Cinéfilos Eternos

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

AS IRMÃS BRONTË





A história dessas mulheres é admirável e triste. Criadas na aldeia de Thorton, localizada no West Riding of Yorkshire, Inglaterra, cresceram no isolamento e em uma época em que os talentos literários femininos eram vistos com maus olhos. Filhas do reverendo de Haworth, também poeta e escritor, de quem talvez tenham herdado a inclinação. O irmão, Branwell, também escrevia, fazia poesias e pintava. É dele o quadro mais famoso das irmãs, de 1834. Ele pintou-se a si próprio entre as irmãs, mas retirou a imagem mais tarde. Fora a genética, as irmãs Charlotte (1816), Emily (1818) e Anne (1820) e seu irmão Branwell (1817) foram muito afetadas pela morte da mãe e, mais tarde, das suas duas irmãs mais velhas. Para sobreviver à tal situação e à solidão em que viviam, elas e o irmão eram muito próximos na infância e desenvolveram mundos imaginários, com heróis e histórias fictícias, a partir do que ouviam das empregadas.Eles ganharam do pai, na infância, uns soldadinhos de madeira e o brinquedo serviu de base para imaginarem um reino fantástico de Angria, situado no centro da África, lugar de acontecimentos extraordinários, violentos e até escabrosos. Mais tarde, inventaram o reino de Gondal. Eles anotavam tudo em cadernos.

O mundo lúdico foi substituído pelo mundo adulto, as irmãs aparentemente se adaptavam àquela vida quase que monástica, dedicavam-se aos afazeres da casa e a longas horas, escrevendo. As histórias inventadas na infância muitas vezes serviram de base. Chegaram a trabalhar também, dando aulas, ou cuidando de crianças. Já o irmão acabou afogando as frustrações na bebida e também no consumo de ópio. Vivia se metendo em confusões e o pouco dinheiro que a família tinha precisava esconder dele.
Foi da Charlotte a ideia de publicarem suas obras, mesmo sob um pseudônimo masculino (era comum na época), em busca de aprovação literária e também para aumentarem a renda, que era pouca. Os seus livros tiveram bastante sucesso assim que foram publicados. Jane Eyre de Charlotte foi o primeiro romance a ser publicado, seguido de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily e A inquilina de Wildfell Hall de Anne. Havia comentários e desconfianças de que Currer, Ellis e Acton Bell pudessem ser mulheres, mas ao mesmo tempo o caráter ousado das publicações sugeriam que só um homem pudesse ter vivido aquela experiências para escrevê-las.
As famosas charnecas, frias e isoladas, as roupas e os costumes da época, são bem retratados em suas obras.
Infelizmente, não puderam aproveitar o sucesso. Branwell morre em setembro de 1848, aos 31 anos e logo em seguida, apenas três meses depois, Emily também adoece e morre, aos 30 anos. Em janeiro de 1820, Anne, com apenas 29 anos, também se vai. Charlotte é a única dos irmãos que fica, mas em março de 1855, antes de completar 39 anos e nove meses após casar-se, ela também se vai.
A casa onde elas moravam se abria para o cemitério do lugar e a teoria sobre a morte prematura da família é que a água era contaminada.
Mas a paisagem soturna onde vivia a família Brontë e testemunha de tantas mortes levantou a desconfiança de um escritor e criminologista, vejam só! O nome dele é James Tully e no seu livro "Os Crimes de Charlotte Brontë", ele levanta a teoria de que a família teria vivido envolta em assassinatos, traições e vinganças, além de questionar a autoria de algumas obras.
O primeiro filme sobre as Brontë , o francês, foi dirigido por André Techiné. O cineasta e argumentista francês, 
antes de passar à realização,fez-se notar como jornalista e crítico nos Cahiers du Cinéma durante a década de sessenta. Iniciou-se em 1969 com Pauline s'en va. Alcançou popularidade internacional com Barocco (1976), filme protagonizado por Gérard Depardieu e Isabelle Adjani.
Recebeu pelo seu filme Rosas Selvagens (Les Roseaux Sauvages) de 1994 o Cesar de Melhor Filme, de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro, entre outros.

O filme de 1979 tem um elenco fabuloso: Isabelle Huppert como Anne, Isabelle Adjani como Emily e Marie-France Pisier como Charlotte. No entanto, me pareceu que o Téchiné preferiu focar mais na figura do irmão rebelde, Branwell, interpretado por Pascal Greggory. O filme originalmente tinha 180 minutos, um terço do filme foi cortado e talvez tenham se perdido partes importantes que aprofundariam mais as personagens. Para quem vê o filme, já conhecendo bastante a história das nossas queridas irmãs Brontë, não perceberá talvez nenhuma lacuna.
Existe um documentário sobre o filme. assinado por Dominique Maillet. Les fantômes de Haworth faz uma retrospectiva sobre a gravação de Les soeurs Brontë e conta, inclusive com a participação de Téchiné. O documentário de 58 minutos pode ser visto para quem adquiriu o dvd da Versato.
As duas Isabelles, Huppert e Adjani, eram muito jovens ainda. Adjani estava deslumbrante. A Huppert, embora já com vinte e poucos anos na época, está parecendo não ter mais que dezesseis.
Li alguns comentários sobre o filme não mostrar a vida amorosa das três, mas elas tiveram? Acho que não. Charlotte apaixonou-se por um homem mais velho e casado, que inspirou seu romance O Professor, mas apenas platonicamente e já perto de morrer, casou-se, mas nem foi assim um casamento romântico. Realmente, não sei de onde elas tiraram tanta paixão para colocar nos seus romances.
" Você esta vendo pela aparência.
Um amor que só floresce uma vez...
Eu o desprezo e tenho pena.
Cuspo no o amor e sua vaidade.
O azevinho é como a amizade
e vai durar mais um inverno."

