. Mary Jane havia sido espancada, e a menina tinha sido estrangulada. No dia em que os últimos corpos foram encontrados, Longo embarcou em um avião indo de San Francisco para Cancun, no México. Ele foi colocado na lista dos 10 mais procurados do FBI e foi reconhecido por uma mulher que se hospedara no mesmo albergue que ele.
Quando chegou a Cancun, ele adotou o nome de um jornalista do New York Times Magazine: Michael Finkel, até que o FBI finalmente o encontrou. Uma semana antes do Natal de 2001, Christian Longo saiu do trabalho e foi para casa. Foi a noite dos fatídicos acontecimentos. James Franco encarna com precisão o desafio de fazer o personagem, o que o deixou pela primeira vez desconfortável em sua carreira. O ator traz à cena um personagem obscuro, sem sentimentos, e sem dúvida alguma, manipulador. Já Jonas Hill encarna o jornalista Michael Finkel , num verdadeiro jogo que o deixa entre a cruz e a espada.
Numa noite de inverno em 2001, Penny Baker-Dupuie sentou-se no sofá na sala de estar de sua casa. Seus dois filhos, um recém-nascido e um de três anos, dormiam em suas camas e Penny observava em silêncio enquanto o marido, John, sentado do lado oposto, mostrava como carregar, esvaziar e depois recarregar a espingarda; devagar, meticulosamente. Apenas alguns dias antes, o cunhado de Penny, Christian Longo, havia matado toda a sua família: a irmã de Penny, MaryJane, tinha 34 anos. Seus três filhos pequenos, Zachery, Sadie e Madison, tinham quatro, três e dois anos, respectivamente. Se Longo pode fazer isso com sua própria esposa e filhos, ela tinha medo que pudesse fazer com sua família também. Penny foi a maior opositora ao fato de Michael escrever um livro sobre o cunhado e mais tarde haver um filme sobre o livro. Na opinião dela, estavam fornecendo combustível demais para uma pessoa que nem devia ser mencionada. Segundo Penny e a família, não há uma coisa no filme ou no livro que faça algum bem para o mundo. Nada. É apenas a história de um psicopata narcisista que quer, a qualquer custo, atenção.
Chris foi condenado à morte mas até hoje sua história é debatida, principalmente entre estudantes de direito. Porque ele quer doar seus órgãos, fato inédito entre os condenados. Ele diz que sabe que virar doador não vai corrigir o que fez, mas que precisa fazer a doação. Será? Estaria ganhando tempo ou fazendo o que sabe fazer melhor: chamar a atenção sobre ele mesmo? Ele teve a chance de preservar quatro vidas, qualquer que fosse seu limite em lidar com a situação da falta de dinheiro. Poderia simplesmente tê-los abandonado. E está preocupado em salvar vidas de quem nem conhece? Qual será a história verdadeira? Qual será a real história também de Michael Finkel, que construiu uma forte ligação com Longo? Em algum momento, ele acreditou na inocência dele?
É importante destacar o papel da mentira e da verdade na relação dos dois. Michael foi demitido por uma mentira que queria dizer uma verdade. Agora queria usar uma verdade que seria contada só para ele, por Christian, para se retratar. A verdade que o salvaria de uma mentira que o fez perder o emprego. Christian tem uma versão para Michael e no dia do julgamento tem outra.
É o tipo de história que te deixa com um gosto amargo na boca, fica uma sensação de que "True Story" podia ter se aprofundado mais, algumas coisas que senti e coloquei aqui foram frutos de pesquisa, mas, ao mesmo tempo, a história sustenta o filme e achei boa a interpretação do James Franco. Sabemos que existem pessoas como o Christian Longo por aí, mas conhecer os detalhes é bem assustador.


IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3/ 5

Ficha Técnica:
Nome original: True Story
País: EUA
Ano: 2015
Direção: Rupert Goold.
Roteiro: David Kajganich, Rubert Goold, baseado no livro de Michael Finkel.
Elenco: James Franco, Jonah Hill, Felicity Jones.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

SEMENTES PODRES





Penso que esse filme fala principalmente sobre a nossa tendência de julgar os outros. Wael (Kheiron), ajudado por Monique (Catherine Deneuve) vive de pequenos golpes. Em um deles, cometido contra Victor (André Dussolier), ele se dá mal e é pego. Convencido por Monique, Victor resolve dar uma chance para Kheiron em vez de entregá-lo à polícia, desde que ele substitua um professor em um centro de adolescentes excluídos do sistema devido a mal comportamento: as "mauvaises herbes", ou "sementes podres".
O maior trabalho dele será fazer com que os seis jovens voltem no dia seguinte. São pessoas totalmente desmotivadas, cheias de problemas e será que logo alguém como Wael, que não é lá nenhum bom exemplo vai conseguir? Contando assim, parece que é um filme piegas, mas não é. Aos poucos, vamos conhecendo a vida de todos. É como se Wael, tentando entender cada um, se confrontasse com seu próprio passado. As cenas com a turma são intercaladas com as cenas de um Wael menino (Aymane Wardane) e sua difícil vida. Monique, que de início, parecia meio avoada, vai se revelando também.
Não, não é um dramalhão, muito pelo contrário, tem cenas bem divertidas, embora algumas brutais. É justamente essa capacidade de juntar o drama com a comédia que me envolveu.
Kheiron é um comediante, ator e diretor de cinema francês. Depois do Prêmio Cesar como Melhor Primeiro Filme em 2016 por "Nous Trois ou Rien", o comediante, que construiu uma reputação no mundo da comédia de stand-up, volta a desempenhar o papel principal em Mauvaises Herbes, que ele também assina o roteiro, além da direção.
Ainda que com alguns clichês, o filme aborda questões sociais e humanas importantes, fala sobre a força da empatia e nos convida a um novo olhar, antes de virarmos as costas para alguém.

IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Mauvaises Herbes
Outros nomes: Bad Seeds
País: França.
Ano: 2018
Direção: Kheiron.
Roteiro: Kheiron.
Elenco: Kheiron, Catherine Deneuve, André Dussolier, Aymane Wardane.


