Cinéfilos Eternos

terça-feira, 26 de junho de 2018

THOROUGHBREDS



Eu não ia postar esse filme porque achei bem doentio. Me lembrou o Almas Gêmeas, do Peter Jackson. Eu tinha o dvd desse do Jackson e até dei, mesmo sendo, se não me engano, o primeiro filme da Kate Winslet. Em Heavenly Creatures (nome original) duas adolescentes criam uma amizade tão obsessiva ao ponto de resolverem matar a mãe de uma delas, que estava proibindo a estranha ligação. Thoroughbreds é sobre duas amigas também, Lily ( Anya Taylor-Joy, de A Bruxa, Fragmentado) e Amanda (Olívia Cooke, de Bates Motel). Também adolescentes, elas se juntam para bolar um plano para assassinar o padrasto da Lily. Para isso, elas vão tentar convencer Tim a fazer o serviço sujo. Tim é interpretado pelo ator Anton Yelchin (Star Trek, Sala Verde), que morreu precocemente aos 27 anos em um infeliz acidente em sua residência. Isso foi em 2016, embora esse filme seja de 2018. Acredito que foi sua última atuação.
Bem, Lily e Amanda já se conheciam, eram meio que "amigas" de infância e a mãe de Amanda contrata Lily para lhe explicar sobre algumas matérias, acho que mais pra as duas se reaproximarem. Penso que numa tentativa de melhorar o comportamento bem esquisito da filha. Amanda é aquela típica adolescente que não se interessa por nada, não tem amigas, nem namorado e nem uma relação boa com a família. Mais tarde ela revelará a Lily que não tem sentimentos. Seus pensamentos são movidos apenas pelo racional. A confissão, em vez de assombrar a Lily, muito pelo contrário, meio que a fascinou.
Amanda passa então a frequentar a casa de Lily e percebe que esta sente-se muito incomodada e intimidada com a presença do seu padrasto. É quando ela lhe sugere matá-lo. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Atenção para o foco do filme, pois muito mais que toda a trama do crime, o que importa é se traçar o perfil das duas jovens. Com diálogos interessantes, as duas personagens são muito bem interpretadas.
O suspense/comédia de humor negro, dirigido pelo estreante Cory Finley, foi muito elogiado pela crítica internacional nos festivais de Sundance e de Londres,
IMDB: 6,9/ 10
Minha nota: 3,3/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Thoroughbreds
País: EUA
Ano: 2018
Direção: Cory Finley 
Roteiro: Cory Finley 
Elenco: Anya Taylor-Joy, Olívia Cooke, Anton Yelchin.

Por que acabei postando? Porque li algumas explicações sobre o filme que não concordo de jeito nenhum. Eis a minha opinião:
SPOILER:
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O grande lance do filme é que Amanda, aparentemente perigosa, acaba sendo totalmente manipulada por Lily, personalidade fria e dissimulada

A PELE DE VÊNUS



A Vênus das peles, de Sacher-Masoch, foi publicado originalmente em 1870 e narra, pela primeira vez, com detalhe e clareza, a submissão sexual e existencial, ao mesmo tempo dolorosa e prazerosa, servil e libertária – pois se trata de servidão voluntária –, de um homem a uma mulher. O livro não é apenas a obra fundamental do masoquismo, é também uma das obras fundamentais da cultura contemporânea, em que a liberdade e a realização individuais se alimentam reciprocamente.
Baseada no livro, o dramaturgo norte-americano David Ives fez a peça teatral A Pele de Vênus, que Polanski, magistralmente, adaptou para o cinema.
Na sua melhor interpretação, Emmanuelle Seigner é Vanda, uma atriz que vai fazer um teste para a peça teatral de Thomas (Mathieu Amalric). Ela chega muito atrasada, encharcada de chuva e não tem mais ninguém lá, além do próprio Thomas, que está ao telefone, desabafando sobre a dificuldade para encontrar uma atriz à altura do papel principal. Esgotado, ele não quer atender á inconveniente e insistente Vanda. Ela nem de longe faz o perfil da mulher que ele procura. Mas ela chora, suplica e ele finalmente cede e aceita fazer o papel masculino, já que todos se foram. E ela o surpreende de uma forma contundente. Ela sabe todo o texto de cor e sua interpretação é tão convincente que personagens e atores se confundem, papéis se invertem, é ela, Vanda, quem está no comando em vez do diretor da peça. Vanda quer a todo o custo o papel e não aceita um não como resposta e começa a tornar-se cada vez mais dominante e provocante. Erótica, Thomas está cada vez mais submisso a ela, ao mesmo tempo que uma forte atração toma conta dele. A tensão sexual está no ar.
A trilha sonora de Alexandre Desplat é o complemento para essa mistura de teatro e cinema. São 96 minutos no mesmo local e com apenas esses dois atores. E mesmo assim, você não vai conseguir piscar.
Os dois atores já contracenaram em O Escafandro e a Borboleta e na vida real, Emmanuelle é casada com Polanski, com quem tem dois filhos.
O filme proporciona uma reflexão sobre como o poder pode mudar de mãos. Provocativo e desconcertante, o embate entre os personagens aborda temas como o sexismo, a misoginia e o machismo.
"Em nossa sociedade a mulher só possui poder através do homem. Gostaria de saber o que seria da mulher quando ela se iguala ao homem. Quando ela se torna ela mesma".
O final é sensacional. Misturando personagens mitológicos e elementos de tragédia grega.
"Ela já havia preparado tudo antes de entrar ali?"
IMDB: 7,2/ 10
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica:
Nome original: La Vénus à la Fourrure
País: França/ Polônia.
Ano: 2013
Direção: Roman Polanski.
Roteiro: Roman Polanski (adaptação para o cinema da peça teatral homônima)
Elenco: Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

