Cinéfilos Eternos

quarta-feira, 13 de março de 2019

JOVEM MULHER







A princípio é apenas uma história de uma jovem mulher que se encontra desorientada e perdida após haver terminado o relacionamento de dez anos. Mas vai ganhando contornos, força, a câmera sempre colada na personagem, mostrando sua inquietação, seu desamparo, a imprevisibilidade que a faz explodir a qualquer coisa... e de repente não é apenas a história de uma jovem mulher, é a história de Paula, de todas as Paulas, de todas as mulheres, que precisam se descobrir como pessoas, como mulheres que são, repensar as suas certezas, encontrar o seu lugar no mundo.

Eu disse "explodir a qualquer coisa"? Bem, simplifiquei demais a situação de Paula. Foram dez anos de relacionamento e ela não consegue se ver sem ele. O psiquiatra fala em liberdade e Paula mais uma vez explode, como um furacão. Quem disse que ela quer a porcaria dessa liberdade? À sua confusão sentimental, junta-se a falta de dinheiro e de um lugar para morar. E a incompreensão de como uma pessoa como Joachim Deloche, um fotógrafo famoso com um apartamento enorme, pode deixá-la assim na rua, como um saco de lixo. Ela pensa que não faria isso nem com um estranho que batesse em sua porta. Paula não tem família, apenas um relacionamento complicado com uma mãe de quem diz que se perdeu, não tem para onde ir, não tem emprego. ainda por cima nessa cidade que ela odeia: Paris. Quando ela conhece Ousmane, que tenta lhe dizer algumas coisas positivas sobre a cidade, ela replica que tudo que ele diz não faz nenhuma diferença para eles, não os ajuda em nada.

"Paris não gosta de nós", diz Paula.
O primeiro longa com Léonor Serraille na direção recebeu o Caméra d’Or na edição 2017 do Festival de Cannes e é um filme de uma mulher para as mulheres. Léonor soube fazer o retrato de uma jovem carente, que precisa amadurecer, controlar suas oscilações de humor, se adaptar à sua nova realidade, enfrentar sua solidão e encontrar seus espaços, não só fisicamente, mas emocionalmente, em uma Paris completamente alheia às suas necessidades. A atriz praticamente novata, Laetítia Dosch ( prêmio Lumiere e uma indicação ao César). exala talento, entregando perfeitamente uma personagem que sofre, que precisa se desconstruir e se reconstruir, mas sem abrir mão do bom humor. Ah, como eu entendo a Paula. geniosa e muitas vezes com razão, ela precisa procurar uma necessária placidez e fazer um exercício diário para não perder sua sanidade.
Mas no fim ela entende, mesmo que a duras penas, que nem sempre o caminho mais fácil e mais confortável é o mais seguro. Palmas para essa atriz!

IMDB: 6,6/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,5/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Jeune Femme ou Montparnasse Bienvenue.
País: França.
Ano: 2017
Direção: Léonor Serraille.
Roteiro: Léonor Serraille, Bastien Daret, Clémence Carré.
Elenco: Laetítia Dosch, Souleymane Seye Ndiaye. Grégoire Monsaingeon.


(Por: Cecilia Peixoto)

