Cinéfilos Eternos

terça-feira, 17 de julho de 2018

PELOS OLHOS DE MAISIE




Por meio de uma direção intimista, Pelos Olhos de Maisie nos leva a uma reflexão que incomoda: até que ponto o laço sanguíneo entre pais e filhos realmente significa algo para as pessoas? Como uma criança pode crescer com pais que não têm maturidade o suficiente para lhe dar o mínimo de atenção?

Maisie (Onata Aprile) é uma criança esperta - dentro dos limites da sua idade. Filha de um casal em constante conflito, Susanna (Julianne Moore) e Beale (Steve Coogan), ela presencia inúmeras brigas e ofensas mútuas sem entender muito bem o que é dito, mas, mesmo com sua ingenuidade, vemos em seus meigos olhinhos que tudo aquilo está sendo processado e, mais dia ou menos dia, ela irá entender.

Como o título já antecede, a grande sacada do filme é focar-se no ponto de vista da criança. Muitas cenas partem da altura de seus olhos e muitas vezes, enquanto os adultos brigam, riem ou apenas conversam trivialidades, a câmera está centrada nas suas expressões, que variam entre medo, interrogação e alegria, de acordo com o ''clima do ambiente''.

Com a separação dos pais, Maisie entra no famoso pingue-pongue do divórcio, dez dias com cada um. 
O pai decide se casar com a babá, Margo (Joanna Vanderham), e, forçada pela situação, sua mãe se casa com Lincoln (Alexander Skarsgard), um bar-man esforçado, fatos que estabelecem um clima a "la"Woody Allen para a trama, mas, sem o seu charme característico.  Com tudo nas mãos para entrar erroneamente nesse ramo de relacionamentos esquisitos, o filme conseguiu se mostrar superior a isso (não que não goste de Allen, mas, ele não caberia aqui), pelo simples fato de não focar-se nisso, e sim, na dificuldade de ambos em simplesmente amar a sua própria criança, na sua imensa irresponsabilidade como pais, deixando seus relacionamentos duvidosos como apenas um complemento, não como enredo principal.

Que pai viaja e se esquece da filha? Que mãe vai trabalhar e deixa sua cria sob os cuidados de qualquer um? Nessa emocionante história vemos dois ''desconhecidos'', a babá e o bar-man, demonstrando um amor ímpar e sincero, enquanto os verdadeiros pais, na realidade, estão pouco se importando com a pequena Maisie. O sentimento crescente entre a pequena e Lincoln é uma das coisas mais bonitas e genuínas que vi nos últimos tempos. 

Mas, é preciso saber de antemão que a menina é uma graça... eu mesmo estava quase entrando no filme e a ''roubando'' daquele mundo de indiferenças e egoísmo. Excelente filme que merecia ser mais reconhecido. Recomendado!



Texto e avaliação: Marcos Poli



IMDB: 7,5/ 10
Filmow: 4,1/ 5
Nota (Marcos Poli); 9/10



Ficha técnica:
Nome original: What Maisie Knew
País: EUA
Ano: 2012
Direção: David Siegel e Scott McGehee
Roteiro: Carrol Cartwright, Henry James.
Elenco: Onata Aprile, Alexander Skarsgård, Julianne Moore, Joanna Vanderham e Steve Coogan.

GEMMA BOVERY - A VIDA IMITA A ARTE



Um delicioso filme francês, com cheiro de pão, com um erotismo na medida certa, sem cair na vulgaridade.
Mesmo com a beleza da linda Gemma, que se chama Gemma também na vida real, quem rouba todas as cenas do filme é o personagem Martin Joubert.
Martin (Fabrice Luchini) é uma dessas pessoas encantadoras que é capaz de encontrar um significado até em uma pedra, porque consegue ver além das coisas.
A história de Gemma não seria nada se não fosse por toda a associação que Martin percebe entre ela e a Emma Bovary. 
Martin consegue roubar da vida de outras pessoas o que falta na sua rotina.

E ao mesmo tempo, ele as presenteia com uma vida que elas não sonhariam em ter.
Não sabemos se ele fica envolvido e atraído sexualmente por ela ou simplesmente é um espectador da história que se desenrola embaixo dos seus olhos.
Ao ponto de temer pelo desenlace, pois para ele, tudo está caminhando para o mesmo fim do romance Madame Bovary. pelo qual ele é apaixonado.
Junte-se a isso tudo uma bela paisagem da Normandia e uma trilha sonora agradável.