RESOLUTION



Vi Resolution na tentativa de tirar as dúvidas da continuação dele, The Endless. Tipo ver Better Call Saul depois de Breaking Bad. Resolution é uma produção independente de baixo orçamento, dirigido com competência por Justin Benson e Aaron Moorhead. Benson também assina o roteiro. Classificado como terror, mas é um terror sutil, o clima é tenso o tempo todo, daqueles que estão mais para fundir a cuca.
Tudo começa quando Michael (Peter Cilella) recebe uma fita com uma gravação do seu amigo drogado e um mapa de sua localização, o que ele interpreta como um pedido de ajuda. Ele deixa sua esposa grávida e parte para o que ele considera ser uma missão. Talvez Michael deseje ter alguma coisa para se orgulhar e contar para o filho que vai nascer.
Michael resolve prender Chris (Vinny Curran) com uma corrente, de forma que ele não tenha acesso às drogas nem às bebidas, dentro da cabana que depois ele vem a saber que foi ocupada ilegalmente pelo amigo e que está localizada em uma reserva indígena. Outro problema que ele tem que resolver. Ele pede para ficar por cinco dias e paga pelo aluguel. Não bastasse isso tudo e aturar as súplicas e as tentativas de Chris para ser desacorrentado, além do assédio de dois drogados, coisas estranhas começam a acontecer, fitas e fotos estranhas aparecem em todos os lugares, como a mandar um recado. E outra: Chris afirma que não foi ele quem mandou aquela fita para Michael.
Os dois amigos terão enfim muito tempo para se lembrarem e talvez se arrependerem de alguns atos praticados no passado, numa jornada de auto-conhecimento e reaproximação.
Mike só sai da cabana para comprar alguma coisa e caminhar. Numa dessas caminhadas, onde torce o pé, ele conhece um sujeito que mora em um trailer e que o convida para tomar um chá. Ele lhe diz que veio para o local com mais dois franceses, que diziam procurar um monstro, mas que desapareceram e que só ele acabou ficando, não conseguiu sair mais e nisso já estava por lá há trinta anos. Também o tal sujeito era chegado a umas ervas que trouxe da América do Sul. O cara era meio sinistro, começou a fazer uns lances com espelho e Michael, desconfortável, agradece a aspirina e resolve ir embora. Será que era mesmo aspirina? O sorrisinho do morador do trailer diz que não, o que nos leva a pensar se tudo não passa de alucinações provocadas pelas drogas, porque parece que todo mundo se droga naquele lugar.
Somos convidados a embarcar nessa aventura, novamente aqui, como em The Endless, não sabemos o que é real e o que é imaginário. Pior: nos questionamos sobre o que é a realidade afinal. Como em O Show de Truman, será que estamos apenas interpretando papéis em um cinema maior? 
Costumo dizer que o cinema, ou um livro, passa a ter vida própria da feita que começa a ser elaborado. O diretor passa a ser dirigido pelo próprio filme, o roteiro e as cenas começam a surgir, independentes da vontade do seu criador, brincando com seus limites.