sábado, 9 de março de 2019

O BANQUETE


Sinopse:
Na época do Impeachment de Fernando Collor de Mello, um grupo de intelectuais se encontra em um jantar: uma grande atriz, um jornalista famoso, um advogado e sua esposa, uma crítica de teatro, um colunista e uma jovem atriz e modelo. O jornalista Mauro escreveu um artigo contra Collor e corre o risco de ser preso naquela noite. No jantar regado a muito vinho, conforme a tensão aumenta com a iminência da prisão, vários segredos públicos e privados vêm a tona.
Com direção de Daniela Thomas, premiada cineasta, diretora teatral, dramaturga, iluminadora, cenógrafa e figurinista brasileira , filha de Ziraldo e irmã do compositor Antonio Pinto, o filme, apesar do delicioso vinho servido fartamente e das iguarias, não é de fácil digestão.
Em 2017, em seu primeiro trabalho solo (foi parceira de Walter Salles em filmes como “Terra Estrangeira” e “Linha de Passe” ), o filme Vazante provocou muitas polêmicas. O longa foi um dos concorrentes no 50º Festival de Brasília, no início do último mês de setembro, e, na noite seguinte à sua exibição, foi alvo de duras críticas, inclusive à diretora e a toda sua equipe de produção, durante um debate com outros nomes do cinema brasileiro, por levantar a questão da "fragilidade branca".
Em sua defesa, Daniela diz ter colocado nas telas a sua visão de mundo e que, em nenhum momento, quis defender qualquer tipo de militância, mas sim, contar histórias que ouvira de seus antepassados, enfatizando a questão da miscigenação violenta que formou a nossa sociedade. "Eu realmente não fiz o filme que seria um retrato do que o movimento negro quer ver representado na grande tela, hoje", pontua.
Em O Banquete, na minha opinião, a Daniela deveria ter se aprofundado mais no plano político. São os anos 90 presididos então por Fernando Collor. Mas ela não ousou. O jantar, que a princípio pareceu ser um agrado da anfitriã (Drica Moraes) ao casal de amigos que estava completando dez anos de casados, tem mais o objetivo de mostrar a futilidade e a decadência da elite brasileira. Mauro (Rodrigo Bolzan), o homenageado, está prestes a ser preso por ter escrito e assinado uma carta pública contra o presidente. Em uma clara referência a Otavio Frias Filho, diretor na época do Jornal Folha de São Paulo. Também inspirada em "O Banquete", de Platão, a conversa gira sobre a natureza e as qualidades do amor. Nora, a anfitriã, propõe mesmo aos convidados que naquela noite reflitam sobre o amor tendo “Baco como juiz”, embriagando-se de vinho. Será o amor um bom sentimento?
O filme é desenvolvido de forma teatral, com interpretações e diálogos exagerados, em um ambiente único e fechado, tendo como cenário uma linda sala e uma mesa arrumada de forma luxuosa. Maria, que foi acompanhada de Lucky, percebe logo ao chegar que aquele jantar é uma espécie de armadilha e quer ir embora, aflita. Mas Lucky se vê seduzido pelo caríssimo vinho e por Ted (Chay Suede), o chef de cozinha contratado, que é o único que destoa daquele ambiente que parece ter apodrecido. O casal aniversariante não percebe de início onde foi se meter. Quanto mais bêbados e alterados, mais "lavação de roupa suja", acentuadas com a chegada da stripper cat (Bruna Linzmeyer) e de Claudinha. Só o marido de Nora (Caco Ciocler) parecia não se surpreender com nada daquele jantar. É o absurdo e a decadência das relações humanas imperando.
IMDB: 6,3/ 10 Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,4/ 5
Ficha técnica: Nome original: O Banquete. País: Brasil. Ano: 2018 Direção: Daniela Thomas. Roteiro: Daniela Thomas.
Elenco: Drica Moraes, Caco Ciocler, Mariana Lima, Rodrigo Bolzan, Chay Suede, Bruna Linzmeyer, Gustavo Machado, Fabiana Gugli, Georgette Faddel.



sexta-feira, 8 de março de 2019

MADE IN ITALY





Uma vez vi um filme em que a história se resumia em: "o importante não é para onde se vai, mas para onde se volta". 
"Made in Italy" é um filme que nos remete a recordações: amigos que perdemos, família, amores, desgastados porque estamos desgastados, períodos que parecem ser uma vida inteira, onde não vemos saída para nossas mazelas, apenas sobrevivemos, ...
... a busca de um sentido, ...será que é só isso?

"Cosa ci faccio qui?!" (O que estou fazendo aqui?)
Você já se perguntou isso? Teve a resposta?
Costumo me perguntar se somos nós que fazemos nossas escolhas ou se somos escolhidos.
Uma amiga me disse essa semana que tem preferência pelos filmes italianos, por serem românticos e passionais.
Riko vive em uma pequena cidade na Itália em uma casa construída pelo seu avô, ampliada pelo seu pai e que ele, com o seu insignificante emprego há 30 anos em uma fábrica de embutidos (mortadelas "made in Italy") mal tem condições de manter. A situação da Itália não vai nada bem e o fantasma do desemprego assoma a todos. Ricco aconselha seu filho a sair da cidade, procurar outros ares, oportunidades diferentes da dele. A vida com sua mulher também não vai nada bem, ele desconfia que ela o esteja traindo. E Ricco vai seguindo assim, bebendo e jogando com seus amigos, uma aventura aqui, outra ali, para ele é só sexo. "Empurrando a vida com a barriga", como se diz no popular. 
Às vezes ele se pergunta: "Cosa ci faccio qui?!"