IMDB: 6,4/ 10
Filmow: 3,5/ 5
Minha nota: 3,5/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Gemma Bovery
País: França.
Ano: 2015
Direção: Anne Fontaine.
Roteiro: Anne Fontaine, Pascal Bonitzer, Posy Simmonds.
Elenco: Gemma Arterton, Fabrice Luchini

OS NOMES DO AMOR



Le Nom des Gens é um filme leve e ao mesmo tempo profundo.
Porque é sobre as coisas não ditas e também sobre as coisas que se faz para tentar mudar a vida.

Não poderia haver um casal que combinasse menos!

Ele, Arthur Martin (Jacques Gamblin), filho de mãe judia, conservador, contido, desde cedo aprendeu a evitar as palavras, o confronto. 
Ela, Bahia Benmahmoud (Sara Forestier), é uma extrovertida filha de pai argelino, com uns incríveis olhos azuis, comprometida com os seus ideais políticos e, ao contrário de Arthur, não tem limites para conseguir o que quer, até mesmo usar os seus encantos físicos e sexuais para converter os homens às suas idéias.

À primeira vista é uma comédia romântica típica, onde os opostos se atraem.
Tem umas cenas improváveis, digamos, até bobas, mas o filme vai crescendo.
As pitadas de humor servem para conduzir com suavidade temas importantes como o holocausto, como o abuso infantil e as marcas que deixam.
E sobre a escolha de se aceitar a vida como ela é ou tentar transformá-la.

As figuras do passado se confrontam de uma maneira inteligente e bem humorada com as figuras do presente desse casal , ele, meio-judeu e ela, meio-muçulmana.
Linda a cena na praia, tanto pela fotografia quanto pelo gesto de Bahia, salvando os caranguejos e pela admiração que ela acaba por despertar em Arthur, com o seu desprendimento e espontaneidade.
Os Nomes do Amor é um filme sobre a intolerância que rege o mundo, sobre o preconceito, sobre os falsos rótulos que se colocam nas pessoas, gerando tanto sofrimento desnecessário.
É lindo também quando Bahia diz que os mestiços são o futuro da humanidade.

Prêmios: César de Melhor Atriz (Sara Forestier) e César de Melhor Roteiro.

IMDB: 7,2/ 10
Filmow: 3,8/ 5
Minha nota: 3,8/ 5

Ficha técnica: 
Nome original: Le Nom des Gens
Outros títulos: The Names of Love
País: Bélgica
Ano: 2010
Direção: Michel Leclerc.
Roteiro: Baya Kasmi, Michel Leclerc.
Elenco: Sara Forestier, Jacques Gambli.

O PODER E A LEI



O título nacional dá a entender que veremos um drama de tribunal, ou ao menos um filme bem focado no tema ''jurídico''. Mas, basta o filme começar e já percebemos que se trata de uma trama policial e, conforme o tempo passa, traços de gêneros como thriller / suspense e até um pouco de noir começam a surgir. Baseada no best seller de Michael Conelly e adaptada por John Romano, a história gira em torno de Mickey Haller (Matthew McConaughey), o típico advogado ''porta de cadeia''. Odiado pelos policiais, julgado pela ex-esposa, a promotora de justiça Maggie McPherson (Marisa Tomei), tendo como escritório um Lincoln (carro que dá nome ao título original) e, com métodos nada convencionais e escrúpulos duvidosos, ele lida diariamente com uma vasta gama de criminosos, usando toda sua malícia e versatilidade - e é claro, toda e qualquer falha no sistema - para ganhar muito dinheiro.

Quando o caso de um ''playboy'' corretor de imóveis, Louis Roulet (Ryan Phillipe), que é acusado de agredir e tentar assassinar uma prostituta, cai em suas mãos, ele acredita que tirou a sorte grande. Mas conforme manipula, mente, engana e desenha todos os acontecimentos a seu favor, ele demora a perceber que podem estar fazendo o mesmo com ele. O que segue é um jogo psicológico que nas mãos de um diretor mais experiente poderia ter se tornado um dos principais filmes da década, mas até que Brad Furman não faz feio. Falta pulso, mas sobra força de vontade.

