Cinéfilos Eternos

quarta-feira, 18 de julho de 2018

ANIVERSARIANTES


ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS



Vi ontem esse filme e confesso que me incomodou, tenso praticamente o tempo todo. Fui dormir com aquele mal-estar, com aquela sensação ruim, tentando entender o que realmente aconteceu, como se fosse possível, já que a própria polícia não conseguiu provar nada.
Saber que um criminoso desse tipo continua vivo, levando uma vida normal, se é que foi ele, não é?, porque também se não foi, estamos cometendo uma grande injustiça.
O filme começa com um romance maravilhoso entre David (Ryan Gosling) e Katie (Kirsten Dunst), ele, um milionário herdeiro de um império imobiliário, embora de negócios escusos, ela, uma moça simples e sensível. 
Eles se casam e aos poucos, o que parecia ser um conto de fadas se torna um pesadelo para Katie, devido à alma doentia de David.

O filme é baseado em fatos reais e é isso que impressiona mais! Eles se conheceram em 1971 e em 1982 Katie desapareceu e nunca mais foi encontrada. Não é spoiler, gente, é um filme sobre um acontecimento real.
Jarecki fez mais de 100 horas de entrevistas com pessoas próximas ao empresário, que na vida real se chama Robert Durst, para fazer o filme.
A fotografia é cheia de contrastes, porque embora de cores frias a maior parte do tempo, nos presenteia com a beleza do lago onde eles têm uma casa para o fim-de-semana.
Entre Segredos e Mentiras é baseado em fatos reais, mas vai além deles, ao exibir a sua versão sobre essa poderosa família nova-iorquina.
O resultado é um filme intenso, com poderosas atuações e uma bela trilha sonora.
Mas que, como disse no início, incomoda.


IMDB: 6,3/ 10
Filmow: 3,3/ 5
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: All Good Things
País: EUA
Ano: 2011 
Direção: Andrew Jarecki
Roteiro: Marc Smerling, Marcus HincheyElenco: Ryan Gosling, Kirsten Dunst, Frank Langella

Robert Durst e Kathleen Durst





SENTIDOS DO AMOR



Como acontece a interação humana? Respondemos e agimos em decorrência de ações da natureza ou de simples situações cotidianas? Já parou para pensar que, por mais simples que seja, cada ruído, gosto ou sombra de algo são extremamente importantes para nossa vida?
Cientificamente, nosso corpo é composto por cinco sentidos: olfato, paladar, audição, visão e tato. São essas cinco capacidades que nos permitem apreciar praticamente qualquer coisa que exista. Mas o que dizer dos sentimentos? Seriam eles algo acima desse aspecto? Pois nós não precisamos sentir o gosto, ouvir o som, apreciar o cheiro ou enxergar alguma luz para amar ou odiar algo. Apenas precisamos ''sentir''. Seria o amor também um sentido humano?
'Sentidos do Amor, tradução um tanto comercial (mas se encaixa bem) para Perfect Sense (Sentido Perfeito), é um filme que faz o mesmo questionamento.
Na trama, Michael (Ewan McGregor) é chef de um restaurante ao lado do prédio onde mora a epidemiologista Susan (Eva Green). O casal se conhece casualmente e, enquanto uma espécie de doença totalmente desconhecida começa a propagar-se, os dois sentem a necessidade de estarem juntos. 
Iniciando um romance mesmo com suas diferenças, eles passam juntos pelo primeiro sintoma da doença: são tomados por uma forte depressão, lembrando de pessoas que morreram, amizades que se perderam e conflitos não resolvidos. Terminando esse ciclo, eles perdem completamente o olfato. Há um desespero inicial, as pessoas não entendem o que se passa e os médicos não sabem o que fazer. Transmite-se pelo ar? É vírus? Uma bactéria?