Uma vez ele se mete em uma confusão e leva uma cacetada na cabeça e desmaia. Perguntam-lhe o que ele pensou antes de desmaiar, ele diz que pensou que queria não pensar em nada.
Made in Italy recebeu o Nastro d’Argento de melhor história, mas não é filme que vá agradar às feministas. Porque Riko é o verdadeiro macho italiano. Ele tem amante, mas seu brio é afetado só de pensar que a sua mulher possa ter. A mulher com quem ele mal fala, mal dá atenção. Claro, como um bebezão, ele se queixa que a culpa é dela. A mulher é cabeleireira e o salão vai bem, mesmo que ele perca o emprego, o problema não chega a ser o dinheiro, mas sua autoestima de macho. E o filme todo é contado sob o ponto de vista de Riko. Não que a história em algum ponto o defenda, mas o carisma do ator (Stefano Accorsi) faz com que o vejamos com mais indulgência. Afinal, ele é o produto do meio cultural. E aqui fico me perguntando se os filmes italianos estão mais propensos a propagarem esse tipo de cultura. Se esse modelo de homem não é "made in Italy".
Sobre o diretor: Luciano Ligabue é um cantor e compositor italiano, além de escritor e diretor filmográfico. Ligabue nasceu na província de Reggio Emilia. Antes de tornar-se um cantor bem-sucedido, Luciano sustentou vários empregos, trabalhando com agricultura e em empresas.
Bem, mas é um filme que nos envolve: com suas belas músicas, mostra também vários lugares lindos da Itália. A queixa é sobre o que estão fazendo com a terra tão amada. É também uma bela história também sobre amizades e uma reflexão sobre afinal o que importa. Meio piegas? Sim, talvez. Como a paixão italiana.
"Cosa ci faccio qui?!"

"É necessário se ter uma aldeia,
nem que seja apenas
pelo prazer de abandoná-la.
Uma aldeia significa
não estar sozinho,
saber que nas pessoas,
nas plantas,
na terra,
há alguma coisa de nós,
que, mesmo quando
não se está presente,
continua a nossa espera." 
(Cesare Pavese).

O filme foi exibido durante o Festival de Cinema Italiano 2018. O festival começou em Lisboa, em 2008, e já tem 10 anos de sucesso passando por dezenas de cidades lusófonas e em três continentes diferentes. No Brasil, em 2017, os filmes foram exibidos em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Recife e em 2018 Vitória, Goiânia, Belém e Florianópolis passaram a integrar o circuito.
IMDB: 5,9/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,2/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Made in Italy.
País: Itália.
Direção: Luciano Ligabue.
Roteiro: Luciano Ligabue.
Elenco: Stefano Accorsi, Kasia Smutniak, Fausto Maria Sciarappa, Walter Leonardi.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

SOBRE O FILME GREEN BOOK

Cena do filme Green Book, vencedor do Oscar 2019 Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, com Vigo Mortensen, indicado Melhor Ator e Mahershala Ali, vencedor Melhor Ator Coadjuvante.

Kareem Abdul-Jabbar:

nova-iorquino, lenda do basquete mundial



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Kareem Abdul-Jabbar: Por que as controvérsias

 de "Green Book – o guia" não importam.



À medida que os escândalos da temporada de premiações se acumulam, analisando suas inexatidões históricas ou a indicação (ou ações estúpidas passadas) de seu escritor e diretor, falta dar mais valor à um filme digno do Oscar, escreve o grande colunista da NBA e do Hollywood Reporter.



Filmes históricos nunca são sobre história. E eles nem são destinados a ser.


Filmes históricos atuais como O Primeiro Homem, A Favorita, Suprema, Vice, Bohemian Rhapsody, Infiltrado na Klan e Duas Rainhas pretendem nos contar sobre histórias e importantes pessoas e eventos, para apresentar os fatos que explicam porquê o assunto é tão relevante. No entanto, uma pesquisa no Google de cada um desses títulos produzirá uma longa lista de imprecisões factuais. E tudo bem - porque esses filmes não são sobre fatos, eles são sobre algo muito mais elusivo e importante: a verdade. Especificamente, eles são sobre como os eventos do passado iluminam as escolhas que enfrentamos no presente. É por isso que a confusão em torno da precisão histórica e perspectiva de Green Book – O Guia, um pequeno filme com um orçamento modesto ($23 milhões) e com uma história modesta que recebeu três Globos de Ouro e outros prêmios, é tão equivocada.

