novembro 2018 - Cinéfilos Eternos

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

AS IRMÃS BRONTË





A história dessas mulheres é admirável e triste. Criadas na aldeia de Thorton, localizada no West Riding of Yorkshire, Inglaterra, cresceram no isolamento e em uma época em que os talentos literários femininos eram vistos com maus olhos. Filhas do reverendo de Haworth, também poeta e escritor, de quem talvez tenham herdado a inclinação. O irmão, Branwell, também escrevia, fazia poesias e pintava. É dele o quadro mais famoso das irmãs, de 1834. Ele pintou-se a si próprio entre as irmãs, mas retirou a imagem mais tarde. Fora a genética, as irmãs Charlotte (1816), Emily (1818) e Anne (1820) e seu irmão Branwell (1817) foram muito afetadas pela morte da mãe e, mais tarde, das suas duas irmãs mais velhas. Para sobreviver à tal situação e à solidão em que viviam, elas e o irmão eram muito próximos na infância e desenvolveram mundos imaginários, com heróis e histórias fictícias, a partir do que ouviam das empregadas.Eles ganharam do pai, na infância, uns soldadinhos de madeira e o brinquedo serviu de base para imaginarem um reino fantástico de Angria, situado no centro da África, lugar de acontecimentos extraordinários, violentos e até escabrosos. Mais tarde, inventaram o reino de Gondal. Eles anotavam tudo em cadernos.

O mundo lúdico foi substituído pelo mundo adulto, as irmãs aparentemente se adaptavam àquela vida quase que monástica, dedicavam-se aos afazeres da casa e a longas horas, escrevendo. As histórias inventadas na infância muitas vezes serviram de base. Chegaram a trabalhar também, dando aulas, ou cuidando de crianças. Já o irmão acabou afogando as frustrações na bebida e também no consumo de ópio. Vivia se metendo em confusões e o pouco dinheiro que a família tinha precisava esconder dele.
Foi da Charlotte a ideia de publicarem suas obras, mesmo sob um pseudônimo masculino (era comum na época), em busca de aprovação literária e também para aumentarem a renda, que era pouca. Os seus livros tiveram bastante sucesso assim que foram publicados. Jane Eyre de Charlotte foi o primeiro romance a ser publicado, seguido de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily e A inquilina de Wildfell Hall de Anne. Havia comentários e desconfianças de que Currer, Ellis e Acton Bell pudessem ser mulheres, mas ao mesmo tempo o caráter ousado das publicações sugeriam que só um homem pudesse ter vivido aquela experiências para escrevê-las.
As famosas charnecas, frias e isoladas, as roupas e os costumes da época, são bem retratados em suas obras.
Infelizmente, não puderam aproveitar o sucesso. Branwell morre em setembro de 1848, aos 31 anos e logo em seguida, apenas três meses depois, Emily também adoece e morre, aos 30 anos. Em janeiro de 1820, Anne, com apenas 29 anos, também se vai. Charlotte é a única dos irmãos que fica, mas em março de 1855, antes de completar 39 anos e nove meses após casar-se, ela também se vai.
A casa onde elas moravam se abria para o cemitério do lugar e a teoria sobre a morte prematura da família é que a água era contaminada.
Mas a paisagem soturna onde vivia a família Brontë e testemunha de tantas mortes levantou a desconfiança de um escritor e criminologista, vejam só! O nome dele é James Tully e no seu livro "Os Crimes de Charlotte Brontë", ele levanta a teoria de que a família teria vivido envolta em assassinatos, traições e vinganças, além de questionar a autoria de algumas obras.
O primeiro filme sobre as Brontë , o francês, foi dirigido por André Techiné. O cineasta e argumentista francês, 
antes de passar à realização,fez-se notar como jornalista e crítico nos Cahiers du Cinéma durante a década de sessenta. Iniciou-se em 1969 com Pauline s'en va. Alcançou popularidade internacional com Barocco (1976), filme protagonizado por Gérard Depardieu e Isabelle Adjani.
Recebeu pelo seu filme Rosas Selvagens (Les Roseaux Sauvages) de 1994 o Cesar de Melhor Filme, de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro, entre outros.