Bem, e aí, quem viu? Alguém sabe me dizer o que significam afinal aqueles desenhos tribais, o que se esconde naquelas cavernas? Fala-se de uma seita de adoração ao demônio. Serão alienígenas que estão por ali? Qual a finalidade daqueles estranhos objetos (fotografias antigas, livros velhos, rolos de filmes)? Será que é apenas uma comunidade de traficantes que quer afastar as pessoas do local? Quem é o misterioso francês que mora no trailer? Por que ele nunca foi embora? Ah, e o que serão aquelas luzes alaranjadas que parecem flashes? Se não foi o Chris, quem enviou o vídeo para Mike? E o final, hein, o que foi aquilo??? Você não sabe? Hahaha, nem eu. Podemos supor várias coisas, diferentes pessoas terão diferentes explicações. Se você não gosta de finais abertos, não veja, porque Resolution, assim como sua continuação, The Endless, não entrega respostas. Na verdade, tenho a minha teoria, mas não vou dizer.
Mas assim como The Endless faz uma analogia com a rotina que nos devora, Resolution é também um filme sobre a amizade. O outro filme deles, Spring, também envolve bizarrices, porque é sobre um casal em que um deles é um monstro, mas fala principalmente sobre o amor. Então Benson e Moorhead usam sempre uma mensagem subliminar.
IMDB: 6,2/ 10
Minha nota: 3,4/ 5


Ficha técnica:
Nome original: Resolution
País: EUA
Ano: 2012
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Peter Cilella, Vinny Curran, com a participação de Aaron Moorhead e Justin Benson.


O CULTO



Eu acho que o filme fala basicamente sobre o medo.
"O sentimento mais forte e mais antigo do ser humano é o medo, e o medo mais forte e mais antigo é o medo do desconhecido".
O que o ser humano mais deseja? Ser imortal. E o que o ser humano mais teme? A morte. Mas, pelo menos para os que acreditam na continuidade do espírito, é necessário que o corpo morra, é preciso nos despojarmos dessa roupa, muitas vezes já velha e cansada, às vezes doente, para realizarmos esse sonho.
O fato é que não deveríamos ter medo da morte, já que só podem acontecer duas coisas: não existir nada depois e então não sentiremos nada; ou existir vida após dela, a constatação de que nosso espírito, ou nossa alma, é uma energia e vai continuar fluindo.
Então por que temos medo? E não diga que não tem, todo mundo tem. Porque é o desconhecido. Acreditamos, enquanto vivos, ter controle sobre tudo. Precisamos acreditar que temos os pés no chão. No entanto, pisamos em um planeta que está "solto" no universo, às vezes estamos de cabeça pra baixo, se bem que não sei onde é o cima e onde é o baixo. Eu tenho uma mania quando estou sozinha, assim numa praia, aperto os olhos e olho para o horizonte e tento "ver" o que vem depois. Não depois daquela linha, porque é só mais água, mas fora, ... tento me ver, assim como se estivesse em um barco no meio do mar, além disso, em um planeta no meio da imensidão.
No filme Vida Selvagem, Paco diz que na natureza tudo é redondo, que quem inventou o quadrado foi o homem. Porque o quadrado é uma forma que delimita os espaços, dá controle ao homem. Mas na verdade não temos controle sobre nada. Não sabemos onde é o fim e muito menos o que representa o fim. E nem se existe o fim, não é? É a tal teoria do infinito, que eu acho muito estranha. Mas se existe um fim, o que vem depois do fim é o nada. O nada é o que há de mais assustador. Vivemos em círculos, em ciclos, preferimos nos apegar à nossa vidinha quantas vezes sem graça do que ir além.
Alguns ciclos são menores, como o dia, dormimos, acordamos, trabalhamos, comemos, e dormimos de novo. Acredito que o filme promova uma analogia com as rotinas de nossas vidas. Alguns ciclos são maiores, mais estimulantes. Quanto mais medo, menores os ciclos, maior a rotina. Inventamos monstros para não nos expandirmos, mas os monstros estão dentro de nossas cabeças. "Não olhe para eles, siga somente sua bússola e saia correndo", aconselha um personagem do filme.
Em O Culto, Justin convence seu irmão mais novo a fugirem da comunidade onde vivem. Mas de nada adiantou, a comunidade estava dentro deles, impedindo-os de viver, era o monstro deles. Depois de dez anos, eles resolvem voltar em busca de respostas.
Mas há respostas? Pelo menos não no filme, o longa não entrega respostas, só perguntas.
Justin e Aaron são interpretados pelos próprio diretores, Justin Benson e Aaron Moorhead. O filme deles, Resolution, de 2012, uma produção de baixíssimo orçamento, é considerado um desafio conceitual ao espectador. Depois desse, eles fizeram Spring, em 2015, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto.
The Endless é um filme que pode ser perturbador, mas não considero que seu gênero seja terror, mas que transita por ele. Porque o fato de não sabermos o tempo todo o que é real ou não nos deixa bastante desconfortáveis. Por exemplo, na tal comunidade pode-se ver três luas. Que para mim simbolizam o passado, o presente e o futuro. Uma lua só representa que tudo é uma coisa só. Já que o filme também brinca com o tempo. O fato é que está fazendo sucesso em diversos festivais do mundo e ganhando seu espaço.
Afinal, o que acontece naquele lugar? É um portal? São aliens? Talvez algum local amaldiçoado? O que significam todos aqueles símbolos tribais? E aquele monte de fitas e fotos? Ou será que tudo não faz parte da imaginação dos assustados Justin e Aaron? Quando eu era criança, eu tinha muito medo de cachorros. Alguém me ensinou que eu tinha que disfarçar quando passava perto de um, porque o cheiro do medo os atraía. Será que o medo é como um espelho, projeta fora de nós o que tememos?
Em busca de respostas, eu fui ver o Resolution, que é anterior. The Endless é uma continuação de Resolution. O que posso dizer é que não esclareceu nada, apenas eliminou um ou duas possibilidades. Pode ser que tenha um terceiro filme, não é?
E a pergunta que fica é: você voltaria a um local de onde fugiu há dez anos atrás, de um lugar onde acredita que acontecem coisas bizarras? Ou: você enfrentaria os seus monstros?
IMDB: 6,7/ 10
Minha nota: 3,6/ 5