Parte da controvérsia gira em torno do retrato do Dr. Donald Shirley, um pianista negro de música clássica e jazz com vários doutorados e falante de oito línguas, e sua relação com Tony Vallelonga, seu motorista italiano-americano, sem instrução, durante uma turnê de oito semanas ao interior do sul dos EUA em 1962. Membros da família reclamaram que Shirley e Vallelonga não eram realmente amigos (embora no documentário de 2010, Lost Bohemia, Shirley diga diretamente que eles eram). Eles especulam que uma cena em que Tony para em uma unidade do Kentucky Fried Chicken (KFC) e convence o Dr. Shirley em tentar algo, nunca poderia ter acontecido, e sustentaram que Shirley não estava realmente afastado (o artigo usa alienado) de seu irmão. Embora essas discrepâncias possam irritar os membros da família, elas realmente não importam, porque os detalhes da trama são sobre chegar a uma verdade maior do que quaisquer que sejam os fatos mundanos.

O personagem de Shirley está distante (o artigo novamente usa alienado) de seu senso de auto-identidade como músico que quer tocar música clássica, mas é forçado a tocar música popular e como um homem negro que é educado demais para ser abraçado por alguns negros, mas ainda tratado por brancos menos que um humano. Ele também está afastado (alienado) de sua própria sexualidade. Ele tem muito a esconder do mundo exterior e criou uma personalidade aceitável para esse mundo. Mostrá-lo cortado e distante de sua família, quaisquer que sejam os fatos, é uma maneira eficaz de enfatizar a solidão e o desespero que pessoas como ele enfrentam.

A outra grande controvérsia é se o filme é negro o suficiente. Quase toda vez que um filme é lançado e que apresenta racismo, o projeto enfrenta o teste decisivo de “integridade à negritude”. Esse é um teste justo porque os filmes têm uma longa história de ser condescendente, reducionista e insultante quando representam pessoas negras ou a cultura negra, mesmo quando eles são bem intencionados. Com o Green Book – O Guia, os críticos culturais se perguntam por qual motivo ‘O livro verde do motorista negro’ - que listava lugares em todo o país onde pessoas negras poderiam comprar, comer e se hospedar com segurança - não foi apresentado com mais destaque como um ícone histórico. Resposta: O filme indica que não há lugar “seguro” para os negros, porque o país inteiro - da cozinha de Tony no Bronx a uma sala de concertos na Geórgia - está infectado pelo racismo, seja evidente, passivo ou institucional.

Alguns críticos se perguntam por qual motivo a história é contada do ponto de vista de Tony e não do Dr. Shirley. Isso não faz de Shirley apenas um artifício estereotipado, como o "negro mágico", que existe na história apenas para guiar o herói branco, Tony, através de seu arco de personagem? Resposta: Como em todos os filmes de amigos, seja Rain Man, Máquina Mortífera ou 48 Horas, ambos os homens são transformados por suas interações com o outro. Como Tony revela a Shirley, ele foi criado no mesmo bairro que seus pais e provavelmente morrerá naquele bairro. Embora certamente não na mesma medida que Shirley, Tony é aprisionado geograficamente, por falta de educação e falta de opções. A exposição a Shirley muda sua percepção. Shirley, que se forçou a ser tão cauteloso que está aprisionado em seu luxuoso apartamento, se permite sentir amizade e se engajar no mundo que manteve à distância.

O filme é muito mais efetivo do ponto de vista de Tony, porque o público que pode ser mais alterado ao assisti-lo é o público branco. Quando os negros assistem a um filme sobre o racismo histórico como O Nascimento de uma Nação, de Nate Parker, ou 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, sabemos exatamente que tipo de crueldade horrível vamos testemunhar. Nossa percepção do racismo não será mudada porque nós a vivenciamos diariamente. Também sabemos que depois de ver o filme, alguns brancos serão autocongratulatórios e desdenhosos ao dizer: “Bem, pelo menos não é mais assim”. Mas outros serão levados a ver como esses eventos na história moldaram nossos desafios atuais. Os negros que assistem a Green Book – O Guia reconhecerão a dolorosa jornada do Dr. Shirley e não serão mais inspirados por suas realizações e não menos do que se a história tivesse sido do seu ponto de vista.