O filme de 1979 tem um elenco fabuloso: Isabelle Huppert como Anne, Isabelle Adjani como Emily e Marie-France Pisier como Charlotte. No entanto, me pareceu que o Téchiné preferiu focar mais na figura do irmão rebelde, Branwell, interpretado por Pascal Greggory. O filme originalmente tinha 180 minutos, um terço do filme foi cortado e talvez tenham se perdido partes importantes que aprofundariam mais as personagens. Para quem vê o filme, já conhecendo bastante a história das nossas queridas irmãs Brontë, não perceberá talvez nenhuma lacuna.
Existe um documentário sobre o filme. assinado por Dominique Maillet. Les fantômes de Haworth faz uma retrospectiva sobre a gravação de Les soeurs Brontë e conta, inclusive com a participação de Téchiné. O documentário de 58 minutos pode ser visto para quem adquiriu o dvd da Versato.
As duas Isabelles, Huppert e Adjani, eram muito jovens ainda. Adjani estava deslumbrante. A Huppert, embora já com vinte e poucos anos na época, está parecendo não ter mais que dezesseis.
Li alguns comentários sobre o filme não mostrar a vida amorosa das três, mas elas tiveram? Acho que não. Charlotte apaixonou-se por um homem mais velho e casado, que inspirou seu romance O Professor, mas apenas platonicamente e já perto de morrer, casou-se, mas nem foi assim um casamento romântico. Realmente, não sei de onde elas tiraram tanta paixão para colocar nos seus romances.
" Você esta vendo pela aparência.
Um amor que só floresce uma vez...
Eu o desprezo e tenho pena.
Cuspo no o amor e sua vaidade.
O azevinho é como a amizade
e vai durar mais um inverno."

Já o filme de 2016 foca bastante na publicação das obras, explica a dificuldade que era ser uma escritora mulher na época. Emily, mais introspectiva, não queria publicar, não queria nem que ninguém lesse o que escreveu, mas Charlotte quis que elas enviassem juntas suas obras, acreditava que teria mais impacto dessa forma.
“Que autor não gostaria de tirar vantagem de ser invisível? Um que não consiga manter a mente em silêncio”.
A diretora Sally Wainwright também assina o roteiro e através do processo de pesquisa, interpretação de todas as obras e cartas deixadas por cada uma, optou por mostrar uma visão mais pessoal das irmãs. O irmão, aqui interpretado por Adam Nagaitis é um homem desiludido de tentar ganhar a vida através de sua arte, imaturo emocionalmente e que se entrega a uma vida desregrada, principalmente após uma decepção amorosa. Essa versão da vida da família não dá tanto destaque ao Branwell, mas de qualquer maneira mostra como seu comportamento e sua morte prematura afetaram a cada uma das irmãs, interpretadas aqui por Finn Atkins (Charlotte), Chloe Pirrie (Emily) e Charlie Murphy (Anne).
O sucesso dos livros, com pseudônimo, deixou Londres querendo conhecer esses autores, mas elas temiam que ao descobrirem suas identidades, os livros parassem de vender e como mulher, elas sofressem retaliações. Gostei da abordagem feminista, as mulheres da época tinham medo, mas não eram tão passivas assim: Charlotte já tinha em si a revolta de ser considerada inferior por ser mulher.
Admiradora que sou das obras das irmãs e apaixonada por cinebiografias, não poderia deixar de amar os dois filmes. Minha vontade agora é reler seus livros e rever as adaptações para o cinema. Tem uma parte do filme que mostra o museu dedicado às irmãs na Inglaterra, que tem suas roupas e a famosa mesa que elas sentavam para escrever. Quando eu vi fiquei me imaginando visitando esse lugar e não pude deixar de me emocionar. A história sempre me fascinou, saber o que sentiram, como viveram, pessoas de outras épocas me encanta. Ainda mais se são pessoas que ousaram fazer diferente, principalmente quando são mulheres. Como as austeras filhas de um reverendo inglês do começo do século 19 se converteram nas irmãs mais cultuadas da história dos livros?
Preparem-se para entrar em um ambiente melancólico e sonhar, como elas.
AS IRMÃS BRONTË - ANO 1979
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota:3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Les soeurs Brontë
País: França.
Direção: André Téchiné
Roteiro: André Téchiné, Pascal Bonitzer.
Elenco: Isabelle Huppert, Isabelle Adjani, Marie-France Pisier, Pascal Greggory, Patrick Magee.

