Cinéfilos Eternos

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A COLEÇÃO




Mais um curta (13 min). Achei genial!
É um filme sobre um comerciante inescrupuloso que “compra” peças artísticas de colecionadores judeus forçados a deixar Paris em meio à ocupação da França pela Alemanha nazista. Informado por um zelador, ele ouve sobre a extraordinária coleção do Sr. Klein.
O diretor e roteirista diz que a ideia veio de um dos contos favoritos dele, de autoria de Stefan Zweig, mas ele mudou o período histórico e outras coisas. Os personagens que ele criou, Mister Klein e sua filha Elise, dão o tom intrigante nessa história de subjugação e opressão. Stefan Zweig foi um escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica. A partir da década de 1920 e até sua morte foi um dos escritores mais famosos e vendidos do mundo.
Emmanuel Blanchard, nascido em Paris, estudou e depois ensinou história antes de se tornar um documentarista responsável por filmes como “Bombing War”, “Le Diable de la République” e “Après la Guerre”. Ele atualmente dirige “Notre-Dame de Paris”, um documentário animado de 90 minutos, filme de ficção parcial sobre a construção da mundialmente famosa catedral parisiense. Competindo no MyFFF, “The Collection” é seu primeiro curta de ficção.
Mr. Klein é interpretado por Jean-Claude Carrière, um premiado roteirista, escritor, diretor e ator francês. Ele foi um colaborador frequente do diretor Luis Buñuel. Para Blanchard, essa escolha foi decisiva, pois Carrière trouxe para o personagem seu brilho, seu humor requintado, seu amor pela arte, a extraordinária textura de sua voz.
La Collection fica entre um drama e um conto fantástico, com sua fotografia de claro-escuro e a textura do som.
Nossa, eu nem ligava muito para "curtas", mas agora estou vendo quantas coisas, principalmente cultura, posso tirar de tão poucos minutos.


*Disponível até o dia 18 de fevereiro no My French Film Festival 2019.

IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,9/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Collection.
País: França.
Ano: 2018
Direção: Emmanuel Blanchard
Roteiro: Emmanuel Blanchard, Thomas Kruithof.
Elenco: Jean-Claude Carrière, Pauline Etienne, Michel Bompoil.


(Por: Cecilia Peixoto)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

GUY




O que dizer desse filme? Simplesmente delicioso.
Guy Jamet é uma espécie de Roberto Carlos, já velho, mas ainda encanta com seu carisma e suas românticas músicas.

Após a morte da mãe, Gauthier, um jovem jornalista, fica sabendo que é filho de Guy Jamet. Por uma carta. Mas ela também lhe pede que não revele nada. Ele resolve então fazer um documentário sobre o artista francês que, sem saber de nada, aceita.
Em uma ótima atuação, Alex Lutz, que tem apenas quarenta anos, faz o papel de Guy Jamet, bem mais velho. Cabelos brancos e rugas profundas e até manchinhas senis nas mãos e rosto, é difícil reconhecer o humorista de Estrasburgo.
Acostumado à televisão e ao teatro, Alex Lutz também atuou em cerca de vinte filmes, incluindo um ao lado de Jean Dujardin em Agente 117: Rio não responde mais, dirigido por Michel Hazanavicius.
A ideia do roteiro foi também de Lutz e desenvolvida por Anais Deban. Alex Lutz dirige o filme e ainda se revela um bom cantor. As músicas, feitas para o filme, são tão boas que viraram um CD de 43 minutos, todas cantadas por Alex.
Guy encerrou a Semana de Critica do Festival de Cannes 2018.
Gauthier acaba acompanhando Guy em tudo, em sua turnê, nos seus shows, frequenta sua casa, é até convidado um dia a cavalgar lado a lado com o pai que não sabe que ele é filho. Laços são criados, mas Gauthier precisa respeitar o pedido da mãe. Sempre atrás das câmeras. Além dessa linda história, o filme mostra a vida real de um personagem que normalmente está sob os holofotes, que tenta reviver seus momentos de glamour e ao mesmo tempo deseja ter uma vida comum.
"- De todas que já cantou, qual é a sua música preferida? "
"- Dadidou".

Deixo aqui o lindo vídeo:
O filme é dedicado "aos nossos pais".

