Cinéfilos Eternos

sexta-feira, 22 de junho de 2018

HEREDITÁRIO



Do mesmo estúdio de A Bruxa (2015) e Ao Cair da Noite (2017), A24 já é referência em terror psicológico de qualidade. Sua mais nova produção, Hereditário, é uma adição a esta lista primorosa e criativa da produtora. Assim como O Babadook (2014), essa leva de horror é um cinema com menos foco no explícito e mais no imaginário. Esses são filmes que levam o espectador a pensar de forma mais crítica e profunda, propiciando uma discussão no final. Infelizmente o material de divulgação não tem ajudado quando sugere convencionalidade e faz comparações desmedidas e desnecessárias. A indicação é tentar evitar os trailers ou não se deixar enganar por eles.
Hereditário é do diretor novaiorquino Ari Aster. Em seu trabalho de estreia com longa, o americano, o qual também assina o roteiro, fincou seu nome em Hollywood com um filme que já é considerado um clássico. Contudo, o êxito de Aster não reside apenas no roteiro conciso e inteligente, mas na sua habilidade em orquestrar todo o projeto, com a fotografia enigmática, trilha sonora de dar calafrios e sua mão em guiar os excelentes atores por esse caminho aterrorizante em que trilham em tela. É revigorante ver o cinema dando chance a sangue novo e fiquem de olho nos trabalhos futuros desse diretor.
A história inicia-se com Annie (Toni Collette) e sua família no funeral de sua mãe. A mulher não tinha uma boa relação com sua genitora. Por conta de alguns atritos com a mãe, as duas se mantiveram afastadas até que a senhora ficou doente e foi mantida aos cuidados da filha. E como uma doença hereditária, esse atrito entre mãe e filha se estende para Annie e seus dois filhos, o adolescente Peter (Alex Wolff) e a distante Charlie (Milly Shapiro). Um incidente terrível leva as duas partes migrarem para polos opostos de convivência e afeto dentro da própria casa.
No regresso do funeral, exceto por Charlie, ninguém mais da família parecia estar muito abalado pela recente morte. Mas aos poucos, eventos inesperados fazem com que um a um vá perdendo sua sanidade naquela família, deixando o único ainda são, o marido de Annie (Steve - Gabriel Byrne), tentando manter todos unidos e bem. E o desfecho ambíguo, que pode ser explicado por um viés psicológico ou espiritual, é de dar calafrios com cenas aterrorizantes.

Se você ficou em dúvida, daqui em diante eu irei explicar o que eu entendi e o que o próprio diretor quis transmitir com o filme. Portanto não continue lendo, pois vai ter bastante SPOILER.
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Segundo Ari Aster o que aconteceu ali não tem nada de psicológico. O capiroto estava mesmo rondando a família de Annie e no final um de seus servos possuiu Peter. Mas como chegamos até esse final macabro?
Bom, desde a cena do funeral, fica evidente a presença do culto satânico rondando a família. Todas aquelas pessoas na cerimônia de despedida eram desconhecidas de Annie, sendo portanto membros do culto.
O servo de lúcifer, que queria encarnar em um homem vivo, só poderia ser encarnado em um homem. A mãe de Annie provavelmente cedeu a própria família para trazer o demônio à terra, mas Peter foi impedido de conviver com a avó e somente Charlie teve contato com ela desde pequena. Só que a menina não servia para ser a hospedeira do demônio. Ela foi inclusive a primeira a notar que o demônio rondava a casa, lembram da luz azul? Talvez por ser criança, ela era meio sensitiva. Ou a própria avó pode ter feito algo para que ela se tornasse mais perceptível, já que elas tiveram mais contato.

Aster revelou que fez uma pesquisa profunda sobre material de magia negra, portanto tudo o que vocês viram no filme relativo a isso é material com fundamento real.
O culto planejou tudo, inclusive a morte de Charlie. Dá para notar um dos símbolos no poste onde a menina morreu em uma das cenas. Então o grupo tinha a intenção de desestabilizar a família para tornar mais fácil a concepção do plano maligno final deles. A Joan (a odiada Tia Lydia de The Handmaid's Tale, interpretada pela talentosa Ann Dowd) representa um papel fundamental nos planos do culto. Talvez ela tenha levado junto do culto o corpo da avó para dentro do sótão da família ou talvez tenha sido a própria Annie num dos seus episódios de sonambulismo. Mas Joan é sem dúvida a responsável por desestabilizar ainda mais Annie, abrindo espaço para o mal que estava por vir.
Por fim, Steve era tão irrelevante ali que foi queimado, talvez como referência ao que Annie tentou fazer para salvar os filhos da possessão, porque ela guardou esse fato sobre sua mãe tão bem, que somente sua versão sonâmbula conseguia acesso a isso. Mas a morte em fogo de Steve também pode ser uma crítica às bruxas que eram queimadas no passado.
Sem Steve no caminho, com a Annie desestabilizada e talvez até possuída por aquele ritual que ela foi levada a fazer por Joan, Peter estava livre para ser possuído finalmente. E quando ele chega no sótão cheio de membros do culto pelados, sua mãe se decapitando no teto, ele acaba se jogando da janela e morre, cedendo involuntariamente seu corpo ao demônio que perseguia a família. Nessa cena dá para ver o espirito de Peter saindo e o demônio com sua luz azul entrando.