sábado, 22 de dezembro de 2018

CAIXA DE PÁSSAROS




Em Um Lugar Silencioso, uma família se comunica somente por sinais. O silêncio precisa ser absoluto porque, a qualquer ruído, alguém (ou alguma coisa) os ataca. Em "Bird Box", ou Caixa de Pássaros, a ameaça é visual. O mundo é acometido por uma espécie de loucura , onde as pessoas começam a se suicidar. Os suicídios são precedidos de visões. As autoridades pedem que as pessoas se tranquem em casa e cubram todas as janelas. Mas ao contrário de em "A Quiet Place", em que o espectador acaba ficando igualmente em silêncio, tamanha a tensão, em "Bird Box" ficamos é com os olhos bem arregalados e querendo ver, procurando em cada detalhe uma pista. A inquietude, o nervosismo, tomam conta do espectador, na tentativa de desvendar o mistério.
Eu, particularmente, gostei muito mais desse, foram duas horas e cinco minutos em que não despreguei os olhos da tela. Com uma atuação maravilhosa de Sandra Bullock como Malorie, a protagonista da história inspirada no best-seller homônimo de Josh Malerman e dirigido por Susanne Bier, premiada diretora dinamarquesa, o filme é a nova aposta da Netflix e estreou ontem, 21 de dezembro.
Malorie, ainda por cima grávida, é levada para uma casa onde está um grupo de pessoas, uma delas o desagradável Douglas, interpretado por John Malkovich. Mas quando a casa deixa de ser segura, ela é obrigada a procurar outros caminhos e um deles a leva a uma difícil travessia de um rio com duas crianças, mais difícil ainda por precisarem estar com os olhos vendados. Sandra Bullock diz que se inspirou na força de sua própria experiência como mãe para fazer Malorie enfrentar essa travessia com as crianças, na tentativa de encontrar um lugar onde pudessem reconstruir a vida.
Como em outros filmes que não pude deixar de lembrar, Caixa de Pássaros é mais que uma obra de suspense ou terror. Em O Último Suspiro, Paris é tomada por uma bruma que mata as pessoas. É preciso fugir da névoa, procurar os andares mais altos dos prédios, mas o casal protagonista tem um grave problema: uma filha que sofre de uma doença rara e vive em uma espécie de bolha. Em A Noite Devorou o Mundo, também em Paris, a cidade da noite para o dia está tomada por zumbis famintos. Também o protagonista desse filme precisa se trancar no prédio para se proteger. Os roteiros-catástrofe criam uma intimidade, uma forte ligação entre os sobreviventes. Mas em A Noite Devorou o mundo, o protagonista se vê lutando por uma vida sem sentido, já que solitária. E se ele for o único sobrevivente do mundo, valerá a pena lutar? Na sua ilusória vida, em vigília o tempo todo, ele não estará se tornando uma espécie de zumbi? Não sou chegada a filmes de terror, por isso gostei desses, porque são também sobre solidão e escolhas. Como em O Último Suspiro, o que prende umas pessoas pode ser a libertação para outros. Caixa de Pássaros é mais que tudo um filme de descoberta do amor, de um amor reprimido e adormecido que vai ser forçado pelas circunstâncias a se manifestar com todas as forças.
Assim como não é da natureza do homem viver solitário, também não é da natureza dos pássaros viverem trancados em uma caixa. Malorie é dura com as crianças, as mantém em uma espécie de caixa de pássaros, onde só cabem o silêncio e a escuridão. Porque ela acredita que é a única maneira de sobreviverem. Mas adianta viverem sem sonhos, sem esperança? O casaco azul, a imensidão do rio, do azul do rio, nos remetem ao espaço, à liberdade, aonde os pássaros devem estar e também as nossas mentes. A própria Malorie sempre viveu em uma espécie de "caixa de pássaros", mesmo antes da tragédia.
Da mesma forma que as pessoas com deficiência visual apuram a audição, Malorie ensina as crianças a reconhecerem todos os tipos de barulhos, a perceberem quando alguma coisa está perto ou longe. E Susanne Bier também trabalha bem a trilha sonora para nos dar a mesma percepção. Existe uma lenda, eu gostava muito de ler sobre isso na adolescência, sobre um continente perdido, a Lemúria, cujo povo era cego e evoluído, eles desenvolveram a terceira visão.
Mas como em qualquer adaptação de livros, haverá sempre queixas de que o filme não se aprofundou nisso ou naquilo, chato isso, sabe? Caixa de Pássaros pode até não trazer nada de novo, mas é muito bem trabalhado e tem ótimas atuações, até das fofas crianças. Sim, existem algumas inverossimilhanças, mas é ficção e o que importa aqui é o que o filme nos faz sentir e, posso garantir que é, no mínimo, é um excelente entretenimento.
A atriz Sandra Bullock conta como foi difícil atuar com olhos vendados e diz que trombou com a câmera várias vezes.
Outro ponto a refletir é que a ameaça do filme é invisível e por isso provoca os piores medos e sensações. Uma personagem acredita que viu ou ouviu sua mãe, morta há vários anos. As pessoas, após as visões, se matam por desespero ou atraídas por algo muito maior? É mencionada uma certa beleza. Será o fim do mundo uma passagem para um outro bem melhor? O filme talvez sugira que em determinadas situações seja conveniente ficar de olhos vendados para preservar a lucidez. A mente limpa como um canal aberto para compreender o verdadeiro significado da vida. Em um mundo apocalíptico então, só os lúcidos sobreviverão. Ou talvez os loucos...
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Bird Box
Outros nomes: Às Cegas.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Susanne Bier.
Roteiro: Eric Heisserer, JoshMalerman.
Elenco: Sandra Bullock, John Malkovich, Trevante Rhodes, Sarah Paulson.
As crianças: Julian Edwards, Vivien Lyra Blair.