*Disponível no My French Film Festival 2019.
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 2,9/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Guy.
País: França.
Ano: 2018
Direção: Alex Lutz.
Roteiro: Anais Deban, Alex Lutz.
Elenco: Alex Lutz, Tom Dingler.
Por: Cecilia Peixoto.

Alex Lutz






domingo, 3 de fevereiro de 2019

MEU ANJO





Primeiro longa-metragem da francesa Vanessa Filho, Gueule d'Ange passou por diversos festivais e recebeu indicações ao Prêmio Um Certo Olhar.
As resenhas começam assim: "o filme acompanha a história de Marlène, que tem uma filha de oito anos a quem não dispensa muito atenção, mais interessada em bebedeiras, festas e homens". Eu começaria assim: "o filme acompanha a história de Elli, uma menina de oito anos que tem uma mãe que não lhe dispensa muita atenção, mais interessada em bebedeiras, festas e homens".
Porque mesmo a mãe, a Marlène, sendo interpretada por Marion Cotillard, o filme é mais sobre a menina, o "meu anjo" do que sobre a mãe.

Elli, que não sabe quem é o pai e quando perguntada sobre isso responde com a maior naturalidade "não sei, estava escuro", é levada a festas de adultos, onde é neglicenciada por uma mãe geralmente bêbada. Em uma delas, a mãe a coloca em um taxi e não volta pra casa por vários dias.
Marlène é carinhosa com a filha, é "meu anjo" pra cá, "meu anjo" pra lá, mas se revela totalmente despreparada para cuidar dela. Geralmente alcoolizada, perguntas tipo "já comeu" seguidas de "faça alguma coisa" ou "compre alguma coisa, você já é grande" são comuns. A história me lembrou do filme Projeto Flórida, sendo que nesse último a mãe se prostituía para o sustento dela e da filha e em Meu Anjo não é explicado de onde vem o dinheiro para o sustento de Marlène e Elli. Os papeis são tão invertidos que durante esse desaparecimento, nas poucas vezes que Marlène liga, ela diz " estou bem" em vez de perguntar se Elli está bem.
Um outro que vi recentemente e achei bem parecida a relação mãe-filha foi Amanhã e Todos os Outros Dias. Os dois estão disponíveis até o dia 18 de fevereiro no My French Film Festival 2019.
Que Marlène é uma péssima mãe fica claro, mas será que ela é uma mãe má? Ela é relapsa, mas é doce, só chama a filha de "meu anjo", a filha a acha linda e fica orgulhosa quando ela também a produz e a leva às festas. Quer dizer, rola uma admiração da filha pela mãe, ao ponto dela querer imitá-la quando dança e até começar a beber. E esse deslumbramento pode ser muito perigoso. Fica claro também que Marlène precisa de um tratamento. O fato é que existem por aí muitas Marlènes e Ellis. Falamos sobre filmes: "final previsível". Mas muitas vezes fechamos os olhos para a realidade.
A jovem atriz Ayline Aksoy-Etaix, em seu primeiro papel, não faz feio e consegue nos emocionar através de seus olhares, de seu silêncio. A adoração pela mãe transforma-se aos poucos em raiva pelo abandono.

IMDB: 6/ 10
Filmow: 3,4/ 5
Minha nota: 3,4/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Gueule d'Ange
Outros nomes: Angel Face.
País: França.
Ano: 2018
Direção: Vanessa Filho.
Roteiro: Vanessa Filho, Diastème.
Elenco: Marion Cotillard, Ayline Aksoy-Etaix, Alban Lenoir

(Por: Cecilia Peixoto)