Finalmente, há a questão em se a história deveria ter sido contada por três homens brancos: o diretor e co-roteirista Peter Farrelly, Nick Vallelonga (filho de Tony) e o co-produtor Brian Currie. Artisticamente, isso não deve fazer diferença. Um bom artista deve ser capaz de recriar personagens diferentes de si. Embora esteja ciente de que os negros da indústria cinematográfica precisam de maior representação - e defendo-os com veemência -, também estou ciente de que esse foi um projeto de paixão que talvez não tenha sido realizado, se não fosse o compromisso desses homens.

Complicando a situação estão alguns atos estúpidos de dois dos cineastas. Farrelly admite que em 1998 mostrou seu pênis como uma brincadeira para a estrela de Quem Vai Ficar Com Mary, Cameron Diaz, e para o produtor executivo Tom Rothman. Vallelonga confirma que em 2015 ele tuitou o apoio à falsa alegação de Trump de que milhares de muçulmanos americanos foram vistos celebrando as tragédias do 11 de setembro. Ambos os homens se desculparam e recriminam seu comportamento passado, o que eu considero sincero. Nenhum ato afeta o mérito do filme. Na verdade, a controvérsia abraça o argumento do filme de que podemos aprender com o passado para nos colocar em um caminho mais iluminado para o futuro.

Em 1897, um jovem Stephen Crane, já famoso por seu romance sobre a Guerra Civil, O Emblema Vermelho da Coragem, estava viajando da Flórida para Cuba quando seu navio atingiu um banco de areia e afundou. Ele sobreviveu por causa de um bote salva-vidas com outros três homens, embora um deles tenha se afogado posteriormente. O relato factual de sua provação foi amplamente lido. Não satisfeito, ele recontou os acontecimentos em um conto, “O Barco Aberto”, que se tornou uma das histórias mais respeitadas da literatura norte-americana. A razão pela qual ele escreveu o conto foi que seu relato jornalístico limitou-o aos fatos, enquanto o relato ficcional permitiu que ele se aprofundasse nas verdades mais profundas. A última linha da história revela a diferença: “Quando chegou a noite, as ondas brancas andavam de um lado para o outro ao luar, e o vento trouxe o som da voz do grande mar para os homens em terra, e eles sentiram que podiam então serem intérpretes. ”

 

A menos que estejam fazendo um documentário, os cineastas são intérpretes da história, não seus cronistas. Green Book – O Guia interpreta o mar de eventos históricos para revelar uma verdade relevante para os dias de hoje: resista àqueles que lhe dizem para conhecer o seu lugar. Isso é verdade, seja sobre raça, identidade de gênero, religião, nacionalidade, tipo de corpo ou qualquer outra coisa que pessoas odiosas e irracionais usem para envergonhar ou atrapalhar os outros em sua busca pela felicidade.


Fonte: The Hollywood Reporter, 14/01/2019.


Tradução: Tom CP



Link:
https://www.hollywoodreporter.com/amp/news/kareem-abdul-jabbar-truth-green-book-controversy-1175540?__twitter_impression&fbclid=IwAR14-RBsiWABB0yt-qgGVKXqCShibvIeHSW9u2Tmp08Z8dXZ_AdYBMoyT1c

FANNY ARDANT E TRUFFAUT


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

GIRL




Sinopse: Girl fala de uma bailarina transexual de15 anos que tem problemas de aceitação de seu corpo.

É baseado na história real de Nora Monsecour, uma menina cuja transição de gênero chegou às manchetes da Bélgica quando tinha 16 anos e que sonhava em seguir carreira como bailarina.

Um filme extremamente sensível e que retrata toda a angústia de Lara, seu sofrimento solitário.
 