Os dias passam e a vida segue. As pessoas habituam-se, essa é uma qualidade humana. Aos poucos, a sociedade volta ao normal. Aliás, pra que serve o olfato? Podemos viver sem isso...
É quando o próximo sintoma vem e as pessoas perdem mais um sentido que vemos a dúvida e o desespero florescerem nos semblantes do casal. O que será daqui pra frente? Até onde essa ''doença'' irá levar a espécie humana? A partir daí, qualquer outro detalhe que eu descrever aqui poderá estragar a experiência única de assistir ao filme. Para quem viu Ensaio sobre a Cegueira (2008), trama que parte de premissa parecida, prepare-se para ver algo um pouco semelhante, porém de um ponto de vista diferente. Em Sentidos do Amor, há momentos de incrível tensão e desespero, mas a mensagem é mais otimista e até bonita, para ser sincero.
Tenho certeza que depois de assistir ao filme, você se perguntará se o amor é ou não é um Sentido Perfeito.

Texto e avaliação: Marcos Poli
IMDB: 7,1/ 10
Filmow: 
Nota (Marcos Poli): 10/10

Ficha técnica:
Nome original: Perfect Sense.
País: Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2011
Direção: David Mackenzie
Roteiro: Kim Fupz Aakeson
Elenco: Ewan McGregor e Eva Green

terça-feira, 17 de julho de 2018

ANIVERSARIANTES


ESTOU AQUI




Spike Jonze é bom em criar mundos paralelos, seja na direção de filmes como “Quero Ser John Malkovich”, “Onde Vivem os Monstros” e “Ela” ou mesmo na roteirização de filmes como o insano “Jackass”. Em 2010, ele escreveu e dirigiu o curta I’m Here, no qual, tal como nos trabalhos citados, Jonze constrói um mundo ficcional onde robôs dividem o mundo com seres humanos, ilustrando a própria vida real.
Na trama, Sheldon (Andrew Garfield) é um bibliotecário de Los Angeles, que leva a vida de forma simples e tímida. Sheldon é um robô e vive todos os dias de forma repetitiva e vazia. Esse sentido que faltava é preenchido quando ele conhece Francesca (Sienna Guillory), uma robô divertida, que não se importa nem um pouco com a inferiorização dos robôs por parte dos humanos. Ela só quer se divertir e enxerga amizade em cada ser existente. Sheldon e Francesca se apaixonam e começam a namorar. A relação deles é a mais encantadora possível. Eles vão à festas, fazem passeios noturnos, passeios em parques, assistem shows musicais, como qualquer outro casal no mundo (real ou deles). Só Francesca consegue tirar o robô de sua rotina. Mas, como em todo bom romance, uma dose de drama sempre vai bem para acompanhar. Sheldon prova seu amor incondicional e infinito por sua robômorada e isso culmina em um desfecho comovente, indagando o espectador se ele seria capaz de fazer o mesmo por quem ama.
O mundo proposto por Jonze na história é a própria representação do mundo real, onde os robôs, excluídos pelos seres humanos e vistos como seres inferiores, funcionam como os excluídos da sociedade real. São os pobres, negros, homossexuais, mulheres ou quem quer que seja visto como menor e gera olhares nas ruas por serem quem eles são por direito. Francesca, em uma cena, cola cartazes escrito: I’m Here (Eu Estou Aqui) pelas ruas da cidade. O que ela está gritando para o mundo é que ela não quer só ser vista, mas enxergada também. Ela pode ser considerada excluída, no entanto ela está aqui, quer que seus direitos e deveres sejam validados como os dos seres humanos. Portanto, aquele cartaz demarca que Francesca está aqui neste planeta como qualquer outro ser. E não existem pessoas lutando para serem enxergadas todos os dias fora da tela?
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(continuação da análise com SPOILER)
Outro ponto discutido no filme é acerca do amor. Francesca é desajeitada e quebra uma parte do corpo a cada momento, o que faz Sheldon doar o seu corpo para ela por amor. Isso é lindo, mas convenhamos que passou pela sua cabeça que esse problema poderia ter sido facilmente resolvido se eles comprassem novos membros ou os achassem no ferro velho, só que isso arruinaria a discussão do filme! Além do mais, os robôs são aqui a representação dos seres humanos. As partes perdidas por Francesca são como órgãos ou membros do corpo humano, não são facilmente substituíveis, por vezes só com transplantes, como no filme. E é preciso muito amor para doar uma parte sua para alguém. Seja em vida ou não, são admiráveis os que fazem isso.
No caso do filme, o amor de Sheldon pela namorada era tamanho, que ele preferia se ver sem aquele membro a ter de viver sem ela. Isso é amor intenso, profundo e verdadeiro. E aquele desfecho, quando apenas a cabeça de Sheldon é o que restou de seu corpo, ele prova de uma vez por todas que se doou completamente por aquela relação e por sua amada. É claro que na vida real não seria possível alguém fazer o mesmo, mas a ideia ai é justamente mostrar que as pessoas precisam se doar por completo quando entram em um relacionamento. E isso é tão raro de acontecer. A maioria das pessoas têm sempre interesses pessoais, seja sexo, dinheiro, fama, … porém, não doam nem o tempo ao lado do outro, que dirá se doar por inteiro! Sheldon é, portanto, o amor verdadeiro.
Analisando a parte mais técnica do curta, Spike Jonze conquista os olhos dos espectadores com uma fotografia bela e viva. Somada a uma trilha sonora sensível e de bastante conteúdo, como as músicas There Are Many Of Us (Aska) e Hellhole Ratrace (Girls). As atuações também são ótimas, mesmo os atores escondendo os rostos debaixo das fantasias de robôs.