sábado, 2 de fevereiro de 2019

AMANHÃ E TODOS OS OUTROS DIAS



Amanhã e todos os outros dias, Mathilde (Luce Rodriguez) precisa lidar com a sua mãe. O problema? É que Mathilde tem apenas nove anos e sua mãe é totalmente fora dos padrões. Mathilde precisou amadurecer mais cedo que o normal. Não sabemos exatamente o que tem a mãe dela, é muito amorosa, delicada, mas tem uns esquecimentos. Às vezes sai e não volta, deixando a filha aflita, olhando para o relógio, contando os minutos. Seu pai (Mathieu Amalric) que não mora com elas, procura participar, pergunta se ela está em casa, sente que Mathilde esconde a verdade para proteger a mãe. "Se ela não chegar ate às 21h30, me avise", diz ele. É o horário combinado com a mãe. Às vezes Mathilde força os olhos sobre os ponteiros do relógio para forçá-los a chegar rápido na hora limite e com ela sua mãe chegar também. De vez em quando sua mãe sai e não lembra pra onde tem que voltar. Não são só esquecimentos, ela tem um comportamento estranho também, totalmente inadequado. Vive em uma espécie de fantasia, no "mundo da lua". Quando está bem, pede desculpas à filha. Mathide nunca sabe como vai encontrar a mãe. Como será amanhã e como serão todos os outros dias. Por enquanto, ela segue protegendo-a, numa inversão de papéis, porque ela teme que tirem sua mãe dela ou que a tirem da mãe. E elas têm uma relação muito estreita.
Noémie Lvovsky estudou e se formou em Literatura, e logo em seguida juntou-se ao grupo Les Fémis, em 1988. Lá começou a trabalhar em roteiros de curtas com Emmanuelle Devos e Valeria Bruni Tedeschi, atrizes e cineastas com quem Lvovsky iria firmar parceria em muitos trabalhos no futuro. Juntas, passaram por conceituados festivais de curtas-metragens na Europa antes de começarem a fazer longas. Em 1990, Noémie se formou em especialização em roteiro, área em que se manteve trabalhando no começo da carreira, escrevendo e dirigindo seus projetos.
De fato, foi apenas nos anos 2000 que começou a se aventurar como atriz, estreando nas telonas com Ma Femme Est Une Actrice (2001). Imediatamente foi reconhecida como intérprete e passou a ser recorrentemente indicada ao César, o mais importante prêmio de cinema da França. Enquanto isso, seu filme La Vie ne me Fait pas Peur (1999), premiado no Festival de Cannes, ganhou prestígio e se tornou obrigatório nos currículos das escolas francesas de artes audiovisuais. Hoje Lvovsky já tem passagem e troféus de inúmeros festivais pelo mundo e é especialmente lembrada por Camille Outra Vez (2012), que dirigiu, escreveu e estrelou.
Também nesse, Noémie Lvovsky é diretora, roteirista e atriz. Ela é a mãe de Mathilde. Ela conta que Demain et Tous les Autres Jours é um pouco de sua própria história. Nos créditos finais ela dedica o filme a Geneviève Lvovsky. Pelo pouco que pude descobrir, sua mãe era bem frágil e teve que ser internada em um hospital psiquiátrico quando Noémie tinha apenas nove anos. A diretora prefere dizer que é um filme pessoal e não autobiográfico. Ela se reconhece em Mathilde, mas diz que deixou de contar muitas cenas de sua infância. Como Mathilde, Noémie diz que sentia-se muito preocupada e o mundo lhe parecia muito perigoso.
O filme, contado do ponto de vista da criança, é uma história de amor entre mãe e filha. O primeiro amor da filha é o amor da mãe. Muitas vezes é também o primeiro ódio, mostrando laços que podem ser problemáticos entre mulheres que se conectam de uma forma tão primordial.
"Je ne suis pas une bonne mère" (eu não sou uma boa mãe), diz ela para a psicóloga da escola da filha, quando ela vai encontrá-la, mas não se lembra pra quê.
Um dia sua mãe lhe dá uma coruja de presente. Para proteger essa mãe instável, Mathilde prepara suas refeições, mente para seu pai e precisa usar da imaginação e da fábula para poder lidar com ela. Faz tudo para essa mãe que ama e também é amada infinitamente por ela. Vai bem na escola, mas não é de fazer amigos. A vida que leva a impede de ser como as outras crianças. No seu universo infantil e na sua solidão de não poder desabafar com ninguém, Mathilde passa a conversar com a coruja.
"Sua mãe é um pouco louca", diz a coruja. 
É um drama extremamente comovente e poético. É com imensa doçura que a mãe de Mathilde lhe promete "Amanhã vou começar com o pé direito". Tanta ternura nos leva a perguntar se o filme não é uma declaração de amor de Noémie para a mãe.