Com uma boa narrativa, o filme não cansa e suas duas horas passam voando. McConaughey está mais contido, mas não menos eficiente, aqui ele emprega seu carisma pra vestir uma personagem ambígua que sustenta a trama tranquilamente. O roteiro tem os seus furos (quase todo thriller os tem), temos alguns movimentos de câmera e close-ups fechados que podem incomodar (me incomodaram), mas no geral, é um filme bem estiloso e uma grata surpresa. Vale a pena conferir mais um bom filme que passou despercebido (ou não teve a repercussão merecida) por crítica e público. 




Texto e avaliação: Marcos Poli


IMDB: 7,3/ 10
Filmow: 3,9/ 5
Nota (Marcos Poli) : 8/ 10


Ficha técnica:
Nome original: The Lincoln Lawyer
País: EUA
Ano: 2011
Direção: Brad Furman.
Roteiro: John Romano, Michael Connely.
Elenco: Matthew McConaughey, Ryan Phillippe, Marisa Tomei, William H. Macy e Bryan Cranston.

Dirigido por: 


LUGARES ESCUROS




Baseado no livro de mesmo título da autora Gillian Flynn, responsável por trazer ao mundo o sucesso literário e de cinema: Garota Exemplar, Lugares Escuros é inferior ao outro longa, contudo a história intrigante e misteriosa de Flynn consegue prender do início ao fim, ainda mais devido à excelente atuação da atriz sul-africana, Charlize Theron.
A história parte de uma fragilizada mulher, Libby Day (Theron), que teve a infância marcada pelo assassinato de sua mãe e suas duas irmãs pelo próprio irmão. Traumatizada, falida e sem perspectivas de um futuro melhor, Libby Day é abordada por um jovem rapaz, Lyle (Nicholas Hoult), que participa de um grupo macabro conhecido como O Grupo da Morte, no qual fãs de histórias reais de assassinatos e assassinos investigam casos famosos na tentativa de descobrir a verdade. Lyle oferece dinheiro para que Libby participe de uma das sessões do clube, descrevendo sobre a noite do crime, já que ela fora a única sobrevivente, sem escolhas, Libby aceita participar e isso traz à tona uma história cheia de mistérios e contradições.
Infelizmente a adaptação peca na direção. Apesar da história prender a atenção por causa do mistério que é contado através de flashes-back ao longo de todo o filme, alguns momentos poderiam ter sido feitos de forma mais ágil, evitando deixar a história um pouco cansativa. E, em contradição com a edição e fotografia estilosa e moderna de Garota Exemplar, Lugares escuros é mais simples e contém alguns problemas, mas nada que comprometa a trama.
Há de se elogiar a história, que não é mérito tanto do filme, mas de um livro bem intrigante, o que facilitou na adaptação. Outro ponto positivo é a atuação de Charlize Theron, como sempre dando um espetáculo de interpretação. Chloë Grace Moretz também faz uma participação especial e mostra todo seu talento de forma bem madura.
No mais, este é um filme que vai agradar tanto aos amantes do suspense, como a quem gosta de um bom drama. Vale a pena!



Por: Tom Carneiro.
IMDB: 6,2/ 10
Filmow: 3,1/ 5
Nota (Tom Carneiro): 6/ 10

Ficha técnica:
Nome original: Dark Places.
País: EUA. França, Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte.
Ano: 2015
Direção: Gilles Paquet-Brenner
Roteiro: Gilles Paquet-Brenner, Gillian Flynn.
Elenco: Charlize Teron, Chloë Grace Moretz, Corey Stoll, Nicholas Hoult.