Ficha técnica:
Nome original: The Endless
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson 
Roteiro: Justin Benson.
Elenco: Aaron Moorhead, Justin Benson, Tate Ellington, Callie Hernandez.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

HEREDITÁRIO



Do mesmo estúdio de A Bruxa (2015) e Ao Cair da Noite (2017), A24 já é referência em terror psicológico de qualidade. Sua mais nova produção, Hereditário, é uma adição a esta lista primorosa e criativa da produtora. Assim como O Babadook (2014), essa leva de horror é um cinema com menos foco no explícito e mais no imaginário. Esses são filmes que levam o espectador a pensar de forma mais crítica e profunda, propiciando uma discussão no final. Infelizmente o material de divulgação não tem ajudado quando sugere convencionalidade e faz comparações desmedidas e desnecessárias. A indicação é tentar evitar os trailers ou não se deixar enganar por eles.
Hereditário é do diretor novaiorquino Ari Aster. Em seu trabalho de estreia com longa, o americano, o qual também assina o roteiro, fincou seu nome em Hollywood com um filme que já é considerado um clássico. Contudo, o êxito de Aster não reside apenas no roteiro conciso e inteligente, mas na sua habilidade em orquestrar todo o projeto, com a fotografia enigmática, trilha sonora de dar calafrios e sua mão em guiar os excelentes atores por esse caminho aterrorizante em que trilham em tela. É revigorante ver o cinema dando chance a sangue novo e fiquem de olho nos trabalhos futuros desse diretor.
A história inicia-se com Annie (Toni Collette) e sua família no funeral de sua mãe. A mulher não tinha uma boa relação com sua genitora. Por conta de alguns atritos com a mãe, as duas se mantiveram afastadas até que a senhora ficou doente e foi mantida aos cuidados da filha. E como uma doença hereditária, esse atrito entre mãe e filha se estende para Annie e seus dois filhos, o adolescente Peter (Alex Wolff) e a distante Charlie (Milly Shapiro). Um incidente terrível leva as duas partes migrarem para polos opostos de convivência e afeto dentro da própria casa.
No regresso do funeral, exceto por Charlie, ninguém mais da família parecia estar muito abalado pela recente morte. Mas aos poucos, eventos inesperados fazem com que um a um vá perdendo sua sanidade naquela família, deixando o único ainda são, o marido de Annie (Steve - Gabriel Byrne), tentando manter todos unidos e bem. E o desfecho ambíguo, que pode ser explicado por um viés psicológico ou espiritual, é de dar calafrios com cenas aterrorizantes.