Demain et Tous les Autres Jours abriu o Festival de Locarno e foi criticado pela fantasia, mas é justamente ela que permeia a empatia que temos, principalmente com a doença mental da mãe de Mathilde. O filme de Noémie Lvovsky retrata a solidão de seus personagens com gestos e ações que se revelam como tantas carícias gentis e doces. Como uma história para dormir, significa manter as sombras afastadas e dar as boas-vindas à noite vindoura enquanto espera com confiança pelo amanhã. E  pelo depois de amanhã, e por todos os dias seguintes, ...

IMDB: 5,9/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

*Disponível no My French Film Festival até o dia 18 de fevereiro.

Ficha técnica:
Nome original: Demain et Tous les Autres Jours
Outros títulos: Tomorrow and Thereafter.
País: França.
Ano: 2017
Direção: Noémie Lvovsky
Roteiro: Noémie Lvovsky, Florence Seyvos.
Elenco: Luce Rodriguez, Noémie Lvovsky, Mathieu Amalric, Anais Demostieur.

(Por: Cecilia Peixoto)


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

HOTEL JUDITH





Nem sempre os curtas recebem destaque em alguns festivais. Eu mesma acabo não vendo. Assim como gosto de livros grossos, onde eu acabe me envolvendo com os personagens, também gosto de filmes que me façam sentir uma espécie de imersão. É claro que um curta não tem nem tempo de produzir isso. Mas pensem em quanto pode ser criativo e difícil contar uma história inteira em poucos minutos! Postei outro dia um que não tinha nem 7 minutos. O My French Film Festival 2019 selecionou diversos curtas e dessa vez estou aproveitando para ver todos e me surpreendendo. Principalmente quando já está quase na hora que eu preciso dormir e não dá tempo de ver um longa, nada melhor que um rapidinho, não é?

O Judith Hotel é super badalado, dificílimo conseguir uma vaga. Antes de se alojar, a pessoa precisa responder um questionário sobre suas preferências, tipo que horas deseja jantar, o que deseja jantar e outras perguntas que a princípio o espectador não entende. Por que será que é tão procurado aquele hotel? Os hóspedes são bizarros, aliás você vai ver que o filme é bem bizarro também. Rémi, o personagem principal, foi para lá porque não consegue dormir, coitado. Oito anos sem dormir. Mas o Judith Hotel garante que tem uma solução para o caso dele.

"Seus problemas acabaram!"

*Disponível no My French Film Festival até o dia 18 de fevereiro.


IMDB: 7/ 10
Filmow: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Judith Hotel.
País: França.
Ano 2018
Direção: Charlotte Le Bon.
Roteiro: Charlotte Le Bon, Timothée Hochet .
Elenco: Sarah Calcine, Guillaume Kerbusch, Suzanne Rault-Balet.

(Por: Cecilia Peixoto)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O PODER DE DIANE





O filme trata de uma maneira bem-humorada e agradável um assunto importante: ser barriga de aluguel.
Na trama, é Diane (Clotilde Hesme) quem decidiu oferecer seu corpo para abrigar o filho do seu grande amigo Thomas com seu parceiro. Aparentemente, Diane é uma mulher muito bem resolvida na vida, leve, alegre, descomplicada. Diane acredita no seu poder de decidir sobre seu corpo. sobre não precisar dar satisfações a ninguém. Ela resolve se mudar, durante a gestação, para uma casa de campo que era dos seus avós. Tudo ia bem, até que ela conhece Fabrizio. Acostumada a relacionamentos não duradouros, Diane acreditava que era feliz assim. Mas aos poucos vai se envolvendo com Fabrizio e sua maneira desprendida de ver as coisas vai se modificando.

Clotilde Hesme é uma atriz francesa conhecida por protagonizar os filmes Les amants réguliers, de Philippe Garrel e Les Chansons d'amour de Christophe Honoré. Fabien Gorgeart é roteirista e diretor dos curtas-metragens Un homme à la mer (2009), Le sens de l´orientation (2012) e Le diable est dans les détails (2016). Diane a les épaules é seu primeiro longa-metragem.
"Sem tentar ser moralista ou proselitista, o diretor usa o pretexto da barriga de aluguel para falar dos novos códigos de casais e da ruptura dos modelos familiares. Picante, emocionante, sexy, irritante, a brilhante Clotilde Hesme tem força para encenar todas essas emoções".
Barbara Théate, Le Journal du Dimanche.