O filme não explica desde quando Victor percebeu que não era um menino. Nem quando a família percebeu. Também não mostra o que aconteceu com a mãe dele/ dela. Lara, então com 15 anos, vive com seu pai, Mathias, e seu irmão de 6 anos, Milo. Lara é uma espécie de mãe para Milo. Cuida dele, dá carinho, o leva na escola... Lara tem todo o apoio do seu pai, ele a incentiva e tenta lhe dar o suporte necessário na sua transição, inclusive acompanhando-a em todas as consultas médicas. Seus professores e colegas de escola e do balé, mesmo sabendo, parecem não ter problemas em aceitá-la. É claro que sempre existe um bullyng, mesmo que velado. Mas o pior inimigo de Lara é o espelho, quando se despe e tenta encarar sua realidade.
O filme é de uma qualidade cinematográfica incrível, mesmo sendo a estreia do belga Lukas Dhont. Também é estreante o ator Victor Polster, que interpreta Lara. Confesso que ele estava tão perfeito que tive dúvidas em algumas cenas: se ele não era mesmo uma menina e que o corpo era montagem. Polster, que aprendeu a dançar na Royal Ballet School of Antwerp, recebeu louvores da imprensa internacional.
A obra, diretor e ator, receberam muitos elogios, prêmios e indicações. Foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro 2019 e ao Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Filme 2018. O filme levou a Queer Palm no Festival de Cannes 2018. O prêmio é oferecido, desde 2010, à melhor produção com temática LGBT. Também ganhou o prestigiado Caméra d'Or, troféu destinado ao melhor longa de um diretor estreante. Victor Polster ganhou o prêmio do juri da Un Certain Regard (mostra paralela do festival) de melhor performance. Entre muitos outros prêmios e indicações.

Mas, como sempre tem os "chatos de carteirinha", Girl vem também recebendo reações negativas, por parte da comunidade LGBT. Tanto pelo fato do ator que encarna a personagem Lara ser um ator cis (cisgênero é o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”) quanto por cenas consideradas violentas demais.
Em sua defesa, Nora Monsecour, que no filme se vê representada na personagem Lara, afirma que “Girl” conta a história da sua adolescência “de uma forma que não mente e também não esconde. Quem está criticando o filme está impedindo que outras histórias trans sejam compartilhadas com o mundo. Todos os dias vejo pessoas trans lutando por seus sonhos. Eles não são fracos ou frágeis. Dizer que a experiência da personagem não é válida por termos um ator cis ou por ter sido realizada por um diretor cis, acaba me ofendendo” escreveu ela, em carta aberta ao Hollywood Reporter.
Lara é então uma pessoa com um relativo padrão financeiro que permite que ela more em um apartamento com conforto, que possa estudar em uma boa escola e aprender a dançar, que tenha apoio médico e psicológico, que tenha em vista uma cirurgia que permitirá que ela realize seu sonho. E uma família bacana. Aliás, fiquei pensando o tempo todo no sofrimento daquele pai. Mas que nem de perto se compara ao sofrimento dela, porque como disse o diretor, Lara tem forças destrutivas dentro dela, ela é a sua maior antagonista. Voltando a falar do espelho, que é muito presente no filme todo, a Lara nua do outro lado é a sua pior inimiga. Mesmo que seu pai e todos a tratem como menina, que a vejam como menina, a Lara do espelho está lá, desmascarando-a. Para compensar, Lara tenta chegar à perfeição na dança, numa tentativa quase cruel com ela mesma de se ver no espelho da academia e aos olhos do mundo como uma bailarina, uma bailarina mulher.
A partir de 15 de março, o filme estará disponível na Netflix. Pelo que eu entendi, já era pra estar, mas houve uma polêmica após o serviço de streaming anunciar que cortaria uma das cenas do filme, que envolve nudez do ator de 15 anos Victor Polster. O diretor Lukas Dhont lançou uma declaração contra essa decisão. A versão de Girl que estreará na Netflix será então a mesma versão que foi exibida em Cannes e nos cinemas da Bélgica e outras partes do mundo.
(Por: Cecilia Peixoto)
IMDB: 7,2/ 10

Filmow: 3,8/ 5

Minha nota: 3,8/ 5
Ficha técnica:

Nome original: Girl

Outros títulos: Girl: O Sonho de Lara.
País: Bélgica.
Ano: 2018
Direção: Lukas Dhont.
Roteiro: Lukas Dhont, Angelo Tijssens.
Elenco: Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart.









Nora Monsecour, a bailarina retratada em "Girl"