Se você ficou em dúvida, daqui em diante eu irei explicar o que eu entendi e o que o próprio diretor quis transmitir com o filme. Portanto não continue lendo, pois vai ter bastante SPOILER.
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Segundo Ari Aster o que aconteceu ali não tem nada de psicológico. O capiroto estava mesmo rondando a família de Annie e no final um de seus servos possuiu Peter. Mas como chegamos até esse final macabro?
Bom, desde a cena do funeral, fica evidente a presença do culto satânico rondando a família. Todas aquelas pessoas na cerimônia de despedida eram desconhecidas de Annie, sendo portanto membros do culto.
O servo de lúcifer, que queria encarnar em um homem vivo, só poderia ser encarnado em um homem. A mãe de Annie provavelmente cedeu a própria família para trazer o demônio à terra, mas Peter foi impedido de conviver com a avó e somente Charlie teve contato com ela desde pequena. Só que a menina não servia para ser a hospedeira do demônio. Ela foi inclusive a primeira a notar que o demônio rondava a casa, lembram da luz azul? Talvez por ser criança, ela era meio sensitiva. Ou a própria avó pode ter feito algo para que ela se tornasse mais perceptível, já que elas tiveram mais contato.

Aster revelou que fez uma pesquisa profunda sobre material de magia negra, portanto tudo o que vocês viram no filme relativo a isso é material com fundamento real.
O culto planejou tudo, inclusive a morte de Charlie. Dá para notar um dos símbolos no poste onde a menina morreu em uma das cenas. Então o grupo tinha a intenção de desestabilizar a família para tornar mais fácil a concepção do plano maligno final deles. A Joan (a odiada Tia Lydia de The Handmaid's Tale, interpretada pela talentosa Ann Dowd) representa um papel fundamental nos planos do culto. Talvez ela tenha levado junto do culto o corpo da avó para dentro do sótão da família ou talvez tenha sido a própria Annie num dos seus episódios de sonambulismo. Mas Joan é sem dúvida a responsável por desestabilizar ainda mais Annie, abrindo espaço para o mal que estava por vir.
Por fim, Steve era tão irrelevante ali que foi queimado, talvez como referência ao que Annie tentou fazer para salvar os filhos da possessão, porque ela guardou esse fato sobre sua mãe tão bem, que somente sua versão sonâmbula conseguia acesso a isso. Mas a morte em fogo de Steve também pode ser uma crítica às bruxas que eram queimadas no passado.
Sem Steve no caminho, com a Annie desestabilizada e talvez até possuída por aquele ritual que ela foi levada a fazer por Joan, Peter estava livre para ser possuído finalmente. E quando ele chega no sótão cheio de membros do culto pelados, sua mãe se decapitando no teto, ele acaba se jogando da janela e morre, cedendo involuntariamente seu corpo ao demônio que perseguia a família. Nessa cena dá para ver o espirito de Peter saindo e o demônio com sua luz azul entrando.

Na última cena, vemos Peter, já possuído, entrando na casa da árvore, cheia de membros do culto novamente, e a própria Joan organizando tudo. Há também três corpos sem cabeça: Annie, sua mãe e a pequena Charlie, o que indica a trindade santa, contudo essa em reverência ao mestre do demônio servo que possuiu Peter: Lúcifer. As cabeças cortadas eram pagamento ou tributo ao demônio.
Bom, eu gosto bastante dessa ideia de de possessão demoníaca, mas também acho interessante quem defende que na verdade tudo ali não passou de um delírio de Annie, tão abalada pela morte da mãe. Inclusive a hereditariedade do título cabe bem nessa explicação, já que na família de Annie muitos tinham problemas psicológicos. Então porque essa história louca também não pode ser explicada por uma possível esquizofrenia de Annie?
Apesar do diretor já ter esclarecido tudo, um filme sempre depende da percepção do espectador.


IMDB: 7,7/ 10
Nota: 4,5/ 5

(Sinopse e Comentários: Tom Carneiro)


Ficha técnica:
Nome original: Hereditary
País: EUA
Ano: 2018 
Direção: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster
Elenco: Toni Collette, Milly Shapiro, Gabriel Byrne

Sinopse: Depois que a matriarca da família falece, a família de luto é assombrada por ocorrências trágicas e perturbadoras, começando a desvendar segredos sombrios.
• Duração: 127 minutos

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