O diretor consegue imprimir bastante naturalismo ao filme, é quase como se Diane. Fabrizio, Thomas e Jacques fossem também nossos amigos. Clotilde tem grande responsabilidade nessa sensação de familiaridade que o filme passa com a sua convincente interpretação. A questão que se propõe é até onde uma barriga pode ser considerada somente de aluguel? Dá para separar todos os sentimentos e sensações de ter um bebê, um ser humaninho, crescendo dentro de você, sem criar nenhum elo? E para a criança? Será que a criança sente a separação depois que nasce, depois que sai da "casinha"?
Curiosidade: Gorgeart aproveitou a gravidez real de Clotilde para os momentos em que ela exibe seu barrigão. Nada mais perfeito!
Diane a Les Épaules foi uma das atrações do Festival de Varilux 2018.
*Disponível no My French Film Festival 2019 até o dia 18/02.

IMDB: 6/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,2 / 5

Ficha técnica:
Nome original: Diane a Les Épaules.
Outros nomes: Diane Has The Right Shape.
País: França.
Ano: 2017
Direção: Fabien Gorgeart
Roteiro: Fabien Gorgeart.
Elenco: Clotilde Hesme, Fabrizio Rongione, Thomas Suire, Grégory Montel.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

PODERIA ME PERDOAR?





Quando a desbocada, antissocial e turrona escritora decadente, Lee Israel (Melissa McCarthy), é demitida por ser pega bebendo no jornal onde trabalhava, ela descobre uma forma criativa de usar seus dons e habilidades literários para manter as contas em dia: a mulher passa a falsificar cartas de personalidades famosas e falecidas, vendendo-as em seguida por um valor alto a colecionadores ou intermediários dos mesmos. 

Outrora com dificuldades para escrever, a escritora quebra o bloqueio e passa a exprimir todo o seu talento em cartas convincentes e escandalosas. Afinal, ela não não tinha que lidar com a ansiedade da crítica por seu trabalho, já que a verdadeira autora das cartas era desconhecida. Quando autenticadores e o próprio FBI começam a desconfiar das atividades ilícitas de Lee, ela decide roubar cartas reais e revendê-las.
O filme é baseado em um crime real. A verdadeira Lee Israel (Leonore Carol Israel), uma biógrafa novaiorquina, roubou, alterou ou escreveu por volta de 400 cartas de personalidades como Louise Brooks, Dorothy Parker e Ernest Hemingway e foi sentenciada a 6 meses de prisão domiciliar, mais 5 anos de liberdade condicional. Seus primeiros grandes sucessos publicados foram as biografias da atriz Tallulah Bankhead e da jornalista Dorothy Kilgallen. Seu terceiro livro, uma biografia não autorizada de Estée Lauder, infelizmente não teve o retorno esperado. Contudo, o maior sucesso de Lee aconteceu após seus crimes, com o livro em que ela narra sua própria história: "Can You Ever Forgive Me?: Memoirs of a Literary Forger" (Poderia me perdoar?: Memórias de uma falsificadora literária). A escritora morreu em 2014 e era tão talentosa que suas cartas se passavam perfeitamente como se fossem reais. Ela incorporava à maneira de escrever de cada personalidade de tal forma que o FBI revelou em 2015 para a Times que é provável que ainda existam cartas falsificadas por Lee circulando por ai.
O longa é profundo, divertido de um modo sutil e sensível (até mesmo bondoso) ao expor uma Lee mais que criminosa, humana. Não é de se admirar que o espectador se pegue torcendo para que dê certo para a personagem e ela não seja pega. Lee é ranzinza e de poucos amigos, ainda sim cativa com seu jeito peculiar e em especial através da atuação visceral de Melissa McCarthy, a qual está em um dos melhores papéis de sua carreira. Em uma cena em especial, a atriz consegue arrancar uma lágrima (ou um balde delas) da pessoa mais dura na platéia. Melissa merece sim todo o holofote e indicação a prêmios que tem recebido nessa temporada e merece ainda mais personagens mais interessantes e cheias de nuances como essa.
A história acontece em Nova York, com locações que já garantem certo charme ao longa. E a trilha sonora impecável e cheia de músicas de Jazz completam a beleza e delícia que é essa história.

IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Can you ever forgive me?
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Marielle Heller
Roteiro: Nicole Holofcener, Jeff Whitty.
Elenco: Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells, entre outros.



(Por: Tom Carneiro)