AS IRMÃS BRONTË - ANO 2016
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: To Walk Invisible: The Brontë Sisters
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Direção: Sally Wainwright.
Roteiro: Sally Wainwright.Elenco: Charlie Murphy, Chloe Pirrie, Finn Atkins, Adam Nagaitis, Jonathan Pryce.


A casa que virou museu.


domingo, 18 de novembro de 2018

UN PLUS UNE




Compositor francês viaja para a India para fazer as músicas de um filme. Logo na primeira noite, em que ele pretendia descansar, é realizado um jantar em sua homenagem, porque ele é muito famoso naquele país. Embora com uma dor de cabeça que não passa, a reunião mostrou-se mais interessante do que ele podia esperar, já que conhece a esposa do embaixador da França.
Através da amizade que se constrói entre os dois, ele, Antoine, ela, Anna, vamos passear pela India, seja naquele trânsito louco, seja de trem ou de barco, com destino ao encontro com a grande líder espiritual de lá, Amma. Tudo recheado com muitos diálogos. Anna explicando sua espiritualidade para um Antoine pragmático. Ele, colocando questões práticas que ela nunca se permitiu pensar. É evidente a atração entre os dois. Mas Anna ama seu marido e Antoine acaba de ser pedido em casamento pela namorada Alice, que, aliás, está chegando à India para se encontrar com ele.
Un + Une pode ser visto como só mais um filminho romântico, aliás há um outro filme dentro do filme: uma história de amor acontecida entre dois jovens indianos, um ladrão e uma bailarina, serve de inspiração para o tal diretor indiano que convidou Antoine para fazer a trilha sonora. Como eu ia dizendo, o filme poderia ser só mais uma comédia romântica qualquer, mas Claude Lelouch sempre teve uma maneira especial de contar histórias de amor. Junto ao belo cenário de um país que parece nos convidar a sonhar, com uma belíssima fotografia, embalados pela música de Francis Lai (o mesmo que fez a trilha de Un Homme et Une Femme), temos um casal maduro e que nos conquista a cada minuto. Antoine é bonito, confiante e divertido. Difícil não se envolver pelo seu belo sorriso. Anna é daquelas mulheres que não param de falar, mas longe de ser chata, ela é encantadora e charmosa, daquele tipo que você tem vontade de ouvir por horas e horas.
"-Minha religião é o amor", 
está escrito ao lado de Amma.

Mātā Amritanandamayī Devi, mais conhecida como Amma, é muito admirada dentro e fora da Índia e respeitada como uma humanitarista; muitos a reverenciam como uma Mahatma e uma santa viva: a santa dos abraços.
Lelouch já havia revelado sua intenção de fazer um filme que homenageasse e ao mesmo tempo mostrasse Amma ao mundo.
Assim como os abraços de Amma, Un Plus Une é também um filme generoso. É uma história de sorrisos, de agradecimentos, mesmo com todos os desencontros da vida. Um exemplo disso foi o fato de Antoine só ter conhecido o pai recentemente e longe disso causar estranheza nele, ficou feliz.
Jean Dujardin declarou ter ficado muito comovido com o encontro com Amma. O ator é mais conhecido pelo seu papel em O Artista, pelo qual recebeu o Oscar de Melhor Ator, aliás, ele foi o primeiro ator francês a receber um Oscar de Melhor Ator.
Elsa Zylberstein manifestou sua vontade de voltar à India para rever Amma e disse que foi tocada por ela de uma forma permanente.
IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3,4/ 6

Ficha técnica: 
Nome original: Un + Une
País: França.
Ano: 2015
Direção: Claude Lelouch.
Elenco: Jean Dujardin, Elsa Zylberstein, Christopher Lambert, Alice Pol.





O abraço de Claude Lelouch e Amma

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

UM REINO UNIDO


Seretse Khama, o príncipe herdeiro de Bechuanalândia, causa uma polêmica de proporções internacionais ao se casar com uma mulher branca.