Texto e análise: Tom Carneiro.
Filmow: 4,2/ 5
Nota (Tom): 9/ 10

Ficha técnica:
Nome original: I'm Here
Outros nomes: Estou aqui
País: EUA
Ano: 2010
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Andrew Garfield, Sienna Guillory.

FLORES PARTIDAS



Don Johnston (Bill Murray) é um bem-sucedido empresário, solteiro e mulherengo. O nome do personagem é uma alusão ao famoso personagem espanhol, tido como símbolo da sedução e da libertinagem.
O filme começa com ele sendo abandonado por Sherry (Julie Delpy), que o acusa de indiferença.

A conquista profissional e as diversas conquistas amorosas não parecem fazer dele uma pessoa realizada, ou ainda, é como se ele chegasse ao fim da linha e não encontrasse nada lá. A sua falência existencial é visível.
Seu vizinho Winston (Jeffrey Wright) é o seu oposto, com uma família estruturada, mulher e cinco filhos, está sempre ocupado, se dividindo entre eles, seus empregos e sua paixão por jogos e romances policiais.
Quando Don recebe uma carta anônima em papel cor-de-rosa, dizendo que ele tem um filho de 19 anos, Winston o convence a ir em busca das mulheres com quem teve um relacionamento no passado para investigar. 
O amigo lhe dá todo o apoio logístico para a empreitada, até mesmo a trilha sonora, incluindo jazz etíope, que o acompanha.
A apatia de Don não se altera, mas embora ele se recuse, acaba seguindo todas as instruções do Winston.

Inicia-se assim um "road movie", mas em direção ao passado. Como se Don tentasse ainda uma última cartada, a de encontrar algum significado ou familiaridade com o mundo à sua volta.
Ele vai em busca então das possíveis mães (Sharon Stone, Frances Conroy, Tilda Swinton, Jessica Lange) do seu possível filho, sempre com um ramos de rosas cor-de-rosa, conforme a recomendação do amigo-detetive.
Sim, o elenco é estupendo, mas a participação é passageira.
Como passageiros foram os seus romances.
Ele procura no passado algo que dê sentido ao seu presente.
Mas em vão...
Seus encontros são como flores partidas, sem encanto.

Coincidência ou não, há sempre um rapaz com idade aproximada daquele que poderia ser seu filho, nos lugares onde ele vai.
Também com o espectador a relação do protagonista é passageira, o filme termina nos deixando com a vontade de ver mais, de conhecermos mais cada história.
Mas o desenlace se parte, como as flores do título.
E não nos resta outro recurso que chegarmos às nossas próprias conclusões.
Recomendo.


IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Broken Flowers
País: EUA
Ano: 2005
Direção: Jim Jarmusch.
Roteiro: Bill Raden, Sara Driver, Jim Jarmusch.
Elenco: Bill Murray, Jessica Lange, Sharon Stone, Julie Delpy, Tilda Swinton, Frances Conroy, Jeffrey Wright.