Amanhã e todos os outros dias, Mathilde (Luce Rodriguez) precisa lidar com a sua mãe. O problema? É que Mathilde tem apenas nove anos e sua mãe é totalmente fora dos padrões. Mathilde precisou amadurecer mais cedo que o normal. Não sabemos exatamente o que tem a mãe dela, é muito amorosa, delicada, mas tem uns esquecimentos. Às vezes sai e não volta, deixando a filha aflita, olhando para o relógio, contando os minutos. Seu pai (Mathieu Amalric) que não mora com elas, procura participar, pergunta se ela está em casa, sente que Mathilde esconde a verdade para proteger a mãe. "Se ela não chegar ate às 21h30, me avise", diz ele. É o horário combinado com a mãe. Às vezes Mathilde força os olhos sobre os ponteiros do relógio para forçá-los a chegar rápido na hora limite e com ela sua mãe chegar também. De vez em quando sua mãe sai e não lembra pra onde tem que voltar. Não são só esquecimentos, ela tem um comportamento estranho também, totalmente inadequado. Vive em uma espécie de fantasia, no "mundo da lua". Quando está bem, pede desculpas à filha. Mathide nunca sabe como vai encontrar a mãe. Como será amanhã e como serão todos os outros dias. Por enquanto, ela segue protegendo-a, numa inversão de papéis, porque ela teme que tirem sua mãe dela ou que a tirem da mãe. E elas têm uma relação muito estreita.
Noémie Lvovsky estudou e se formou em Literatura, e logo em seguida juntou-se ao grupo Les Fémis, em 1988. Lá começou a trabalhar em roteiros de curtas com Emmanuelle Devos e Valeria Bruni Tedeschi, atrizes e cineastas com quem Lvovsky iria firmar parceria em muitos trabalhos no futuro. Juntas, passaram por conceituados festivais de curtas-metragens na Europa antes de começarem a fazer longas. Em 1990, Noémie se formou em especialização em roteiro, área em que se manteve trabalhando no começo da carreira, escrevendo e dirigindo seus projetos.
De fato, foi apenas nos anos 2000 que começou a se aventurar como atriz, estreando nas telonas com Ma Femme Est Une Actrice (2001). Imediatamente foi reconhecida como intérprete e passou a ser recorrentemente indicada ao César, o mais importante prêmio de cinema da França. Enquanto isso, seu filme La Vie ne me Fait pas Peur (1999), premiado no Festival de Cannes, ganhou prestígio e se tornou obrigatório nos currículos das escolas francesas de artes audiovisuais. Hoje Lvovsky já tem passagem e troféus de inúmeros festivais pelo mundo e é especialmente lembrada por Camille Outra Vez (2012), que dirigiu, escreveu e estrelou.
Também nesse, Noémie Lvovsky é diretora, roteirista e atriz. Ela é a mãe de Mathilde. Ela conta que Demain et Tous les Autres Jours é um pouco de sua própria história. Nos créditos finais ela dedica o filme a Geneviève Lvovsky. Pelo pouco que pude descobrir, sua mãe era bem frágil e teve que ser internada em um hospital psiquiátrico quando Noémie tinha apenas nove anos. A diretora prefere dizer que é um filme pessoal e não autobiográfico. Ela se reconhece em Mathilde, mas diz que deixou de contar muitas cenas de sua infância. Como Mathilde, Noémie diz que sentia-se muito preocupada e o mundo lhe parecia muito perigoso.
O filme, contado do ponto de vista da criança, é uma história de amor entre mãe e filha. O primeiro amor da filha é o amor da mãe. Muitas vezes é também o primeiro ódio, mostrando laços que podem ser problemáticos entre mulheres que se conectam de uma forma tão primordial.
"Je ne suis pas une bonne mère" (eu não sou uma boa mãe), diz ela para a psicóloga da escola da filha, quando ela vai encontrá-la, mas não se lembra pra quê.
Um dia sua mãe lhe dá uma coruja de presente. Para proteger essa mãe instável, Mathilde prepara suas refeições, mente para seu pai e precisa usar da imaginação e da fábula para poder lidar com ela. Faz tudo para essa mãe que ama e também é amada infinitamente por ela. Vai bem na escola, mas não é de fazer amigos. A vida que leva a impede de ser como as outras crianças. No seu universo infantil e na sua solidão de não poder desabafar com ninguém, Mathilde passa a conversar com a coruja.
"Sua mãe é um pouco louca", diz a coruja.
É um drama extremamente comovente e poético. É com imensa doçura que a mãe de Mathilde lhe promete "Amanhã vou começar com o pé direito". Tanta ternura nos leva a perguntar se o filme não é uma declaração de amor de Noémie para a mãe.
Demain et Tous les Autres Jours abriu o Festival de Locarno e foi criticado pela fantasia, mas é justamente ela que permeia a empatia que temos, principalmente com a doença mental da mãe de Mathilde. O filme de Noémie Lvovsky retrata a solidão de seus personagens com gestos e ações que se revelam como tantas carícias gentis e doces. Como uma história para dormir, significa manter as sombras afastadas e dar as boas-vindas à noite vindoura enquanto espera com confiança pelo amanhã. E pelo depois de amanhã, e por todos os dias seguintes, ...
IMDB: 5,9/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,8/ 5
*Disponível no My French Film Festival até o dia 18 de fevereiro.
*Disponível no My French Film Festival até o dia 18 de fevereiro.
Ficha técnica:
Nome original: Demain et Tous les Autres Jours
Outros títulos: Tomorrow and Thereafter.
País: França.
Ano: 2017
Direção: Noémie Lvovsky
Roteiro: Noémie Lvovsky, Florence Seyvos.
Elenco: Luce Rodriguez, Noémie Lvovsky, Mathieu Amalric, Anais Demostieur.
(Por: Cecilia Peixoto)
(Por: Cecilia Peixoto)