Seretse, que recebeu esse nome que significa "a argila que une" era o último de uma linhagem de uma das famílias reais mais poderosas da África. Antes um protetorado britânico, Bechuanalândia tornou-se independente em 30 de setembro de 1966, quando adotou o nome de República do Botswana. Khama foi o primeiro presidente do Botswana, cargo que ocupou desde a independência do país (conquistada por ele) em 1966 até sua morte.
Criado pelo tio, ele foi enviado para educar-se na vizinha África do Sul e no Reino Unido a fim de se preparar para o posto de rei. No Reino Unido, conheceu Ruth e apaixonaram-se. Contra tudo e contra todos, eles se casam e vão morar na África. Mas não imaginavam nem de longe as dificuldades que iriam enfrentar. O matrimônio entre um chefe tribal negro e uma mulher branca teve repercussão para além das fronteiras da Bechuanalândia, e em especial na União Sul-Africana, que, tendo instituído o apartheid, não desejava, em um território vizinho, um casamento inter-racial que pudesse repercutir no país.
Assisti sem pretensões e fui surpreendida por uma história comovente e bastante informativa, que eu não conhecia. Com uma linda fotografia que cria um contraste ótimo entre as duas nações: uma Londres poderosa com o céu sempre escuro e uma África pobre e poeirenta, mas luminosa e em tons de sépia e amarelo, trazendo o ambiente  caloroso.
Ruth, a jovem londrina que foi o pivô de todo esse tumulto, já tinha se destacado como uma mulher corajosa durante a Segunda Guerra Mundial ao conduzir ambulâncias. Foi depois secretária na Lloyds. Conheceu o futuro marido num baile, quando este estagiava como advogado depois dos estudos em Oxford. A paixão assumida entre uma branca e um negro era na época caso raro, mas isso nunca desanimou a mulher que foi presidente da Cruz Vermelha nacional e desde a morte do marido em 1980 até à sua em 2002 era tratada no Botswana como ‘Mohumagadi Mma Kgosi’, que quer dizer “mãe do chefe”. O filho Ian é desde 2008 presidente.
Baseado no livro Colour Bar da Susan Williams lançado em 2006. A diretora Amma Asante MBE é uma ex-atriz britânica ganesa, nascida no sul de Londres e criada em Streatham, Londres. Esse é o terceiro longa dela, uma realizadora com vontade de falar mais alto. A United Kingdom é um drama tão interessante que para mim faltou a diretora se aprofundar mais em algumas partes.

IMDB: 6,8/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: A United Kingdom
País: EUA/ Reino Unido da Grã-Bretanha/ outros
Ano: 2016
Direção: Amma Asante
Roteiro: Guy Hibbert
Elenco: David Oyelowo, Rosamund Pike, Terry Pheto.






Seretse Khama e Ruth.