Já o filme de 2016 foca bastante na publicação das obras, explica a dificuldade que era ser uma escritora mulher na época. Emily, mais introspectiva, não queria publicar, não queria nem que ninguém lesse o que escreveu, mas Charlotte quis que elas enviassem juntas suas obras, acreditava que teria mais impacto dessa forma.
“Que autor não gostaria de tirar vantagem de ser invisível? Um que não consiga manter a mente em silêncio”.
A diretora Sally Wainwright também assina o roteiro e através do processo de pesquisa, interpretação de todas as obras e cartas deixadas por cada uma, optou por mostrar uma visão mais pessoal das irmãs. O irmão, aqui interpretado por Adam Nagaitis é um homem desiludido de tentar ganhar a vida através de sua arte, imaturo emocionalmente e que se entrega a uma vida desregrada, principalmente após uma decepção amorosa. Essa versão da vida da família não dá tanto destaque ao Branwell, mas de qualquer maneira mostra como seu comportamento e sua morte prematura afetaram a cada uma das irmãs, interpretadas aqui por Finn Atkins (Charlotte), Chloe Pirrie (Emily) e Charlie Murphy (Anne).
O sucesso dos livros, com pseudônimo, deixou Londres querendo conhecer esses autores, mas elas temiam que ao descobrirem suas identidades, os livros parassem de vender e como mulher, elas sofressem retaliações. Gostei da abordagem feminista, as mulheres da época tinham medo, mas não eram tão passivas assim: Charlotte já tinha em si a revolta de ser considerada inferior por ser mulher.
Admiradora que sou das obras das irmãs e apaixonada por cinebiografias, não poderia deixar de amar os dois filmes. Minha vontade agora é reler seus livros e rever as adaptações para o cinema. Tem uma parte do filme que mostra o museu dedicado às irmãs na Inglaterra, que tem suas roupas e a famosa mesa que elas sentavam para escrever. Quando eu vi fiquei me imaginando visitando esse lugar e não pude deixar de me emocionar. A história sempre me fascinou, saber o que sentiram, como viveram, pessoas de outras épocas me encanta. Ainda mais se são pessoas que ousaram fazer diferente, principalmente quando são mulheres. Como as austeras filhas de um reverendo inglês do começo do século 19 se converteram nas irmãs mais cultuadas da história dos livros?
Preparem-se para entrar em um ambiente melancólico e sonhar, como elas.
AS IRMÃS BRONTË - ANO 1979
IMDB: 6,7/ 10
Filmow: 3,6/ 5
Minha nota:3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Les soeurs Brontë
País: França.
Direção: André Téchiné
Roteiro: André Téchiné, Pascal Bonitzer.
Elenco: Isabelle Huppert, Isabelle Adjani, Marie-France Pisier, Pascal Greggory, Patrick Magee.

AS IRMÃS BRONTË - ANO 2016
IMDB: 7,4/ 10
Filmow: 3,7/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: To Walk Invisible: The Brontë Sisters
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Direção: Sally Wainwright.
Roteiro: Sally Wainwright.Elenco: Charlie Murphy, Chloe Pirrie, Finn Atkins, Adam Nagaitis, Jonathan Pryce.


A casa que virou museu.


domingo, 18 de novembro de 2018

UN PLUS UNE




Compositor francês viaja para a India para fazer as músicas de um filme. Logo na primeira noite, em que ele pretendia descansar, é realizado um jantar em sua homenagem, porque ele é muito famoso naquele país. Embora com uma dor de cabeça que não passa, a reunião mostrou-se mais interessante do que ele podia esperar, já que conhece a esposa do embaixador da França.
Através da amizade que se constrói entre os dois, ele, Antoine, ela, Anna, vamos passear pela India, seja naquele trânsito louco, seja de trem ou de barco, com destino ao encontro com a grande líder espiritual de lá, Amma. Tudo recheado com muitos diálogos. Anna explicando sua espiritualidade para um Antoine pragmático. Ele, colocando questões práticas que ela nunca se permitiu pensar. É evidente a atração entre os dois. Mas Anna ama seu marido e Antoine acaba de ser pedido em casamento pela namorada Alice, que, aliás, está chegando à India para se encontrar com ele.
Un + Une pode ser visto como só mais um filminho romântico, aliás há um outro filme dentro do filme: uma história de amor acontecida entre dois jovens indianos, um ladrão e uma bailarina, serve de inspiração para o tal diretor indiano que convidou Antoine para fazer a trilha sonora. Como eu ia dizendo, o filme poderia ser só mais uma comédia romântica qualquer, mas Claude Lelouch sempre teve uma maneira especial de contar histórias de amor. Junto ao belo cenário de um país que parece nos convidar a sonhar, com uma belíssima fotografia, embalados pela música de Francis Lai (o mesmo que fez a trilha de Un Homme et Une Femme), temos um casal maduro e que nos conquista a cada minuto. Antoine é bonito, confiante e divertido. Difícil não se envolver pelo seu belo sorriso. Anna é daquelas mulheres que não param de falar, mas longe de ser chata, ela é encantadora e charmosa, daquele tipo que você tem vontade de ouvir por horas e horas.
"-Minha religião é o amor", 
está escrito ao lado de Amma.