Na última cena, vemos Peter, já possuído, entrando na casa da árvore, cheia de membros do culto novamente, e a própria Joan organizando tudo. Há também três corpos sem cabeça: Annie, sua mãe e a pequena Charlie, o que indica a trindade santa, contudo essa em reverência ao mestre do demônio servo que possuiu Peter: Lúcifer. As cabeças cortadas eram pagamento ou tributo ao demônio.
Bom, eu gosto bastante dessa ideia de de possessão demoníaca, mas também acho interessante quem defende que na verdade tudo ali não passou de um delírio de Annie, tão abalada pela morte da mãe. Inclusive a hereditariedade do título cabe bem nessa explicação, já que na família de Annie muitos tinham problemas psicológicos. Então porque essa história louca também não pode ser explicada por uma possível esquizofrenia de Annie?
Apesar do diretor já ter esclarecido tudo, um filme sempre depende da percepção do espectador.


IMDB: 7,7/ 10
Nota: 4,5/ 5

(Sinopse e Comentários: Tom Carneiro)


Ficha técnica:
Nome original: Hereditary
País: EUA
Ano: 2018 
Direção: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster
Elenco: Toni Collette, Milly Shapiro, Gabriel Byrne

Sinopse: Depois que a matriarca da família falece, a família de luto é assombrada por ocorrências trágicas e perturbadoras, começando a desvendar segredos sombrios.
• Duração: 127 minutos

ANIVERSARIANTES


ANIVERSARIANTES


quarta-feira, 20 de junho de 2018

ANIVERSARIANTES


A LIVRARIA



"Quando lemos uma história, nós a habitamos".
Compartilho do mesmo sentimento de Florence Green, me envolvo com os personagens, me vejo nos lugares descritos, quanto mais grosso o livro melhor, mais eu mergulho na história. Ao ponto de em alguns livros, e em alguns filmes também, muito embora a minha ansiedade me leve logo até o final, eu deseje que se estenda mais. Às vezes tenho pena de "ir embora" daquela história. Também eu, como Florence, preciso de um tempo para absorver aquilo tudo, para refletir. Muitas vezes, gosto até mais do filme ou do livro depois. Dos filmes, principalmente depois que escrevo sobre eles, porque ao escrever, percebo detalhes que ainda não tinha assimilado.Por isso detesto ver um filme atrás do outro, ou um livro. A não ser que não tenha gostado muito, também eu continuo respirando no mesmo ambiente, me sinto uma personagem. Por exemplo, eu agora estou sorrindo como Florence Green, ajeito minha trança atrás da cabeça, meu olhar divaga, vai além, e eu tento enxergar, com clareza e indulgência, do jeito dela, o que se passa com os seres humanos em geral. Ah, como eu entendo a Florence... quantas vezes tomamos uma iniciativa que só vai trazer benefícios a todos, só queremos o bem, e eu penso que um sentimento bom ou uma ideia boa transbordam naturalmente, tocam os que estão próximos, ... mas infelizmente algumas pessoas não vêem isso com bons olhos. O despeito e a hostilidade tomam conta delas, que vão fazer tudo para apontar defeitos. Eu sou uma pessoa meio metida, onde eu vou começo a dar ideias, não é para aparecer, mas é que para mim fica tão claro que existem coisas que podem ser melhoradas, ... mas sempre tive que enfrentar, assim como a nossa livreira do filme, a resistência às mudanças. "Mas sempre foi assim", já ouvi muito essa frase.
Mrs Violet Gamart, acostumada a dar grandes festas e a ser o centro das atenções será a mais ferrenha opositora ao projeto de Florence de reformar a casa velha da cidade e instalar uma livraria. A comunidade é conservadora, do tipo "pra que ler?' Na época, foi lançado um livro novo, de Vladimir Nobokov, o hoje famoso Lolita e Florence decide comprar 250 volumes. Se hoje o romance já desperta tantas polêmicas, imaginem na época! Que ousadia da nossa Florence!
Fiquei apaixonada pela construção do filme, a reconstituição da época, os figurinos, as locações, que fotografia!, tudo me envolveu. O filme é muito mais do que mostrar a importância da literatura, não só como entretenimento, mas como forma de abrir a cabeça, expandir as ideias, mas também é uma história de resistência, de luta pelos ideais. Florence era uma mulher à frente do seu tempo e essas mulheres, reais ou fictícias, sempre me fascinam. A Livraria foi filmado em língua inglesa. A história se passa em 1950, em um vilarejo inglês, onde uma viúva decide reconstruir sua vida, abrindo uma livraria, apesar da oposição da população local.
Uma mulher sozinha, acho que até hoje, também é uma ameaça às outras. Olhares piedosos ou maledicentes nunca faltam nessas horas, difícil acreditar que a pessoa possa estar bem.
"Com um livro, nunca se pode se sentir só", disse ela.
Adaptação do homônimo livro, de Penélope Fitzgerald, The Bookshop recebeu o Prêmio Goya de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Isabel Coixet, diretora espanhola apaixonada por literatura, dedicou seus prêmios "a todos aqueles que ainda compram livros, abrem livrarias e amam cinema". Coixet está entre as minhas diretoras colecionáveis, aprecio o estilo dela e gosto demais do filme Minha Vida Sem Mim, também dirigido por ela.
Enfim, sou suspeita porque amo histórias assim e amo livros, mas o que eu tenho a dizer sobre o filme: encantador!
IMDB: 6,5/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Bookshop
Outros títulos: La Librería
País: Espanha, Alemanha, Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2017
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet, Penélope Fitzgerald.
Elenco: Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Bill Nighy.
A diretora Isabel Coixet recebendo o Prêmio Goya.