PAPILLON





A saga de Henri Charrière, vulgo Papillon, homem de caráter duvidoso da Paris dos anos 30, sendo que só cometia pequenos delitos, mas que foi injustamente acusado de um crime de assassinato e condenado à prisão perpétua.
Encaminhado para a prisão na costa da Guiana Francesa, ele conhece Louis Dega, um famoso falsário e forma-se uma cumplicidade entre eles. Henri, que tem o apelido de Papillon devido à uma tatuagem de borboleta fica encarregado de proteger Degas em troca de dinheiro que esse tem como arrumar. Desde o primeiro dia Papillon decidiu que fugiria da fortaleza, missão super arriscada e punida com dois anos na solitária e com cinco, se houver reincidência. Apesar de vermos tanto sofrimento, o filme nos comove pela amizade genuína que se forma entre os dois.
O filme dirigido por Franklin J. Schaffner e com roteiro de Dalton Trumbo foi nomeado para o Oscar de Melhor trilha sonora, da autoria de Jerry Goldsmith, e para o Globo de Ouro de Melhor Ator Dramático, pela interpretação de Steve McQueen. Louis Dega é interpretado por Dustin Hoffman. No Brasil, lançado em 1974 foi um grande sucesso de bilheteria.
O dinamarquês Michael Noer teve a ousadia de dirigir o novo filme de Papillon, dessa vez interpretado por Charlie Hunnam e com Rami Malek no papel de Louis Dega. Sim, o Rami Malek da série Mr Robot e que faz o papel de Freddie Mercury no recente Bohemiam Rhapsody. Como sempre que há remakes de um filme considerado clássico, há apreensão quando à qualidade e normalmente também algumas críticas. Mas vou falar uma coisa, e podem me condenar, mas eu, hoje, gostei mais desse . Claro que o primeiro me impactou mais, eu não conhecia a história, a trilha sonora é maravilhosa e o final talvez tenha me emocionado mais. Até o revi, para tirar as minhas conclusões. Mas a química entre Charlie e o Malek me tirou algumas lágrimas, a amizade entre eles nessa segunda adaptação me convenceu muito mais. Ótimas atuações, figurinos fotografia, penso que o diretor conseguiu manter o ritmo angustiante o tempo todo e acredito que, mesmo para quem já viu o filme ou pelo menos conhece a história, essa versão consegue ainda causar bastante impacto.
Papillon é uma adaptação da obra dita autobiográfica de Henri Charrière. Do outono de 1967 até a primavera de 1968, em cerca de seis meses, ele terminou seu livro chamado "Os caminhos da decadência". Seis meses para centenas de páginas manuscritas em 13 cadernos escolares.
Ele escreveu por horas e horas, por dias e noites, escrevia onde estivesse, fosse no seu escritório, em seu apartamento ou no terraço de algum café.
O livro acabou caindo nas mãos de um famoso editor francês, o Sr Robert Laffont. Este é imediatamente embalado pelo manuscrito. Fechando a última página, ele disse à esposa:

"Se este livro não se tornar um best-seller, meu nome não é mais Robert Laffont. "
O livro foi renomeado Butterfly e lançado em 15 de maio de 1969. A obra alcançou o milhão de cópias vendidas em apenas três meses.
Se tudo foi verdade? Como sabermos? Talvez ele tenha atribuído a sim mesmo outras histórias que viu ou ouviu. Talvez ele tenha resumido na figura dele a vida sofrida de tantos outros. E quem pode dizer que ele também não sofreu, como se até fosse ele próprio? 
Henri já havia passado da idade de 60 anos, quando decidiu escrever. Posteriormente alguns autores apresentaram outras versões do que aconteceu na prisão, um deles tenta provar até mesmo a culpabilidade de Henri. Há acusações inclusive dele não ter sido o autor do livro, hahaha. E agora? Com qual versão você prefere ficar?


IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Minha nota: 4/5

Ficha técnica:
Nome original: Papillon.
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Michael Noer
Roteiro: Aaron Guzilkowvski, baseado na obra de Henri Charrière.

Elenco: Charlie Hunnam, Rami Malek.