Mātā Amritanandamayī Devi, mais conhecida como Amma, é muito admirada dentro e fora da Índia e respeitada como uma humanitarista; muitos a reverenciam como uma Mahatma e uma santa viva: a santa dos abraços.
Lelouch já havia revelado sua intenção de fazer um filme que homenageasse e ao mesmo tempo mostrasse Amma ao mundo.
Assim como os abraços de Amma, Un Plus Une é também um filme generoso. É uma história de sorrisos, de agradecimentos, mesmo com todos os desencontros da vida. Um exemplo disso foi o fato de Antoine só ter conhecido o pai recentemente e longe disso causar estranheza nele, ficou feliz.
Jean Dujardin declarou ter ficado muito comovido com o encontro com Amma. O ator é mais conhecido pelo seu papel em O Artista, pelo qual recebeu o Oscar de Melhor Ator, aliás, ele foi o primeiro ator francês a receber um Oscar de Melhor Ator.
Elsa Zylberstein manifestou sua vontade de voltar à India para rever Amma e disse que foi tocada por ela de uma forma permanente.
IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,2/ 5
Minha nota: 3,4/ 6

Ficha técnica: 
Nome original: Un + Une
País: França.
Ano: 2015
Direção: Claude Lelouch.
Elenco: Jean Dujardin, Elsa Zylberstein, Christopher Lambert, Alice Pol.





O abraço de Claude Lelouch e Amma

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

UM REINO UNIDO


Seretse Khama, o príncipe herdeiro de Bechuanalândia, causa uma polêmica de proporções internacionais ao se casar com uma mulher branca.

Seretse, que recebeu esse nome que significa "a argila que une" era o último de uma linhagem de uma das famílias reais mais poderosas da África. Antes um protetorado britânico, Bechuanalândia tornou-se independente em 30 de setembro de 1966, quando adotou o nome de República do Botswana. Khama foi o primeiro presidente do Botswana, cargo que ocupou desde a independência do país (conquistada por ele) em 1966 até sua morte.
Criado pelo tio, ele foi enviado para educar-se na vizinha África do Sul e no Reino Unido a fim de se preparar para o posto de rei. No Reino Unido, conheceu Ruth e apaixonaram-se. Contra tudo e contra todos, eles se casam e vão morar na África. Mas não imaginavam nem de longe as dificuldades que iriam enfrentar. O matrimônio entre um chefe tribal negro e uma mulher branca teve repercussão para além das fronteiras da Bechuanalândia, e em especial na União Sul-Africana, que, tendo instituído o apartheid, não desejava, em um território vizinho, um casamento inter-racial que pudesse repercutir no país.
Assisti sem pretensões e fui surpreendida por uma história comovente e bastante informativa, que eu não conhecia. Com uma linda fotografia que cria um contraste ótimo entre as duas nações: uma Londres poderosa com o céu sempre escuro e uma África pobre e poeirenta, mas luminosa e em tons de sépia e amarelo, trazendo o ambiente  caloroso.
Ruth, a jovem londrina que foi o pivô de todo esse tumulto, já tinha se destacado como uma mulher corajosa durante a Segunda Guerra Mundial ao conduzir ambulâncias. Foi depois secretária na Lloyds. Conheceu o futuro marido num baile, quando este estagiava como advogado depois dos estudos em Oxford. A paixão assumida entre uma branca e um negro era na época caso raro, mas isso nunca desanimou a mulher que foi presidente da Cruz Vermelha nacional e desde a morte do marido em 1980 até à sua em 2002 era tratada no Botswana como ‘Mohumagadi Mma Kgosi’, que quer dizer “mãe do chefe”. O filho Ian é desde 2008 presidente.
Baseado no livro Colour Bar da Susan Williams lançado em 2006. A diretora Amma Asante MBE é uma ex-atriz britânica ganesa, nascida no sul de Londres e criada em Streatham, Londres. Esse é o terceiro longa dela, uma realizadora com vontade de falar mais alto. A United Kingdom é um drama tão interessante que para mim faltou a diretora se aprofundar mais em algumas partes.

IMDB: 6,8/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: A United Kingdom
País: EUA/ Reino Unido da Grã-Bretanha/ outros
Ano: 2016
Direção: Amma Asante
Roteiro: Guy Hibbert
Elenco: David Oyelowo, Rosamund Pike, Terry Pheto.






Seretse Khama e Ruth.