ANIVERSARIANTES


segunda-feira, 16 de julho de 2018

SUBMERGENCE




Em 1942, o comando aliado sabia que para derrotar Hitler deveria invadir o continente europeu e, para atingir esse objetivo, seria necessário um ataque à costa francesa. A questão era: seria possível capturar um porto francês durante os primeiros dias da invasão? A tentativa de capturar Dieppe serviu como um balão de ensaio, a fim de provar as mais recentes técnicas anfíbias para a Operação Overlord (O Dia D, na Normandia)e foi feita por seis batalhões e um regimento blindado da 2ª Divisão Canadense,desembarcando nas vilas de Puys e Pourville e também nas praias de Dieppe, que se situava entre os dois povoados. Nenhum dos principais objetivos do ataque foi alcançado.
"Cada um que morreu no caminho, morreu pela liberdade e justiça....Cada um que não conseguiu retornar morreu por repúdio à tirania e à opressão!"
Por que estou mencionando isso tudo? É um filme de guerra? Não, não desse tipo de guerra...
É no cenário dessa mesma praia que anos depois Danielle Finders e James Moore passeiam e descobrem, apesar das aparentes diferenças, que possuem muitas coisas em comum. O bunker na praia é como um monumento em memória de tantos que morreram na batalha travada ali. Danielle diz para ele:
"Eis o que eu queria lhe mostrar". Ele responde:
"E foi por isso que eu vim para cá. 5 mil soldados canadenses e mil soldados britânicos tentaram tomar essa praia. As armas naquele bunker mataram cada um deles. Foi um sacrifício incrível."
Dan e James também acreditam que precisam fazer seus sacrifícios pessoais. De maneiras diferentes, bem diferentes, aliás. Daniella é uma exploradora do oceano que descobre um novo desafio no abismo Ártico. Em breve, ela descerá em um submersível em uma missão muito arriscada, ela acredita que existam espécies microscópicas que podem mudar o mundo. James também trabalha com água, é um consultor, um especialista em transformar a água ruim em boa, evitando tantas doenças por contaminação. Mas isto serve apenas de fachada, na verdade ele é um espião infiltrado no combate aos jihadistas africanos.
Talvez por isto eles quiseram visitar aquela praia antes de descerem ao inferno. Ela, ao que chama de Hades, a região escura do fundo do mar. Ele, às mentes obscuras dos terroristas no Afeganistão.
Não sei por que criticaram tanto o filme e o Wenders. O diretor alemão, que hoje está com 72 anos, é uma das mais importantes figuras do Novo Cinema Alemão. Além de cineasta, dramaturgo, fotógrafo e produtor de cinema, é presidente da Academia de Cinema Europeu em Berlim. Diretor do premiado documentário Buena Vista Social, do poético Asas do Desejo e do inesquecível Paris, Texas, entre muitos outros. Quem faz uns filmes como esses, cria uma expectativa muito grande e quando o filme não é tão bom quanto, gera algumas decepções. Mas isso não faz um filme ser ruim.
Submergence tem locações deslumbrantes e "Mon Dieu", que hotel é aquele, hein? Tem uma história consistente, boas interpretações...
"Ousado, mas raso", foi um dos comentários que li. Raso por quê? De raso não tem nada, desde literalmente tratar-se de um filme de profundidades até abordar temas que envolvem a humanidade e suas mazelas, a transitoriedade da vida e a importância de se deixar uma contribuição e não apenas passar por ela. O termo "jihad" também pode se referir tanto a uma luta contra os inimigos do Islã quanto à luta interior na qual todo muçulmano deve realizar para atingir a plenitude como indivíduo. Bem profundo isso, não acham?
E no meio disso tudo um romance lindo, onde os protagonistas irão ao fundo de suas percepções e criam, apesar do pouco tempo juntos, uma conexão um com o outro que vai além da forma física.
Exibido no Festival de Toronto de 2017, o longa foi baseado no livro de J. M. Ledgard, ex-correspondente de guerra. Ao contrário de muitas críticas, para mim influenciadas umas pelas outras, eu achei o filme lindo e interessante. Uma pena esse descaso realmente. Acho que alguns críticos sentem-se bem por desmerecer diretores conceituados, é uma forma de terem seus dois minutos de glória. Enquanto isso, os mesmos dão várias estrelas para filmes bem inferiores.

Ah, esqueci de dizer que o filme presta uma homenagem a Jean Vigo, porque o nome do navio em que Dan viaja chama-se O Atalante.

IMDB: 5,4/ 10
Filmow: 2,6/ 5
Minha nota: 3,7/ 5

Ficha técnica:
Nome original: Submergence
País: EUA
Ano: 2017
Direção: Win Wenders.
Roteiro: Erim Dignam, adaptação da obra de J.M.Ledgard.
Elenco: Alicia Vikander, James McAvoy.