A letra de Henri Charrière


Henri Charrière







segunda-feira, 5 de novembro de 2018

RAINHA DO MUNDO




Selecionado para vários festivais, inclusive Sundance e Rio, o filme é bem intimista e cheio de camadas. O foco é a amizade de Catherine (Elisabeth Moss) e Virgínia (Katherine Waterston).
Mesmo crescendo juntas, o quanto uma conhece a outra? O quanto você também conhece sua amiga de tantos anos? Se em alguma época houve tantos risos, tanta cumplicidade, talvez no decorrer do tempo e das vivências de cada uma, amigas podem tomar caminhos e ter opiniões e comportamentos hoje conflitantes. Estou escrevendo sobre amigas, no feminino, só por causa do filme. Mas o mesmo pode acontecer entre dois amigos homens, ou entre um homem e uma mulher, é claro. Muitas vezes resta somente um grande carinho pelo que foi, por todas as lembranças, mas fica difícil até de se conversar com certas pessoas. Ainda mais nesses tempos bicudos, não é?
Outra coisa que pode acontecer é que uma pessoa pode agir de maneira diversa, dependendo em que situação, em que lado está.
O norte-americano Alex Ross Perry é apontado como um diretor de um cinema que olha para o passado, não posso concordar nem discordar, porque acho que esse foi o primeiro filme que vi dele. Mas Queen of Earth com certeza alterna o que já foi com o presente. As duas amigas encontram-se na mesma casa de campo onde passaram um tempo no ano anterior. Rainha do Mundo é um drama de difícil interpretação e que aborda também as complexidades de uma depressão.
À primeira vista, vemos uma Virgínia preocupada com a fragilizada amiga que se encontra a ponto de ter um colapso nervoso, já que acabou de perder o pai, um artista famoso, e de terminar um relacionamento. Através de longos diálogos, vamos percebendo uma Ginny fria, que até mesmo repudia a carência e a dependência da amiga, em um verdadeiro desafio ético e moral para nós, espectadores. Vai se desenhando nas expressões de Virgínia um certo triunfo, uma espécie de prazer. Somos sem sentir colocados na posição de julgar. Há também uma névoa que impede de distinguir o quanto Catherine está doente ou se o seu sofrimento faz parte da sua personalidade mimada, como ela é acusada pelo namorado da Ginny. Mas certas cenas sugerem até uma preocupação genuína de Virgínia com a amiga, que parece a cada dia perder mais a sanidade e que talvez o que estamos vendo faça parte da imaginação de Catherine ou mesmo se trate de manipulação.
Intercalando de uma forma confusa as cenas do ano anterior, em que Catherine estava muito feliz e egocentrada, com cenas de alto teor psicológico, as duas personagens muito bem interpretadas indicam que estão nos seus limites, em uma tensão crescente, tudo isso muito bem mostrado pelos enquadramentos de suas expressões, tanto do desespero de uma quanto da passividade mórbida da outra. Um estranhamento devastador. Quem é a boazinha e quem é a má? Existe isso? Somos todos dotados de todas as faces? O filme caminha para um dramático desfecho. Afinal, se houve uma vingança, de quem foi?

IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3.3/ 5
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Queen of Earth
País: EUA
Ano: 2015
Direção: Alex Ross Perry.
Roteiro: Alex Ross Perry.
Elenco: Elisabeth Moss, Katherine Waterston.


domingo, 4 de novembro de 2018

INFILTRADO NA KLAN




A extraordinária história verídica do policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan. 
"Em uma fria manhã de novembro de 1978, o jovem policial americano Ron Stallworth deteve seu olhar em um classificado no jornal. "Ku Klux Klan. Para sua informação", dizia o anúncio, seguido de um endereço para envio de cartas.
Ele respondeu ao anúncio, imaginando que isso poderia levá-lo a uma investigação que daria um impulso em sua carreira de detetive.
Mas havia um detalhe: Stallworth, de 25 anos, era um homem negro querendo se infiltrar no grupo mais conhecido de supremacistas brancos dos Estados Unidos, famoso por suas perseguições racistas". (Fonte: BBC News, 14/08/2018)

O premiado filme do diretor Spike Lee baseia-se no livro que Stallworth publicou em 2014, detalhando como foi a operação para sua entrada na KKK e o momento em que conheceu seu polêmico líder, David Duke. 
Ícone do cinema afro-americano, Spike sempre abordou a temática racial abrindo as portas em Hollywood para uma conscientização sobre os problemas sociais do país.

No filme, Ron Stallworth é interpretado pelo ator John David Washington. John é o filho mais velho da atriz Pauletta Washington e do conhecido ator Denzel Washington, que interpretou Malcolm X, no outro filme de Spike Lee, sobre o líder afro-americano que tem o pai assassinado pela Klu Klux Klan e sua mãe internada por insanidade. Também jogador de futebol, John, em 2015, surpreendeu o público ao interpretar Ricky Jerret, no seriado Ballers, transmitido pela HBO.
Continuando: no filme Ron consegue se infiltrar na Ku Klux Klan local, comunicando-se por telefonemas e cartas. Mas havia um detalhe: Stallworth, de 25 anos, era um homem negro e volta e meia solicitavam sua presença física. Para isso, foi montado um esquema em que um outro policial branco, interpretado por Adam Driver, ia no seu lugar e era monitorado por ele. Seu prestígio dentro da seita foi aumentando tanto que tornou-se o líder dela. Um fator que influenciou sua reputação foi o fato de saberem que ele mantinha contato com ninguém menos que David Duke, um polêmico político americano, nacionalista branco, teórico da conspiração antissemita, negador do Holocausto e ex líder da Ku Klux Klan.
Em nome de Deus, os membros da Klan não só odiavam os negros, mas também os judeus e os homossexuais. Assim como eles, existem várias pessoas que defendem os direitos "brancos" até hoje! Em 2017 houve uma manifestação na Virgínia, EUA, que terminou em um conflito, inclusive com uma morte, mas Trump argumentou que o confronto se se deu porque houve violência dos dois lados, que nem todas as pessoas que estavam ali eram supremacistas brancos e nem neonazistas, que ali no meio haviam muitas pessoas DO BEM.
David Duke continua na política: “Trump nos empoderou. Foi o esmagador voto branco que o colocou na Casa Branca, e ele deveria se lembrar disso", diz o supremacista branco em entrevista. Após anos soterrada, a direita racista volta a aflorar nos EUA. Figuras como Duke, profundamente criticado em seu feudo na Louisiana, têm saído da obscuridade.(Fonte: El País, 20/08/2017).
IMDB: 7,7/ 10
Filmow: 4,3/ 5
Minha nota: 4/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: BlacKkKlansman
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spile Lee, outros.

Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier.


Ron Stallworth 




sábado, 3 de novembro de 2018

TRANSIT



Enquanto escrevo sobre um filme, procuro entender suas complexidades. Muitas vezes começo sem ter gostado tanto e acabo adorando. Algumas pessoas comentam que ficaram muito interessadas em ver depois do que eu expus, não sabem elas que eu também convenci a mim mesma da importância, ou da beleza, ou das duas coisas, do filme.
Petzold, Christian Petzold, faz parte dos diretores de cinema vivos por quem tenho admiração. O cineasta e roteirista alemão de 58 anos é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo conhecido como Escola de Berlim. Recebeu, entre outros prêmios, o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim, em 2012, pelo filme Barbara.
Transit estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim em 17 de fevereiro deste ano.
A primeira coisa que quero entender é porquê ele usou a França da época atual para mostrar a ocupação da Alemanha nazista. Sim, a situação é a mesma, principalmente em Paris, as pessoas precisam fugir, negócios como hotéis são abandonados, famílias são separadas, na rua diversos homens com metralhadoras caçam suas vítimas, o desespero está instaurado! Como sei que é a época atual? Pelos carros modernos e todo o contexto. Talvez o diretor não tenha achado importante esses detalhes? Não creio. Ou talvez ele queira mostrar que a guerra continua, mesmo que invisível. O que vocês acham?
Georg (Franz Rogowski), o nosso personagem principal recebe uma missão de entregar uma carta para um escritor em um hotel próximo. Em troca de dinheiro e de um lugar em um carro para fugir de Paris. Chegando lá, ele toma conhecimento que o tal escritor se suicidou. De posso dos manuscritos e de seus documentos de identidade, ele consegue chegar em Marseille, mas deseja ir para o México.
Em Marseille, uma misteriosa mulher volta e meia passa por ele, chega a abordá-lo, talvez confundindo-o com alguém. Marie, na verdade, é a esposa do escritor e procura por ele. Georg começa a se apaixonar por ela. Quem interpreta Marie é a bela Paula Beer, com seus olhos expressivos, a mesma que fez a Anna, no filme de François Ozon, Frantz, lembram?
Bem, no meio a tantos problemas ocasionados por uma guerra, Petzold desenha esse drama. Marie não sabe que busca um fantasma. Georg está apaixonado por ela e quer tirá-la de lá e é o único que pode fazer isso, como o suposto marido dela. Mas como revelar isso para Marie?
Nem preciso dizer que me encantei com o filme, não é? Quem me conhece sabe que é exatamente esse tipo de história que me atrai, ainda mais feita com esse grau de experimentação. Só um diretor genial para ter essa ideia. Transit é baseada em uma novela de 1942. A história é a mesma da novela, os fascistas ocupando a França, mas não há carros blindados e sim policiais comuns pelas ruas do século XXI.
Uma história de fantasmas, amores, fugas e desencontros.
IMDB: 6,9/ 10
Filmow: ainda sem nota
Minha nota: 4/ 5
Ficha técnica:
Nome original: Transit.
Pais: Alemanha
Ano: 2018
Direção: Christian Petzold.
Roteiro: Christian Petzold.
Elenco: Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese, Alex Brendemuhl (Um Instante de Amor, O Médico Alemão)